domingo, 13 de dezembro de 2015

Duartina: uma cidade. Dom Carlos Duarte Costa (1888-1961): um personagem - João dos Reis



“Hay em mis venas gotas de sangre jacobina,
pero mi verso brota de manantial sereno;
y, más que um hombre al uso que sabe su doctrina,
soy, en el buen sentido de la palabra, bueno. / (...)
E quando llegue el dia del último viaje,
y esté al partir la nave que nunca há de tornar,
me encontraréis a bordo, ligero de equipaje,
casí desnudo, como los hijos de la mar”.
duas estrofes do poema “Retrato”, de Antonio Machado.

Duartina, minha cidade natal, no interior de São Paulo, é uma homenagem ao bispo Dom Carlos Duarte Costa (1888-1961). Foi um personagem polêmico na história do catolicismo no Brasil – e sempre despertou a minha curiosidade. Somente nos anos 80 conheci um dos bispos da Igreja Católica Apostólica Brasileira, fundada por Dom Duarte..

Dom Duarte nasceu no Rio de Janeiro; estudou em Roma – e foi ordenado padre em 1911. Trabalhou em várias igrejas do Rio, até ser nomeado bispo na cidade paulista de Botucatu em 1924. Apoiou a Revolução Constitucionalista de 1932; defendeu o fim de celibato obrigatório para o clero, o ecumenismo, as ideias socialistas e a aprovação ao divórcio; questionou o dogma da infabilidade papal. Foi preso em 1944, a pedido do núncio apostólico, mas libertado meses depois por pressão internacional. Mas foi a denúncia da “Operação Odessa”, que levou à fuga de oficiais nazistas no final de II Guerra, com a colaboração do Vaticano, que provocou a sua excomunhão pelo Papa Pio XII em 1945.

Foi um precursor da Teologia da Libertação; fundou o “Partido Socialista Cristão”, registrado no Tribunal Eleitoral. Foi um crítico do regime autoritário de Getúlio Vargas e da aliança da Igreja Católica com os regimes totalitários. Em 1945, lançou um “Manifesto à Nação" e fundou a Igreja Católica Apostólica Brasileira.

Muitas das ideias defendidas pela nova corrente do cristianismo foram aceitas mais tarde pelo Concilio Vaticano II da Igreja Católica. Como exemplo: a abolição do uso obrigatório da batina fora dos cultos, e do latim nos atos litúrgicos e missas, e o uso do português; e o compromisso da Igreja com a defesa dos pobres e os deserdados da terra.

Hoje, há inúmeras dissidências, como no protestantismo, da igreja fundada por Dom Duarte. Uma nova igreja mais próxima das classes pobres foi uma proposta revolucionária – e ele ficou conhecido como o “bispo vermelho”.

Quando ia nas férias para a casa dos meus avós, não sabia que a cidade de Duartina, fundada em 1926, foi uma reverência a Dom Duarte. O ritual católico da minha infância, com missas e ladainhas, só foi compreendido quando, no primeiro ano do curso ginasial, tive aulas de Latim. Com a utilização do português, penso que minha avó Elisa, uma católica fervorosa, passou a entender melhor os mistérios da religião.

E, para mim, a tradução das orações adquiriram um significado especial - porque empregava uma linguagem nova: em lugar de “ora pro nobis”, “rogai por nós”; e “miserere nobis”, por “tende piedade de nós”.

Vivi os meus primeiros anos na cidade; depois, fui para Gália, e aos 12 anos me mudei para Osasco, outra cidade marcada pela rebeldia, pela contestação, pelo confronto com o autoritarismo e a tirania.

NOTA:
1. poema “Retrato”, in “Poesias”, Antonio Machado, Editorial Losada, Buenos Aires, 1974, pp. 86/87;
2. Não tenho mais o livro que ganhei do bispo da igreja dissidente; pesquisei sobre Dom Duarte na Wikipédia.
3. O longo "Manifesto à nação", de 1945, pode ser consultado na íntegra clicando no site abaixo:

Manifesto à Nação Brasileira de D. Carlos Duarte Costa ...
cafehistoria.ning.com/.../manifesto-na-o-brasileira-de-d-carlos-duarte-cos...3 de mar de 2014 - Pela leitura dos jornais do dia 06 de Julho do corrente ano, tive conhecimento que um homem, igual a mi

sábado, 5 de dezembro de 2015

Sobre artigo de Sylvia Colombo para o jornal “Folha de São Paulo” - João dos Reis



Sobre artigo de Sylvia Colombo para o jornal “Folha de São Paulo” (“Relato de escravo escapa para a internet”) e Entrevista com Paul Lovejoy, da Universidade de Nova York, no Canadá (Caderno Ilustrada, C1 e C5, 30 de novembro de 2015)

“Mahommah Gardo Baquaqua era praticamente um adolescente quando desembarcou na costa do Nordeste brasileiro, em 1845, vindo da África em um navio negreiro. Levado a Olinda, passou os próximos dois anos de sua vida tentando escapar da condição de escravo. Apanhou, tentou matar o mestre e falhou no intento de suicidar-se por afogamento no rio Capiberibe. Por fim, trabalhando para um senhor que exportava café para os EUA, embarcou num navio para Nova York, em 1847. De lá, escapou e passou a colaborar com abolicionistas”.

A história do jovem africano, contada pela jornalista Sylvia Colombo, é uma das mais emocionantes sobre a escravidão nas Américas. O irlandês Samuel Moore colaborou na biografia de Baquaqua, publicada em 1854, em Detroit, e pela primeira vez será publicada no Brasil (em 2016) . Mas o site www.baquaqua.com.br entra no ar hoje na internet, e tem vídeos, entrevistas, imagens e relatos – e foi coordenado por Bruno Véras, da Universidade de Nova York, no Canadá, orientado pelo especialista em escravidão Paul Lovejoy.

“Disse a ele {ao senhor} que nunca mais me chicoteasse e fiquei com tanta raiva que me veio à cabeça a ideia de matá-lo e me suicidar depois, Por fim, resolvi me afogar. Preferia morrer a viver como escravo. Corri para o rio e me joguei na água, mas como umas pessoas que estavam num barco me viram, fui resgatado. A maré estava baixa, senão seus esforços teriam sido infrutíferos”, um dos dramáticos relatos extraídos da “A biografia de Mahommah Gardo Baquaqua”, reproduzidos pela “Folha de São Paulo”.

Baquaqua nasceu no Benin entre 1820 e 1830, de uma família muçulmana influente: estudou árabe na escola, falava várias línguas, um dos tios era comerciante de ouro e prata, outro professor, e o irmão era conselheiro do rei. Como diz Lovejoy, Baquaqua “era uma pessoa real; tinha mãe, pai, irmãos, tios e tias”. Tornar acessível online a sua história “é fazer com que se deixe de considerá-las apenas algo a que chamamos de ‘escravos’. Foram pessoas com coração, dores, amores, devoção a suas famílias, caráter, força e comunidade”, diz o professor.

“Quando todos nós estávamos prontos para embarcar, fomos acorrentados uns aos outros, amarraram cordas em volta de nossos pescoços. (...) Uma espécie de festa foi feita em terra firme aquele dia. Aqueles que remaram os barcos foram fartamente regalados com uísque, e aos escravos deram arroz e outras coisas gostosas em abundância. Não tinha consciência de que aquele seria meu último banquete na África. Não sabia do meu destino. Feliz de mim que não sabia”, em um dos trechos da narrativa autobiográfica de Baquaqua, reproduzidos pelo jornal paulista.

Milhões de africanos foram submetidos à escravidão na América. Essa história não foi documentada pela voz dos próprios escravos. Há poucos relatos escritos do horror das humilhações, castigos físicos, assassinatos nas terras americanas. O atual projeto é pioneiro: tornar acessível a história de resistência dos tempos sombrios da exploração da mão de obra escrava. Baquaqua era um personagem desconhecido por mim até hoje: ele percorreu o continente – esteve no Canadá e no Haiti – na luta abolicionista. No final da vida, embarcou para a Inglaterra, na esperança de voltar à sua terra natal. Mas não é um final feliz: não se tem noticias dele depois de 1857 – e não sabemos se conseguiu voltar à África ou a data da sua morte.



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

“Clara Schumann – compositora x mulher de compositor” - João dos Reis


LIVRO:
“Minha técnica pianística está ficando para trás. Isto sempre acontece quando Robert está compondo. Não tenho uma única hora no dia inteiro para mim. Se ao menos eu não piorasse tanto. Minha leitura musical também foi deixada de lado novamente, mas espero que não seja por muito tempo dessa vez...” escreve Clara Wieck Schumann no diário que ela e Robert Schumann escreveram a quatro mãos.

Eliana Monteiro da Silva conta a história de Clara Schumann (1819-1896), pianista e compositora do século XIX, esquecida pela história, ou sempre lembrada associada ao marido. Friedrich Wieck, o pai de Clara, fabricava instrumentos, alugava partituras, organizava concertos, mas era conhecido como professor de piano e de música. A mãe era uma talentosa cantora, descendente de uma família de músicos. Desde criança, Clara dava concertos e viajou em turnê por várias cidades da Europa

Robert Schumann tinha 19 anos quando veio a Leipzig estudar com Wieck – e mais tarde, se casou com Clara, apesar da oposição do pai dela. Foi o casamento musical do século XIX – ela, uma pianista e compositora; ele acabou dedicando-se à criação musical, estudando contraponto e composição, e se tornando um dos grandes compositores do romantismo.

Clara trabalhou como concertista quase toda a sua vida – até aos 72 anos. Teve que cuidar dos oito filhos (um deles morreu com um ano de idade), da casa – e, como ela desabafa na carta citada no início, sobrava pouco tempo para a música. Viveu em várias cidades da Alemanha – Leipzig, onde nasceu, Dresden, Dusserdorf – e, depois da doença e morte do marido, em Berlim e Frankfurt.

Eliana pretendeu fazer justiça à “obra musical de qualidade da compositora que permanece pouco explorada pelos músicos e ouvintes ... (...) a música de Clara Schumann é única e individual, embora discuta as questões e os problemas propostos por seus colegas compositores” (p. 97).

A vida da pianista-compositora foi marcada pela tragédia, que atingiu alguns dos seus filhos. A contrapartida dessa triste história foi a amizade com Johannes Bramhs; ele nunca se casou, e manteve com Clara por toda a vida um relacionamento construído com afeto e lealdade. Em 1892, no aniversário dela, ele lhe escreveu: “Deixe que um pobre forasteiro lhe diga que seus sentimentos nunca diminuíram da veneração, e que ele deseja à pessoa mais querida tudo de bom, caro e lindo, do fundo do coração” (p.49).

Metade do livro é reservada para apresentar a relação completa das obras da compositora e um breve histórico comentado das composições. A parte final, sobre as “Variações sobre um tema de Robert Schumann opus 20”, faz uma análise da peça musical – que é um resumo da dissertação de Mestrado da escritora na ECA-USP.

“Clara nunca sofreu, em sua vida, rejeição na publicação de suas peças, nem na apresentação pelos palcos em que tocou. De lá para cá, não só ela como muitos outros compositores (homens e mulheres) foram excluídos pelo mercado musical ocidental”, escreve Eliana no último capítulo do livro (p. 97). A Radio Cultura FM de São Paulo tem se dedicado a revelar ao público ouvinte as músicas de Clara Schumann – e foi por um dos programas diários que descobri a publicação do livro. Um presente para quem pretende conhecer a vida e a obra da pianista-compositora.

“Clara Schumann – compositora x mulher de compositor”, de Eliana Monteiro da Silva, Ficções Editora, São Paulo, 2011, 112 pp.


Sobre “Todos os poemas” 3 vols., de Ruy Belo - João dos Reis



“Ao escrever, e independentemente do valor do que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência de que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre. (...) Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras. Violento-me. (...) ... o poeta denuncia-se e denuncia, introduz a intranquilidade nas consciências, nas correntes literárias ou ideológicas...” escreve Ruy Belo (1933-1978) em “Breve programa para iniciação ao canto”, uma introdução ao volume II.

Escrevi nos anos 80 uma resenha de um romance para o Jornal “Primeira Hora” de Osasco; no livro, o poeta e seus versos eram sempre lembrados pela personagem. Durante todos esses anos, planejava comprar uma antologia do poeta português; encontrei apenas os volumes II e III das suas obras completas, e somente em 2015 os encomendei à livraria.

Sou um leitor de poesia desde os 12 anos; e, confesso, não sei comentar ou explicá-la; deixo fluir as imagens, os sons, as emoções. Decidi dar a palavra para o poeta, transcrevendo trechos de dois dos seus longos poemas. Uma observação: ele aboliu a pontuação.

“Um dia uma vida”

Não vazes tantas vezes vozes rente ao vento
e não escutes os pássaros nem mesmo o mar
não oiças nem sequer o vento se soprar
pois o tempo tem voz o tempo fala
Está atento abertos os ouvidos ouve
A vida é uma vasta música suave
......................................................................
Há uma luz lunar que ilumina o mar
e esparge pela areia pela maré cheia
o poema de espuma que lhe cabe recitar
e me fala das cinzas a que se reduz
o céu breve e restrito de uma noite
........................................................................

Preciso de dormir e só na pedra tumular
eu poderei poisar de verdade a cabeça
Ingresso para sempre no mais puro escuro
Fui um inveterado tripulante da memória
oiço os passos do tempo sei a minha idade
e deito-me com toda a dignidade
É inútil bater amigos inimigos a esta loisa
onde eu repouso como simples coisa
E o tempo poisa deixa finalmente de passar
vol.III, pp.122-129, início e fim do poema


“Sim um dia decerto”

Um dia não terei ninguém nunca tive ninguém
não saberei destes dias de nevoeiro no verão
quando as pessoas no ar se recortam rígidas nas silhuetas
nuvens de névoa tornam indeciso o horizonte
e a neblina nitidamente naufraga nas águas
......................................................................................

Um dia sentirei ou pressentirei os pulsos ligados pelo aço dos anos
Ficarei horas e horas com a última perna cruzada pacificamente sentado
com a face amadurecida de luz ou corroída pela escuridão
sereno como uma superfície com a cara coberta de barba sozinho na terra
................................................................................................................................

Sim um dia decerto será assim ou mais ou menos assim
e nem saberei mesmo que um dia distante
sem saber porquê achei provável que um dia decerto fosse assim mais ou menos assim
vol. III, pp. 58/61 trechos do inicio e fim do poema

“Todos os poemas” 3 vols., de Ruy Belo, Assirio & Alvim, Lisboa, 2004, 2ª ed.,

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

REFLEXÕES sobre “Volta à terra”, de João Pedro Plácido (Portugal, 2014, 78 min.) - João dos Reis




“Eu quero lançar raízes
e viver dias felizes
na outra margem da vida.
Solta os cabelos ao vento,
muda em riso esse lamento,
apressemos a partida.
Aceita o desafio,
embarca nesse navio,
rumo ao sol e ao futuro.
Corta comigo as amarras
que nos prendem como garras
a um passado tão duro”.
duas estrofes do poema “Asas”, de Maria Luisa Baptista, musicado por Georgino de Souza, cantado pela fadista Katia Guerreiro./

Para Helio Leite de Barros, professor de Filosofia

“Volta à terra”, do diretor João Pedro Plácido, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, me trouxe velhas recordações. O filme mostra imagens que povoaram a minha infância até à juventude, quando convivi com meus avós portugueses. Os Martins Ferro vieram das aldeias de Penhas Juntas e Falgueiras, da província de Trás-os-Montes, na mesma região montanhosa da aldeia Uz, cenário do documentário.

Há poucas cenas de festa, de alegria; mesmo em momentos de confraternização nas refeições, há um sentimento de tristeza, de desolação, de ausência de esperança dos camponeses. Quase não há jovens – todos partiram para outros países e continentes em busca de trabalho; é uma comunidade em extinção. A agricultura de subsistência é baseada na plantação de batata e cevada; há algumas vacas e o pastoreio de carneiros – como minha avó Elisa me contou muitas vezes.

Algumas cenas incendiaram minha memória: a tosa dos carneiros – de onde vem a matéria prima para as roupas e os cobertores. Os parentes enviaram para meus avós uma manta artesanal de lã – que usei até ela se desintegrar já na idade adulta. Foi a presença mais marcante dos aldeões trasmontanos nas minhas noites de sono.

Um dos principais alimentos é a carne suína – e o filme me conduziu ao passado: também na casa dos meus avós na minha cidade natal, Duartina, SP, a matança do porco, o esquartejamento, o salgamento e a conservação em latas de banha, era um trabalho coletivo. A participação de todos os familiares, minha inclusive, no preparo das linguiças foi inesquecível: todos contribuíam com a mão de obra para enchê-las com a carne triturada e temperada.

Hoje,os habitantes da região de Uz têm eletricidade, assistem televisão, se informam sobre o mundo. Eu, até aos 7 anos de idade, vivi nas fazendas de meu avô paterno à luz de lamparina e lampiões; o único meio de comunicação era o rádio a pilha – onde ouvi a música dos meus antepassados: a melancolia dos fados entrou na minha vida para sempre.

O inverno rigoroso do Norte de Portugal, com a neve cobrindo a cidadezinha de branco, trouxe de volta as cartas que lia dos parentes: não podiam sair de casa durante vários dias. Minha avó era pastora – e nos contou muitas vezes sobre o caminhar com os carneiros nas montanhas geladas.

O filme indica um outro futuro para o jovem de 21 anos que escolheu permanecer na aldeia, trabalhando na lavoura e no pastoreio? E também para outro personagem que abandonou a França e preferiu fazer o caminho de volta para a sua terra?

Quais as perspectivas hoje de escola, de trabalho e de lazer para os filhos dos trabalhadores do campo de Uz? Não encontrei um cenário de otimismo nos poucos diálogos do filme: os velhos falam de doenças – e todos reclamam muito, o que foi uma novidade para mim, porque meus dois avôs, Marcelino e José, eram calados - e viveram o exílio no Brasil em um triste silêncio.

Saí da sala do Cinearte da Avenida Paulista no último sábado carregado de imagens e emoções. Uma interrogação me perseguiu até a volta para casa: se meus avós e minha mãe (que nasceu em Portugal) tivessem permanecido na aldeia, qual seria o meu destino? Minha descoberta da música e da literatura – que me marcaram desde a infância – seria possível? E os filósofos seriam os meus companheiros desde a adolescência? As aulas de Filosofia com o professor Hélio Leite de Barros no Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares (Ceneart) em Osasco, e depois, com os mestres da Universidade de São Paulo, foram uma iluminação – e também a minha redenção.

domingo, 1 de novembro de 2015

Ubatuba e a Desmemória - Pedro Paulo Teixeira Pinto




Num país onde pouco se dá de importância à sua memoria histórica, para ser breve, Ubatuba não poderia ser diferente.Basta observar nossas preciosas construções de estilo colonial que foram caindo ou simplesmente demolidas, destruindo-se símbolos de nossa mais legítima identidade. Patrimônio Histórico? Cultural? Imaterial? Pois é, José, e agora?

Evidentemente há muito o que se dizer sobre o assunto, o que não cabe numa simples crônica. Mas aqui, a ideia é chamar atenção sobre uma de nossas maiores fraquezas nacionais. Quando não sabemos de onde viemos, não saberemos para onde ir, conscientemente.

Cabe trazer à luz a frase do ex-ministro da Educação, hoje Senador da República, Cristovam Buarque, afastado do ministério. por telefone, pelo penúltimo presidente do Brasil: "Se quisermos saber que futuro tem um país, verifique a Educação que ele tem hoje".

A ideia de alinhavar "acontecências" , que passaram e passam pelo tempo é que nos anima a seguir, de vez em quando, desenrolando palavras para contar e recontar coisas de nossa alma caiçara e de nossos feitos que vão traduzindo a realidade edificada pelo seu povo. Incessantemente.

Apenas porto marítimo no início de sua história, Yba-tiba, hoje Ubatuba, a terra tupinambá foi se modificando até que os índios, seus donos genuínos, dela fossem desalojados por governos e aventureiros, em seus diferentes estágios civilizatórios.

Outros portos foram se abrindo, por terra e ar, ao sul, norte, oeste e leste, acomodando culturas que se sobrepuseram às primitivas e semi-primitivas, mas misturando-as, a medida que se sucederam. Cada uma delas deixou, dentro das outras, marcas indeléveis a constituir a diversidade cultural que, espraiando-se, vai traduzindo painel de grande valor e beleza, onde a canoa caiçara é um de seus ícones identitários mais fortes.

E assim deveremos ir, cuidando com discernimento, consciência e firmeza, de nosso desenvolvimento verdadeiramente efetivo, de mãos dadas com nossa identidade mais legítima, onde se assentam nossas principais marcas de humanidade.

"Povo que não tem memória, não tem nada pra contar"; que se diga e repita esta frase essencial de Idalina Graça, nossa primeira escritora.

sábado, 31 de outubro de 2015

A chuteira do Saci - Risomar Fasanaro



Era o dia do aniversário de Moisés e o dia amanheceu bonito, como sempre é o dia do aniversário da gente. Um dia especial. Mesmo que chova, a gente acha a chuva linda e pensa até que choveu especialmente para nos agradar. Se fizer frio, a gente acha o frio gostoso; se fizer calor, dizemos que é um dia lindo de sol!
Moisés morava no interior e acordava bem cedo todos os dias para, junto com a mãe, dona Zafira, começar a cuidar das plantas e dos animais.
Ao contrário de muitas crianças que vivem no interior, mas sonham com a cidade grande, com a capital, Moisés adorava viver no campo. Gostava do cheiro de mato que se desprendia da terra quando chovia, achava bonito o galopar dos cavalos e embora os amigos caçoassem dele, parava tudo que estava fazendo no final da tarde, para ver o pôr-do-sol. Como podia ficar tão bonita a cor de laranja junto do lilás?

Ele ficava bravo quando os amigos diziam que aquilo era coisa de maricas. Reagia sempre à altura: não é. Não é só mulher que acha as coisas bonitas. Homem também acha e nem por isso é menos homem. E tem mais: homem que é homem não sente medo de chorar...

Dona Zafira criava duas cabras e várias galinhas, entre elas, Vaidosa, a mais mimada do terreiro. Vez por outra ela entrava na sala, subia na cristaleira antiga que havia na sala, e que pertencera à avó de Moisés, e ficava horas se mirando no espelho. Por esse motivo, a mãe e ele deram a ela o nome de Vaidosa.

Naquela manhã, logo cedo Zafira abraçou e beijou o filho, desejando a ele toda a felicidade do mundo. Depois disse:
-quando terminar de tomar o café, Moisés, quero que você vá até o ninho de Vaidosa e apanhe seis ovos, para eu fazer um bolo. E hoje, quando sair da escola, você pode convidar Gabriel, Otávio, Lucas e Tarsila para a gente comemorar seu aniversário.
-Precisa não, mãe, hoje é um dia como outro qualquer...

-Não, não , não, meu filho, hoje não é um dia qualquer. É o dia do seu aniversário e você não sabe, para uma mãe, o que significa o aniversário de um filho. Há dez anos, quando você nasceu, eu senti a maior emoção de toda minha vida, quando olhei seu rostinho; por isso, gosto de comemorar esse dia todos os anos. Pra mim, é sempre uma data especial. A mais especial de todas.

-Mas, mãe, o pai nem está mais aqui com a gente...

-Não está, mas se ele fosse vivo também iria comemorar. Ele lhe adorava e vendo hoje como você vai bem na escola, iria sentir muito orgulho de você.

-Está bem, mãe, eu vou lá pegar os ovos da Vaidosa.

Moisés foi ao fundo do quintal, entrou no galinheiro e encontrou exatamente seis ovos no ninho. Parecia até coisa encomendada. O menino tirou o primeiro e, muito desastrado que era, deixou-o cair, espatifando-se.

- - Nossa, a mãe vai ficar danada da vida comigo...

-Nem bem chegou a concluir a frase, quando viu que alguma coisa muito extraordinária estava acontecendo. Pois não é que dentro do ovo havia um apito?

- -Um a-pi-to??? Exclamou admirado. Quem já viu uma coisa dessas? Aposto que foi o Lucas ou o Gabriel que colocou esse apito dentro do ovo e depois colou a casca só pra me assustar. Só pode ter sido um dos dois. Sabendo que é meu aniversário, eles imaginaram que eu ia vir aqui buscar os ovos, pra mãe fazer um bolo...

Com o maior cuidado, Moisés apanhou o segundo ovo do ninho. Girou-o entre os dedos, devagar para ver se havia alguma marca de colagem e quando se certificou de que estava inteiro, resolveu quebrá-lo.

- Pois sabe o que havia dentro do segundo ovo? Ah...Você não pode imaginar.... Para surpresa ainda maior do menino, havia uma chuteira. Uma chuteira lindíssima, bem pequenininha. Ele tomou-a entre as mãos e mais surpreso ainda ficou quando a viu pouco a pouco crescer e tornar-se do tamanho exato do seu pé direito.

- -Meu Deus! Mas é igualzinha à do filho do professor de matemática! Eu nunca pensei que pudesse ter uma chuteira dessa em toda minha vida!

Sem esperar nem mais um minuto, quebrou o terceiro ovo. Já que tantas coisas extraordinárias estavam acontecendo naquele dia, com toda certeza o outro pé da chuteira estaria em algum daqueles ovos. Mas para decepção do garoto, não estava. Ele encontrou apenas um ioiô. Quebrou o quarto ovo e novamente ficou decepcionado, encontrou uma colher de chá. Já estava quase desistindo e resolvendo levar os dois últimos ovos para ver se com eles a mãe conseguiria fazer o bolo, quando resolveu tentar a sorte. Quem sabe, o par da chuteira não estaria em um dos dois?

-Dessa vez, contudo, a surpresa foi a maior que Moisés poderia ter: em vez da tão sonhada chuteira, o que lá se encontrava era uma menininha bem pequenina, toda encolhida dentro do ovo.

- Será que estou sonhando??? pensou ele. Como essa menininha entrou aí?

Ele foi quebrando com cuidado o restante da casca e ajudou a garotinha a sair.Com muita delicadeza, colocou-a no chão. A menina ficou olhando-o um tempão e seu semblante demonstrava estar tão surpresa quanto ele. Depois de alguns segundos, a garota começou a crescer, crescer... até ficar quase da altura dele. Então, recobrando o fôlego, Moisés conseguiu perguntar:

-De onde você veio?

E a menininha, olhos muito vivos, muito espertos, como só a Emília de Monteiro Lobato tem, respondeu com outra pergunta:

-E eu sei?

E ele, mais preocupado em encontrar a chuteira do que em entender todo aquele mistério, fez-lhe outra pergunta:

-Onde está o outro pé da chuteira?

-Que pé? Que chuteira? O que é isso?

O menino mostrou a chuteira e explicou:

-Isso aqui...Onde está o outro igual a esse?

Ah...Isso aí? Um dia eu vi o Saci sair pulando por aí com igual a esse. Deve ser o que você está procurando...

- Puxa...então está perdido. Que pena...

-A menininha colocou as mãos na cintura e olhando-o com ar desafiador, lhe disse:

- -Chiii...Você vai desistir, é? De onde eu venho a gente sempre acha saída para as coisas. Às vezes a gente encontra a saída bem rápido, ela já vem pronta, mas às vezes tem de pensar, pensar, rabiscar, desenhar, demora, mas sempre a gente encontra uma saída.

- O garoto ouviu, ouviu e se sentiu envergonhado. Uma garotinha daquela lhe dando lições... Então perguntou:

-Você se acha muito sabida, então me diz aí -como é que eu vou conseguir tirar a chuteira do Saci se eu nem vejo ele, não sei onde ele vive nem nada...Diz!

-Olha, disse a menina, não vai ser fácil, mas se você quiser tentar, eu te ensino: você vai ter de ir à floresta que fica lá perto da ponte, na sexta-feira à meia-noite, e quando vir uma brasinha acesa é porque o Sr. Saci ali se encontra, fumando o seu cachimbo.

-Muito bem, e aí o que é que eu faço? Digo a ele: Sr. Saci, por favor, me devolva a chuteira que o Sr. levou? É assim é?

- Claro que não, seu debochado, se você continuar menosprezando meus conselhos, não lhe ensino mais nada.

-Não, não, me ensine como posso tirar a chuteira dele, se é que você sabe...

-Claro que sei. Afinal, nós dois somos do mesmo mundo o Saci e eu...

-Então fala...

-Quando você vir a brasinha acesa, você vai na ponta do pé, sem fazer barulho, e quando chegar bem perto, dá um pisão bem forte no chão, bem na direção da brasa. Desse jeito, você acerta o pé dele. Com o susto ele vai dar o maior pulo, aí você aproveita e prende a chuteira com seu pé, apanha ela do chão e volta correndo pra casa. Não é fácil?

- Olha, que não é fácil, não é. Mas vou tentar. Melhor, vou conseguir. Você vai ver...

E enquanto ele dizia isso, a menina desapareceu. Moisés voltou triste para casa e contou à mãe que Vaidosa havia quebrado todos os ovos do ninho. A mãe ficou triste e ainda estranhou:

-Que engraçado, ela nunca fez isso antes...Bom, não faz mal. Eu faço outra coisa e a gente festeja do mesmo jeito.

No final da tarde, a mãe arrumou a mesa com quatro pratos de arroz doce com a palavra “Parabéns” escrita com canela.

Alguns dias se passaram e quando chegou a primeira sexta-feira do mês, Moisés esperou a mãe dormir, depois levantou descalço para não fazer barulho e foi, devagarinho, pé ante pé, abriu a porta e saiu. Chegou à mata quando faltavam exatamente dez minutos para a meia-noite. Entrou com muito medo e foi andando. Era difícil andar entre os galhos das árvores que roçavam seu rosto, com as folhas que quase entravam em seus olhos, mas ele continuou. Passou perto de uma árvore e viu dois olhos acesos em cima dele. Deu um grito, e muito assustado, viu uma coruja voar para outro galho.

-Puxa, com esse grito assustei todos os bichos. É capaz de nem o Saci aparecer, pensou ele.

Continuou andando, sem fazer nenhum ruído. Já devia ser meia-noite quando viu a brasinha do cachimbo do Saci. Moisés tremia da cabeça aos pés, mas a vontade de ter a chuteira era maior.

Foi chegando perto, bem perto, aí deu aquele pisão...Procurou a chuteira sob os pés, mas não a encontrou. Viu a brasinha sumir dentro da noite e, com ela, sua chance de tomar a chuteira do Saci.

Voltou triste, cabisbaixo. Entrou em casa e, para sorte sua, a mãe não notara sua ausência.

-Meu medo estragou tudo- pensou ele- mas da próxima vez vou chegar bem perto e só então vou tirar a chuteira dele. O Saci não me escapa de novo. Hoje marquei bobeira, me precipitei antes da hora.

Na segunda sexta-feira, Moisés voltou à mata. Entrou com cuidado, encontrou a mesma coruja no mesmo galho, mas controlou o medo e não gritou. À meia-noite em ponto, o Saci tornou a aparecer. Na verdade, a única coisa visível era a brasa do cachimbo, mas pela altura e pelo movimento, Moisés sabia que era ele. Foi chegando perto, chegando... Cada vez mais perto e, quando deu um pisão no que ele achou que era o pé do Saci, ouviu o coaxar de um sapo e viu a brasinha sumir longe, no meio das árvores.

- - Outra vez estraguei tudo. Nunca mais vou ter outra oportunidade.

- Naquela noite, Moisés voltou mais arrasado ainda para casa. No dia seguinte, muito triste, distraído, não conseguia fazer nada direito. A mãe deu-lhe uma bronca atrás da outra e ele foi ficando cada vez mais triste. Será que não conseguia fazer nada direito? Moisés nunca se sentiu tão infeliz...

- O que você tem menino? Está no mundo da lua? Trate de fazer tudo direito, senão você não vai brincar à tarde com seus amigos.

Que amigos? E Moisés queria lá saber de amigos? Seu único pensamento era a chuteira que o Saci havia levado. Será que valeria a pena voltar na sexta-feira seguinte?

A semana foi difícil. Moisés não conseguia se concentrar nem na escola, nem em casa. Levou bronca da professora, da mãe e, por mais que se esforçasse, seu pensamento era um só: voltar à floresta e tirar a chuteira do Saci.

Na terceira sexta-feira, ele decidiu que daquela noite não passaria. Conseguiria a chuteira, custasse o que custasse. Pra que um Saci precisa de uma chuteira? Pensava enquanto arrumava a cama com travesseiros e cobria-os com o lençol, para que se dona Zafira fosse ao seu quarto e pensasse que era ele deitado.

A noite estava muito escura. Um vento frio soprava, mas nada o amedrontou. Entrou na mata de mansinho, passou pela coruja, sentiu as asas de alguns morcegos roçarem suas orelhas, mas nem isso o intimidou. Era hoje ou nunca. À meia-noite em ponto, avistou a brasa do cachimbo do Saci. Chegou perto, bem perto.

Sentiu o calor da brasa quase encostando em seu nariz. Prendeu a respiração. Dessa vez ficaria calmo o suficiente para não errar o alvo. Deu um pisão tão forte, mas tão forte que sentiu o pé doer... Nesse instante, o grito do Saci ressoou pela mata inteira e ele viu quando a brasa do cachimbo se afastou como se voasse.

Abaixou-se, apanhou a chuteira quase sem acreditar, tamanha era sua felicidade, e voltou correndo para casa, antes que o Saci voltasse e a tomasse de suas mãos.

Ao chegar em casa, encontrou a mãe do lado de fora, aflita com seu desaparecimento. Tentou explicar o que tinha acontecido, mas é claro que não se livrou de uma bela surra.

Mas no dia seguinte, exibindo as chuteiras novas para os amigos, Moisés não parava de contar vantagens:

-Chii, gente, o Saci ficou morrendo de medo. Quando me viu tirou logo a chuteira e fugiu voando...

Os amigos então lhe provocavam:
-Que mentira, Moisés! E Saci existe? Foi por isso que tua mãe te bateu. Pra deixar de contar mentira. E a surra que você levou?

E ele:

-Ah...Por uma chuteira dessas eu levava mais dez surras e não me arrependia...

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risofasanaro@gmail.com

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ANOTAÇÕES sobre “Estive lá fora”, de Ronaldo Correia de Brito- João dos Reis




Para Edna Juçara Rodrigues

Na primeira página do livro, Cirilo, estudante de Medicina, está em uma das pontes em Recife. Olhando para as águas barrentas do rio Capiberibe, lembra das humilhações sofridas de colegas e professores, que não perdoavam sua rebeldia. “Os suicidas jogam com a morte uma peleja cheia de malícia e sedução, trabalham estratégias ao longo de anos e o que chamam de impulso é apenas a cartada final” (p.7).

É uma história de amizade entre Cirilo e o irmão Geraldo - e a reconstituição do período da repressão e da resistência ao golpe militar de 1964. Os dois irmãos foram para a capital pernambucana estudar na universidade, mas estão distantes um do outro. Geraldo, estudante de engenharia, é militante estudantil, e depois um revolucionário que prega a resistência à tirania; Cirilo, um nihilista confesso. A diferença entre eles: um rebelde que se engajou na luta armada - o outro, revoltado que “desejava que fossem destruídos valores sociais e politicos da civilização ocidental, abrindo caminho para uma nova sociedade que ele não sabia ainda qual era” (p. 198)

Luis Eugenio e Celia Regina, os pais dos dois irmãos, vivem em uma cidade do sertão cearense dos Inhamuns. Para acompanhar a trajetória de Geraldo,o pai monta um livro de capa dura em que cola noticias e recortes de jornais do filho militante de organização de esquerda, anota observações, tentando reaproximar-se dele pela escrita. Os pais eram de famílias do campo onde “ninguém conhecia o lazer, entregando-se aos afazeres da agricultura, da pecuária e da casa numa rotina interminável e estafante, que envelhecia as pessoas cedo e as matava antes do tempo”. (p.84).

É uma história de amizade de Cirilo e Leonardo, que vivem na Casa do Estudante Universitário. “Eram dois estudantes {de Medicina} pobres do interior, deslumbrados com o rio cheirando a esgoto, comovidos com a absoluta falta de perspectivas, dispostos a descobrir a poesia da cidade. Empanturravam-se de livros, cinema e música” (p.59).

É também a aventura de um trio amoroso entre Cirilo, Leonardo e Paula - e não é uma história de amor que tem um final feliz.

O romancista retoma os dilemas dos que viveram a ditadura militar: a ausência de futuro, a angústia das prisões, das torturas, dos desaparecimentos – os encontros e desencontros de uma geração. Cirilo vive o conflito permanente, como os pais, à espera de receber noticias do destino do irmão engajado na resistência.

“Acredito que a literatura pode fazer uma autêntica revolução. O que há de verdade nos livros se torna um bem coletivo e a invenção dos escritores se transforma num patrimônio da língua” (p.218), diz o personagem principal do livro de Ronaldo Correia de Brito, médico-escritor que nasceu no Ceará, mas vive há muitos anos em Recife.

Nas últimas páginas do livro, a caminho do plantão do hospital, Cirilo “experimentou uma conhecida angústia, o abandono e o sentimento desagradável de que algo se partia dentro dele. Desde pequeno sofria esses sobressaltos” (p. 284).

Já no hospital, os amigos Leonardo e Silvio vieram com a noticia ouvida no rádio: um estudante de engenharia fora alvejado com vários tiros na ponte da Torre – e poderia ser o irmão Geraldo. Chamam um táxi, e no caminho, ele pede para parar na ponte da Madalena, desce do carro, descalça os sapatos e as meias, despe a camisa e decide caminhar como um equilibrista sobre a amurada. Os dois amigos o chamam do carro: “Vamos, Cirilo”.

“Estive lá fora”, de Ronaldo Correia de Brito, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2012, 294 pp.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

ANOTAÇÕES/REFLEXÕES sobre “O sonho do celta”, de Mario Vargas Llosa - João dos Reis



Roger David Casement aguarda na prisão a sentença de morte por enforcamento, acusado de traição pelo governo inglês em 1916. É um livro de ficção de Mario Vargas Llosa, mas a reconstrução da vida de um personagem esquecido pela História. Em capítulos alternados, o aventureiro que percorreu três continentes, e funcionário da diplomacia inglesa que recebeu o título de nobreza, reflete sobre o seu passado – um “cidadão do mundo, o mais universal irlandês que conheci”, nas palavras do poeta William Butler Yeats.

Participou de duas expedições ao Congo Belga no inicio do século 20, lideradas por Henry Morton Stanley e Henry Shelton Sanford. Foi a descoberta da realidade de uma África desconhecida. Depois, já trabalhando para o Foreign Service, refez as viagens pelo interior do país para escrever um relatório sobre as atrocidades dos colonizadores contra as populações nativas. Descobriu o horror da escravidão, dos castigos, das torturas: o desaparecimento de aldeias,o espetáculo das costas dos trabalhadores das plantações todas listradas pelas chicotadas, as mãos e os pênis esmagados pelos militares da Force Publique. Foi o inicio do questionamento do “papel civilizatório” do europeu. “Graças ao Congo, tinha descoberto a Irlanda, queria ser um irlandês de verdade, conhecer o seu país, apropriar-se da sua tradição, sua história e sua cultura”.

Roger David Casement esteve a serviço alguns anos no Brasil – em Santos, Rio de Janeiro e Pará. Depois esteve no Peru, acompanhado de uma comissão, para escrever um outro relatório sobre a violência contra as populações indígenas da Amazônia pela Peruvian Amazon Company, de Julio Cesar Aranha, de extração de látex. O ponto de partida foi a denúncia do jornalista de Iquitos, Benjamim Saldaña Roca no jornal “La Felpa” e “La sanción” – que foi assassinado e “desaparecido”; e do engenheiro norte-americano Walter Hardenburg no jornal inglês “Truth”.Foi a descoberta de um outro mundo de crueldade e barbárie: os indígenas eram capturados para trabalhar nos seringais – e torturados, mortos, desaparecidos.

A publicação do “Relatório de Putumayo” em 1912, que se chamaria “Blue Book” (Livro Azul) foi um outro marco na visão do cônsul: a Europa, e particularmente a Inglaterra, buscava “levar a civilização”, escravizando, destruindo as culturas originais dos povos da Amazônia.

Torna-se um militante e um dos dirigentes do movimento independentista da Irlanda. Parte para a Alemanha para conseguir armas e apoio à insurreição: o Levante da Semana Santa de 1916 foi reprimido, os lideres foram presos, fuzilados ou condenados à longas penas.

Vargas Llosa registra a controvérsia dos “Black Diaries”, diário em que o nacionalista irlandês escreveu sobre sua vida sexual - e o romancista nos diz que “é impossível chegar a conhecer de forma definitiva um ser humano, totalidade que sempre escapa a todas as redes teóricas e racionais que tentam capturá-la”.

Mr. John Ellis, o carrasco, pediu em um sussurro para Roger David Casement abaixasse a cabeça, e colocou a corda em volta do seu pescoço: “se prender a respiração será mais rápido, sir”. Ele obedeceu. A família e os amigos tentaram enterrar o corpo na Irlanda – mas somente em 1965 os ossos do líder revolucionário foi repatriado – e recebido como os restos mortais de um herói.

Vargas Llosa reconstruiu a saga de “um dos grandes lutadores anticolonialistas e defensores dos direitos humanos e das culturas indígenas do seu tempo, e um sacrificado combatente pela emancipação da Irlanda”.

Fui leitor de todos os romances do escritor peruano. Esse último livro foi uma imersão na cultura da violência nos países colonizados pelos europeus – que ainda está presente no nosso cotidiano com as prisões, torturas e desaparecimentos dos moradores da periferia das grandes cidades – a maioria deles, descendentes dos que sobreviveram à escravidão e ao genocídio.

“O sonho do celta”, de Mario Vargas Llosa, Objetiva, Rio de Janeiro, 2011, 390 pp.


terça-feira, 20 de outubro de 2015

19 de outubro de 2015: Ato de entrega das Recomendações da Comissão Municipal da Verdade de Osasco ao Legislativo e Executivo da cidade- João dos Reis



“Sobe para nascer comigo, irmão
Dá-me a tua mão ai da profunda
zona do teu pudor disseminado.
Não voltarás do fundo das rochas.
Não voltarás do tempo subterrâneo.
Não voltarás a tua voz endurecida.
Não voltarão os teus olhos verrumados.
(...) Através da terra juntai todos
os silenciosos lábios derramados
e lá do fundo falai comigo por toda esta longa noite,
como se estivesse ancorado convosco,
contai-me tudo, cadeia por cadeia,
elo por elo, passo por passo / (...)
e deixai-me chorar, horas, dias, anos,
idades cegas, séculos estelares.(...)
Falai por minhas palavras e por meu sangue”.
Pablo Neruda, poema “Alturas de Macchu Picchu

Na noite do dia 19 de outubro, na Sala Osasco (auditório da Prefeitura da cidade) aconteceu o Ato de entrega das Recomendações da Comissão Municipal da Verdade de Osasco. Estiveram presentes o prefeito Antonio Jorge Pereira Lapas, o representante do Legislativo, vereador Josias Nascimento de Jesus, o deputado Marcos Lopes Martins e o ex-deputado Adriano Diogo, representantes da imprensa, dezenas de cidadãos osasquenses e as vitimas da ditadura militar.

Cada um dos membros das cinco subcomissões (Vítimas, Equilíbrio Federativo, Locais, Agentes do Estado e Entidades civis) apresentou um balanço dos trabalhos dos últimos dez meses. Permanece um grande silêncio: a voz dos torturadores, já que os dois que foram identificados e localizados (Wilson Damasceno e Mauricio Lopes Lima), se recusaram a comparecer a uma audiência da comissão. Antonio Roberto Espinosa, representando as vítimas do Estado policial, fez um discurso emocionado em que lembrou que as marcas da tortura permanecem no corpo e na alma dos torturados. O professor Murilo Leal Pereira Neto, Coordenador da CMVO, leu e comentou cada uma das recomendações entregues aos representantes do poder político na cidade.

No final, o ato se encerrou com o discurso do prefeito, em que ele se comprometeu debater e realizar as propostas da comissão.

Quais foram as recomendações da CMVO? Entre elas, “criar um Centro de Memória, Verdade e Justiça, dedicado ao resgate das lutas contra o regime ditatorial na cidade, das vítimas da ditadura e dos movimentos sociais, voltado à coleta, guarda e produção de documentos sonoros, iconográficos, audivisuais e textuais relacionados à temática” – e um Parque da Memória agregado a esse centro, dedicado à exposição de instalações artísticas.

Uma outra proposta é “identificar e substituir a denominação de praças, logradouros e monumentos que façam referências aos próceres da ditadura militar pelo nome de cidadãos que lutaram pela democracia”.

Com os olhos voltados para o presente, “proceder a identificação de locais que ainda mantêm práticas de tortura e ações policiais que violem os direitos humanos em Osasco”.

Osasco foi uma das cidades mais duramente castigada pela repressão do terror de Estado. A proposta: apresentar ao Congresso Nacional e à Presidência da República “uma medida de desagravo aos poderes Legislativo e Executivo osasquenses pela quebra do equilíbrio federativo, bem como às entidades da sociedade civil pelas intervenções ilegais sofridas, como o Sindicato dos Metalúgicos de Osasco e região, União dos Estudantes de Osasco – UEO , Círculo Estudantil de Osasco – CEO, Igreja Matriz de Santo Antonio – atual Catedral, Paróquia Imaculada Conceição, entre outras”.

A CMVO ratifica todas as recomendações da Comissão Nacional da Verdade, e alguns dos destaques lembrados foram “o reconhecimento e adoção da Convenção sobre a Imprescritibilidade dos crimes de guerra e contra a humanidade, adotada pela ONU por meio da Resolução nº 2391/68, inclusive para a Lei da Anistia”. E também “a investigação, denúncia e punição dos autores de crimes de assassinato, tortura e desaparecimento forçado das vítimas, bem como de empresas privadas e estatais que apoiaram material, financeira e ideologicamente a estruturação e consolidação do golpe de 64 e a ditadura militar”.

Em um momento histórico que vivemos em que os fascistas surgem dos subterrâneos em se refugiram nos últimos anos, é preciso reafirmar que não esquecemos as atrocidades do passado - e que os sonhos de um Brasil mais justo e solidário permanecem em nossas mentes e corações. E recordar aos cidadãos do presente e do futuro: a luta continua para desvendar a verdade, preservar a memória, a dignidade daqueles que foram perseguidos, humilhados, presos, torturados, mortos e desaparecidos no periodo de 1964 a 1985. Foi um acontecimento histórico a noite de 19 de outubro de 2015 em Osasco: para lembrar que estamos vigilantes: para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.

NOTA: poema “Alturas de Macchu Picchu”, Pablo Neruda, in “Canto Geral”, Editora Record, Rio de Janeiro, 1996, pp. 25-40, tradução de Paulo Mendes Campos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

13 de outubro de 2015: uma reunião da Comissão da Verdade de Osasco



“Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo o adeus...”
Vinicius de Moraes, trecho do poema “Pátria minha”.

No dia 13 de outubro de 2015 aconteceu uma das últimas reuniões da Comissão Municipal da Verdade de Osasco. Um ano de trabalho em que foram realizadas oitivas das vítimas da ditadura militar de 1964-1985, localizados os locais de detenção e tortura, identificados alguns dos agentes de Estado que participaram de violação dos direitos humanos, realizada a pesquisa das empresas que colaboram com a repressão policial, registrado o atentado à legalidade republicana com a prisão de vereadores e cassação do prefeito.

Desde que a Comissão foi criada em agosto de 2014, por um decreto do Executivo e aprovada pelo Legislativo, foram dezenas de reuniões com os representantes das sete subcomissões: Agentes do Estado, Equilíbrio Federativo, Entidades Civis, Vitimas e Locais. Albertino de Souza Oliva foi o primeiro coordenador, substituído pelo vice-coordenador Luciano Jurcovichi Costa, e nos últimos seis meses, por Murilo Leal Pereira Neto.

Foi uma longa pauta – encaminhamento de ofícios, visitas aos locais de prisão e tortura, oitivas dos que foram atingidos pela perseguição policial, pesquisa nos anais da Câmara e nas empresas da cidade. Foi programada a projeção de filmes-documentários e a participação e panfletagem no Desfile do 7 de Setembro.

O Ato de Desagravo ao Legislativo e de 50 anos de Reempossamento do Prefeito Hirant Sanazar no dia cinco de outubro foi um acontecimento raro na cidade: reuniu ex-prefeitos e vereadores, autoridades civis e religiosas, e vítimas do terror do Estado policial. Os discursos do atual mandatário, Antonio Jorge Pereira Lapas, e do professor Murilo foram históricos por apontar os desmandos do passado e os caminhos para o presente.

O relatório final está sendo elaborado, retomando o texto preliminar apresentado em dezembro de 2014. Será um documento para lembrar os anos em que Osasco teve vereadores presos, prefeito cassado, operários sitiados, presos e torturados na greve de 1968, estudantes e militantes de organização de esquerda perseguidos, torturados, mortos e exilados.

Foram ouvidos os personagens que resistiram à ditadura e foram vitimas da repressão policial: Gabriel Roberto Figueiredo, Antonio Roberto Espinosa, Stanislaw Szermeta, Maria Aparecida Bacega, Helena Pignatari Werner, os irmãos Iracema e Roque Aparecido da Silva - para citar alguns deles. Muitos outros não puderam comparecer porque foram mortos: Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Carlos Lamarca, José Campos Barreto – e o estudante Sergio Zanardi, que se suicidou nos anos 60. Não conseguimos ouvir em audiência os torturadores identificados; a pergunta que ficará para o futuro: até quando permanecerão calados?

Na reunião de 13 de outubro de 2015 foram discutidas as recomendações finais da comissão ao Legislativo e Executivo da cidade. Entre elas, a criação de um Centro de Memória, Verdade e Justiça dos movimentos sociais e das vítimas da ditadura militar; sugerir ao município de Itapevi a desapropriação e tombamento do centro clandestino de tortura, chamada “Boate Querosene” - e a criação de um memorial de direitos humanos no local.

A comissão deixará um documento que será referência para os osasquenses - embora os que destruíram o poder republicano, prenderam, humilharam, torturaram, assassinaram e “desapareceram” continuam impunes. Mas entrarão para os anais da História como os que sufocaram os sonhos de uma geração que lutou por um país mais justo e solidário.

Recordei a vocês nos últimos doze meses nas minhas crônicas de memórias: houve um tempo de guerra e resistência, depois um longo tempo de silêncio e medo. Hoje, é um tempo de recordar, redescobrir o passado, documentar - para que acreditemos nas esperanças de um futuro com democracia e liberdade.

NOTA: trecho do poema “Pátria Minha”, de Vinicius de Moraes, in “Antologia Poética”, Companhia das Letras, São Paulo, 1992, pp. 198-200

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Um Exemplo de professora - Risomar Fasanaro



Sempre me lembro com muito carinho de todos meus professores, mas na impossibilidade de escrever sobre cada um, escolhi minha professora de português do curso ginasial em um colégio de freiras: dona Celina Plácida Costa. Ela me marcou para sempre por duas razões que aqui irei contar.
A primeira é que foi ela a primeira pessoa a me incentivar a escrever e a segunda foi por ter participado do momento mais constrangedor de toda minha vida escolar.
Meu pai tinha comprado um bar em sociedade com um conhecido dele. Talvez nos primeiros meses o bar tenha tido algum lucro, não sei, a verdade é que em menos de um ano, o bar começou a dar o maior prejuízo e meu pai se viu forçado a desligar-se da sociedade sem receber um centavo sequer, e a assumir uma dívida muito grande.
É claro que sempre pairou no ar suspeitas de que meu pai fora furtado, mas não havia como provar, além disso só Gandhi seria mais pacifista que meu pai.
Com aquele prejuízo, nossa vida mudou muito. Só se comprava o estritamente necessário, nada supérfluo entrava em nossa casa.
O valor da mensalidade do colégio era de 450 cruzeiros na época, e passando por aquela crise financeira, meu pai não pode pagar duas mensalidades. Uma manhã, uma das freiras entrou na classe e, sem nenhum gesto de delicadeza, se dirigiu a mim na frente de toda a classe e disse: “a partir de amanhã você não poderá assistir às aulas porque sua mensalidade está atrasada. Só poderá voltar ao colégio, quando seu pai pagar.”
Na época eu era extremamente tímida. Além de muito magra para os padrões da época, havia o sotaque...Sim, o sotaque era motivo de risinhos disfarçados das colegas, o que me tornava mais tímida ainda.
Quando ouvi a ordem da freira, senti que o chão sumira sob meus pés, as lágrimas me saltaram, e mesmo no meio daquele turbilhão de ideias que envolviam a humilhação, a vergonha, me lembrei que no dia seguinte haveria prova de Português. O que aconteceria? Eu ficaria sem nota?
Como explicaria depois à professora de Português, o porquê da minha ausência? A sala ficou em absoluto silêncio. Um silêncio constrangedor. Nenhuma das colegas fez qualquer comentário. Terminadas as aulas do dia, fui embora.
Em casa contei à minha mãe o que havia acontecido, e ela disse não poder fazer nada. Eles não podiam pagar a mensalidade e pronto. No dia seguinte acordei pela primeira vez na vida, sem ter o que fazer. Triste, fiquei imaginando as colegas fazendo prova.
Estava assim, quando alguém tocou a campainha e minha mãe foi atender. Era Aridelson Turíbio, hoje advogado de renome em Osasco, naquela época um adolescente. Viera de bicicleta até nossa casa trazer um recado. O pai dele tinha uma loja de material de construção, e era lá que havia o único telefone do bairro. Ele recebera um telefonema do colégio. De quem? Da professora Celina. Ela mandava dizer que estava esperando que eu chegasse ao colégio, para poder começar a prova de Português. Que eu fosse logo, pois a classe inteira estava me esperando.
Eu disse que não iria. E Aridelson contou que ela dissera que só faria a prova quando eu chegasse. Comecei a chorar e disse que não iria, que sentia vergonha pelo que havia acontecido, mas minha mãe me convenceu: “você vai decepcionar essa professora que gosta tanto de você? Que se recusou a fazer a prova sem você? Vá logo botar o uniforme e ir correndo pro colégio...Foi o que tive de fazer.
Não sei como percorri um dois quilômetros de minha casa até o colégio. Quando cheguei, a classe estava toda em silêncio. Cada aluna com a prova em branco sobre a carteira, imóvel. Dona Celina me entregou uma folha e eu fiz a prova.
Nunca contei essa passagem de minha vida. Guardei esse segredo como se eu fosse culpada. Segredo partilhado apenas pelas colegas que estudaram comigo.
Somente hoje homenageio dona Celina Plácida Costa, aquela professora corajosa que enfrentou aquela instituição religiosa ultraconservadora, em defesa de uma de suas alunas.
É nela que me inspiro diante de alguma injustiça.


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A Casa dos meus padrinhos – Risomar Fasanaro



Era uma casa pequena que ficava no alto, em frente à linha do trem. Nos fundos da casa havia uma mangueira grande que quase sempre estava carregada de mangas, e ao lado, um abacateiro e muitos pés de bom-dia e boa- noite, flores que recebem esses nomes porque abrem pela manhã e ao anoitecer.
Na pequena cozinha destacava-se o fogão à lenha e um console com duas grandes jarras de barro onde minha madrinha armazenava água.
Na sala de jantar, uma luz suave, filtrada pelas folhas do abacateiro que havia ao lado da janela, entrava iluminando a mesa e deitando sombras sobre a toalha. O bule e o açucareiro de ágata azul, o cestinho com pães, e mais aquelas iguarias que fazem de um café no nordeste uma festa: macaxeira, fruta-pão, às vezes um bolo de mandioca, umas tapiocas...
Meu padrinho, sentado à cabeceira da mesa, comia devagar como se não tivesse de sair para o seu armazém em Afogados. E enquanto comia, contava histórias de sua infância em Santa Combadão, sua cidade em Portugal. Cidade que soube há pouco, era a terra do ditador Salazar.
Além de ele falar pouco, quando falava eu não entendia muito bem o que dizia naquele português de Portugal, mas sentia o quanto gostava de mim.
Não me lembro se quinzenal ou mensalmente ele ia ao Gabinete Português de leitura, na rua do Imperador, e de lá trazia emprestados quatro livros: um para ele, um para minha madrinha, um para meu irmão Paulo e um para mim.
Durante as refeições, ele falava do livro que estava lendo, citava passagens, e nos perguntava, a mim e ao meu irmão, sobre o que estávamos achando dos nossos. Ele trazia Dostoievski, Tolstoi pro meu irmão, Cronin pra minha madrinha, e José de Alencar e Guerra Junqueiro pra mim. Um dia trouxe Dom Casmurro, eu li e odiei Machado de Assis. Só muito mais tarde passei a amar Machado.
Aos domingos ele abria o armazém até meio-dia, e depois vinha pra casa trazendo uma lata de goiabada e algumas garrafas de guaraná “Fratelli vita” para o almoço.
Depois ele e minha madrinha nos levavam para algum passeio: Parque Dois Irmãos, andar pelas ruas do centro do Recife...
À noite ouvíamos um programa de músicas portuguesas, e o fado me vinha até que o sono tomasse conta de mim.
Minha madrinha era muito carinhosa comigo, mas muito severa com meu irmão. Ela o incumbia de várias tarefas: varrer o quintal, tirar água da bomba e encher as jarra de barro...
Quando ela saía, meu irmão e eu ficávamos em casa, e nossa alegria era sentar na janela, com os pés pra fora, vendo os trens passarem. Mas saíamos imediatamente, mal ela apontava do outro lado da linha do trem.
Eu gostava de ficar oito, dez dias naquela casa, não mais que isso. Sentia saudade de Socorro, onde morávamos, saudade dos meus irmãos, dos meus amigos, das brincadeiras... Socorro era um paraíso repleto de árvores, nossa casa ficava à beira do rio Jaboatão e era uma festa me equilibrar nas pedras escorregadias do rio, pescar piabas para pôr num vidro de maionese, onde viviam apenas dois, três dias...subir nas árvores...
Quando eu fiz dez anos, meu padrinho ficou doente. Os médicos diagnosticaram um câncer na garganta e dali em diante ficou mais difícil entender o que ele dizia.
Minha madrinha pediu à minha mãe que me deixasse ficar com ela até a morte dele, e a partir daquele dia, eu o olhava e sentia uma tristeza muito grande por saber que a morte rondava aquela casa, e que só sairia dali quando o levasse.
Muito triste, atravessei a ponte de Socorro me despedindo em silêncio do rio, das árvores, de tudo aquilo que eu amava. E como eu passaria a morar com eles, meus pais me transferiram do Grupo escolar de Socorro, para o colégio Carneiro Leão, no centro do Recife.
Durante um ano vivi um sentimento ambivalente: a tristeza de ver meu padrinho em casa, sofrendo horrivelmente, definhando dia a dia, e a alegria de viajar sozinha de trem, descer na Estação Central e percorrer as ruas da cidade até chegar ao colégio.
Minha madrinha me dava dois cruzeiros por dia, e como as passagens de trem custavam CR$ 1, 20, eu juntava o troco de três dias, e a caminho da estação, de volta para casa, comprava um pão-de-ló e ia comendo-o pela rua.
Tudo no Recife me encantava: a estação Central, o teatro Santa Isabel, as vendedoras de tapioca, de cachorro quente, as bancas de frutas na ponte Duarte Coelho, o perfume de cajá, de pitombas e mangabas se espalhando no ar...Ainda hoje quando penso em felicidade tento rememorar aquele sentimento que me tomava naquelas andanças por minha cidade... mas, como toda felicidade, durava pouco, chegando em casa voltava a tristeza por ver meu padrinho morrendo aos poucos, e a angústia de saber que me era destinado viver aquela dor até o momento final.
E um dia ele chegou: meu padrinho morreu. E aquela casa que antes já me parecia triste,
tornou-se mais e mais vazia sem sua presença falando de livros, falando de sua aldeia.
Alguns dias depois do enterro, meu pai veio me buscar e me trouxe outra triste notícia: ele tinha sido promovido e transferido para o 4º RI, quartel de Quitaúna, São Paulo...
Depois de alguns dias atravessei a ponte de Socorro pela última vez. Ali, olhando a cachoeira, dei adeus à minha infância, e deixei, à beira do rio Jaboatão, os melhores anos de minha vida.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Gália, SP: a Música dos Mestres - João dos Reis




“Ao escrever, e independentemente do valor do que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência de que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre. (...) ao escrever, dou à terra, que para mim é tudo, um pouco do que é da terra. Nesse sentido, escrever é para mim morrer um pouco, antecipar um regresso definitivo à terra. Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras. Violento-me”. Ruy Belo, Breve Programa para uma Iniciação ao Canto.

“Música dos Mestres” da Rádio Gazeta iniciava com a Ária da corda sol de Bach. Era uma hora de programação – que me acompanhou desde a infância em Gália, no centro-oeste paulista.

Meu irmão frequentava o conservatório público da cidade vizinha, Garça – e foi por ele que descobri o programa diário, de segunda a sábado, das 13 às 14 horas. Durante muitos anos, fui ouvinte assíduo dos grandes compositores. Mais tarde, morando em Osasco, pela Rádio Eldorado e Cultura de São Paulo.

Como foi possível um piá, caipira do interior, ouvir a música que sempre foi privilégio da aristocracia e, mais tarde, da burguesia? Devo ao prefeito João Ferreira (1960-1963) o projeto que mudou minha vida intelectual para sempre: a criação da biblioteca pública na cidade de Gália. E, em Garça, a existência de um conservatório público. Foram as duas fontes de cultura e informação importantes para mim: me encantei pelas palavras e pelos sons.

Não cheguei a tocar nenhum instrumento; descobri que não tinha talento para me tornar um pianista, e sim, uma paixão pelo mundo das palavras. Em 1961, quando cheguei à cidade proletária de Osasco, as ruas eram de terra, o esgoto era a céu aberto, o curso ginasial era à noite. Foram os grandes mestres da música e da literatura que me acompanharam na aventura inglória de sair da realidade de pobreza e miséria.

Canto Orfeônico era o nome da disciplina no currículo escolar (hoje, da 5ª a 8ª série). Duas professoras, Vera Corentchuk no Gepa (Ginásio Estadual de Presidente Altino) e Marina no Ceneart (Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares) foram duas grandes incentivadoras: para não esquecer a arte dos grandes mestres.

O primeiro toca-discos que comprei nos anos 70 era portátil – e não cheguei a ter nenhum disco de música clássica. Continuava ouvinte dos programas da Rádio Eldorado e, depois da Rádio Cultura.

Lembro dos anos que vivi no Litoral Norte de São Paulo: estava isolado, não tinha rádio ou televisão. Comprei nos anos 70 um aparelho de som Gradiente – que tenho até hoje; mas foi apenas com a chegada dos CDs é que iniciei minha pequena coleção.

Quase não frequentei salas de concertos ou o Teatro Municipal de São Paulo. Nos anos 80, ganhei de um programa da Rádio Cultura a entrada para uma apresentação do pianista Arnaldo Cohen no Teatro Cultura Artística – uma experiência emocionante. Hoje, a revolução tecnológica torna possível ver e ouvir as grandes orquestras e os pianistas, violinistas - uma viagem fascinante com um toque no computador.

Os programas da FM Cultura comentam, às vezes, a vida dos compositores. Muitas vezes me emocionei com o drama vivido por Robert e Clara Wieck Schumann, com a morte trágica de Piotr Ilicht Tchaikovski, com a exilio de Frederic Franciszek Chopin, com a ausência dos sons no final da vida de Ludwig van Beethoven – para citar alguns dos mestres mais admirados.

Foi ouvindo emocionado o Concerto número 2, opus 18, de Serguei Rachmaninoff, que iniciei essa crônica dedicada aos que me aproximaram da música e da literatura. Reflito às vezes que a iniciação musical e literária que relato para vocês foi uma educação sentimental, mas também a minha salvação: para não submergir em um mundo sem arte e beleza.

NOTA: a citação de “Breve Programa para uma Iniciação ao canto”, de Ruy Belo, in “Todos os poemas”, vol. II, Assírio & Alvim Ed., Lisboa, 2004, pp. 9/10

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O último adeus: meu avô Marcelino Matheus Ferro - João dos Reis



“Há palavras lança-chamas,
Conheço algumas que nos fazem viver,
por não serem simples som
mas estradas incendiadas por dentro,
duplos corações batendo com o calor
da certeza do dia que se segue.
(...) Quebrando o meu silêncio,
povoo alguns espaços de alegria.
(...) Nas palavras me encontro.
Cansado, quase morto, à espera,
sempre à espera. Nas palavras vivo,
denuncio ou ataco. Há um grande sol
à nossa espera. Quantos somos?”
Trecho do poema “Algumas palavras” de Eduardo Guerra Carneiro.

Para Anna Rosa Ferro Palacio

Estou sozinho na estação de Duartina à espera do trem para São Paulo. Meu avô Marcelino Matheus Ferro não me acompanha: teve um acidente vascular cerebral e está acamado. Despedi-me dele em silêncio – e foi a última vez que o vi. Foi a imagem mais triste que ficou das minhas férias na minha cidade natal do interior de São Paulo.

Todos os anos ia visitá-lo – era um período de descanso da rotina de trabalho e estudo - e uma volta ao passado familiar. Minha avó Elisa de Jesus Ferro sempre me esperava com meus pratos preferidos: bacalhau à moda de Trás-os-Montes ou lombo assado – e a sobremesa de manjar de côco com ameixas.

Como eram as nossas conversas? Antes de vir para o Brasil, eram agricultores – plantação de vinha, oliveira, figueira -, e do pastoreio de carneiros. Meu avô era de um mutismo absoluto; com ele, nascido nas montanhas do Norte de Portugal, aprendi o segredo das palavras: elas têm uma magia que cabe a nós descobrir a cada vez que precisamos usá-las
.
Procurava saber como foi a travessia do Atlântico em 1926 na viagem de aventura para a América. Que sonhos eles carregavam, deixando os pais e familiares? Era um piá – e mesmo quando adolescente e na juventude, perguntava a eles: o que esperavam do Novo Mundo?

Tia Aurora e a pequena Sonia - que morreram muito jovens -, e minha avó paterna Pasqualina Negrini dos Reis estavam sepultadas no cemitério da cidade. Acompanhei muitas vezes minha avó Elisa nas visitas e nas orações a elas, que partiram inesperadamente: o mistério da vida e da morte estava sempre presente.

Vocês devem ainda estar me perguntando: como era o nosso diálogo? Lia para eles as cartas que vinham de Portugal – e que falavam do trabalho com a terra, a neve de dezembro, o cotidiano na aldeia. Na foto, a tia-avó Piedade, octagenária, de cabelos brancos, olhando-nos - e eu me perguntava: ela estava feliz, solitária, sob os cuidados de dois sobrinhos solteiros que permaneceram em Trás-os-Montes? Nas imagens, eles apareciam em frente a uma casa construída com pedras: como eles enfrentavam o frio e o vento do inverno?

Tia Anna Rosa me contou há anos que não havia mais descendentes dos Ferro na província – todos partiram para a França. Uma noticia recente - de uma amiga dela que esteve viajando pela Europa - revelou que ainda há parentes que vivem na região. Estamos planejando uma viagem – mas há um oceano a nos separar das nossas raízes trasmontanas.

Era sempre meu avô Marcelino que me acompanhava à estação de trem – e eu me despedia beijando a sua mão– e o fiz desde criança. Lembro que depois o abraçava e agradecia a garrafa de vinho que ele abrira para comemorar a minha visita.

Meu avô me presenteou com a bíblia do século XIX que ele ganhou do meu bisavô. Outra recordação é uma pedra que tenho na mesa da minha casa: ele a usava como apoio aos papéis de embrulho. É ela a presença mais visível dele e da nossa convivência mergulhada em silêncio – que descobri mais tarde tinha sido muito feliz.

Estava lecionando no Litoral Norte de São Paulo, e tinha vindo visitar minha mãe em Osasco – não soube que, no domingo , dois de março de 1975, em que retornava ao Litoral Norte, ele faleceu. Não havia telefone onde morava, e só fui informado na manhã de 3ª feira por Antonia Carlota Gomes, diretora da escola onde trabalhava em Caraguatatuba. À tarde procurei a solidão da praia deserta para o meu último adeus.

NOTA: o poema “Algumas palavras”, de Eduardo Guerra Carneiro, in “Antologia da poesia portuguesa contemporânea – um panorama”, org. de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Editora Lacerda, Rio de Janeiro, 1999, pp.371/372.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

REFLEXÕES sobre “Herdando uma biblioteca”, de Miguel Sanches Neto - João dos Reis



Para Linda Kawakita

“Não venho de uma biblioteca paterna, e sim de sua ausência. Tive que buscar a figura do pai em amigos e autores e fiz das afinidades culturais o caminho para esta família, dispersa no tempo e no espaço, que a literatura me deu”(p.34)

Um livro que marcou a temporada no Sul do Brasil foi “Herdando uma biblioteca”, de Miguel Sanches Neto (Editora Record, Rio de Janeiro, 2004, 144 pp.). Reli-o recentemente, e me trouxe recordações como na primeira leitura.

A pequena cidade do interior paranaense de Peabiru estava em “uma região onde importava menos participar da cultura universal do que desbravar uma terra que não dava descanso aos homens” (p. 9) De uma família de lavradores, não havia livros em sua casa - a Biblia ele ganhou do dono de uma sorveteria, e foi a única leitura dele até os 13 anos. Nos manuais escolares as anotações eram a lápis, porque seriam apagadas - para no ano seguinte ser usados pelos irmãos ou outros alunos. Quando foi para o Colégio Agrícola em Campo Mourão, os instrumentos de estudo eram tratores, arados, semeadeiras, grades niveladoras – e foi nessa cidade que entrou pela primeira vez em uma livraria.

Foi um aprendizado a frequência ao mundo da literatura:“Como não tive uma biblioteca familiar, não herdei conceitos nem preconceitos, sendo obrigado a buscar por conta própria os livros que tinham algo para me dizer” (p. 123).

Por que as crônicas do autor me tocaram mesmo em uma releitura? Lembrei da minha descoberta em Gália, no centro-oeste paulista: o prefeito João Ferreira criou uma biblioteca pública no prédio da prefeitura: fiquei encantado com a quantidade de livros; tinha livre escolha, mas apenas da secção infantil. E, depois de alfabetizado, o primeiro (e único) livro que ganhei da minha tia Anna Rosa: “O patinho feio”, de Hans Christian Andersen. Por falta de opção, comprava semanalmente na banca de jornais a revista do Pato Donald - cheguei a ter uma coleção.

Com 12 anos, já morando em Osasco, no Ginásio de Presidente Altino (Gepa), o professor de História, Josué Augusto da Silva Leite emprestava livros nos intervalos das aulas: li José de Alencar, Machado de Assis e Monteiro Lobato, indicados por ele. Ao querido mestre sou muito grato por me apresentar aos grandes escritores, desconhecidos pelo menino caipira do interior – e pelo presente no final do ano, um dicionário de francês.

Minha dívida com o professor de Latim e Português do Gepa e do Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares (Ceneart), Fernando Buonaduce, é impagável: ele me deu livre acesso à biblioteca da sua casa; e foi lá que encontrei os livros de literatura da Coleção Saraiva e do Clube do Livro – que me apresentaram os escritores contemporâneos.

Mais tarde Miguel Sanches Neto formou seu acervo particular, publicou seus próprios livros, passou a frequentar livrarias e sebos, bibliotecas públicas. Ele revela: “entramos nelas com um sentimento de orgulho por fazer parte daquele vasto universo, constituído ao longo dos séculos para satisfazer nossas necessidades de distração e conhecimento” (p.57).

Eu também tive meus pais e avós imigrantes ligados ao trabalho na terra – e não eram leitores; havia em minha casa apenas dois volumes de medicina natural; a bíblia do meu avô materno era uma edição resumida do século XIX, que ele me presenteou pouco antes de morrer.

Trabalhei quatro anos na Biblioteca "Monteiro Lobato" em Osasco, quando era estudante universitário, mas havia poucos livros e espaço – e nunca tive tempo para frequentar a biblioteca da USP ou a Mario de Andrade em São Paulo. Morando na capital paranaense, frequentei livrarias, sebos, e às vezes, a biblioteca do meu bairro, o Farol do Saber, ou da rua da Cidadania (subprefeitura).

Foi com dificuldade, aos poucos, que iniciei minha coleção. Em Curitiba, foi um processo inverso: a doação de dezenas deles para a biblioteca do Museu Metropolitano no bairro Portão ou de alguns para o amigo Ewerton; já morando em Cotia, como a biblioteca da cidade não aceitava doações, contribuí para formar uma pequena biblioteca na subsede do sindicatos dos professores (Apeoesp), e vendi outros para o sebo “Livraria Universo Literário” de Osasco.

O piá do interior do Paraná que buscava nos livros um novo mundo adaptou um anexo na sua casa para abrigá-los, tornou-se mais tarde professor de Literatura da Universidade Estadual de Ponta Grossa, escritor e crítico literário. Eu continuo um leitor que não pretende mais guardá-los – ainda tenho algumas centenas deles em casa, mas cada vez mais procuro fazer com que circulem pelas cidades em que deixei amigos, estive de passagem e que aprendi a amar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

LEMBRANÇAS, ainda lembranças... João dos Reis


Para Sergio Emanuel Dias Campos, do Rio de Janeiro

Ciça Marinho (Maria Anunciação Nunes Marinho) canta o fado “Igreja de Santo Estevão” na Quinta do Bacalhau, na Estrada de Caucaia, em Cotia, no sábado, 12 de setembro de 2015. Acompanhada do também fadista Tiago Felipe, da guitarra portuguesa de Wallace Oliveira e do violão de Sergio Borges, a noite trouxe de volta as lembranças da minha infância.

Com 7 anos ouvia junto com meu pai Antonio, na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, um programa apenas de fados no rádio a pilha. Depois, já morando na cidade de Gália, SP, continuei um ouvinte assíduo da música da minha mãe e dos meus avós portugueses. Qual a influência desses relatos de saudades, de tristezas, de “nostalgias, de não sei o quê – de tudo o que a vida tem, de tudo mesmo”, como me escreveu Sergio Emanuel, comentando minhas últimas crônicas, e deixando-me honrado com a frase : “artista que és, sabes do que se trata”.

Tinha 16 anos no curso Clássico no Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares (Ceneart) e descobri a bossa nova pela professora de Literatura e Língua Portuguesa, Darly Nicolanna Scornaenchi: ela trouxe uma vitrola portátil para a sala de aula para ouvirmos Vinicius de Moraes e Carlos Lira. Foi uma novidade: eu, que na infância vivi a tristeza do fado, descobri a alegria nos versos do poeta.

O que dizia Vinicius de Moraes em “Minha namorada”, que me encantou? “Você tem que vir comigo em meu caminho / E talvez o meu caminho seja triste para você / Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos / Os seus braços o meu ninho / No silêncio de depois/ E você tem que ser a estrela derradeira / Minha amiga e companheira / No infinito de nós dois”.

Na minha visita recente a Pedro Paulo, em Ubatuba, ouvimos o último CD de Chico Buarque – e procurei fugir dos temas da política contemporânea porque não vejo sinais de esperança de um novo tempo. Conversamos sobre a presença do compositor-escritor e as nossas vivências literárias. O que o artista nos revela, mas nós não conseguimos expressar com as palavras? Perguntei ao amigo-poeta: quem ainda hoje admiramos? E quais são as nossas leituras?

O papel da música na minha infância e adolescência despertou a reflexão: por que ela nos conduz, desafiando o ramerrão cotidiano, ao mundo da beleza? Por que os sentimentos como a tristeza e a alegria, a dor e a compaixão, recriados pela imaginação artística, são capazes de nos deixar mais próximos da humanidade?

As interrogações são possíveis porque somos capazes de sentir a vida como uma permanente viagem – e a música e a literatura podem ser nossas companheiras nessa aventura desesperada.

Quando escrevo, sinto a inadequação de que fala Cristovão Tezza, que foi a mais prazerosa descoberta na minha temporada no Sul do Brasil. Por que escrevo? Para quem escrevo? Ele diz que “pessoas felizes não escrevem”, e que o escritor “tentará recuperar, pelo trabalho beneditino da escrita, a sua alma usurpada”.

O restaurante no sábado de 12 de setembro estava lotado, mas eu estava sozinho: meus caros amigos Edna Maria e Erasmo não puderam me fazer companhia. Com a jovem garçonete Ana, minha vizinha no bairro Tijuco Preto, conversei nos intervalos do seu árduo trabalho de atender aos convivas – foi o diálogo com o presente e com o passado que tornou possível registrar minhas impressões da noite musical.

Para Cristovão Tezza, “a realização literária parece sempre alargar a perspectiva solitária do indivíduo para criar uma outra forma comunitária, de natureza quase clandestina. É inescapável: escrevemos porque queremos chegar aos outros”.

Quando iniciei a crônica, não estava ouvindo fados, mas sim um CD de Astor Piazzolla; terminei ao som de “Adiós Nonino”, que o músico compôs após a morte do seu pai – e o artista disse que, ao criar esse tango, se sentiu rodeado de anjos.

NOTA: as citações de Cristovão Tezza são de “O espírito da prosa – uma autobiografia literária”, Editora Record, Rio de Janeiro, 2012, p. 83 e 209.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Osasco: um novo jornal, o “Primeira Hora" _ João dos Reis


“Brasil: a policia que prende, tortura e mata” dizia a manchete do “Primeira Hora” do inicio dos anos 90. Na semana seguinte, estudantes protestavam em frente à Câmara Municipal – e Marcelino Jesus de Lima, jornalista do semanário, foi espancado com um cacetete por um policial quando fazia uma reportagem sobre a manifestação.

Essa é uma das lembranças da minha colaboração para o jornal, que foi fundado por Antonio Roberto Espinosa em 1985 e que circulou até 2000. Nos primeiros anos, escrevi resenhas de livros. Depois, retomei a militância pelo novo canal de comunicação: escrevi textos a partir dos relatórios da Anistia Internacional, como o da manchete acima, que foi elaborada pelo editor. Foi um desafio premeditado à truculência policial nesse inicio da redemocratização no país.

Osasco foi um bairro de São Paulo, e quando tornou-se independente em 1962, teve sempre a imagem marcada pela criminalidade. Foi uma propaganda deliberada de vincular a cidade à violência, uma represália à revolta de estudantes e trabalhadores em 1968. Finalmente, tínhamos um jornal que discutia política, economia, literatura, entre outros assuntos comuns à pauta jornalística.

A recordação ficou gravada na memória: a primeira redação na Avenida Carlos de Morais Barros, na Vila Campesina: Jesse Navarro e os jovens Fábio Sanches, Luis Brandino e Marcelino. Foi com eles que tive um convivio mais próximo. Colaboradores contribuíram com o seu trabalho voluntário para essa empreitada: as irmãs Mércia e Risomar Fasanaro, Horácio Coutinho, Geraldo Carlos Nascimento, Albertino Souza Oliva, e muitos outros.

Com a equipe de intelectuais da comunicação mantive laços de amizade – e ainda hoje tenho noticias deles, informações onde trabalham. Não sei se eles escreveram sobre essa experiência - a construção de uma nova visão da cidade da periferia da metrópole.

Minha visão e reconstrução das imagens é sempre marcada pela subjetividade. Muitos outros recortes da realidade da cidade poderiam surgir – e cabe aos personagens participantes dessa experiência contá-la para os osasquenses do novo século.

Tinha voltado ao magistério em 1984, e distribuía alguns exemplares do jornal para os representantes de classe das escolas “”Vicente Peixoto” e “José Maria Rodrigues Leite” em que lecionava Filosofia. Dizia aos alunos: “o jornal é o pão do filósofo”, o ponto de partida para a reflexão sobre o cotidiano, a realidade da cidade, do país.

A História tem um registro desses anos esquecida. Hoje, quem pretende conhecer o passado de Osasco desse período, não tem onde consultar; uma coleção com um exemplar de cada edição do jornal permanece à espera de um projeto de digitalização – e assim, torná-la acessível aos pesquisadores.

Depois de tantos anos, me pergunto: que lembranças permanecem nos meus alunos e nos leitores das inúmeras páginas que escrevemos? No arquivo pessoal da memória ficou uma entrevista realizada por Risomar com o luthier, um construtor de violino. Um personagem até então anônimo, desconhecido – e que foi descoberto pela artista plástica Cristina Leite.

Fui professor por mais de duas décadas, e pensava que o discurso verbal se perdia na sala de aula. A marca desse tempo de colaboração com o jornal foi imprimir as ideias, as reflexões, as informações – uma responsabilidade de quem escreve. Porque me perguntava ao entregar os artigos para o editor: quem é o leitor? As palavras têm a força de mudar o mundo, as pessoas? Não tinha ilusão, mas sabia, com certeza, que não era um combate perdido, depois de anos de censura durante a ditadura militar.

E encerro com a mensagem que Antonio Roberto Espinosa escreveu para os que estiveram no reencontro que se realizou domingo, dia 13:

"Para os companheiros-camaradas de Osasco, a cidade proletária, dizia: o “Primeira Hora” é o instrumento que dispomos para confrontar a imprensa burguesa dominante. E, apesar do pessimismo de muitos, foi com a arma das palavras que nos preparamos para as novas batalhas do futuro.Fraternidade e Verdade pra sempre!

O espírito irrequieto, a curiosidade e o bom humor nunca nos faltaram, assim como a disposição para a reportagem e a vontade do texto bem construído, da fotografia única, da ilustração aguda e da página bem equilibrada. Escrever até que não é difícil. O difícil é ser lido e respeitado. PH foi caso único de bom gosto e irreverência, trabalho até de madrugada e alegria a cada exemplar impresso. Somos o produto do amor pela verdade e da paixão pela liberdade e a igualdade.

O jornal acabou, para nós, na edição 927, quando lhe desejamos que seguisse sua marcha com dedicação e sorte. Infelizmente enquanto veículo o PH não sobreviveu muito tempo. Mas a busca da verdade, que sempre o caracterizou, a fraternidade e a união do pessoal que o fazia permanecem vivos em nós. Seguem em cada um dos que o tornaram realidade, um momento sublime em nossas vidas e na história de Osasco e Região. Este almoço, quinze anos depois do fim, é uma mostra de que a luta pela liberdade é sempre uma jovem senhorita e está sempre na puberdade. E que seguimos em frente!


Osasco, 13 de setembro de 2015

Jornal PRIMEIRA HORA"

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

RECORDAÇÕES de Curitiba e do Litoral Norte paulista - João dos Reis



“Amigo para mim é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é”. João Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”.

Para Stezel e Sandra Ceschini Sussmann

Estava com Ewerton no bar e ele pediu “carne de onça”. “Pierog” era o prato aos domingos – na minha casa e também na de Felis, de Araucária, na região metropolitana; para acompanhar o vinho Campo Largo na Lanchonete Badech, pedia uma “vina”. No Supermercado Videira no bairro Pinheirinho pedia duas “cuecas viradas”, uma dúzia de “banana caturra” e de “mimosa”; e no açougue, 200 gramas de “posta branca e vermelha”. Nas ruas, respeitava o sinaleiro; os problemas com o carro resolvia fazendo geometria ou procurava o estofador e o latoeiro. Essas são algumas das palavras usadas em Curitiba – e que eu tive que me adaptar durante a minha temporada entre 1999-2005.

Foi difícil viver a realidade do Litoral Norte paulista – Caraguatatuba, São Sebastião, Ubatuba e Ilha Bela – nos anos 70. Não houve um outro universo vocabular, mas um choque cultural: as comunidades tradicionais passavam por um processo acelerado de mudança. A construção da Rodovia Rio Santos ameaçava a cultura caiçara, preservada durante séculos. As danças, folguedos, as festas, a linguagem podiam desaparecer com a invasão dos novos habitantes: migrantes e os novos proprietários das terras.

Como pensar essas duas realidades culturais depois de muitos anos? Durante minha residência em outras cidades, deixei amigos-camaradas. Tenho contato com alguns deles até hoje, mas muitos se perderam pelo caminho – permanecem as imagens, as lembranças. Como me redimir pelo abandono de alguns deles, que foram sempre companheiros fiéis e solidários? Recordo que fui convidado e passei o fim de semana na casa de uma aluna na praia do Lázaro em Ubatuba – a família era de pescadores; nunca mais tive informação deles.

As minhas últimas crônicas são uma retomada dessas recordações – e daqueles que foram importantes na longa aventura pelo litoral paulista ou pelo Sul do Brasil. Me pergunto: o que ficou desse período de confraternização e camaradagem? Há alguma possibilidade de que os laços de amizade permaneçam?

No tempo presente, em que a comunicação acontece a todo o momento, é difícil entender como é possível não saber noticias, que aqueles que nos são caros, “desaparecem” na vastidão do nosso planeta. De Curitiba, sei noticias dos amigos – por e-mail, pelo celular. Do Litoral Norte paulista retomei a amizade, depois de décadas, com o professor-poeta – e “conversamos” pela internet ou por telefone.

Depois de oito anos, retornei a Curitiba: reencontrei Arthur, o piá com quem convivi mais tempo - ele é hoje um jovem de 17 anos, estudante de Filosofia e piano; Ewerton, o pai dele, é hoje um “restauranteur” e sommellier. Felis, o amigo de Araucária, continua no trabalho na agricultura no sitio da família. A amiga Mazé, artista plástica, está presente na vida cultural curitibana. O professor-poeta Pedro Paulo se aposentou – e ainda é atuante na vida política da cidade de Ubatuba.

E vocês devem estar me interrogando: e eu, qual o meu destino depois de tantos caminhos? Não sei - respondo à pergunta: para os viajantes, não há um porto de chegada, estamos sempre “em trânsito”, como transitória é a vida.

Para vocês, que devem estar curiosos sobre o significado do “curitibês” do inicio da crônica: “carne de onça” é um prato à base de carne moída crua; “pierog” é um pastel de origem polonesa; “vina” é salsicha; “cueca virada” é um biscoito; “banana caturra” é banana nanica; “mimosa” é mexerica; “posta vermelha” é colchão duro – “posta branca” é lagarto; “sinaleiro” é semáforo; “fazer geometria” é o alinhamento das rodas do carro; “estofador” é tapeceiro; “latoeiro” é funileiro.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

REFLEXÕES sobre “O professor”, de Cristovão Tezza, - João dos Reis



Para o professor Erasmo d’Almeida Magalhães

“... repetir o mesmo gesto de milhares de vezes, atravessar a porta dupla com meu passo solene, sorrir discretamente para os 60 alunos de sempre, colocar livros, pastas com textos corrigidos e caderneta de chamada sobre a mesa, e (...) então eu diria ‘bom dia’”. A rotina do personagem do livro do escritor Cristovão Tezza é abalada com a chegada de uma nova aluna.

O livro é uma reflexão de Heliseu da Motta e Silva, sobre as lembranças do passado. “A memória obedece à lógica fotográfica”, diz o personagem, e é “preciso organizar a memória ou jamais descobrirei o sentido da minha vida”. Assistimos o desenrolar de um dia na vida do professor de Filologia Românica; ele receberá uma homenagem na universidade onde lecionou por décadas.

Quem é Therèze, a discípula que apresenta um mundo de sentimentos ainda não vividos pelo pacato mestre? Qual o papel desempenhado por Monica, a esposa que faz parte desse mundo ordenado, mas sem a esperança de um futuro luminoso? E como a morte dela em uma situação trágica leva-nos a suspeitar de um crime, embora carregado de contradições? Por que a presença e ausência do único filho é um sentimento doloroso?

Descobri o escritor catarinense nos anos que vivi em Curitiba. Li todos os seus livros – buscando nas bibliotecas da cidade. O que mais me impressionou foi “Trapo”, de 1998. O professor de Linguistica da Universidade Federal do Paraná era, então, um ilustre desconhecido na cena cultural brasileira, apesar de já ter publicado outros livros por editoras do Sul e ser um cronista frequente do jornal “Gazeta do Povo”.

Heliseu, o personagem, está com 70 anos. É a descoberta da velhice, essa”tranquila proximidade da morte”: “eu não era mais contemporâneo dos meus alunos”, diz ele. Como não reconhecer o conflito de sentimentos do professor que não se engajou nas lutas do seu tempo? É o histórico de uma vida sem as emoções da juventude. Para quem está revendo as imagens e as pessoas da sua biografia, qual é o balanço final?

“Nunca tive o dom, ou o poder, da solidão, aquela coisa espessa e impenetrável que fez a vida do meu pai: ‘eu não preciso de ninguém’, ele sempre me dizia, o que era a um tempo um conselho, uma maldição e uma ameaça”. No apartamento, enquanto se prepara para a sessão em que será homenageado, o personagem reflete – o livro intercala o tempo passado e o presente.

Como o personagem enfrenta o dilema de encontrar um sentido para o seu destino? “... aquele silêncio tranquilo de gestos previsíveis, o cronograma das horas e das atividades (...) a aceitação pacificada da rotina e da convivência mecânica, as engrenagens miúdas e grandes que vão nos moendo (...), pois chega um instante em que cai um grão de areia nas rodas mentais, um encontro desacertado de dentes girando em falso, e nos vemos perdidos, de volta ao acaso da realidade, e sentimos que a máquina vai destrambelhar, todas soltas, molas estouradas”.

Os livros de Cristovão Tezza foi uma revelação para mim no final dos anos 90. O escritor nasceu em Lages, Santa Catarina, mas quando tinha sete anos mudou-se para Curitiba, onde vive até hoje. Tornou-se conhecido depois de ganhar todos os prêmios literários com “O filho eterno”- e ser traduzido em mais de uma dezena de países. Ao lado de Dalton Trevisan, é a presença literária que mais marcou minha temporada no Sul. Em uma cidade em que as pessoas se encontram - nos bares, cinema, teatro, livrarias – eu perambulava pelas ruas, esperando encontrá-los um dia - e refletia como seus personagens: vivemos o desencontro, e não há saídas, estamos condenados à solidão.

NOTA: Sou grato a Erasmo d’A.Magalhães e Edna M.Fernandes dos Santos por me presentear com o livro “O professor”, de Cristovão Tezza.
"O Professor"-Editora Record, Rio de Janeiro, 2014, 240 pp.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Telas em pintura abstrata de Risomar Fasanaro - à venda


História coletiva/ HIstória singular: que conversa é esta? - Alfredina Nery



Desde a leitura do livro de Saramago “A Caverna” (*), a ficha começou a cair verdadeiramente, mesmo que há tempos (décadas?) já estava lá no fio da navalha! Disseca-se, neste romance, através da história de pessoas comuns, o impacto destruidor da nova economia sobre as economias tradicionais e locais em que toda uma concepção de sociedade se modificava: um artesão de louça de barro teve, acompanhando as mudanças, que se transformar num fazedor de objetos de plástico. Não mais artesão e sim operário. Não mais o sentido do trabalho, como autor do mesmo. E sim o sentido da sobrevivência material, em tempos outros da economia de massa, do lucro, da compra das mentes e afetos.
Saltos no tempo e espaço. Uma família vivia no interior de São Paulo, com a profissão de um artesão: pai, alfaiate. Cinco filhos e mulher. Com o passar dos anos, ninguém mais tinha tempo para esta roupa feita na medida e gosto de cada um, além do talento de quem a fazia. Comprar o tecido, escolher o modelo, levar no alfaiate, tirar medidas, esperar o momento de “provar” a roupa alinhavada, esperar o término da mesma e, por fim, ir buscá-la. E neste meio de tempo, conversar a prosa boa de duas pessoas que se conheciam há tempos, que falavam da vida, dos sonhos, como bons amigos o fazem. Não. Isto começou a ser coisa do passado.
Ir à loja, comprar uma roupa pronta, não precisava comparar o tecido, esperar a confecção... Isto tudo mudava, com a pressa própria da fábrica, da urbanidade, que começava a entrar como uma ferida na vida de todos, sem que o percebessem, mas em nome de um progresso. Qual mesmo?
O pai alfaiate, na década de 60 do século XX, precisava sustentar a família e foram para a capital, em busca de mais trabalho que se rareou na pequena localidade e ainda mais com os filhos crescendo. Lá, virou operário de uma grande alfaiataria. Não mais trabalhar “por conta própria”; não mais fazer a roupa com a satisfação e o tempo de um artesão. Não! Agora era apenas um número, como os fregueses das lojas de roupas. A tristeza desta nova realidade foi aparecendo em seu corpo curvado e lento. Faltava a prosa boa. Faltava o brilho nos olhos ao perceber a beleza da peça que confeccionava exatamente para “aquela” pessoa diante dele. Faltava a autonomia do trabalho. Faltava se reconhecer em cada peça confeccionada, com mãos ágeis, que também tocavam violão e pernas que jogavam futebol.
Mais saltos no tempo. Enquanto pai e mãe estavam vivos, especialmente as chamadas festas de aniversário, de fim de ano e alguns domingos reuniam três gerações, como nas demais famílias. Parecia que isto os alimentava para o ano todo. Com o tempo, alguns rituais familiares foram sendo engolidos na cidade grande. A luta pela sobrevivência apagando identidades, assujeitando sensibilidades, construindo outros caminhos.
E agora, lendo o último artigo de Oliver Sachs “Shabat, o sétimo dia da semana, ou da vida”... (**) a ficha acabou de cair, nesta tentativa de “costurar” um exemplo da história coletiva e da história singular e me compreender melhor nisto tudo. Um homem com o histórico de Sachs retoma os rituais da infância em família enorme, judia, com uma vida comunitária, considerando também suas experiências em outras lugares e tempos, para se fortalecer, para se compreender e para morrer com um câncer! (ele faleceu no dia último dia 30 de agosto)
De repente, fica tão evidente, para mim, como muitos de nós, do mundo contemporâneo, da cidade grande, fomos perdendo as raízes, as poucas que ainda nos restavam. Como explicar com a história coletiva em mente as atitudes de duas famílias que me são próximas? Como entender então que uma irmã e dois irmãos da mesma família morem na mesma cidade, há poucos quarteirões e NUNCA se visitem? Como explicar que uma irmã visite seu filho na mesma cidade do irmão e não vá à sua casa e vice-versa? Como explicar que um irmão passa em frente à casa da irmã, quando viaja para sua casa de praia e não pára para visitá-la e vice-versa?
Estou me referindo ao primeiro núcleo que é a família... O que pensar então, de outros grupos de que (não) participamos? Em que descaminhos da perda de identidade, da perda dos rituais afetivos, da fragmentação e dissolução do sujeito contemporâneo estamos?

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(*) A caverna é uma história de gente simples: um oleiro, um guarda, duas mulheres e um cão muito humano. Esses personagens circulam pelo Centro, um gigantesco monumento do consumo onde os moradores usam crachá, são vigiados por câmeras de vídeo e não podem abrir as janelas de casa. É no Centro que trabalha o guarda Marçal. Era para o Centro que seu sogro, o oleiro Cipriano, vendia a louça de barro que fabricava artesanalmente na aldeota em que vive - agora, os clientes do Centro preferem pratos e jarros de plástico. Sem outro ofício na vida, Cipriano perde a razão de viver. E a convite do genro, muda-se para o Centro, essa verdadeira gruta onde milhares de pessoas se divertem, comem e trabalham sem verem a luz do sol e da lua. Enquanto isso, embaixo dos diversos subsolos, os funcionários do Centro descobrem uma estranha caverna. Driblando a vigilância, Cipriano consegue entrar lá dentro. O que descobre é aterrador. Nesta versão moderna do mito da caverna de Platão, José Saramago faz uma apresentação sutil da face cruel do mundo capitalista e tecnológico.
(Sinopse do site da Editora Companhia das Letras que editou o livro, em 2000)
(**) Folha de S.Paulo-06setembro2015- p. 10- ILUSTRISSIMA