sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Recordando Jesse Navarro - João dos Reis



Jesse e Cidinha em visita ao amigo José Campos Barreto no DOPS de São Paulo. Eles foram indicados por ele para visitá-lo, depois da prisão na Cobrasma, na greve de 1968 em Osasco. Em 17 de setembro de 1971, Barreto foi executado pelas forças de repressão do regime militar, junto com o capitão Carlos Lamarca, no sertão da Bahia.

Estudamos juntos no curso Clássico no Ceneart (Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares) em Osasco. Com um outro grupo de estudantes, eu e Jesse fazíamos parte de uma célula estudantil do PCB. Participamos de reuniões nos bairros da cidade proletária, e em uma delas, a que decidiu a saída de militantes para a ALN (Aliança Libertadora Nacional) de Carlos Marighella.

São algumas das lembranças de Jesse Navarro e Cidinha (Maria Aparecida Medeiros), meus queridos amigos da adolescência. Tivemos muitos momentos de companheirismo. Acampamos nas margens da represa de Ibiuna; em outra vez, na Praia Dura em Ubatuba. Eles foram a companhia sempre presente na minha juventude.
Apaixonados por literatura, foram eles que me emprestaram os livros dos novos escritores brasileiros. Foram diálogos, comentários e impressões sobre a vida literária e política desses anos desesperados.

Fomos assistir em setembro de 1966 a “Os pequenos burgueses”, de Maksim Gorki, no Teatro Oficina em São Paulo. O personagem Teteriev, com o ator Raul Cortez, foi inesquecível para ele: depois, na sala de aula, ele me impressionou ao interpretar a revolta e a emoção do personagem gorkiano para nossos colegas de classe. Para Teteriev, o “pequeno burguês exemplar” é “essa mesquinharia consumada, esta força que derrota até os heróis... e que vive e triunfa”. Para outro personagem, Nin, “nenhum deles sente que a vida está podre por causa deles mesmos. Eles fazem da vida um exílio, uma catástrofe(...) Mas eu detesto gente que degrada a vida”.

Quando nos anos 70 fui lecionar Filosofia em Caraguatatuba, foram me visitar nas férias deles – e foram muitos dias de sol para passear e confraternizar. Dois convites foram memoráveis: fui com eles a um restaurante no bairro da Lapa – e foi a primeira vez que conheci o filé à cubana. Outra vez, fui ao encontro dele na Editora Abril, onde ele trabalhava, e me levou para conhecer um restaurante japonês em São Paulo, e que na época era uma novidade gastronômica.

Ainda hoje lembro comovido a morte da primeira filha, Soraia, ainda bebê, em um acidente. Não recordo as palavras de consolo que disse a eles em momento tão trágico.

O que conversamos durante tantos anos? Não estive em 31 de outubro de 1975 na celebração ecumênica pela morte de Vladimir Herzog na Catedral da Sé em São Paulo, mas ele me contou que participou desse protesto histórico – que foi um desafio às torturas e assassinatos da ditadura militar no Brasil.

Cursou Jornalismo na ECA (Escola de Comunicação e Artes) da USP. Escreveu contos e um romance, “Voragem dos moribundos” (Editora Vanguarda, São Paulo, 1978).

Foi editor do “Primeira Hora” de Osasco, no final dos anos 80 – e me incentivou para que eu escrevesse resenhas de livros para o semanário. Foi um período em que ia regularmente ao jornal para levar os textos – e recebi dele lições valiosas sobre a linguagem jornalística.

Era sempre com prazer que visitava o casal de amigos do tempo de colégio – e acompanhei o crescimento dos dois filhos, Jessinho e Silvia. Mais tarde, Jesse se separou de Cidinha, casou com Marcia Mello, mudou para São Paulo, e não nos vimos mais. Quando faleceu nos anos 90, não compareci ao velório e sepultamento porque fui informado dias depois.

Todos os meus companheiros que não estão hoje presentes nesse ano de 2017 deixaram um sentimento profundo de tristeza – e que a vida sem eles perdeu o encanto dos anos jovens.

NOTA

Citação das páginas 57 e 63 de “Os pequenos burgueses”, Maksim Gorki, Editora Brasiliense, São Paulo, 2ª edição, maio de 1965, tradução de Fernando Peixoto e José Celso Martinez Correa, prefácio de Boris Schnaiderman, 146 pp.

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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Uma amizade epistolar de meio século: Dom Geraldo Verdier - João dos Reis


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O meu nome é Severinoefr
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o de Maria,
do finado Zacarias.
(João Cabral de Mello Neto, poema “Morte e vida Severina”)

Em 1966, fui ao TUCA, teatro da PUC de São Paulo, assistir ao espetáculo “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Mello Neto, musicado por Chico Buarque – e conheci o padre francês Gérard Verdier. Desde então, mantivemos a amizade e uma correspondência por carta ao longos dos últimos 51 anos.
Estive mais uma vez com ele, quando fui visitá-lo no Seminário de Mogi Mirim, no interior de São Paulo, onde ele lecionava e era pároco de uma igreja. Depois, ele foi para Rondônia, e nunca mais tivemos um novo encontro, apesar das nossas tentativas. Durante muitos anos recebi a revista “Lettre d”Amazonie”, que noticia o dia a dia da missão francesa na Amazônia – era um dos canais de comunicação com ele e com o seu trabalho pastoral.
Estávamos sempre nos informando sobre o nosso trabalho ou refletindo sobre a realidade brasileira. Mais tarde, ele foi ordenado bispo da cidade de Guajará-Mirim, em Rondônia, e acompanhei sempre os problemas da região pela revista ou por suas cartas. Às vezes, ele me escrevia: esteve durante dois meses navegando de barco, visitando as comunidades ribeirinhas, de seringalistas ou as aldeias indígenas. Ou estava na França, visitando parentes e amigos; ou em Roma, no encontro dos bispos no Vaticano.
Fui informado pela revista editada na França, e particularmente por ele - um militante dos direitos humanos dos sem-terras, dos indíos, dos seringueiros, dos presidiários – da dura realidade da Amazônia de hoje. E as realizações da diocese: o Hospital Bom Pastor, o Centro Despertar da criança e do adolescente, a Rádio Católica. Meus projetos de visitá-lo nunca foram possíveis; permaneceu até hoje como um sonho distante de ser realizado.
Foi por ele que fiquei sabendo do massacre em Corumbiara em 1995, um dos conflitos mais trágicos da luta pela terra e por trabalho no Brasil. Por que não guardei a carta em que ele descreve as atrocidades e a sua participação para esclarecer as mortes e os desaparecimentos dos trabalhadores sem-terra?
Duas vezes tentamos um reencontro: em 1987, quando combinamos nos encontrar em um intervalo da Assembléia dos bispos em Itaici, em Indaiatuba, no interior de São Paulo. Depois, nos anos 90, um novo encontro na Catedral da Sé, na capital paulista, que não foi possível diante de um imprevisto. Houve inúmeros convites para visitar a Amazônia, mas o destino tinha nos reservado o papel de amigos epistolares; ele, um bispo-militante na selva amazônica no Norte, eu, um professor na periferia da metrópole no Sudeste: a palavra, o diálogo, foram os instrumentos de aproximação entre mundos tão distantes.
A quem recorrer diante do desconsolo da morte ou suicídio de parentes e amigos? Pedi a ele várias vezes a intercessão da misericórdia divina para o descanso e a paz eterna para quem muito amei - e que partiram inesperadamente do território sagrado do nosso planeta. Foi também a ele que fui narrando aos poucos o inventário da minha vida: as mudanças de ideias, de cidades, de trabalho, e principalmente, sobre os meus dilemas da existência..
Para que servem os amigos? É para eles que recorremos quando precisamos de apoio ou mesmo da simples presença deles. Nem sempre contamos com as oportunidades de encontro na aventura cotidiana. Com a nova tecnologia da comunicação, ficou mais fácil “conversar” - e estar sempre em contato. Tive a honra e o privilégio de ter a amizade de dom Geraldo e tê-lo como leitor das minhas cartas e, atualmente, das minhas crônicas enviadas pelo correio eletrônico.
Cumprimentei-o em março último pelos 80 anos de vida, desejando a coragem e a ataraxia dos estóicos - a tranquilidade da alma - para viver os próximos anos : é o que sempre desejo aos amigos nessa data comemorativa.
Decidi escrever sobre uma amizade improvável de existir ao longo de meio século quando, revendo o filósofo Pascal, reli: “O coração tem suas razões, que a razão não conhece: percebe-se isso em mil coisas.(...) Conhecemos a verdade não só pela razão mas também pelo coração; é desta última maneira que conhecemos os princípios, e é em vão que o raciocínio, que deles não participa, tenta combatê-los” (“Pensamentos”, Abril Cultural, São Paulo, 1973, p. 111). E discordei do texto de Aristóteles: “A distância não rompe a amizade em absoluto, mas apenas a sua atividade. Todavia, se a ausência dura muito tempo, parece realmente fazer com que os homens esqueçam a sua amizade; daí o provérbio ‘longe dos olhos, longe do coração’” (“Ética a Nicômaco”, pp. 383/384, Abril Cultural, São Paulo, 1973).
Dom Geraldo Verdier nasceu em Alban, França, e estudou na ordem franciscana; cursou Teologia em Paris; veio para o Brasil em 1970; em 1975 foi para Guajará-Mirim, e em 1980 foi ordenado bispo , e desde 2011, é bispo emérito dessa cidade – e decidiu permanecer no Brasil. Escreveu o livro, publicado em 2013, “Paixão pela Amazônia – Diocese de Guajará-Mirim: uma igreja missionária”. Continua um ativista dos direitos humanos: em março de 2017, participou de um protesto contra a construção da Hidrelética do Ribeirão, junto com indígenas e ribeirinhos, movimentos sociais e ambientalistas.
Sou um migrante-navegante inveterado: vivi em diferentes cidades, onde deixei amigos queridos. Mas não me esqueci deles; é para eles que retorno às vezes na imaginação, recordando momentos felizes e inesquecíveis da nossa convivência. Lembro sempre a força da memória em nossas vidas, e também o poder da linguagem do coração: é assim que anunciamos nossa presença no mundo.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

30 anos depois: um reencontro em Osasco com os queridos ex-alunos da EEPSG "Vicente Peixoto"- Texto de João dos Reis


Trinta anos depois: um reencontro em Osasco com os queridos ex-alunos da Escola Estadual "Vicente Peixoto"
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Joao dos Reis Ago 2 em 11:44 AM
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Trinta anos depois: um reencontro em Osasco com os queridos ex-alunos da Escola Estadual “Vicente Peixoto”

Em 29 de agosto de 2017 estávamos reunidos no salão de festas do conjunto de edifícios na rua João Guimarães Rosa, no Jardim Veloso em Osasco para um almoço. Eu e Airton Cerqueira Leite, professor de Geografia, fomos recebidos com carinho pelos ex-alunos presentes: os Gimenes - Rogério e Fernando, a mãe deles , e os dois filhos de Fernando -, e também Sidnei, Jair, Wellington, Hildebrando, Joana, e as irmãs Meneghin - Marcia e Rose.

Foi um reencontro trinta anos depois; nessas três décadas, nunca havíamos nos encontrado nos descaminhos da cidade grande. Sidnei Antonio Bortolo, que foi o primeiro presidente do Grêmio livre estudantil da Escola Estadual “Vicente Peixoto”, e o grupo de ex-alunos, foram os idealizadores da confraternização.

Depois de tantos anos, tive dificuldade em reconhecê-los; mas ao me mostrarem as fotos daquele tempo, houve uma volta instantânea e emocionante ao passado: eram os jovens em que investimos nossas esperanças de educadores por um mundo mais justo e com liberdade.

Foi uma enxurrada de recordações e não uma surpresa para mim: os alunos-adolescentes se tornaram adultos. Foi aos poucos que fui retomando as imagens e alguns dos nossos diálogos daquele tempo. Estávamos sonhando com uma nova sociedade no Brasil – e acreditávamos na volta da democracia. Com o fim do “centro cívico” – a representação estudantil do período da ditadura militar -, fui indicado pela direção da escola para orientar o retorno do grêmio livre dos estudantes. Realizamos eleição dos representantes de classe; e a minha proposta foi aceita: que eles participassem das reuniões bimestrais do Conselho de Classe junto com os professores e a diretoria da escola.
e a diretoria da escola.

Que sonhos tínhamos nos anos 80? O surgimento dos partidos políticos, especialmente o Partido dos Trabalhadores, dos sindicatos livres, da Central Única dos Trabalhadores, dos grêmios, da UEE e UNE , tornavam possível acreditar no debate democrático do futuro do Brasil. Wellington, que é metalúrgico, relembrou alguns dos temas e livros debatidos nas aulas de Filosofia – e que, como ele mesmo disse – continuavam nas sextas-feiras à noite no bar “Hortelã” na Praça Duque de Caxias; ele citou “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano, que sugeri como leitura. Para Sidnei, o meu carro, uma Variant, era uma Van escolar, pois eu retornava para casa, depois das aulas, sempre com a carona que dava a eles – e que foi mais um momento de companheirismo e convívio fraternal.

Os professores ausentes foram lembrados, entre eles, Jaime Pontin, Sandra Ceschini Sussmann, Frederico Guaré Cruz (Fred), Maria Clarice da Silva, Linda Kawakita. Recordamos também Toni (Antonio Fioravante Frizza de Barros Fresca) e Norli de Jesus Sanches Vieira, inspetores dos alunos: a escola é o lugar do conflito, como eu sempre dizia, e eles sempre souberam enfrentar os problemas com competência e sensibilidade.

Fiquei feliz e comovido com a recepção afetuosa e por ouvir: fomos importantes como professores quando eles eram jovens estudantes. E me lembrei de que, quando voltei da minha temporada no Sul, em Curitiba, reencontrei Fabio, também ex-aluno do “Vicente Peixoto”, na sala de espera do cinema Reserva Cultural: ele me reconheceu, apresentou a esposa, conversamos rapidamente, e não me esqueço do que ele me disse quando nos despedimos: “obrigado por tudo”.

Não foi possível conversar com cada um deles como gostaria; mas perguntei a eles em que trabalhavam hoje - e faltou saber de cada um deles como viam a realidade brasileira, hoje. Com alguns deles, disse do nosso desencanto com o presente e a dificuldade de acreditar nos destinos do país.

Sou cozinheiro ; por isso me interessei em conversar um pouco com Rogério, o chef de cozinha do encontro. Ele preparou uma galinhada, e me disse que planejavam uma paella, o que não foi possível. Falei para ele que o prato do dia era o meu preferido na merenda da tarde do colégio; e que Darci Coutinho, diretora da escola, escolheu -o em um ano para um almoço de comemoração do dia do professor. O prato da culinária brasileira, que usou dessa vez, entre outros temperos, o açafrão, ficará para sempre registrado na memória afetiva.

Tive o prazer de conhecer nesse dia Paula, a companheira de Sidnei, e conversamos sobre tudo: o mundo do trabalho na grande empresa Bradesco, onde ela trabalha, receitas de pratos típicos das regiões brasileiras e dos imigrantes que vieram para o Brasil.

Em uma tarde de inverno de 2017, na cidade proletária de Osasco, um grupo de ex-alunos lembrou dos seus ex-professores. E foi uma honra para nós – eu e Airton – recuperar as imagens e as lembranças de um passado distante, que descobrimos, não está condenado ao silêncio e ao esquecimento.


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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Anotações – Relatório da Comissão Nacional da Verdade: violações dos direitos humanos dos povos indígenas - João dos Reis


Para os companheiros da Subcomissão de Agentes do Estado da Comissão Municipal da Verdade de Osasco

“O inimigo é indeterminado, serve-se de mimetismo e adapta-se a qualquer ambiente, utilizando todos os meios, lícitos ou ilícitos para atingir seus objetivos. Mascara-se e disfarça-se de sacerdote ou de professor, de aluno ou de camponês, de vigilante defensor da democracia ou de intelectual avançado (...); vai ao campo e às escolas, às fábricas e às igrejas , à cátedra e à magistratura (...)” – General Breno Borges Fontes, na 10ª Conferência dos Exércitos em Caracas, em 1973.

O Relatório da Comissão Nacional da Verdade, de 10 de dezembro de 2014, no volume II, Texto 5, trata das violações dos direitos humanos dos povos indígenas. Elaborado sob a responsabilidade de Maria Rita Kehl, com a colaboração e pesquisa, investigação e redação de um grupo de trabalho e de 30 pesquisadores.

O período de 1946 a 1968 caracterizou-se pela omissão da União na fiscalização e proteção dos territórios indígenas. Com o Ato Institucional número 5 (de 1968), e a partir dos anos 70, a política desenvolvimentista e de colonização significou a morte de8350 indígenas – uma estimativa muito inferior ao total de mortos. O SPI (Serviço de Proteção aos Índios) era um órgão do Ministério da Agricultura. O Ministério do Interior, a quem era subordinada a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) realizou ou incentivou a extração de madeira e minérios, construção de estradas, colonização e obras de infraestrutura. Para as populações indígenas, foi uma política de extermínio, com invasão de terras, violação dos direitos territoriais dos índios, tentativas de extinção.
O Relatório Figueiredo, de 1967, redescoberto em 2012, que provocou a extinção do SPI (Serviço de Proteção do Índio), revela o plano deliberado de eliminação das populações indígenas. O Tribunal Russell, em 1974-1978, e depois, na IV sessão em 1980, condenou o Brasil nos casos dos Waimiri Atroari, Yanomani, Nambikara e Kaigang.

O Plano de Integração Nacional de 1970, que pretendeu a colonização da Amazônia, tinha a meta de assentamento de 100 mil famílias ao longo das estradas BR 163, 174, 210 e 374 – e a Transamazônica, que cortaria terras de 29 etnias e 11 grupos isolados de índios, conforme reconheceu o Ministro do Interior, Costa Cavalcanti.

O próprio Estatuto do Índio, aprovado em 1973, no artigo 20, introduz a possibilidade de remoção de populações indígenas por imposição de segurança nacional, para a realização de obras públicas que interesse ao desenvolvimento nacional. O índio se tornou um risco à segurança e à nacionalidade –e a questão indígena uma questão de segurança nacional.

Houve vários projetos que atingiram os territórios indígenas: o Projeto Calha Norte em Roraima; o Projeto Grande Carajás, com a hidrelética de Tucuruí e a Estrada de Ferro Carajás; o Projeto Radam, que mapeou áreas de recursos minerais na Amazônia; a construção da Perimetral Norte; a expansão para o Oeste paranaense e a construção da hidrelética de Itaipu. Os Yanomanis, os Parakunãs, os Akrátikatejês (Gaviões da Montanha), os Krenaks, os Guaranis-kaiowás,e Ava-guaranis, os Cinta Largas, os Xavantes, os Xoklengs, os Kadineus, os Nambikwaras, os Tapayunas, os Sateré-Mawés, os Aikearas (também conhecidos como Suruís), os Pataxós-Háháháes, sofreram tentativas de extermínio, de desagregação social, de sequestro de crianças, de contaminação proposital por doenças infecto-contagiosas, de violência sexual e torturas, de humilhações, perseguições e prisões de índios e de líderes do movimento indigenista. A etnia Xetá do Paraná foi considerada extinta – hoje, há apenas poucos sobreviventes do genocídio.

Foi um projeto de governo que via os índios como obstáculos ao desenvolvimento do país. “Pode-se dizer que os diversos tipos de violações de direitos humanos cometidos pelo Estado brasileiro contra os povos indígenas no período 1946-1988 se articularam em torno do objetivo central de forçar ou acelerar a ‘integração’ dos povos indígenas e colonizar seus territórios”, conclui o Relatório.

Entre as recomendações da Comissão Nacional da Verdade, penso que uma delas é a mais importante: a instalação de uma Comissão Nacional Indígena da Verdade – o que não aconteceu até hoje. A violência contra os indígenas ainda está para ser reparada. Nunca houve um pedido oficial de desculpas; a política de demarcação de terras esbarra no poder econômico e político de grandes proprietários das terras usurpadas. Nos quatro anos do governo Dilma Rousseff, foram reconhecidos apenas 11 territórios, o menor desde a redemocratização. A questão indígena é a grande tragédia brasileira da História contemporânea.

NOTA

1. A citação do General Breno Borges Fontes está na nota 26, página 211, do volume II, Texto 5, do Relatório da CNV, e foi retirado de J.Comblim, “A ideologia da segurança nacional. O Poder Militar na América Latina”, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980,pp. 47-48 e 144-149.
2. O Relatório completo da CNV – e o volume II, Texto 5, pode ser acessado no link: http://www.cnv.gov.br/
3. O Relatório Figueiredo, de 1967, do Ministério do Interior, com 7 mil páginas e 30 volumes, redescoberto em 2012, denuncia a violência contra os índios; acessar o link:http://midia.pgr.mpf.mp.br/6ccr/relatorio-figueiredo/relatorio-figueiredo.pdfAnota

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Belchior -o músico-poeta-filósofo e os anos desesperados- João dos Reis


Para Risomar Fasanaro


Foi com tristeza que li no jornal a notícia da morte de Belchior (Antonio Carlos Belchior). Nos anos 70, suas canções foram uma descoberta emocionante: o compositor foi para mim o poeta desses anos desesperados.

“Se você me perguntar por onde andei
no tempo em que você sonhava
de olhos abertos lhe direi:
amigo, eu me desesperava”.
(“A palo seco”)

Ouvia sempre comovido o dois LPs do músico-filósofo, “Alucinação”de 1976, e “Coração selvagem” de 1977 – eram poemas que traduziam a angústia e desesperança dos anos jovens. Nunca cheguei a encontrá-lo em São Paulo; meu amigo Jesse Navarro o conheceu, fizeram uma viagem juntos para o Rio de Janeiro. Lembro de ter perguntado sobre ele, mas a memória não registrou mais nada.

“Eu quero que esse canto torto feito faca
corte a carne de vocês”.
(“A palo seco”)

Naqueles anos, estive em um show dele no Teatro Paramount (hoje Teatro Renault), em São Paulo, mas depois não acompanhei a sua carreira artística. Ouvia falar dele pela imprensa; e, recentemente, descobri um admirador, o historiador osasquense Luciano Jurcovich Costa: ele fez em 2015 um show-tributo em um bar de Osasco, cantando músicas de Belchior.

“Não quero lhe falar, meu grande amor,
das coisas que aprendi nos discos
quero lhe contar como eu vivi, e tudo o que aconteceu comigo.
Viver é melhor do que sonhar
eu sei que o amor é uma coisa boa,
mas também sei que qualquer canto
é menor do que a vida de qualquer pessoa.
Por isso, cuidado meu bem, há perigo na esquina,
eles venceram, e o sinal está fechado para nós,
que somos jovens”.
(“Como nossos pais”)

Com a nova tecnologia da comunicação foi possível rever com emoção o jovem Belchior no programa de 1974 “MPB Especial”; no “Vox Populi” em 1983; em “Ensaio”, de 1992; e entrevistado pelo professor Pasquale Cipro Neto em “Nossa língua portuguesa” em 1996 – programas da TV Cultura de São Paulo - esses vídeos e todas as músicas do compositor estão disponíveis na internet em diversos canais (Youtube, etc).

“Você me pergunta pela minha paixão,
digo que estou encantado como uma nova invenção.
Vou ficar nesta cidade, não vou voltar para o sertão,
pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação,
e eu sinto tudo na ferida viva do meu coração”.
(“Como nossos pais”)

Belchior viveu a infância em Sobral, no interior do Ceará. Mais tarde, partiu para Guramiranga para estudar Filosofia e, depois, para Fortaleza para cursar Medicina na Universidade Federal do Ceará. Mas desistiu da nova profissão para se dedicar à música, vindo para o Rio de Janeiro, e depois, para São Paulo. Não se tornou médico, mas foi o poeta-filósofo da música popular brasileira daqueles anos de desalento e desilusão. Eu me perguntava: que o destino planejava para o nosso futuro?

“Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve
correta, branca, suave, muito limpa, muito leve.
Sons, palavras, são navalhas, e eu não posso cantar como convêm
sem querer ferir ninguém”.
(“Apenas um rapaz latino-americano”)

Nos últimos tempos, decidiu viver isolado no Rio Grande do Sul, distante de parentes e amigos. Quais eram os seus planos? Li na imprensa que ele estava trabalhando com a tradução e ilustração da “Divina Comédia” de Dante Alighieri.

“Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão
o meu som, a minha fúria e essa pressa de viver,
e esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
e arriscar tudo de novo com paixão,
andar caminho errado pela simples alegria de ser.
Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo, vem morrer comigo”.
(“Coração Selvagem”)

O meu querido amigo Jesse Navarro não poderá registrar as lembranças dele sobre o poeta-cantor, pois faleceu há muitos anos. E eu retomo minhas recordações para prestar, mais uma vez, uma homenagem póstuma.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Sobre a felicidade - João dos Reis



Martha e Mauro, da Confraria dos Viajantes, de Curitiba, me pediram para escrever sobre a felicidade para o blog Confraria dos Viajantes. Eu disse a eles que parei de escrever; é difícil falar sobre um tema tão popular e um sonho impossível.

O que é a felicidade? Buscamos encontrá-la sempre, mas muitas vezes é uma busca em vão. Ela está nos pequenos gestos, olhares, nas ações cotidianas, nas escolhas que fazemos: uma profissão, uma casa e um lugar para habitar. Não temos muitas opções ao longo da vida, mas precisamos arriscar e ludibriar o destino. Nessa luta diária e inglória, será que conseguimos alcançá-la?

Penso na alegria da avó Elisa em cuidar do seu pedacinho de terra em Duartina, SP, onde ela plantava couve, almeirão, tomate, e tinha pés de roseira, cravos, palmas de Santa Rita, uma parreira. Depois do café da manhã, ela se dirigia para o quintal para irrigar as plantas, cavoucar a terra, colher as verduras para o almoço. Quando criança, via como um espaço enorme; depois, o achava tão pequeno, mas que trazia momentos felizes para ela todos os dias. Logo que eu chegava de viagem para visitá-la, era com orgulho que me convidava para visitar o jardim-horta - e eu colaborava no final das tardes com a irrigação.

Lembro de como Arthur, um piá curitibano de 4 anos, ficava feliz com as histórias que contava para ele. Não sabia, no entanto, que esses instantes transitórios permaneceriam como lembranças de que é, sim, possível, encontrar a felicidade quando menos sonhamos.

Recordar minha experiência como professor de Filosofia é retomar as gentilezas de alguns queridos alunos: um convite para almoço, um bolo de presente de aniversário, uma garrafa de vinho.

E como esquecer os encontros com os amigos para compartilhar uma refeição, em que fui um convidado especial? Foram registros inesquecíveis de convívio e companheirismo entre camaradas.

Recordar as viagens que realizei por cidades desconhecidas: foram uma esperança de aventura, de personagens inesperados: a construção de uma amizade, a descoberta de um afeto que deixou marcas para sempre.

Temos que reconhecer: não devemos ser prisioneiros da recordação de momentos felizes, pois podemos encontrar a felicidade no presente, embora não consigamos perceber.





terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Osasco, uma história: Albertino Souza Oliva: João dos Reis




Estávamos reunidos no inicio dos anos 70. O grupo da Frente Nacional do Trabalho de Osasco - José Groff, Valdomiro Martins da Silva (Dudu), Alberto Abib Andery, Maria Santina, Antonio Vieira de Barros, Luis Amaral, Odim Jiorjon, Maria de Lourdes Vieira Brengel, e outros militantes - foi informado: Albertino Souza Oliva foi preso – nós e a família dele não sabíamos o local onde ele estava e o motivo do desaparecimento. A angústia e a dor da noticia impediam que tomássemos uma decisão: o que fazer?

Depois, ficamos sabemos que ele ficou uma semana detido, incomunicável, no quartel da Policia Militar da Avenida Tiradentes. Nunca houve uma acusação formal a ele na Justiça.

Foram momentos como esse que os que engajaram no movimento operário viveram os anos de repressão durante a ditadura militar. Albertino trabalhou de 1945 a 1962 no Departamento Pessoal da Cobrasma em Osasco. Houve um “ressurgimento espiritual”, como ele o denomina, e passa a frequentar a Igreja Católica. Conhece o metalúrgico João Batista Cândido e participa do movimento sindical na fábrica. Junto com outros trabalhadores, criam a Comissão de Fábrica – que foi um acontecimento histórico na luta por melhores salários e condições de trabalho.

Albertino recordou durante o seu depoimento em outubro de 2014 na Câmara Municipal: a direção da fábrica descobriu o engajamento dele, e foi transferido para a sede da empresa; depois ele decidiu pedir demissão. Foi um período de transição na vida do advogado que nasceu em Casa Branca, SP, e que cursou Direito na USP. Tinha a desconfiança dos trabalhadores: havia participado do quadro repressivo da empresa: a lista dos candidatos a emprego era enviada antes para o Dops. E tinha a recusa da direção patronal em ter um funcionário comprometido com a luta por uma nova sociedade. “Foi um momento difícil: traiu a confiança dos patrões e não tinha a confiança dos trabalhadores”.

A conversão às idéias do Padre Louis-Joseph Lebret ("Princípios para a ação"), o compromisso com a nova Igreja que surgia, o conduziram à Frente Nacional do Trabalho, uma organização não governamental fundada por Mario Carvalho de Jesus depois da greve dos trabalhadores de Perus em 1962. Foi essa militância que o levou outras vezes à ser detido pelos militares. Sua participação na criação da Cooperativa dos Trabalhadores da Cobrasma (depois Coopergran), na instalação dos cursos profissionalizantes no Senai em Osasco foi o inicio de uma longa trajetória junto com os trabalhadores.

Participei das reuniões e atividades na FNT de Osasco. Quando os trabalhadores abriam uma ação trabalhista, eram convidados a participar de uma palestra: eu fazia a abertura, falava da importância da participação sindical e politica; depois, Albertino explicava os meandros jurídicos de um processo. Foram anos em que tive contato frequente com a realidade da opressão patronal e do desrespeito aos direitos trabalhistas.

Com os ventos da democracia no inicio dos anos 80, participei de um projeto de educação popular da FNT, com ajuda financeira de uma organização não governamental da Bélgica. Fui contratado para colocar em prática o programa de debates, palestras e grupos de estudo em Osasco e na periferia da Região Metropolitana Oeste de São Paulo. E eu o acompanhei nos encontros com os trabalhadores dos bairros das cidades de Carapicuiba ( Comunidade Kolping da Vila Dirce e Cohab, e Igreja N.S.Aparecida) e Jandira (comunidade da Vila Analândia).

Nos anos 60, houve um acidente muito grande no forno da Cobrasma, e um operário acabou morrendo. Foi combinado que no enterro a fábrica tocaria o apito. Foi um dos primeiros protestos dos operários osasquenses por respeito, garantia à vida e à dignidade. Albertino recusou entregar os nomes dos que organizaram a manifestação. No final dos anos 70, a participação na criação do Centro de Defesa de Direitos Humanos de Osasco – foram dois momentos de uma longa história de compromisso com os trabalhadores da cidade proletária.

Albertino Souza Oliva foi o primeiro coordenador da Comissão da Verdade de Osasco até inicio de 2015. Com 88 anos, apresentou o seu testemunho: de que é preciso combater as injustiças ,”não ter complacência com o erro, nunca com a violência”.