quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Catorze dias em Cuba- Risomar Fasanaro



Percorro as ruas de Havana e penso estar sonhando...Há quantos anos desejei estar aqui? Sinto vontade de tirar os sapatos, para sentir nos pés os rastros dos que fizeram a revolução.
Estar em Havana é voltar no tempo: estou em Socorro, Pernambuco,nos anos cinquenta, durante minha infância, ou no Quilômetro Dezoito, em
Osasco, em plena adolescência. A emoção toma conta de mim. Pessoas andam ao meu lado, não vejo nelas nenhum sinal de tristeza nem de preocupação. Carregam seus pertences com a tranquilidade de quem não conhece assaltos. Com a serenidade de quem não convive com a violência. Converso com algumas, elas são alegres e comunicativas. Desmancham-se em gentilezas quando sabem que somos brasileiros. Perguntam sobre as novelas da Globo.
Somos onze: Paulo, o que teve a idéia de nos trazer para conhecer Cuba, Mônica, que é voluntária na Cracolândia, minha amiga Cristina Ceruci, Pedro, irmão de Paulo e sua mulher Rosário , Inezita, irmã de Paulo, Lídia e seu marido André, Nildes e o marido Jair e eu.
Nesse primeiro dia Nildes e Jair ainda não tinham chegado. Só chegaram no dia dezenove.
Após o café com um pão delicioso e bolo de rolo que Rosário trouxe do Recife, saímos para caminhar um pouco pelo bairro.
As casas têm aquela aparência tão conhecida da minha infância. As ruas limpas me surpreendem. Aqui e ali uma declaração de amor a Fidel Castro estampada num muro.
Chegamos aqui no dia 18. Raydel, um cubano que nos dá aulas de espanhol no Brasil, encarregou seu irmão, Roger, de nos assessorar durante nossa estada na ilha. Ele nos esperava no aeroporto e nos levou à casa que havia reservado para nos hospedar, bem próxima ao aeroporto. Somos recebidos por uma senhora de uns sessenta anos. Olhos muito pintados de preto, unhas muito, muito longas, esmaltadas, batom vermelho vivo, Carmen me dá a impressão de uma dona de bordel dos filmes de Fellini.
Inezita, Lídia Belo e o marido André tinham chegado no dia anterior e a mulher nos encaminha ao quarto onde os três dormiam. “É esse o quarto que tenho para hospedar vocês...” Atônitos nos olhamos; ali não havia espaço nem para uma criança dormir...Onde ela nos hospedaria?
Mônica dirige-se ao Paulo, nosso guia: “impossível ficar aqui, precisamos ir para outro lugar.
Paulo conversa com Roger e em poucos minutos surge uma nova casa para nos abrigar. Ali ficamos dois dias. Todos se acomodam e ficamos Cristina, Mônica e eu em um dos quartos.
No dia vinte, Roger nos levou para Caybarien, município pertencente à província de Santa Clara, e uma das regiões mais atingidas pelo furacão.
Aquela foi uma viagem histórica. Quase não acreditamos quando vimos a condução que nos levaria: um caminhão com dois bancos estreitos nas laterais da carroceria, igual aos paus–de-arara que traziam nordestinos para São Paulo.
Quando viu aquilo, Inezita, irmã de Paulo e de Pedro e que vive em Bruxelas, teve um ar de espanto. Chegou perto de mim e perguntou: “tudo certo, Riso? “ Respondi que sim, e ela disse: "você é minha referência. Se você diz que está tudo certo...”
Eu estava preparada. Sabia que não seria uma viagem de turismo luxuoso. Não queria isso. Queria conviver com o povo, saber como era o dia a dia dele. Sabia que essa seria uma viagem experimental, para a partir dali, Paulo organizar grupos de turistas para levar a outros lugares.
Durante oito horas viajamos naquele pau-de-arara. Paulo e Mônica com o pé doendo; Pedro que sofreu um acidente e quase perdeu a perna, também estava com dor. O caso mais grave parecia ser o de Nildes que quase foi impedida de viajar, com um ferimento na perna provocado por uma queda em Salvador.. Decidimos que ela ocuparia a cabine do motorista.
Subimos na carroceria do pau-de-arara e lá fomos. Ríamos muito pelo caminho e fotografávamos tudo que achávamos interessante.
Fiquei surpresa com a qualidade do asfalto cubano. Todas as estradas por onde passávamos estavam em excelentes condições. Nenhum buraco, nenhum desnível...
Durante todo percurso, Pedro, engenheiro irmão de Paulo, que tem uma empresa de construção em Recife, fotografava todas as criações, todas as invenções e soluções que o povo cubano encontra para enfrentar o embargo dos Estados Unidos.
Vendo as inúmeras formas de caixas d’água e construções diferentes das do Brasil, Pedro fotografava todas. Lembrava-me muito do escritor cubano Leonardo Padura, que disse em uma entrevista no Brasil: ”os verbos mais conjugados em Cuba são inventar e resolver.” Realmente, por não ter à disposição matéria prima como nós temos aqui, o povo já se acostumou a improvisar, a criar soluções que sempre resolvem os problemas de forma criativa.
Ao longo da estrada, encontrávamos a cada 10, 20 quilômetros, alguém com um carro parado, capô levantado, tentando consertá-lo. São os carros cubanos...Marcas antigas, famosas, lindos...e que apresentam problemas com freqüência.
Tornaram-se atrações turísticas em Havana. Ocupam as ruas centrais da cidade. Seus donos cuidam deles com o carinho que merecem aquelas raridades que há sessenta anos resistem. Muitos são táxi, outros os proprietários alugam para os turistas que querem fazer “pose” de milionários em vídeos e fotos.
Cadillacs cor-de-rosa, Mercedes lilás, Buiks pretos e outros desfilam pelas ruas brilhando como se tivessem saído das fábricas naquele momento.
Depois de uma viagem com muitos risos, muita conversa e até uma cantoria de Inezita, que ensaia “quando eu vim do sertão seu moço/ do meu Bodocó/a maleta era um saco/ e o cadeado era um nó... chegamos a Caybarien.
A casa dos pais de Raydel é bem grande, com três quartos uma sala, varanda. Não foi possível abrigar todos nós: dois casais e cinco solteiros. Lídia Belo e o marido André foram se hospedar em outro local.
Aqui, as poltronas, mesas e cadeiras, os bibelôs de porcelana que enfeitam os móveis, a geladeira na cozinha, a varanda, o jardim, tudo me lembra a casa dos meus pais nos anos cinqüenta.
A mãe de Raydel nos contou que o furacão levara o telhado da casa e eles precisaram colocar um novo. Muitas residências ali tinham sido atingidas pelo furacão...Caybarien foi um dos locais mais atingidos, e nos pareceu um bairro muito carente.
Era nossa primeira noite ali. Estávamos todos tranquilos, acomodados nos quartos, quando ouvimos um grito que logo foi abafado. Quem seria? Por que gritara? Só mais tarde soubemos que Rozário , a Zau, tinha entrado no banheiro e encontrado uma rã. Pedro, pra salvar a situação, impediu que ela gritasse, para não nos assustar. Fiquei apavorada. Como entraria ali depois daquilo? Bem, Pedro pegou a rã e jogou-a no quintal.
Em Cuba existe uma crença: se você encontrar uma rã, peça a alguém que a socorra. Em seguida peça ao seu salvador (sim, só homens não têm medo de pererecas) que execute a “dança da rã”, ou seja: com ela entre as mãos dê 2 passos para um lado e dois passos para trás, em seguida, de costas, atire a rã lá fora, que ela nunca mais voltará. No nosso grupo só Pedro e Paulo executaram essa dança...rs

Uma noite Paulo sumiu. Saiu sem nos avisar, e todos ficamos preocupados. Duas horas depois, ele voltou. Contou que se deitara no meio do mato para olhar as estrelas e ouvir o coaxar dos sapos...Viajar com poeta, dá nisso...

Ficamos na casa dos pais de Raydel três dias. Três dias entrando desconfiadas no banheiro e fugindo das rãs. Não era mais possível ficar ali. Estávamos desalojando a família que para ceder seus lugares, estava dormindo na casa de parentes.
Foram três dias maravilhosos comendo comida cubana, desfrutando da companhia deles que são pessoas tão especiais. O avô de Raydel participou da revolução. Uma garotinha de cinco anos, prima dele nos encantava declamando poemas de José Marti, o poeta mais famoso de Cuba, e foi com saudade que saímos dali.
Outra vez enfrentamos o pau-de-arara e seguimos em direção a Havana.
Desembarcamos no centro de Havana e colocamos nossas malas na praça próxima a igreja Matriz e esperamos para ver para aonde iríamos. Nildes se lembrou de um pastor evangélico com quem tinha contato e ligou para ele. Ernesto, esse é seu nome, tem uma pousada em Santa Clara, e nos convidou para nos hospedar lá. Tomamos dois táxis e para lá nos dirigimos.
“Água Viva” é uma casa plantada em meio a um terreno repleto de plantas e flores. O casal dono da pousada, Ades e Ernesto são muito simpáticos e logo o grupo se enturmou com eles. Ades, loiríssima e muito bonita, se parece muito com Liv Ullmann, a atriz sueca.
Foram dias de muita alegria. Saíamos pela manhã para visitar museus e monumentos e voltávamos à noite quando Ades nos servia belos arranjosnos pratos do jantar. O carinho com que ela fazia isso era visível. E após o jantar havia sempre cantoria, pois Ernesto e os dois filhos tocam violão e cantam..
Os transportes em Cuba variam muito. Há carros antigos que funcionam como táxi, e há vários tipos de charretes. Algumas funcionam sobre motos, outras são puxadas a cavalo e há também uns mini carros que têm a forma de um ovo. Acho que os meios de transporte constituem um problema a ser resolvido lá. Vimos extensas filas de pessoas esperando ônibus, além de ônibus completamente lotados.
No centro de Havana, próximo ao Capitólio, Cristina e Mônica descobriram os charutos cubanos e se encantaram. Junto com Paulo, pareciam duas crianças brincando de gente grande. Os três foram a um local chiquérrimo e elas fizeram caras e bocas que Paulo registrou em lindas fotos. Tomaram rum que nesse local era servido em taças em ambientes requintados e receberam de uma das vendedoras, uma verdadeira aula sobre o ritual do tabaco como é chamado o charuto lá.
Eram nossos últimos dias em Santa Clara, Cuba e aproveitamos para visitar a sede do PCC- Partido Comunista Cubano. Essa visita foi muito importante por causa de uma escultura que representa o Che e que se trata de um trabalho de verdadeiro mestre. Vê-la de perto, descobrir tudo que o escultor colocou valeu nossa viagem.
A escultura representa o Che com uma criança no colo. A princípio pareceu simples, mas à medida que nos detivemos para observá-la, vimos que há vários rasgões na farda do Che, e desses rasgões saem pessoas, mulheres, crianças e alguns brinquedos infantis. Encantada, me senti, e acredito que também assim se sentiram os que estavam comigo. A visão daquela escultura, que nos permite inúmeras leituras do que o artista quis transmitir, foi na o ponto mais alto de nossa estada na ilha.
Sobre a escultura de Che em frente ao PCC, Cristina escreveu:
Na cabeça, a boina com a estrela, identifica seu grau de Comandante indiscutível dentro dos combatentes. Em seu peito, o infinito é atravessado por dois filhos, um carrega o sol e o outro a lua, um caminho em que somos iguais e ao mesmo tempo diferentes. Em um bolso ele carrega um exempla de "Don Quixote" onde ele é representado como aquele cavaleiro com o escudo em seu braço.
Os detalhes de sua vida estão espalhados pela figura.
Por exemplo, nos laços existe uma rede de suspensão sobre a qual o Che descansa. Sobre o ombro direito há um menino nu, montado em uma cabra. A mão esquerda segura uma criança nua com um brinquedo alusivo na mão esquerda. No lado direito, onde uma das balas que terminaram sua vida o penetrou, há uma jovem em uma janela, em uma atitude de espera. Onde fica o coração, há outro motivo semelhante. Na fivela do cinto da calça de Che, há uma manifestação popular que carrega uma bandeira. “A mão direita segura um charuto e na dobra das calças tem uma motocicleta com duas tripulações, detalhe alusivo à viagem mítica do Che através da América do Sul .

Algumas noites saíamos e dançávamos na rua, em frente aos bares com música ao vivo, com os cubanos. Uma tarde ouvíamos uma banda que toca as músicas do Buena Vista Social Club, e sabendo que éramos brasileiros, a banda tocou “Garota de Ipanema” para nos homenagear.
Outra visita interessante foi ver o trem que sob o comando do Che descarrilhou trazendo militares com forte armamento para combater os guerrilheiros. Essa é uma vitória que muito honra Santa Clara.
Fidel nomeara o Che para aquela missão, e só havia um jeito de impedir a entrada dos inimigos: descarrilhando o trem. É emocionante ver aqueles vagões ali, intactos, e que hoje expõem um acervo fotográfico sobreo Che e a revolução cubana.
Cristina e eu saímos para comprar os famosos charutos cubanos em Santa Clara. Um rapaz nos ofereceu por metade do preço que pagaríamos pelos verdadeiros. Pediu que o seguíssemos e nos vimos na escadaria de uma pequena casa que funciona como bar. O local me pareceu bastante suspeito. Subimos, e lá ele nos mostrou diferentes tipos de charutos. Ensinou-nos como identificar um charuto falso.
Morrendo de medo de ser presas com aquele rapaz, eu disse a ele que só poderia comprar com nota fiscal, porque temia a vigilância da alfândega, e também porque precisava mostrar a nota à pessoa que encomendou o tabaco. Saímos dali correndo,fugindo dele.
Fomos então à loja recomendada por Adis e compramos as caixas de charutos “Romeu Y Julieta”, feitos à mão. É uma caixa linda, com desenhos tão delicados que parecem feitos à mão...
Como estávamos perto, aproveitamos para ir até a fábrica e fotografar da janela, os operários fazendo os charutos.
Quando chegamos, Paulo estava irritado porque tínhamos demorado muito. Ele se esqueceu que tínhamos ficado três horas apreensivas, sem saber onde ele estava naquela noite dos sapos e das estrelas...
Faltava conhecer o principal monumento de Santa Clara: o museu do Che.
Uma construção tão imponente que é difícil descrever. A mim pareceu um memorial imenso com frases e discursos do Che entalhados nas paredes.
No andar térreo fica o museu. Ali se encontram em uma parede, as cinzas do Che no centro, ladeadas pelas cinzas dos seus companheiros que foram assassinados junto com ele, na Bolívia. Uma moça fica de guarda ao lado de uma escultura do Che e uma pira permanece acesa todo tempo. O clima de respeito é total. Ali não se ouve nenhum som, nenhuma palavra. Mais adiante, todo um acervo do Che está exposto: seu uniforme de guerrilha, as botas, a famosa boina com uma estrelinha, seu avental de médico e seus instrumentos de trabalho. Ficamos sabendo que na guerrilha o Che às vezes precisava atuar como dentista.
É difícil traduzir em palavras a emoção que foi ver tudo aquilo.
Enfim, eu tinha sentido, naqueles catorze dias um pouco do que é o dia a dia dos cubanos.
Não vi miséria. Nas três casas em que estivemos não faltava nada, só papel higiênico, o que já sabíamos antes de viajar, por isso tínhamos levado.
Algumas vezes fomos abordados nas ruas por pessoas que nos perguntavam: “tienes um regalo?” Foi assim no primeiro dia que saímos em Havana. Um homem me abordou e perguntou se eu queria uma nota com a efígie do Che. “Tienes um regalo para cambiar?” Lembrei que eu tinha uma caixa de canetas Bic na bolsa. Tirei uma e ofereci para a troca, irritado ele me disse:”Non, ES El Che!!!”. Tirei mais uma e ele reagiu da mesma maneira. Cheguei a quatro canetas, e como ele não aceitava, tirei a caixa da bolsa e entreguei toda a ele, que me deu a nota e saiu todo satisfeito.
Não vi em nenhum momento alguém pedindo comida. Queriam apenas regalos: uma pulseira, uns brincos, um anel que achavam bonito e nós os presenteávamos...
Chamou minha atenção a saída dos alunos da escola. Todos muito limpos, bem cuidados com seus uniformes impecáveis, que lembram muito os uniformes dos anos 60 no Brasil). Alguns portam aparelho nos dentes, fornecido pelo estado.
Na pousada, pedi a Adis Frias Macias, clínica geral e pediatra que trabalha no estado, que me desse alguns esclarecimentos sobre Cuba, algumas coisas que ainda não estavam claras para nosso grupo. E ela, gentilmente, respondeu minhas perguntas. Inicialmente queríamos saber que alimentos fazem parte da cesta básica.
O governo fornece por pessoa:
2 quilos de arroz
1 xícara de frijoles (feijão)
2 quilos de açúcar
1 quilo de sal a cada dois meses
1 pão do tamanho e formato do nosso pão de hambúrguer
Gás existe um contrato a cada 21 dias. Se acabar só se consegue de forma ilegal.
A família recebe leite para as crianças até os 8 anos
Educação:
De 0 a 5 anos- pré-escola
Dos 6 aos 10 anos- nível primário
Dos 11 aos 14 anos curso secundário
Dos 15 aos 17 anos – pré-universitário
Aos 18- curso universitário
Os alunos usam uniforme. Os pais adquirem do governo, por um baixo preço, 2 camisas, 1 calça para os meninos e 1 saia, para as meninas.
O governo também fornece o material escolar que os alunos usam e devolvem no final do ano, para que outros usem.
O salário dos professores é de 450, 500 pesos cubanos
Os professores não recebem material pedagógico e trabalham 8 horas por dia, com 1 hora de intervalo.
Para cursar a universidade se observa o histórico escolar. Se foi um bom aluno, tem chance de entrar na faculdade, sem passar por vestibular. Se o histórico não é dos melhores ele presta exame de espanhol, ciências, história...
Em Cuba há três canais de TV- todas estatais. A internet é controlada. É possível ligar o celular com um cartão que se compra, em algumas praças.
Existe um jornal nacional que é o Gramma e cada província tem o seu. O jornal de Santa Clara se chama Santaclarenho.
Todas as noites a TV exibe às 20h um jornal com as notícias mais importantes de Cuba.
Saúde – os médicos trabalham 8 horas por dia. Existe o consultório de família que funciona num prédio, chamado Policlínica. Cada bairro tem sua policlínica. Os médicos moram com suas famílias no andar superior, e os enfermeiros no andar térreo. O uniforme das enfermeiras é muito semelhante aos que usavam nossas enfermeiras nos anos sessenta. Os médicos devem ir à casa dos doentes sempre que for preciso.
Os resultados dos exames não demoram muito, mas se o doente tem pressa, recorre a um amigo que facilita as coisas, como aqui no Brasil.
Os médicos de família dão atenção primária. A qualquer hora, do dia ou da noite ele atende a população em casos de gravidez,doenças crônicas de crianças e adultos como diabete, bronquite, etc. Também atendem os casos de vacinação das crianças.
As Policlínicas prestam atenção secundária: especialistas, análises primárias de sangue , RX...
Os médicos de família estão subordinados à Policlínica. São eles que encaminham os doentes para a Policlínica. Existem muitas policlínicas espalhadas pelo país. Cada bairro tem uma.
A atenção terciária se faz nos hospitais. São consultas mais especializadas, os casos urgentes e os nascimentos.
Culinária: o prato tradicional de Cuba é a carne de porco assada, arroz congris, (arroz cozido com feijão do tipo baião de dois) e mandioca com morrito (molho de tomate, cebola, óleo e vinagre).
Azeite é um produto raro, quase impossível de se encontrar na ilha...
Reforma Agrária a terra foi distribuída. O morador pode comprar animais. Se isso acontecer ele precisa pagar uma cota aoestado. O proprietário dos animais devem inscrevê-lo, e mesmo que um animal morra, deve ser inscrito. Em caso de doença, só o estado pode sacrificar o animal.
No caso das plantações, o proprietário também paga um tributo ao estado. As plantações de cana de açúcar,café e tabaco são propriedades exclusivas do estado. No caso de plantações deé preciso pagar tributo ao estado.
Cada morador paga cinco peso s por mês . Já a energia elétrica é muito cara.
Antes, até dez anos atrás, se cozinhava com fogão a querosene, mas o governo forneceu um fogão a gás, uma geladeira e forno de micro-ondas, que cada morador pagou ao banco em suaves parcelas.
Era hora de voltar...Triste hora...Mônica, Paulo e eu enfrentamos inúmeras dificuldades para conseguir vir pro Brasil no mesmo voo. Ficamos uma noite e um dia inteiro no México tentando incluí-los no meu vôo. Um funcionário da Aeroméxico cobrou o equivalente a dois mil dólares, para que eles pudesse ir no meu voo.
Enquanto isso, Mônica rezava pra Nossa Senhora de Guadalupe. E vendo-a pedir com tanta fé, também comecei a rezar e a pedir.
Quando já estávamos para desistir, me lembrei de uma declaração do médico relatando todos os remédios que eu tomava. Com aquela declaração do psiquiatra, Mônica procurou duas funcionárias da Aeroméxico e inventou que eu tenho síndrome do pânico, por isso não poderia viajar sozinha, pois poderia ter a crise em pleno vôo. Rapidinho elas conseguiram vagas pra Mônica e Paulo viajarem comigo. E assim voltamos tristes, cabisbaixos, mas com esperança de voltar em breve...
Eu me apaixonei por Cuba. Se antes admirava aquele povo, passei a admirá-lo muito mais.
A mim me pareceu que o povo cubano vive com simplicidade e é feliz com o pouco que tem. Não ouvi reclamações em nenhuma das três casas em que me hospedei, nem nos táxis, nem nas ruas, quando conversávamos com eles. Nas tendas encontramos muitos turistas, mas nenhum cubano. O povo cubano ama música e dança nas ruas sempre que ouvem uma melodia.
Uma das coisas que me marcaram na ilha foi um dia em que me admirei de ver tantos ovos na cozinha da Pousada Água viva. Perguntei a Ades seovos custam muito pouco e ela me contou: não compro. Tem galinhas no quintal e eu e a vizinha recolhemos os ovosque ela põem.
Como assim, Adis? De quem são as galinhas? De ninguém, são soltas no quintal...
Esse é o espírito cubano, o espírito de solidariedade, do saber repartir com o outro aquilo que se tem...Algo difícil de compreender em uma sociedade capitalista.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Crônica: uma notícia, um telefonema, uma carta - João dos Reis


Quando decidi viver no Sul no final dos anos 90, procurei rever mais uma vez meus velhos camaradas. Tinha pouco contato com Alberto, e sempre por telefone; quando liguei para me despedir, ninguém atendia, como ocorrera outras vezes. Depois da minha volta a São Paulo, em 2005, amigos me informaram: ele se suicidara em 1996.

Quando ia nas férias para Duartina, meus avós, tias e primos me esperavam. Era um periodo feliz depois de um ano de trabalho e estudo. Salete casou e mudou para Brasilia, e sempre conversávamos por telefone. Em agosto de 2007, tia Adelaide ligou para dar a noticia: ela se matou.

Depois de alguns meses morando em Curitiba, liguei para Raquel contando as novidades da nova cidade. Conversamos bastante nesse dia, e não fui capaz de dissipar a angústia dela diante das incertezas do novo ano. Não pude telefonar no inicio de 2000. Escrevi uma carta, mas ela não chegou a lê-la – Marlene, a irmã dela, me escreveu contando do suicidio em fevereiro.

Por que retomo esses personagens queridos que passaram pela minha vida e que não estão mais presentes? Um assunto tabu entre nós: aceitar o inevitável, a morte como nosso destino. Escrevi dezenas de páginas revivendo imagens e recordações que marcaram minha juventude. Para revelar que a tragédia não está apenas na perda da memória do passado, mas na ausência de futuro. E descobrir, com tristeza, que a vida é uma luta sem tréguas contra a solidão.

Foi indo para a Bolívia e Peru em 1975, que conheci Alberto Caputi. Ele nasceu na Itália e cursava o 1º ano de Medicina na USP. Foi uma viagem de aventura: 24 horas no “trem da morte”, entre Corumbá e Santa Cruz de La Sierra, dormindo em hotéis baratos em La Paz e Cuzco, perambulando por Machu Picchu. Alberto foi um companheiro de viagem gentil e atencioso. Na roda viva da metrópole, nosso contato não era frequente, mas sempre tinha noticias dele. Na foto que o meu amigo Cupertino me enviou pela internet, o jovem médico está feliz.

Minha prima Salete de Jesus Macedo e Silva e seus irmãos, tia Adélia, foram as companhias constantes nas minhas férias no interior. Conversávamos muito sobre nossas aflições e esperanças. Tia Rosa organizava passeios em que comemorávamos a chegada do verão. Nas fotos dessas temporadas de descanso e lazer, estamos em paz com o mundo - parece que acreditávamos em nossos sonhos.

Raquel de Azevedo foi a presença amiga no final dos anos 80 até minha partida para Curitiba. Nos encontrávamos para ir ao cinema, e depois, conversar no Bar Longchamp na rua Augusta. Exaustos depois de uma semana de trabalho, eram momentos alegres, de confraternização. Procurávamos não falar das dificuldades do magistério – eu e ela lecionávamos Filosofia em escolas da rede pública. Nas fotos das viagens que realizamos juntos aparecemos sempre descontraídos e alegres.

As lembranças que eles deixaram estão presentes, apesar do tempo e da distância. Para todos nós, amigos e familiares, é uma dor permanente, sem remédio. Muitos se despediram do nosso planeta antes ou depois deles – e todos deixaram muitas saudades. Salete, Alberto e Raquel partiram - e não estive presente na cerimônia do adeus. A despedida deles aconteceu em silêncio.

Minha avó Elisa me ensinou a cultuar os nossos mortos - com reverência e respeito. Na estadia na minha cidade natal, uma parada era obrigatória: o túmulo onde repousam os meus antepassados queridos. Depois de tantos anos, ainda não consegui ir a Brasilia ou ao Cemitério São Paulo, onde Salete e Raquel estão sepultadas. E desconheço aonde está Alberto.

Recordando meu primo José Antonio Herculiani - João dos Reis





“Você partiu,

como se diz,

para um outro mundo.

Vácuo...

Você sobe,

entremeado às estrelas. (...)

Para o júbilo

o planeta está imaturo.

É preciso

arrancar alegria

ao futuro.

Nesta vida

morrer não é difícil.

O difícil

é a vida e o seu ofício."



- Início e final do poema “A Sierguêi Iessiênin”, de Vladimir Maiakóviski, tradução de Haroldo de Campos.



Em 25 de novembro de 1993, tia Rosa me telefonou de Duartina, SP: o primo Zézinho tinha falecido em um acidente no Paraná. E pedia a nós, eu e minha mãe, que fossemos ao velório e ao sepultamento.



Essas lembranças dolorosas surgiram nos últimos dias. E recordei: éramos quase da mesma idade – e foi com ele que conversei durante toda a minha vida sobre as artimanhas do cotidiano. No período das férias de trabalho e de escola, sempre nos visitávamos.




Sobre o que conversam os que têm uma relação fraterna? Não é preciso haver confidências; mas às vezes havia momentos em que abríamos nossos corações diante das armadilhas da vida Lembro de que em nossos encontros não havia lugar para lamentações: há momentos em que precisamos da proximidade de um amigo-companheiro.




Nas férias do trabalho, esteve várias vezes em Caraguatatuba, onde eu lecionava Filosofia na escola estadual da cidade. Gostava do mar – e estivemos muitas vezes em manhãs e tardes de sol na praia Martim de Sá na cidade do Litoral Norte. Em uma das vezes, viajamos com toda a família para o Rio de Janeiro pela nova estrada, a Rio-Santos, passeando por Parati e Angra dos Reis. No registro da memória há uma cena: eu, Zé, sua irmã Cidinha e o marido, Miro, reunidos na Lanchonete Estrela na praça Cândido Mota em Cândido Mota em Caraguá - e, me parece, nunca fomos tão felizes.




Era gerente da Caixa Econômica Federal, e esteve trabalhando em São Roque, perto da capital paulista, no final dos anos 70 e início dos 80 . Foi um período em quem combinávamos nos encontrar a cada dois fins de semana na casa da minha mãe em Osasco. Ele queria conhecer os restaurantes de São Paulo, e estivemos nos mais sofisticados da cidade - o Rubayat na Alameda Santos foi um deles; nunca mais voltei a frequentá-los. Entre tantos copos, taças, pratos, guardanapos e talheres, me senti desorientado; foi também a única vez que estive mais próximo do discreto charme da burguesia. Não esqueço do que ele me disse: que a capital paulista é uma cidade para quem tem (muito) dinheiro.




Desde criança, morando em uma outra cidade, Gália, e depois, em Osasco ou Caraguatatuba, mantivemos a comunicação por carta. Nunca deixamos de estar em contato. Um quarto de século depois, ainda sinto a sua ausência. São momentos de desesperança, de desconsolo, de desatino em que me pergunto: para ele poderia narrar os infortúnios do presente?




O que conversávamos quando crianças? Que diálogos tínhamos na adolescência? E, na vida adulta, quais eram as nossas conversas? Ele era um jovem de uma pequena cidade do interior de São Paulo que se informava sobre o que acontecia na cidade grande. Descubro com tristeza que nunca compartilhamos o momento histórico que vivemos nesses anos desesperados. Eu, pelo cuidado em não dividir com ele o terror da repressão e das atrocidades da ditadura militar. E, hoje, quem eu elegeria para interlocutor - e com ele dividir a construção dos sonhos?




Gostava de cinema – e, na época, o filme gravado em VHS era uma novidade tecnológica – e ele os assistia sem sair de casa. Fomos algumas vezes ao teatro - e ao cinema Belas Artes na rua da Consolação em São Paulo – e lembro de nossas trocas de impressões sobre os filmes e peças teatrais. Hoje, me vejo interrogando depois de sair do cinema ou do teatro: o que o Zé diria sobre as imagens, os personagens?




Estava casado com Zelinda, e na última visita à casa deles em Bauru, ele insistiu para permanecer mais dias. Não pude atender ao convite; não suspeitava que seria a última vez que estaríamos juntos para confraternizar, comemorar a nossa amizade e brindar ao futuro.




Parece que é uma característica familiar: nenhum de nós tinha demonstrações de afeto. Mas em 4 de outubro de 2017, decidi escrever - com saudades e o coração despedaçado - e recordar o meu primo querido. Ele não viveu - como tantos outros que foram muito amados e admirados por mim - para enfrentar os desafios desse nosso tempo de desalento e desesperança.




NOTA





. Poema “A Sierguêi Iessiênin”, de Vladimir Maiakóvski, pp.109/114 de “Poemas – Maiakóvski”, tradução de Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos, Editora Perspectiva, São Paulo, 2ª edição, 1983, 176 pp

sábado, 13 de janeiro de 2018

Sem título - Risomar Fasanaro


ouço a voz da terra
e ela me traz a dor
de todas as mulheres
ouço o canto do vento
e ele me diz
do sofrimento dos aflitos

ratos invadem as casas
morcegos sugam nosso sangue
e o cheiro de esgoto
entra-nos pelo nariz
invade nossos poros

o urubu-rei e sua corte
se embolam na carniça
e riem a mais não poder
-gargalham -
indiferentes a nossa dor

a insensatez nos revolta
o cinismo é a cicuta
que bebemos
dentro da escuridão

de tanta dor
a lágrima nao salta
virou sal
virou sal
virou sal

2017

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

estações - Risomar Fasanaro


às vezes outono
folhas de mim
amarelam, caem...
às vezes inverno
inferno de mim
me recolho
-vivo meus brancos-
às vezes prima
às vezes vera
me cubro de flores
me encho de cores
bebo vinho
(re)vejo amigos
relembro amores
mas volto
sempre a ser
-verão-
abro as asas
saio da solidão

sábado, 6 de janeiro de 2018

2017 - Risomar Fasanaro


a imundície tudo invadiu
se espalhou no ar
nos contaminou
o chiqueiro
o barro
a fuligem
o esterco
tomaram conta de tudo
é o mangue
é a lama
que afaga e afoga
homens-caranguejos
chafurdam
é a chama
que nos incendiou
virou cinzas
o fogo apagou
risomar
7/5/2017 22h01



sábado, 30 de dezembro de 2017

Beija Flor- risomar fasanaro



queria te dizer
que conheci drummond
que fui amiga de elis
e que entrei
na câmara do rei
queria te dizer
que fui musa do chico
(o buarque)
que conheci o Che
e que já fui
a pasárgada
mas antes que te contasse
todas essas mentiras
teu voo se fez azul
e em minhas mãos
só ficaram
penas
risomar
2015
*****