quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O reencontro com a poesia e com o professor-poeta - João dos Reis



Para Edna Maria Fernandes dos Santos

LIVRO: “Ser tão mar – poemas”, Jorge Ivan Ferreira e Pedro Paulo Teixeira Pinto, Edição dos autores, Ubatuba, 2008

“Pássaro marítimo
Viajo verdesazuis infinitos
Perseguindo horizontes esquivos
Nas asas dos meus sonhos”.
Poema “Pássaro”, de Pedro Paulo Teixeira Pinto

“Nem em Pasárgada
seria amigo do rei
Além do mais, sempre serei só.
Tanto no Brás como num estádio
de futebol”.
Início do poema “Banzo”, de Jorge Ivam Ferreira

O poeta sempre nos surpreende: com o seu olhar privilegiado sobre as coisas, as pessoas, as paisagens. Para ele, há sempre um mistério a ser desvendado. E ficamos na expectativa de que - inspirado pelos deuses - nos revele os segredos do mundo. Um livro de poesia que chega às minhas mãos é uma agradável descoberta: é o trabalho com a palavra do escritor que torna possível reconhecer o universo.

Recebi o livro de Jorge Ivan e Pedro Paulo, de Ubatuba, com a esperança de descobrir a nova linguagem do poema - construído sob o céu caiçara e embalado pela brisa marítima. Jorge Ivan Ferreira nasceu no interior da Bahia e está na cidade há 16 anos; Pedro Paulo Teixeira Pinto nasceu em São Paulo, mas com 19 dias foi com a família para a Ilha Anchieta; desde 1973 vive na cidade: os dois são professores de Literatura e Lingua Portuguesa em escola pública.

Estive em agosto em Ubatuba – depois muitos anos - para reencontrar Pedro Paulo, professor da Escola Capitão Deolindo de Oliveira. Não foi possível conhecer Jorge Ivan nessa viagem – ele é um desconhecido que se apresenta para mim com seus poemas.

Os versos de Jorge Ivam me fizeram conhecer a sensibilidade do poeta que partiu do sertão baiano para o litoral paulista. Em “Diagnósticos”, é o reconhecimento de “querem-me sempre indignado”, mas ele diz “pois sou mesmo mui resignado”. Para quem percorreu a terra brasileira em busca de um porto de parada, “Oikos” nos avisa que “Ter domicílio é essencial; / Ter um castelo saiu de cena; / Ter uma casa é normal; / Ter um barraco é problema; / Ter um mocó pode dar cana; / Ter um teto é uma reivindicação; / Ter uma mansão é bacana; / Ter um lar é uma abstração”.

Os versos de Pedro Paulo reviveram para mim os anos 70 - de convivência fraternal, de diálogo permanente sobre todas as coisas, de conhecimento da realidade caiçara. Em “Transcendência” ele se apresenta: “A olhar o mágico mar / Ponte infinita / (que quando morro me ressuscita) / Contemplo todo o mundo... / Que é tão pequeno!” No poema “Stress”, é o desafio: “A vida impõe / A cada dia / A cada hora / A cada minuto / A cada segundo / As coisas todas deste mundo / Meu peito é pouco... / E range”.

Para quem viveu, como eu, durante oito anos próximo ao mar, o poema que ficou gravado na memória foi “Psiu”: “Esparsos / pequenos pontos escuros ao longe / são barcos pescadores solitários / tangendo sem a mínima intenção / a linha tênue do horizonte / acordando a manhã / que silente absoluta se anuncia / para o barulho trepidante / que os homens fazem do dia”.

Um livro de poemas é para ser lido, relido – e depois, não deixá-lo na estante da biblioteca: deve continuar ao nosso lado, no criado-mudo, na mesa de trabalho. Devemos buscar nele o que não encontramos sempre na vida cotidiana: a magia de um novo mundo. Deve ser para os leitores a porta de entrada para o labirinto da imaginação.

Pedro Paulo me disse que tem dezenas de poemas aguardando publicação. Por que a poesia e os poetas não estão presentes, sempre ao nosso lado, nos apoiando na dura batalha de encarar o nosso destino?

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Trinta e cinco anos depois: crônica de um reencontro em Ubatuba, SP, em agosto de 2015 - João dos Reis



Para Marilena Silva Azevedo, da Fundart de Ubatuba

“Viver é muito perigoso (...) O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. João Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”

Cheguei de viagem em Ubatuba e na noite de 21 de agosto de 2015 estou na casa de Pedro Paulo Teixeira Pinto; ele preparou uma pizza e me contou das dificuldades do período em que foi prefeito da cidade nos anos 1983-1988. Foi um reencontro depois de 35 anos.

Na sala da casa, em meio a muitos livros e discos, eu não sabia como retomar a amizade, perdida no tempo, mas nunca esquecida. Disse a ele que tive noticias dele há muitos anos por Gilmar Rodrigues Rocha e Angela Bernardes de Andrade Gil, meus ex-alunos da Escola Estadual Capitão Deolindo de Oliveira Santos, em que eu e Pedro Paulo éramos professores. Durante os dois dias em que estive na cidade, conversamos sobre o longo período em que estivemos sem contato - minha partida em 1999 para o Sul do Brasil me distanciou de muitos companheiros.

Procurei me informar sobre o trabalho do professor de Literatura e Lingua Portuguesa na Fundart (Fundação de Cultura e Arte), criada por ele em 1987: o movimento pela preservação da memória caiçara. Ele me indicou livros e textos da sua biblioteca do histórico de luta pela identidade da população do litoral paulista.

A preservação do artesanato, das danças, dos instrumentos musicais, do linguajar, das práticas e festas religiosas foi tema dos nossos diálogos. O território quilombola de Camburi, a aldeia guarani Boa Vista no sertão do Promirim, a criação de unidades de proteção e de uso sustentável (parques, estações ecológicas, reservas biológicas, áreas de proteção ambiental, reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável) foram algumas das questões que me interessaram conhecer.

Presenciei nos anos 70 em que vivi no Litoral Norte paulista os problemas da migração (de outras regiões brasileiras para o litoral), o crescimento demográfico, a partida dos jovens para o planalto – um movimento em busca de trabalho. E o surgimento de um ciclo de turismo e veranismo – um processo que acelerou a destruição da cultura caiçara: a pesca, a caça e a agricultura de subsistência. Os antigos moradores da região venderam suas terras, abandonaram os ranchos de pesca à beira-mar, mudaram para as encostas e se tornaram caseiros dos novos donos.

O professor-poeta e ex-prefeito me mostrou a nova cidade, e no passeio a pé pelo centro histórico, me apresentou aos seus inúmeros amigos que encontramos a todo o momento: como um velho amigo que reapareceu depois de muitos anos. Apresentou-me ao sapateiro: na sapataria há música, e é onde Pedro Paulo às vezes descansa após o almoço; e na padaria onde fomos tomar café, me apresentou ao pedreiro, que reclamou das dores na coluna, pois trabalhara décadas carregando material de construção para as casas nas encostas. À noite fomos jantar na companhia de Marilena Silva Azevedo no restaurante Perequim, e depois, até à madrugada, ouvir o músico Rodi cantar no bar Patto Loko na rua Baltazar Fortes, na Barra dos pescadores.

O passagem do tempo, os anos em que estivemos mergulhados na luta cotidiana, não foram capazes de apagar as lembranças e a camaradagem. Recordei a série de reportagens realizadas por sua ex-companheira, Celia Maria Tanure Romano, para “O Estado de São Paulo” nos anos 70 sobre a destruição provocada pela construção da Rodovia Rio-Santos nas comunidades caiçaras. O professor-pesquisador me falou dos que sobreviveram ao progresso e ao turismo, à devastação da mata e da cultura tradicional.

Na primeira noite do reencontro, Pedro Paulo olhou para mim, e disse: “ João, você não pensou que um de nós poderia ter morrido e esse encontro nunca aconteceria?” Me desculpei: eu que deveria tê-lo procurado antes, já que sabia que ele nunca abandonara a sua cidade. E deveria ter acrescentado: eu sempre tive um destino errante – e na vida fui um navegante solitário e inveterado.

Sob um céu azul e iluminado pelo sol de inverno de agosto em Ubatuba eu me interroguei: até quando continuarei minha viagem?

terça-feira, 18 de agosto de 2015

RELATO: uma reunião da Comissão da Verdade de Osasco – agosto de 2015 - João dos Reis



Para Antonio Roberto Espinosa

“E acusam-nos de não promover a reconciliação nacional, de alimentar os ódios e os ressentimentos, de impedir o esquecimento. Mas não é isso. Não nos movem, nem o ressentimento nem o espírito de vingança; só pedimos a Verdade e a Justiça (...), entendendo que só poderá existir reconciliação depois do arrependimento dos culpados e de uma Justiça fundamentada na Verdade”, Prefácio de 1984 do “Nunca Más - Informe da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas na Argentina”, presidida por Ernesto Sábato

Às 20 horas de 11 de agosto de 2015 termina a reunião da Coordenação da Comissão Municipal da Verdade de Osasco. Olho para os rostos dos presentes: a impressão é de cansaço. Todos os participantes são voluntários – uma colaboração militante com o trabalho de pesquisa e documentação dos anos de repressão e terror policial na cidade durante a ditadura militar.

Foi um ano de reuniões semanais nas cinco subcomissões (Agentes de Estado, Equilibrio Federativo, Entidades Civis, Vitimas, Locais) e da coordenação desde que criada em agosto de 2014 por um projeto do Executivo e aprovada pelo Legislativo, sob a coordenação geral de Albertino Souza Oliva e, a partir de 2015, do vice-coordenador Luciano Jurcovichi Costa, e hoje, de Murilo Leal Pereira Neto.

Nas reuniões de que participei havia uma longa pauta a ser cumprida: ofícios encaminhados à Comissão Nacional da Verdade, aos comandantes militares da região, visitas aos locais de detenção e tortura, oitivas dos que foram atingidos pela perseguição policial, pesquisa nos anais da Câmara Municipal, participação no desfile do 7 de Setembro, projeção de filmes-documentários.

E, na subcomissão de que participo, o levantamento de nomes completos, endereços e telefones dos torturadores. Localizamos o telefone de Wilson Damasceno, que foi Presidente da Sociedade Esportiva Ponte Preta do Km 18. Pesquisamos no site da Academia Militar das Agulhas Negras: lá estavam as fotos dos jovens cadetes José Alberto Somavilla e Mauricio Lopes Lima. O que os levou à prática cruel da tortura e assassinato nos centros de detenção? Como convivem com as lembranças do passado? Há algum sinal de arrependimento e culpa? Aceitarão comparecer à uma audiência pública da Comissão da Verdade?

Um relatório preliminar foi apresentado em dezembro de 2014; o texto final está sendo escrito. É o registro para a História dos anos em que a cidade teve o prefeito e vereadores cassados, operários sitiados e presos na greve de 1968, estudantes e militantes de organizações de resistência à ditadura perseguidos, torturados, mortos e exilados. Foi documentado uma das maiores tragédias vividas pelos osasquenses.

Personagens da história de Osasco retornaram à cidade: Gabriel Roberto Figueiredo, Maria Aparecida Bacega, Stanislaw Szermeta - para citar os nomes dos que estive presente nos depoimentos, que foram realizados na Câmara Municipal e no Sindicato dos Metalúrgicos - e transmitidos em tempo real pela TV Câmara ou postados na internet no Youtube pela TV Osasco. Nem todos puderam ser ouvidos; outros apenas lembrados porque foram mortos pela repressão: Carlos Roberto Zanirato, Carlos Lamarca, João Domingues da Silva, José Campos Barreto – e o estudante Sergio Zanardi, que se suicidou nos anos 60.

O trabalho da Comissão revelou: o terror policial deixou sequelas em todos os que ousaram desafiar os que usurparam o poder para humilhar, torturar, matar e “desaparecer”. Ao contrário do que acontece na Argentina, Chile e Uruguai, os algozes de uma geração não serão punidos – e tampouco ouvidos, porque recusam-se a comparecer a uma audiência.

Houve um tempo de guerra durante os anos de resistência; depois um tempo de silêncio e medo. Hoje, há uma redescoberta do passado – recordar, documentar - para que nunca mais aconteça no futuro.



quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Pinturas abstratas de Risomar Fasanaro à venda


Quadros à venda: painéis em acrílica e técnica mista. Contatos pelo Feicebuk- risomarfasanaroguarnaikaiowá pelo bate-papo. Facilito o pagamento com cheques pré-datados.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Algo de Podre no Reino da Universidade Pública? - Roberto Espinosa


Este é o primeiro de uma série de artigos do professor de Relações Internacionais e jornalista Antonio Roberto Espinosa (ex-PRIMEIRA HORA) sobre os segredos e o burocratismo já presentes no jovem campus local da Universidade Federal de São Paulo.
Mérito ou compadrio na seleção de professores?
Antonio Roberto Espinosa[1]
Não fosse por um pormenor eu jamais teria chance de acolhimento do mandado de segurança impetrado na Justiça Federal: um outro candidato que, sintomaticamente, acabou “classificado” em primeiro lugar, chegou para o primeiro dia do concurso com um módico atraso de 2h10[2], aliás omitido na ata oficial do certame. Não fosse pelo descumprimento do horário, qualquer reclamação posterior seria humilhada como choro de derrotado; os três décimos de ponto a mais seriam alegados como superioridade intelectual e atestariam a lisura do concurso, uma vez que as bancas acadêmicas são soberanas e suas decisões, inexplicadas e inquestionáveis. Não registram seus critérios ou prestam contas, apenas votam. Sem pegadas ou vestígios da armação, o juízo do “notório saber”.
Raras vezes candidatos pré-selecionados desprezam as “formalidades” do edital e organizadores de concursos dão-se ao desplante de produzir atas omissas ou distorcidas. Mesmo com candidatos cuidadosos e pontuais e atas circunstanciadas, entretanto, são flagrantes os casos de nepotismo e/ou favoritismo nos concursos públicos para a seleção de professores superiores, inclusive no nosso jovem campus da Unifesp, já que há outros inquéritos civis públicos em andamento e correm a boca pequena boatos acerca de inúmeros casos cabeludos. Se comprovados, verdadeiros escândalos.
Serei, provavelmente, o único professor nascido em Osasco a lecionar neste campus, um dos mais ativos participantes da luta pela sua implantação[3] e, com certeza, o primeiro a nele ingressar por força de um mandado de segurança[4], que desfez uma injustiça e denota a existência de manipulação na formação dos esquemas de poder dentro da universidade. Sinto-me, portanto, obrigado a pesquisar a formação da burocracia acadêmica, a investigar os mecanismos e as práticas que permitem a transformação do público em privado ou a apropriação particular de um bem coletivo com base num suposto mérito. Mérito em quê? Expertise convertida na conhecida esperteza. De uma maneira geral, a presunção e a arrogância, além do sentimento de impunidade, constituem a marca indelével do aparelhamento da universidade pública pela burocracia acadêmica privatista, que será o tema da série de artigos semanais que começo a publicar hoje neste jornal.
Para não inaugurar solitário essa série, invoco o testemunho do historiador Angelo Segrillo, da USP, que, por sinal, integrou a banca examinadora do concurso 1007/2013, de que participei, que afirmou ser “um segredo de polichinelo” o fato de que “muitos concursos públicos para professores universitários não são conduzidos da forma isenta e neutra como idealmente deveriam ser”, no artigo “A corrupção nos concursos públicos acadêmicos”[5]. Cito-o:
“É claro que nem todos os concursos públicos são corrompidos, muitos dos concursos públicos são honestos e a grande maioria dos professores age honestamente. Mas há um mal-estar entre alguns de nós de que o número de concursos ‘arranjados’ passa, talvez em muito, o nível do meramente esporádico”.
O incômodo representado pela corrupção nos concursos, segundo ele, cria obstáculos éticos a que os professores universitários continuem agindo como arautos da moralidade, denunciando a corrupção do meio político, ou atuando como “grilos falantes” do espírito da cidadania.
“Nós, os professores universitários, os intelectuais, somos uma espécie de ‘grilo falante’ da sociedade, a consciência que pensa criticamente e aponta erros e caminhos. Se nós aceitarmos esse tipo de ‘patrimonialismo’ entre nós, como poderemos criticar os políticos por fazerem o mesmo?”.
Presenciei esse “mal-estar” contra os “concursos ‘arranjados’” às 10h20 de 12 de maio do ano passado, na sala 12 do campus Osasco da Unifesp, no momento em que o candidato atrasado chegou, ainda com cheiro de sabonete e desodorante, lépido e saltitante, ocupando uma das carteiras, 2h10 após os demais concorrentes. Estes, já irritados com a demora, tiveram a nítida impressão de que o início da prova fora retardado até a sua chegada. Denunciaram as “cartas marcadas” na hora, em viva voz. Um dos presentes exortou: “Vamos embora, pessoal. Estamos sendo feitos de otários. A mocinha beneficiada pelo nosso cansaço só chegou agora porque tem a certeza de que com ela ninguém pode”[6]. A alegação de que teria perdido a hora devido a problemas de trânsito tornou-se motivo de brincadeiras, pois os outros, apesar de tudo, haviam cumprido os termos do edital. A chamada cara de pau e o riso que brota da impotência face a arbitrariedade.
Nessa série de artigos, resultantes das pesquisas e reflexões realizadas a partir da minha experiência com concursos públicos universitários, vou procurar demonstrar como a igualdade legal se transforma em desigualdade material, a regra é superada pela exceção e a norma republicana desliza para o domínio autocrático. Vou também tentar demonstrar a lógica que faz com que uma burocracia selecionada por concursos supostamente idôneos passe a abrigar organizações mafiosas cada vez mais numerosas e influentes, em detrimento da pesquisa, da ciência e da difusão do conhecimento. Esse propósito me fez estudar não apenas a formação e o comportamento das bancas examinadoras, mas também a cultura “produtivista” da vida acadêmica, que contamina também as instituições de fomento à pesquisa, reduzindo a mensuração do saber à contagem de certificados de participação em eventos. É nesse caldo de cultura que cônjuges, primos e irmãos transformam o parentesco em mérito, a experiência de vida em demérito e até a pontualidade e o compromisso em irrelevâncias, com o absurdo de premiar o atraso, como no caso do concurso citado, cujos resultados foram anulados pela Justiça Federal, mas ainda continuam a valer, uma vez que, praticamente dois meses depois da edição do mandado de segurança, e apesar da homologação do nome de outro vencedor do concurso, a burocracia acadêmica ainda não o nomeou, agindo de maneira corporativista, em nome do seu direito de recurso, mas prejudicando o corpo discente. Mudar esse quadro não será fácil, nem possível somente no interior da corporação, sendo necessários o desenvolvimento de uma consciência da cidadania a respeito do problema e uma intervenção mais incisiva do Ministério Público e das instâncias judiciais. O próprio professor Segrillo adianta um prognóstico:
“Esperar uma reação puramente endógena, espontaneamente surgida dos próprios professores já estabelecidos, parece irrealista. A maioria tem medo de mexer em um ‘vespeiro’ desses que envolve tantos interesses e estruturas de poder acadêmico que podem deixar marcados qualquer eventual whistle blower ‘criador de problemas’”.

[1] Professor Doutor pela Universidade de São Paulo (USP). Professor Adjunto homolagado da Unifesp (campus Osasco) em Pensamento Político e Relações Internacionais. Autor de A sombra dos leviatãs, O ônus da prova neoconservadora e Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade. Editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe (Boitempo Editorial, 2006). Jornalista, foi editor-chefe na Abril Cultural (1974-1985), editor e diretor do jornal Primeira Hora (1985-2000).

[2] Trata-se do concurso para professor adjunto em período integral da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O concurso foi convocado pelo Edital 1007/2013. Em 12 de maio de 2014 aconteceu a primeira das três provas do concurso. Nesse dia, efetivamente, houve problemas de trânsito em Osasco, mas os demais candidatos, previdentes, haviam chegado mais cedo. O edital obrigava os candidatos a apresentar sua documentação às 8h10, prevendo que a prova de redação poderia acontecer às 8h30. A presidente da banca, contudo, abriu a parte oficial dos trabalhos às 9h55 e admitiu a presença do candidato retardatário às 10h20, fatos, também sintomaticamente, omitidos na ata final. A sentença referente ao mérito do mandado de segurança 0003088-76.2014.4.03.6130 foi lavrada pelo juiz titular da 5ª Vara da Justiça Federal de São Paulo em 18 de fevereiro de 2015.

[3] A propósito vale lembrar o artigo “Quem tem medo da universidade federal?”, publicado também neste jornal em 4 de fevereiro de 2011.

[4] Para o sucesso do qual devo registrar a confiabilidade, acuidade e luta dos advogados Ênio Gruppi Filho e Rodrigo da Silva Oliveira.

[5] Jornal O Globo, 27 de julho de 2013.

[6] Um colega, o professor doutor Danilo Ferreira da Fonseca, por exemplo, comentou e depois escreveu que “Acabou de entrar a candidata já aprovada, independentemente da prova [que fizer]. Nós podemos deixar de perder tempo e voltar para casa, deixando-a à vontade com quem autorizou a sua entrada. É marmelada”.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

COMO MATAR ÍNDIOS COM GIZ E APAGADOR José Ribamar Bessa Freire



02/08/2015 - Diário do Amazonas




Dadme, por favor, un pedazo de pan... / pero dadme / en español.
César Vallejo (1892-1938) - La Rueda del Hambriento

Por que hoje é tão alto o índice de suicídio entre os índios que originalmente desconheciam tal prática? Segundo o estudioso da língua Tukano, padre Casimiro Béksta, aqui citado na semana passada, não existe sequer tradução para tal palavra na maioria das línguas indígenas. Os pesquisadores que estudaram o suicídio de índios citam diversas causas relacionadas à terra, religião, economia, políticas de saúde e de educação, entre outras. Destacamos aqui uma delas vinculada às línguas e a seu uso na escola.
São faladas 23 línguas em São Gabriel da Cachoeira, no Rio Negro (AM), que, entre os mais de cinco mil municípios brasileiros, lidera o ranking de suicídios de índios no Brasil (Mapa da Violência - Diário do Amazonas, 9/10/2014). A taxa de suicídios lá é dez vezes maior do que a média nacional. Entre 2008 e 2012, foram 50 casos por 100 mil habitantes, enquanto a média brasileira é de 5,3 suicídios. Entre os suicidas de São Gabriel, 93% são índios que se enforcaram ou se envenenaram com timbó.
- O que está acontecendo é um extermínio - afirmou o médico Carlos Felipe D´Oliveira, da Rede Brasileira de Prevenção ao Suicídio. Em janeiro deste ano, essas mortes, assim como as ocorridas em municípios de Mato Grosso do Sul, foram discutidas em Brasília no Fórum Brasileiro sobre Suicídio, que encaminhou minuta ao Congresso Nacional pedindo ações de prevenção e criação de políticas públicas para reduzir a incidência de suicídios. A proposta certamente ficará engavetada pelo deputado Eduardo Cunha (vixe, vixe), se ninguém ficar mordendo seu calcanhar ou se ele não cair antes derrubado pelas acusações de corrupção.
A "souffrance"
Entre as políticas públicas, estão as políticas de línguas. O tratamento que a sociedade dispensa às línguas interfere no índice de suicídio, se for correta a hipótese do linguista e antropólogo belga André-Marcel d´Ans (1938-2008). Ex-professor da Universidade de Paris VII, ele estudou os mitos dos índios Kaxinawá da Amazônia peruana, onde viveu por mais de seis anos. No seu artigo "Linguagem e Patologia Social", usa a categoria "souffrance" para explicar o sofrimento e o desespero provocados pelas tensões e conflitos linguísticos, que podem provocar o suicídio.
A "souffrance" - diz ele - é um tipo de sofrimento patológico, que não é resultado de nenhuma anomalia individual, mas provém de uma alteração funcional da situação linguística. Ela se dá quando se obriga alguém a usar uma língua que não é sua língua materna, num contexto de discriminação e preconceito. Cita o caso de um Yaminawa que havia sido alfabetizado, na marra, por missionários católicos, e contraiu a "souffrance".
Segundo D´Ans, essas anomalias atingem tanto o corpo como o psiquismo, originadas pelas tensões e conflitos que provocam os impasses linguísticos, “gerando um desespero que pode chegar, nos casos mais graves, a condutas violentas e/ou suicidárias”. Ele estabelece assim uma relação entre o uso da língua materna e o psiquismo dos indivíduos. Para não morrer de fome, não basta um pedaço de pão, é preciso assegurar o direito de cada um ter o pão em sua língua materna, como no poema de Vallejo escrito quando vivia na França.
Uma visão histórica sobre as políticas de línguas na região e seu uso na escola nos dão uma dimensão do estrago, conforme revelam os relatórios do poeta Gonçalves Dias que foi nomeado pelo presidente da Província do Amazonas, em 1861, para o cargo de visitador das escolas públicas de primeiras letras. Ele viajou pelos rios Solimões e Negro, visitou escolas e fez uma etnografia da sala de aula. Conversou com professores, folheou cadernos de alunos, assistiu aulas, elaborou um censo escolar, observou o calendário, currículo, livros didáticos, tudo.
O Apagamento
Uma conclusão de Gonçalves Dias é que a escola não funcionava no Amazonas, porque as aulas eram dada em português, mas a maioria da população desconhecia esta língua e falava, além de um idioma indígena, a Língua Geral ou Nheengatu. Mesmo assim, o poeta recomenda ao Presidente da Província que mantenha o português, pois “a vantagem da frequência das escolas estaria principalmente em se desabituarem da Língua Geral, que falam sempre em casa e nas ruas, e em toda parte”. Quer dizer, uma das funções da escola era mesmo apagar essas línguas consideradas "bárbaras, pobres e sujas".
Desta forma, os alunos continuariam excluídos do conhecimento escolar, mas para o poeta avaliador das escolas. mais importante do que o conteúdo das disciplinas era impedir o uso das línguas indígenas e impor o português:
"No falar a língua portuguesa já vai uma grande vantagem, e tal que, quando mesmo os meninos não fossem à escola para outra coisa, ainda assim conviria na atualidade e ficaria ainda sendo conveniente por bastante tempo, que o governo com esse fim criasse e sustentasse as escolas primárias do Solimões”.
Não dispomos de dados precisos sobre os suicídios de indígenas no Amazonas no séc. XIX. No entanto, depois de 1950, tanto no Solimões quanto no Negro, existem registros nos jornais e nos boletins policiais, evidenciando como se pode matar índio com giz e apagador. Tais dados podem ser correlacionados com as avaliações dos internatos criados pelos salesianos na região, cujo objetivo era, como o proposto por Gonçalves Dias, apagar as línguas indígenas em nome de uma "unidade nacional".
No entanto, não são apenas as escolas onde estudam os índios as criadoras de "souffrance". Houve um avanço e hoje já existem escolas bilingues que procuram valorizar as línguas indígenas como línguas de instrução nas primeiras séries. Mas isto de nada serve se esses índios, quando entram em contato com a sociedade nacional, sofrem discriminação de brasileiros preconceituosos, que frequentaram escolas onde não aprenderam a respeitar as línguas e culturas indígenas.
Por isso, o XXVIII Simpósio Nacional de História realizado nesta semana em Florianópolis aprovou em sessão plenária a moção encaminhada ao Conselho Nacional de Educação, solicitando regulamentação da Lei 11.645/2008, que determinou a inclusão do Ensino de História e Cultura Indígena na Educação Básica. Os profissionais da área estão exigindo a formulação de orientações e diretrizes pedagógicas, bem como a criação de disciplinas nos cursos universitários de História e Pedagogia que formem e atualizem os professores para implementar a lei.
Enquanto isso não for feito, o problema tende a se agravar. A imagem mais acabada da "souffrance" é a notícia "Dois ticunas se suicidam" publicada no Jornal do Brasil (19/08/1991). Um deles, Artur Gabriel, 32 anos, tio do vice-capitão da Comunidade de Umariaçu, Waldir Mendes, se enforcou cantando. Em língua ticuna, segundo seu sobrinho:
"Na manhã do dia 6 de agosto, depois de passar a noite inteira entoando canções indígenas, com uma garrafa de cachaça ao lado, Gabriel apareceu enforcado no fundo do quintal, pendurado a uma árvore".
P.S. - Alguns leitores pediram disponibilizar o artigo original com esse título publicado em dezembro de 1979, o que farei nos próximos dias, depois de digitá-lo.
02/08/2015 - Diário do Amazonas





Linguagem & Exclusão - Risomar Fasanaro


Minha amiga Alfredina Nery, que também é professora de língua portuguesa e de literaturas brasileira e portuguesa, me presenteou com o livro “A Língua de Eulália”, de Marcos Bagno. Graças à leitura desta obra e a longas conversas com ela, passei a refletir mais sobre a linguagem oral e o preconceito de que ela é vítima.
Atenta às observações que as pessoas fazem a respeito das “incorreções” da linguagem do povo, resolvi me aliar a alguns linguistas, e defender a forma de falar de grande parte da população.
Um dia estava no elevador do prédio com o jornal do dia, e ao olhar a primeira página comentei com um rapaz que tinha vindo consertar alguma coisa no condomínio: “nossa!...só traz notícias ruins.” E ele concluiu: “pois se é disso que ele vévem...”
Naquele instante constatei o quanto a língua é um divisor de águas entre os incluídos e os excluídos. Já passara da hora de eu escrever sobre o assunto. A exclusão se estampava naquela figura simples, vestida humildemente, calçando sandálias havaianas.
Aquele rapaz expressava seu pensamento em uma variação de língua não consagrada pela gramática normativa, mas revelava a consciência que ele tem, capaz de reconhecer seu papel de cidadão, e de perceber claramente que a mídia, em nossa sociedade, enxerga muitas vezes, apenas uma fatia da realidade: a das tragédias humanas, aquela que produz lucros. “notícia boa não vende” é o que dizem.
Faz algum tempo, em um curso de “Políticas públicas para mulheres” que fiz, ouvi de uma das presentes: “eu sinto vontade de falar, de participar dos debates, de dar minhas opiniões, mas tenho medo de falar errado e as pessoas rirem de mim”.
Aquele desabafo me causou profundo mal-estar. Saber que a linguagem, um dos mais importantes instrumentos que existem para promover a comunicação entre as pessoas, pode se tornar uma barreira, e, o que é pior, pode promover a exclusão, exige dos que a utilizam como instrumento de trabalho, alguma (re)ação.
Mas nem sempre pensei assim. Houve um tempo em que meus ouvidos faziam “toiiimmmm” cada vez que ouvia alguém se expressar diferentemente das normas gramaticais. O encontro com aquele rapaz no elevador me deixou feliz. Feliz por perceber quanto eu mudara, o quanto agora eu entendia e compreendia a língua brasileira, a língua do meu povo que, ao contrário do que pensam os que ditam suas normas, ela não é pobre, não é corrompida, nem está na sarjeta, como ouvi alguns dizerem. Ao contrário, ela segue o caminho natural que é o dinâmico, passa pelas transformações a que todas as línguas vivas estão sujeitas.
A cada momento que um brasileiro inventa uma palavra, a cada instante em que ele supre um s, troca um l por um r, ou traz para nosso vocabulário uma palavra árabe, norte-americana ou japonesa...sei lá, ela se enriquece.
Vamos defender a leitura de obras literárias sim, mas não façamos delas “camisas-de-força” que obriguem as pessoas a falar exatamente como se escreve. Por enquanto língua falada é uma, escrita é outra.
Que o exemplo de Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Aluísio Azevedo, João Antônio e Lima Barreto, esse último usou até gírias em “Triste fim de Policarpo Quaresma”, todos defensores da linguagem popular, seja seguido e inspire outros autores a utilizá-la em seus escritos. Quem sabe passemos a ver essas fugas das normas oficiais não como incorreções, e sim como fazendo parte da língua. Uma língua que há muito já deveria se chamar de brasileira.
Aos que acham que ela deve ser fiel ao português de Portugal, pergunto: é possível hoje excluirmos do nosso vocabulário palavras como: sachimi, deletar, quibe e tantas outras? É interessante exigir que nosso povo diga dois reais, nós fazemos, nós iremos, quando ele já consagrou “dois real”, “nós faz”, “nós vai”?
Os que têm consciência disso, devem continuar insistindo pelo direito de todas as variações de usos da língua serem consideradas em sua riqueza de conteúdo. A língua falada de um país é a da classe dominante. Assim, nosso papel enquanto pessoas que têm o objetivo de construir um país verdadeiramente democrático, é o de brigar para que nossa língua nunca se feche às transformações dos que “vévem” à margem das gramáticas.
É preciso lembrar que a literatura sobreviveu muitos séculos completamente independentes da gramática. Homero escreveu a “Ilíada” e a “Odisseia” no século VI antes de Cristo, enquanto as gramáticas gregas só surgiram no século II AC.
Não vamos esquecer o poeta pernambucano Manuel Bandeira que em seu poema “Evocacção do Recife”, em 1930 já reconhecia a beleza da língua do povo:
“...a vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros/vinha da boca do povo na língua errada do povo/língua certa do povo/porque ele é que fala gostoso o português do Brasil/ao passo que nós/o que fazemos/ é macaquear/ a sintaxe lusíada”


sábado, 1 de agosto de 2015

2015: um encontro de amigos em Osasco - João dos Reis



Para Ewerton Antunes e Arthur Antunes, de Curitiba

“Estamos os meus amigos. (...)
Os gestos, a alegria
do encontro tornara-os ternos e desajeitados.
Mais do que dirigindo-nos a nós próprios,
fazíamo-lo para uma presença imaginária,
a secreta corrente que cada um unia, e,
mais secretamente ainda, dois e três escondia.(...)
Os meus amigos falam, falam todos ao mesmo
tempo e não se entendem.
E quanto mais querem dizer mais abraços dão”
João Miguel Fernandes Jorge, inicio do poema “Jantar em Alcabideche”.

No restaurante “La Manchega” em Osasco, Albertino revela as dificuldades da Comissão da Verdade de Osasco. José Geraldo nos conta do período e que ele e o filho estiveram com dengue; e da viagem ao campo de concentração Auschwitz na Polônia. Risomar descreve o personagem do livro que está terminando de escrever. Toninho nos fala da cela no DOPS do Largo General Osório onde esteve preso nos anos 70. Espinosa anuncia a série de artigos que está escrevendo sobre a universidade pública. Airton mostra o entusiasmo com o curso de Fenomenologia que está frequentando na USP.

O grupo se reúne mensalmente para um almoço de confraternização há quatro anos. Albertino Souza Oliva, advogado, participou do movimento emancipacionista de Osasco. José Geraldo Vieira, advogado, esteve ligado ao movimento dos padres operários – e é o principal idealizador desses encontros. Risomar Fasanaro, professora de Literatura e Lingua Portuguesa, ativista cultural que esteve ligada aos artistas que agitaram a cidade desde os anos 60. Antonio Vieira de Barros, operário, participou da JOC, da Frente Nacional do Trabalho e da Oposição Metalúrgica. Antonio Roberto Espinosa foi do comando da organização guerrilheira VAR-Palmares e proprietário do Jornal “Primeira Hora”. Airton Cerqueira Leite, professor de Geografia, militou na Apeoesp, sindicato dos trabalhadores da educação pública.

Sobre o que conversamos? Nossos diálogos não têm roteiro; nossos almoços não têm data nem dia definidos: é um encontro de amigos para trocar idéias, revelar as agruras do cotidiano, expor as dificuldades e os novos projetos – uma celebração à vida e ao futuro.

Estivemos sempre ligados por laços de amizade e de ideais políticos. A passagem do tempo não nos afastou, apesar dos caminhos que cada um de nós percorreu. O que nos aproxima ainda hoje? Penso que é o compromisso com a luta da classe trabalhadora, a defesa de um humanismo radical, de uma sociedade com justiça e igualdade.

Todos participaram da vida sindical e política na cidade. Albertino e José Geraldo como militantes e da assessoria jurídica da Frente Nacional do Trabalho; Toninho e Airton como sindicalistas; Risomar como militante sindical e da cultura; Espinosa como jornalista e professor universitário.

Em muitas outras reuniões os amigos estiveram presentes: no Partido dos Trabalhadores, na Frente Nacional do Trabalho, no sindicato, na vida cultural da cidade. Acredito que em nenhuma dessas ocasiões ficou evidente como nos nossos almoços-encontro: a amizade fraterna e solidária – que sobreviveu aos anos do terror policial, aos dilemas da redemocratização, à partida definitiva de companheiros, aos embates da vida presente.

E vocês me perguntam: quem sou eu no grupo de amigos do passado? Sou o “secretário” indicado por eles para articular o encontro, marcar o dia, escolher o restaurante, enviar e-mails para os convidados. Como no verso final de João Miguel Fernandes Jorge, estou presente entre meus amigos e, em silêncio, “olhava-os como vocês, leitores, nos estão a olhar agora”.