terça-feira, 3 de julho de 2018

A Fome é Amarela- Risomar Fasanaro




Um repórter da “Folha” é escalado para fazer uma matéria sobre a primeira grande favela de SP, no Canindé. Lá, conversando com os moradores, descobre uma mulher semialfabetizada, catadora de papel, que escreve um diário. Ela lhe conta que aproveita os restos de cadernos que encontra no lixo, e escreve todo tempo que tem livre.
Carolina Maria de Jesus é seu nome, o repórter o jornalista Audálio Dantas. Ele pede para ver o diário, e ela lhe mostra : são vinte cadernos, escritos entre julho de 1955 e janeiro de 1960. Lendo algumas passagens ele conclui que nem ele, nem nenhum outro repórter descreveria melhor o que é viver ali. Além dos cadernos, Carolina encontrava muitos livros, e lia muito.
Audálio Dantas publica uma matéria na revista “O Cruzeiro”, e faz mais: leva os diários a uma editora, e consegue a publicação do livro “ Quarto de despejo”.
Nesse diário, Carolina divide a cidade como se fosse uma casa em que o centro é uma sala de visitas, com todo seu requinte, todo seu luxo, e a favela o quarto de despejo dessa casa. Esta é a razão do título da obra.
O dia a dia dessa mulher negra, mãe solteira de três filhos está ali, escrito a suor e sangue a sua batalha diária, para conseguir alguns cruzeiros (a moeda da época) que lhe possibilitem levar alimento para casa.
É batalha dura, indo buscar água de manhã para poder fazer comida, lavando roupas numa lagoa, e catando papéis, garrafas, latas e ferro velho. Vende o que encontrou no lixo, mas nem sempre consegue comprar o mínimo de que precisa, e volta para casa desanimada, sem conseguir nada que aplaque a fome dela e dos filhos. E a fome não os deixa dormir.
E tão grande é a fome que ela diz que passava a ver tudo amarelo, por isso deu a ela a cor: a fome é amarela. Mas não é carência só de alimentos, é de tudo. Muitas vezes os filhos não tinham sapatos para ir à escola. Ela ficava dias sem lavar roupa por não ter sabão...
E enquanto essa mulher corajosa fica escrevendo ou lendo, a favela fervilha. São vizinhos que brigam, fazem fofoca e a bebedeira corre solta. As mulheres sofrem violência, apanham dos maridos, e isso tanto se repete, que deixa de ser novidade. Faz parte da rotina. Ali, tudo se sabe:quem traiu, quem se prostituiu, quem saiu com o marido de quem...Mas ela diz : “ não tenho tempo para ir na casa de ninguém”.
Há momentos de lirismo como: “O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados, que deitam e não dormem porque deitam-se sem comer.” Deixei o leito as 4 horas para escrever. Abri a porta e contemplei o céu estrelado.” Em outra passagem ela escreve : “contemplava extasiada o céu cor de anil. E eu fiquei compreendendo que eu adoro o meu Brasil. O meu olhar posou nos arvoredos que existe no início da rua Pedro Vicente.”
Algumas vezes a revolta se manifesta:” O que eu aviso aos pretendentes a política, é que o povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la. O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora (... ) Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer. Pensei até em suicidar.”
Quem estiver à procura de um bom livro para ler durante as férias, recomendo essa obra. Carolina é a escritora pioneira da literatura marginal no Brasil. Seu diário foi traduzido para mais de treze línguas. E ela tem além deste primeiro, vários outros: Casa de Alvenaria é o segundo, e nele ela faz algumas denúncias. Tanto esse como Quarto de Despejo hoje são raridades. Alguns livreiros vendem um exemplar por 300, 400 reais.
Risomar Fasanaro

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