sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Anotações sobre a cultura indígena no Brasil - João dos Reis



Para Efraín, Quica, Juan Fernando e Guillermo, de Montevidéu

“No começo só havia Mavutsinin. Ninguém vivia com ele. Não tinha mulher. Não tinha filhos, nenhum parente ele tinha. Era só. Um dia ele fez uma concha virar mulher e casou com ela. Quando o filho nasceu, perguntou para a esposa: _É homem ou mulher? _ É homem. _ Vou levar ele comigo. E foi embora. A mãe do menino chorou e voltou para a aldeia dela, a lagoa, onde virou concha outra vez. _ Nós, dizem os índios – somos netos do filho de Mavutsinin” – Mito Kamaiurá (p. 55).

Era uma das histórias que lia e comentava com meus anos no primeiro ano do curso colegial. Para falar sobre mito e razão – a linguagem mítica e a linguagem filosófica. Na aula de Filosofia, refletia sobre o desconhecimento no Brasil da questão indígena.
“Ìndios do Brasil” (Editora de Brasília, 1970, 208 pp) de Julio Cesar Mellatti foi uma consulta valiosa. O autor escreve que em 1957 havia 143 grupos tribais - com informações sobre a população de apenas 109 – e 33 viviam isolados. Em 1900, eram 230 grupos tribais – e em meio século, 87 desapareceram (p. 37-38).
“Xingu, os índios, seus mitos” (Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1974, 3ª edição, 212 pp), de Orlando e Claudio Villas Boas, foi uma descoberta da cultura indígena xinguana. Com a criação em 1961 do Parque Nacional do Xingu, os índios tiveram a proteção contra os invasores de seu território. Nas primeiras décadas do século 20, muitas tribos desapareceram da região do Alto Xingu, entre eles: Anumaniás, Arupati, Maritsauá, Iarumá, Aualáta; havia poucos sobreviventes, espalhados por várias aldeias: Tsúva, Naruvôt, Nafuquá , Kutenábu (p. 31). Outros dois grupos tribais continuavam arredios ao contato com os irmãos sertanistas nos anos 70: os Agavotoqueng, os Auaicu e os Miarrãs.
“A maioria das histórias registradas, não fugindo à regra geral dos mitos, encerra uma interpretação do mundo através de uma maneira peculiar de explicar a natureza e a origem das coisas, como: a conquista do dia; a obtenção do fogo; a formação dos rios (...) Revelam uma maneira de conceber o mundo, como também explicam e fundamentam os principais traços espirituais, morais e materiais da cultura...” (Orlando e Cláudio Villas Boas, p. 50).
O Parque Nacional do Xingu tem hoje 2.797.491 hectares, habitado pelas etnias Aweti, Kalapalo, Kamaiurá, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahukwá, Trumai, Wauga, Yawalapiti, Ikpeng, Kaiabi, Yudjá e Suyá, segundo levantamento da Unifesp em 2002. Hoje, a Associação Terra Indígena Xingu e o Instituto Socioambiental, tem uma parceria, o Projeto Fronteiras – e realiza um mapeamento por fotos de satélite das ameaças de invasão do território indígena ou de queimadas.
E quais as línguas faladas pelos índios brasileiros? No livro de Melatti (páginas 41 a 50), e no portal do ISA (Instituto socioambiental), secção Povos Indigenas do Brasil, há várias famílias: a tupi-guarani (Kamaiurá e Kaiabi); a Juruna (Yudja); a Aweti (dos Awetis); a Aruak (Mehinako, Wauja e Yawalapiti); a Karib (Ikpeng, Kalapalo, Kuikuro, Matipu, Nahukwá e Navurutu); a Jê (Kisedjê e Tapayuna); e uma íngua não classificada: Trumai.
Estive no início dos anos 80 em um almoço na casa de um companheiro, militante do Partido dos Trabalhadores de Itanhaém – e conheci dois jovens índios: Ailton Krenak (Ailton Alves Lacerda Krenak) e Alvaro Tukano (Alvaro Fernandes Sampaio). Foi um dia de confraternização, de passeio pela praia – e voltamos para São Paulo no mesmo carro. Foi um tempo em que acreditávamos no final da ditadura militar e na redemocratização do país. Hoje, Ailton Krenak e Alvaro Tukano são lideres do movimento indígena no Brasil.
NOTA
1. O mito Kamaiurá (“Mavutsinin, o primeiro homem”) e a citação de Orlando e Claudio Villas Boas são do livro “Xingu, os índios, seus mitos”.
2. No Apêndice e na Bibliografia do livro de 1970 do antropólogo Julio Cesar Melatti (páginas 187 a 208) há uma relação de estudos, monografias, livros e artigos sobre a questão indígena; hoje, essa indicação deve ser muito maior.
3. Há informações mais atualizadas da questão indígena, de Ailton Krenak e Alvaro Tukano, do Parque Nacional do Xingu, em vários portais. Indico o do ISA (Instituto socioambiental):
Povos Indígenas no Brasil - Instituto Socioambiental

domingo, 25 de setembro de 2016

TEXTO/RESENHA - Oswaldo França Junior, o aviador-escritor- e "O homem de macacão" - João dos Reis



Oswaldo França Junior, o aviador-escritor - e “O homem de macacão”

Um aviador que se tornou escritor. A biografia de Oswaldo França Junior está ligada a um dos fatos mais dramáticos da História brasileira. Participou do grupo que planejou bombardear em 1961 a sede do governo do Rio Grande do Sul em Porto Alegre. Leonel Brizola, com a Cadeia da Legalidade, resistiu ao golpe que impedia a posse de João Goulart na Presidência da República, depois da renúncia de Janio Quadros.

O tenente França era chefe do setor de informação da unidade de combate do 14º Grupo de Aviação. “Recebi ordens de calcular o quanto de combustível ia ser usado e quanto tempo os aviões poderiam ficar no ar. Dezesseis aviões foram armados para a operação”. Cada avião iria levar quatro bombas de 240 libras, 15 foguetes, além de quatro canhões. “Os aviões foram armados. Nós nos preparamos. Colocamos as bombas e os foguetes nos aviões. (...) O avião de caça só leva uma pessoa, o piloto. Mas é necessário ter uma equipe grande de apoio no solo. E essa equipe, formada principalmente por sargentos, impediu a decolagem dos aviões... esvaziando os pneus” (ver nota 1).

Foi surpreendente conhecer o universo literário do escritor-aviador. Seus personagens estão sempre à procura de um lugar para viver – e esbarram nos tropeços da vida cotidiana. Estão à procura da companhia de amigos e de mulheres – e encontram neles o mesmo desencanto e desencontros.

Em “O homem de macacão” (Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1984, 2ª edição, 132 pp.), o mecânico-proprietário de uma oficina de automóveis conta suas desventuras no caminho conflituado das relações humanas. “À medida que vou vivendo, procuro alcançar duas coisas. Simplificar meus pensamentos e aceitar os outros como ele são” (p. 14).

É uma busca nem sempre tranquila para tentar compreender o outro. No livro não aparece a família da maioria dos personagens – e não sabemos quem são, onde vivem ou se já estão mortos. A solidão está presente naqueles que buscam um sentido para o trabalho e a vida. “Eu tentava mostrar que as coisas desagradáveis que acontecem conosco não podem estragar toda nossa vida. (...) Eu tinha boas intenções. Cheguei a plantar flores na frente de casa. E uma vez ela, quando me olhava podar as roseiras, disse que naquela casa talvez pudesse ter sido feliz, se eu não a tivesse encontrado já marcada por tantos sofrimentos” (p. 20).

Oswaldo França Junior nasceu no Serro, Minas Gerais, em 1936. Foi militar da Força Aérea Brasileira; depois do golpe militar de 1964, foi expulso da Aeronáutica pelo Ato Institucional número 2. Em Belo Horizonte, foi motorista de táxi, e depois, corretor do mercado de capitais, de imóveis, vendedor de carros, entre outras atividades. Seu segundo romance, “Jorge, um brasileiro”, ganhou o Prêmio Walmap de Literatura em 1967. Livros: “A volta para Marilda”; “Os dois irmãos”; “As lembranças de Eliana”, “À procura dos motivos”, “Aqui e em outros lugares”, entre outros.

Ler os seus livros foi uma redescoberta da realidade brasileira contemporânea – personagens da periferia da cidade, trabalhadores, desempregados – os desgarrados. “Estou me encaminhando para concordar que a carga de significação das palavras no texto é o mais importante. Não transmitir emoções, exatamente, mas despertar o leitor, desencadear um processo de sensibilização. Causar a quebra da inércia no seu modo usual de julgar o significado das palavras do texto” (ver nota 2).

O ficcionista buscou uma nova linguagem – um diálogo apaixonado com o leitor. “Então, fico perseguindo uma linguagem que se aproxime cada vez mais da linguagem falada, porque, quanto mais você se aproxima dessa linguagem, maior é o universo que você consegue atingir, maior o número de pessoas que vão sentir as emoções que você quer transmitir” (ver nota 2).

Oswaldo França Junior levou vinte anos para escrever sobre a sua experiência de aviador: “O passo-bandeira – uma história de aviadores”. Conhecemos a entrevista em que conta a sua participação no plano militar em 1961 em Porto Alegre; mas não há uma narrativa, mesmo ficcional, do escritor da crise política-militar que poderia ter um final trágico. Não saberemos a visão do romancista - exigente no ofício de construção das palavras - porque ele morreu em um acidente de carro em 1989.

NOTA

1. Trechos da entrevista, pp. 17, 18 e 19, da edição especial “Lembranças de Oswaldo França Junior” do Suplemento Literário da Secretaria de Cultura de Minas Gerais, outubro de 2009, gravada por Geneton de Moraes Neto em 1987, e publicada no Caderno Ideias e Livros do Jornal do Brasil.

2. As duas citações de Oswaldo França são do Suplemento Literário de Minas Gerais - 30 de novembro de 1971 e de janeiro de 1989 -, e foram retiradas dos artigos de Melânia Silva Aguiar e Angela Maria Salgueiro Marques na edição especial do suplemento de outubro de 2009.

3. O filme “Jorge, um brasileiro”, 1 h. e 56 min., de 1988, de Paulo Thiago, com roteiro baseado no livro de Oswaldo França Junior, está disponível no Youtube. O seriado para televisão, “Carga pesada”, foi também inspirado no livro.

sábado, 3 de setembro de 2016

Literatura: o escritor libanês-catarinense Salim Miguel (1924-2016 - João dos Reis







Yussef-José perguntou ao filho Salim, de dez anos, “o que ele pretendia fazer na vida” – e ele respondeu que “queria ler e escrever”. Anos depois, o pai foi a Florianópolis e comprou uma máquina de escrever para o escritor. Biguaçu, uma pequena cidade de Santa Catarina, tinha uma livraria – e Salim propôs ao proprietário que aceitasse a troca de livros, depois de comprá-los e lê-los. O dono, que era poeta e cego, apresentou outra proposta: que ele poderia ler na livraria – e, como também tinha “fome de leitura”, que lêsse os livros para ele. Foi o inicio da carreira do leitor e escritor libanês-catarinense, Salim Miguel.

“Melhores contos – Salim Miguel” (seleção de Regina Dalcastagnè, Editora Global, São Paulo, 2009, 222 pp.) foi o reencontro com a literatura do Sul, redescoberta no período que vivi na capital paranaense.

A busca da linguagem da memória está presente nos contos do escritor catarinense. Na cidadezinha onde passou a infância e adolescência, na vendola do pai, é o mundo que se descortina: “Homens rudes vêm abarcar-se ali, lagartear, beber uma pinga, comprar gêneros, conversar, reclamar das dificuldades, mercadejar, saber das novidades, tão poucas”. As narrativas de Ti’Adão, um ex-escravo, reaparecem; e também as do Líbano, contadas pela mãe: “procura reviver aquele Líbano longínquo, a viagem de navio, antes ainda, o vilarejo perdido (...), a parada na África, depois em Marselha...” (“Outubro, 1930”, pp. 44 e 45).

Há uma literatura do imigrante no Brasil que os ensaístas ainda não deram atenção – disse Salim Miguel em uma entrevista. Eu diria que a marca da ficção do escritor libanês-catarinense não é apenas o papel do imigrante, mas a reconstrução: “Estás, novamente, tentando reconstruir, reconstruir. Um passado fugidio e esquivo se abre diante de ti. Tu o recompões peça a peça. Mais: tu és parte dele. E se não o tens em ti como acontecido, tu o inventas com inteira liberdade à tua imagem e semelhança. Ele passa a acontecer. Existiu e tu exististe nele” (“Atenção, firme”, p. 73).

Alguns dos contos mais belos são sobre a solidão dos velhos. “Mas os acontecimentos, embora em sequência lógica e nítidos, se fundem, recuam, avançam... Agora o cansaço é maior, mergulho mais fundo no íntimo de mim mesmo. Aqui, donde estou, nesta cadeira que já faz parte de meu ser, o presente é ilusão, inexiste, o passado se faz presente, vive e vibra” (“O gramofone”, p. 18).

Os jovens também estão em conflito com o mundo, como o personagem-narrador em “Velhice, um”: “Odiava a companhia de pessoas que não me compreendiam, me interrogavam. E me odiava por necessitar delas, por não me bastar, por não poder viver sem o contato dos outros. (...)Fechava-me num mutismo indelicado, sem nome, brusco...” (p. 97).

Para aqueles que estão sempre viajando para o passado, não há saídas: “O tempo nos tragou, já passou a nossa época, nada mais entendemos deste mundo de hoje, tão diverso do nosso. Vivo de recordações...(...) No ar que respiramos, onde dormimos, o que comemos, uma paisagem vista, um riso que mais agradava aos nossos, como tudo isto vive, os transporta ao passado, de repente cresce, para nós, fazendo submergir todo o presente...” (“Velhice, dois”, pp. 113 e 114).

Na ficção do escritor-imigrante, há personagens desgarrados, errantes: eles buscam uma saída para as incertezas do presente e ausência de futuro. Estão em busca de trabalho, mas também de um sentido para a vida, perdidos em andanças pelo Sul: “É assim: vou andando por esse mundão sem fim, quando falta o de comer, paro, trabalho um pouco, não me acerto, largo e continuo a andar...(...) Nem queira saber: apanhei frio e calor, chuvas e geadas, dormi nas estradas, debaixo de árvores, nos matos, nalgum rancho que encontrava vazio” (“Sem rumo”, p. 181). Ou desamparados na pequena cidade interiorana: “Nas intermináveis conversas das noites sem fim traçam planos de grandes jogadas, o que farão lá fora, o lá fora abarcando um mundo novo, de aventuras, emoção, conquistas. Impossível continuar naquele não viver sem perspectivas. (...) Mas amanhã vai ser diferente. Amanhã vamos largar tudo. Amanhã vamos nos mandar para sempre, para longe, bem longe” (“Amanhã”, pp. 202 e 203).

Salim Miguel nasceu em 1924 em Kfarsouroun, no Líbano; veio para o Brasil com três anos. Biguaçu, na Grande Florianópolis, onde a família se instalou, foi o cenário de seus personagens e obra literária. Nos anos 40 e 50, com Eglê Malheiros, com quem se casou, participou do Grupo Sul, um movimento modernista artístico e literário de Santa Catarina. Contista, cronista, romancista, jornalista e ensaísta; nos anos 70. foi um dos editores da revista “Ficção”. Esteve preso um mês e meio depois do golpe de 1964; a sua livraria em Florianópolis foi saqueada, e os livros queimados em uma fogueira na rua; na prisão, escreveu um diário - publicou “Primeiro de abril: narrativas da cadeia” em 1994. Livros: “Velhice e outros contos”, de 1951; “A morte do tenente e outras mortes”; “Vida breve de Sezefredo Neves”; “Mare nostrum”; “Nur na escuridão”; A voz submersa”; “As areias do tempo”; “O sabor da fome”, entre outros.

Em 2013, Eglê e Salim doaram os seus livros, revistas, objetos pessoais para o Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas da Universidade do Estado de Santa Catarina. Nos últimos anos, com problema de visão, o escritor dependia de outros para a leitura - faleceu em 22 de abril de 2016.

NOTA

1. Na seleção de 2009 da Editora Global, há quinze contos de Salim Miguel. Escolhi sete deles para recordar o escritor – “O gramofone”, “Outubro, 1930”, “Atenção, firme”, “Velhice, um”, “Velhice, dois”, “Sem rumo”, e “Amanhã”.
2. O filme-documentário “Salim Miguel na intimidade - Maktub”, em 3 partes, direção de Zeca Nunes Pires, 2012, no total de 80 minutos, está disponível no Youtube.