sábado, 26 de março de 2016

À procura do poeta Giuseppe Ungaretti (1888-1970)




Busquei livros de poesias nas minhas peregrinações pelas livrarias e sebos de Curitiba. Um dia, tive a surpresa de encontrar um volume do poeta Giuseppe Ungaretti: “Poesie”, organizado e apresentado por Leone Piccioni, Newton Compton Editori, Roma, 1992, 224 pp. Fui aluno do curso de italiano por correspondência nos anos 60 e 70 no Instituto Cultural Ítalo-brasileiro de São Paulo; e nos anos 90, cursei um semestre no Circulo Italiano de Osasco. Foi uma feliz descoberta - e um reaprendizado da língua italiana.

Giuseppe Ungaretti nasceu em 1888 em Alexandria, no Egito - o pai trabalhava na construção do Canal de Suez. Na juventude foi uma ativista do grupo anarquista Baracca Rossa com os amigos Maomé Cheab e Enrico Pea. Estudou em Paris (1912/1914); foi soldado na I Guerra Mundial. Entre 1936 e 1942, lecionou Literatura Italiana na Universidade de São Paulo. De volta à Itália, foi professor de Literatura Moderna e Contemporânea na Universidade de Roma. Sua poesia é marcada por versos brevíssimos, a experiência no front da guerra, a dor da morte do filho de 9 anos em São Paulo, o exílio e a memória, a passagem do tempo.

Transcrevo quatro poemas do livro com a tradução em seguida.

I – “In memoria” (1936)

Si chiamava
Moammed Sceab

Discendente
di emiri di nomadi
suicida
perché non aveva più
Patria

Amò la Francia
e mutò nome

Fu Marcel
ma non era Francese
e non sapeva più
vivere
nella tenda dei suoi
dove si ascolta la cantilena
del Corano
gustando um caffè

E no sapeva
sciogliere
il canto
del suo abbandono

L’ho accompagnato
insieme alla padrona dell’albergo
dove abitavamo
a Parigi
dal numero 5 della rue des Carmes
(...)

Riposa
nel camposanto d”Ivry
(...)

E forse io solo
so ancora
che visse


Tradução: “À memória” (1936)

Chamava-se
Maomé Cheab
descendente
dos emires dos nômades
suicida
porque não tinha já
pátria

Amou a França
e mudou de nome

Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café

E não sabia soltar
o canto
do seu abandono

Acompanhei-o
junto com a proprietária do albergue
onde habitávamos
em Paris
no número 5 da rue des Carmes
(...)

Repousa
no Cemitério de Ivry
(...)

E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.


II - “Il porto sepolto” (1916)

Vi arriva il poeta
e poi torna alla luce com i suoi canti
e li disperde

Di questa poesia
mi resta

quel nulla
d’inesauribile segreto

Tradução: “O porto sepulto”

Eis que chega o poeta
e volta depois para a luz com o seus cantos
e os espalha

Desta poesia
me resta
aquele nada
de inesgotável segredo


III - "Notte" (1917)

In quest'oscuro
colle mani
gelate
distinguo
il mio viso

Mi vedo
abbandonato nell'infinito

Tradução: "Noite" (1917)

Nesta escuridão
com as mãos
geladas
distingo
o meu rosto

Vejo-me
abandonado ao infinito.

IV – “Veglia” (1915)

Un’intera nottata
buttato vicino
a um compagno
massacrato
com la sua bocca
digrignata
volta al plenilunio
con la congestione
delle sue mani
penetrate
nel mio silenzio
ho scritto
lettere piene d’amore

Non sono mai stato
tanto
attacatto alla vita

Tradução: “Vigília” (1915)

Uma noite inteira
atirado ao lado
de um companheiro
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltado à lua cheia
com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas repletas de amor

Nunca me senti
tão
ligado à vida

sábado, 19 de março de 2016

À procura do escritor Érico Veríssimo - João dos Reis





Para Jurema Augusta Ribeiro Valença

Dona Mafalda Volpe Verissimo estava na biblioteca da casa onde morou com Érico Verissimo, na rua Felipe de Oliveira, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre. Em agosto de 1998, fui a passeio à capital gaúcha - e fui informado na Editora Globo, onde ele trabalhou como secretário, diretor e tradutor, de que às sextas feiras era permitida a visita. Fui recebido pela professora Marcia Ivana de Lima e Silva, do grupo de pesquisadores que estava organizando o acervo literário do escritor.

Foram momentos emocionantes: estar na casa e na cidade que o romancista de Cruz Alta escolheu para viver, trabalhar e escrever seus romances. Tive em mãos vários dos manuscritos e datiloscritos dos seus livros. Falei da necessidade de microfilmá-los, para que não se deteriorassem com a passagem do tempo.

Olhando as alterações que ele fez nas páginas dos rascunhos, disse que eu jamais seria um escritor – porque exige uma paciência beneditina para reescrever, revisar antes da redação final. Ele escreveu: “Sinceramente, não me lembro de quantos roteiros fiz para ‘O Tempo e o Vento”. Só sei que foram muitos e que até o fim da obra eu os alterei, acrescentando ou subtraindo personagens e episódios” (autobiografia, volume 1, p. 294).

Foi uma tarde memorável: estar ao lado da lareira e da mesa de trabalho do escritor, conversar com a esposa dele, dona Mafalda, tomar um café, servido por uma das suas netas, olhar as estantes com os seus livros, sentar ao lado da sua poltrona favorita - conversar com os presentes, mas sentindo a sua ausência.

Tinha 16 anos quando li “Clarissa” e “Música ao longe”: foi a descoberta da literatura brasileira do século vinte - até então era leitor de Machado de Assis, José de Alencar. “A dama da noite”, de Dias Gomes, me impressionou - e havia sido o único autor contemporâneo que havia lido.

Na volta da viagem ao Sul, li ou reli todos os livros do ficcionista – incluindo a obra prima, os volumes de “O Tempo e o Vento”.

O seu acervo literário - fotos, cadernos de anotações, cartas, desenhos, manuscritos originais dos seus livros - estão desde 2009 no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro. No Centro Cultural CEEE Érico Verissimo na rua dos Andradas, inaugurado em 2002, há uma parte do material, que pertenceu a dois dos seus amigos – e está digitalizado e disponível na internet (ver nos sites).

O que registrei na memória da releitura de seus romances e, principalmente, de sua autobiografia (“Solo de clarineta” em dois volumes)? O retrato trágico da figura paterna: culto, garboso, um “príncipe da vida”; a derrocada financeira, o distanciamento da família, a morte solitária na cidade de São Paulo - e a procura vã pelo túmulo desconhecido do pai anos depois. E o destemor em escrever sobre o passado: “a suprema coragem é a de correr o risco de parecer fraco por exprimir livremente seus sentimentos”, diz ele no volume 1, página 157.

Em março de 2016,ao acordar de manhã, por um desses milagres da imaginação, o escritor gaúcho, suas lembranças, histórias e personagens reapareceram – e a recordação da visita à casa dele no passado re com a nitidez do presente.

NOTA: “Solo de clarineta”, vol. 1, 1973, 350 pp., citação p. 157 e 294; vol 2, póstuma, organizada por Flavio Loureiro Chaves, 1992, 8ª ed., ,324 pp.- os dois volumes da Editora Globo, Porto Alegre.

quarta-feira, 16 de março de 2016

ANOTAÇÕES de um livro - e um encontro em São Paulo: Carlos Henrique Vianna Pereira - João dos Reis


Em 10 de março de 2016, Carlos, Heliana Bibas e amigos me esperavam para um almoço na cafeteria da Pinacoteca em São Paulo. Foi o encontro com o companheiro da organização guerrilheira VAR-Palmares que eu conhecia pelo envio das “6 Cartas aos amigos”. Ele estava de passagem pela cidade, vindo de Portugal, e quis me entregar pessoalmente o seu livro: “A derrota – reflexões desordenadas sobre uma geração” (edição do autor, Lisboa, 2016, 216 pp.m prefácio de Sergio Emanuel Dias Campos), produto final das cartas encaminhadas pelo correio eletrônico nos dois últimos anos.
Foram muitas interrogações sobre as derrotas da esquerda no Brasil. O autor analisa quatro delas: a débâcle da resistência à ditadura militar de 1964, com mortes, prisões, torturas, exílios e perseguições; a decepção com o movimento das Diretas Já e pela Constituinte sem uma Assembléia que estabelecesse um novo quadro político-institucional; a escolha do PT por práticas políticas tradicionais; a quarta é a derrota do socialismo como um projeto de uma sociedade comunista libertária.
Carlos retoma a experiência no movimento estudantil e operário: tinha 18 anos quando saiu da casa dos pais no Jardim Botânico, Zona Sul, para o “trabalho de massas” na organização guerrilheira (que depois se chamaria VAR-Palmares). Viveu na Favela do Muquiço , no bairro Deodoro, e depois na Favela do Jacarezinho de janeiro de 1969 a setembro de 1970. E reflete sobre os impasses vividos pela “esquerda armada”: não abandonar a realidade das fábricas, o movimento sindical e popular nos bairros.
O autor se interroga sobre os conceitos de vanguarda, de militante revolucionário – que despertou a paixão dos jovens estudantes. Qual era a revolução brasileira que sonhávamos no final dos anos 60? E ele afirma que havia o culto à ação revolucionária, mas o desprezo pela teoria: “Que outras opções teriam as esquerdas naqueles anos de chumbo?”(p.59). E diz mais adiante:”O fato é que a reflexão político-teórica sobre as características da sociedade brasileira era muito pobre na esquerda” (p. 62).
Carlos reflete criticamente sobre as estratégias centradas taticamente nas ações armadas – e o abandono da luta democrática e ações de resistência. O vanguardismo desprezou as formas populares de organização, o trabalho sindical, popular e estudantil, as lutas pela redemocratização e pela assembleia nacional constituinte. São várias questões que o autor retoma sobre o papel na luta armada no Brasil, entre elas: “foi uma primeira etapa de uma suposta guerra revolucionária?” (p.80).
O balanço feito dos golpes sofridos pela esquerda entre 1964 e 1979 nos dá um quadro da repressão: 50 mil pessoas presas por motivos políticos, centenas de mortos e desaparecidos, milhares acusados e indiciados em processos, cassações de direitos políticos por 10 anos, além dos exilados ou banidos do território nacional.
As páginas mais corajosas do livro estão no debate sobre o “terrorismo revolucionário” e os justiçamentos praticados pela esquerda no Brasil. Sobre o militante da ALN, Marcio Leite de Toledo, o autor interroga: “Tratou-se de um justiçamento? De uma execução decorrente de um julgamento de exceção no âmbito de uma guerra? Ou de um assassinato? (...) Quem tem o poder de julgar e condenar à morte? Por quem foi outorgado esse poder?” (p. 97).
Registro as interrogações – e, como não pretendi escrever uma resenha, mas anotações, deixo de descrever a vida no exílio em 1971/1977 (no Chile e na Argentina) e a volta ao Brasil. Acredito que a publicação pessoal do autor e a tiragem limitada (apenas 200 exemplares) deva ser ampliada em uma futura edição.

Carlos Henrique Vianna Pereira, aluno do Colégio de Aplicação, foi da Dissidência secundarista do PCB no Rio de Janeiro em 1967. No início de 1969, foi militante do “setor operário” da nova organização de esquerda que se tornaria depois a VAR-Palmares. Em 1971, com a sua foto e nome nos cartazes de "Procurados" da ditadura militar, foi para o exílio no Chile, e depois do golpe de 1973, para a Argentina, onde foi operário: mecânico ajustador e inspetor de qualidade. Voltou ao Brasil em 1977, e foi no ano seguinte para São Paulo – onde atuou na militância da oposição sindical, no movimento dos bairros, no PC do B e no PRC (Partido Revolucionário Comunista). Cursou Tecnologia Mecânica na capital paulista, e em 1988 foi para Portugal para uma especialização em Engenharia de soldagem, onde vive até hoje. É um militante dos direitos dos emigrantes na Casa do Brasil em Lisboa.

Quando Carlos chegou a Buenos Aires em 1973, vindo do Chile, foi trabalhar em uma fábrica – e pediu a um companheiro, militante do Partido Comunista argentino, ajuda para orientá-lo e ensiná-lo na nova profissão (inspetor de qualidade), e ele lhe disse: “Carlitos, no te preocupés. Estás comigo, estás com Dios”.

DUAS ou três palavras para Carlos: quando recebi as primeiras "cartas aos amigos", houve uma explosão de recordações do passado. Minha admiração pela sua história de vida foi um dos "detonadores" que me levou a escrever minhas memórias. E você foi muy amable em citar o meu nome no seu livro. Muchas gracias, compañero!

sexta-feira, 11 de março de 2016

À procura do poeta Lindolf Bell (1938- 1998)- João dos Reis


Estava a passeio em 2003 em Blumenau, Santa Catarina, e decidi conhecer Timbó, a cidade onde nasceu Lindolf Bell - e me informaram que a casa onde ele viveu, depois de restaurada, seria inaugurada no dia seguinte: Casa do Poeta Lindolf Bell. Estive nela, conversei com a filha dele, Rafaella, e disse a ela: onde encontrar os livros do seu pai?

Em Curitiba, garimpei alguns exemplares nos sebos, mas não havia uma edição com a obra completa ou uma coletânea dos seus poemas. Encontrei “Odes elementares” (Editora Letras Contemporâneas, Florianópolis, SC, 1995, 2ª edição) e "O código das águas" (1984).

Em 2009 tive a noticia da publicação de “Lindolf Bell - Melhores Poemas” (Editora Global, S.Paulo).

Na casa onde morou o poeta em sua infância e adolescência, estava um processo de organização de sua correspondência: foi um escritor frequente de cartas, que ainda hoje não foram publicadas; hoje, há um centro de memória com fotografia, documentos - consultar o site: www.lindolfbell.com.be

Em que trabalhou o poeta? Ainda jovem, foi lavrador,como seus pais, depois contador, escriturário. Prestou o serviço militar no Rio de Janeiro. Diplomou-se em São Paulo pela Escola de Arte Dramática; chegou a escrever algumas peças teatrais, mas elas se perderam.

Como conheci o poeta e seus poemas? Em 1968 li nos jornais: com o Movimento Catequese Poética na capital paulista, o jovem poeta declamava poemas nas ruas, feiras, teatros, escolas, e em todos os lugares públicos. É essa imagem que guardo dele, e que vi em fotos e em um cartaz em uma das salas da sua casa: um poeta-declamador que mais tarde decidiu imprimir os poemas em camisetas, expô-los em varais, muros da cidade.

Transcrevo trechos de alguns dos seus longos poemas:

I – POEMA “Os ciclos, parte IV (trecho final):

Amigo, tu que sabes a nobre a bom,
conheces o limo de tua casa,
a resina de teu tronco,
lavra teu ninho com ervas
e vento,
cresce teus olhos em flor
e grão,
crava os pés na terra
e, sobre os ombros,

carrega palmas.

Depois, aguarda,
aguarda só, os tempos do beiral.

II – POEMA “A tarefa – 1ª parte” (trecho da parte V)

Quando a madrugada dispuser os matizes
e o rosto trajar-se de metáforas, poeta,
atende o chamado dos vivos e dos mortos.
Bate à janela.
Todos os vácuos são travessáveis.
Se dentro da noite
empreendes andanças
e os gonzos da alucinação tilintam,
se arrancas estrelas dos espinheiros,
se cantas de ouvido colado à terra
para ouvir o tropel
e o coração bate lento
o pequeno,
bem sabes que as veredas
dos deuses pertencem
aos que sabem conquistar.

Amanhã o dia será de novos deuses
e novos adeuses.

(os dois poemas estão em “Lindolf Bell - Melhores poemas”, seleção e apresentação de Péricles Prade, Editora Global, S.Paulo, 2009, pp. 61 e 105, respectivamente).

III –POEMA “Do amor” (parte V)

Inventar
algum silêncio
onde possa ouvir
claro e preciso
o coração
em silêncio.

(poema de “As vivências elementares”, da Editora Letras Contemporâneas, Florianópolis, SC, 1995, 2ª edição, p. 127)
2 anexos

Visualizar o anexo Casa do Poeta Lindolf Bell Timbó SC.jpeg
Imagem
Casa do Poeta Lindolf Bell Timbó SC.jpeg
Visualizar o anexo Casa do Poeta Lindolf Bell Timbó SC 2.jpeg
Imagem
Casa do Poeta Lindolf Bell Timbó SC 2.jpeg

sábado, 5 de março de 2016

Música e Poesia: Camané CD/DVD "Ao vivo no Coliseu/Sempre de mim" (2008) João dos Reis



Para Carlos Henrique Vianna Pereira, de Lisboa

“Ando na vida à procura
De uma noite menos escura
Que traga luar do céu
De uma noite menos fria
Em que não sinta a agonia
De um dia a mais que morreu.
(...) Ser fadista é triste sorte
Que nos faz pensar na morte
E em tudo o que em nós morre
Andar na vida à procura
De uma noite menos escura
Que traga luar do céu”
“Triste sorte”, de João Ferreira Rosa e Alfredo Marceneiro.

Assisti ao show do fadista Camané em dezembro de 2015 na Casa de Portugal. Somente agora, em fevereiro, consegui comprar um disco - o CD/DVD do show no Coliseu dos Recreios, Lisboa, gravado em 2008. Foi um reencontro carregado de emoção com a canção portuguesa contemporânea – e os versos de “Triste sorte” nos revelam porque o fado é trágico.

Há letras de poetas em algumas das 21 músicas: Fernando Pessoa, Pedro Homem de Mello, David Mourão-Ferreira – e a releitura de fados tradicionais.

“Este silêncio”, de Manuela de Freitas e José Mario Branco é a mais comovente – por tentar explicar o fado:

“Há um silêncio pesado
Que não sei de onde vem
Nem sei se lhe chamam fado
Ou que outro nome é que tem.
Se canto, não me dói tanto
O coração magoado
Mas há em tudo o que canto
Este silêncio pesado.
Não é mágoa nem saudade
Nem é pena de ninguém
O silêncio que me invade
E não sei de onde é que vem.
Silêncio que anda comigo
E que mesmo sem eu querer
Diz através do que eu digo
O que eu não posso dizer. (...)”

O poema musicado de Fernando Pessoa, “Ser aquele”, nos apresenta as interrogações do poeta:

“Se estou só, quero não estar
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou”.

É em “As palavras”, de Manuela de Freitas e José Mario Branco, os novos compositores refletem sobre o poder das palavras:

“São as palavras que eu digo
Meu abismo e meu abrigo
Partilha de pão e espanto
Lucidez que desatina
Chão sagrado onde germina
A semente do meu canto.
Palavras a que eu entrego
Prazer e desassossego
Tormento e consolação. (...)”

Camané (Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos) nasceu em Oeiras, uma cidadezinha próxima de Lisboa. É de uma família de fadistas: seu bisavó, José Julio da Silva Paiva, e seus dois irmãos, Helder Moutinho e Pedro Moutinho.

Vocês devem continuar me interrogando: por que ouvir e escrever sobre o fado e os novos fadistas? É na redescoberta da nova canção portuguesa que encontrei a proximidade entre música e poesia – que não estão mais presentes na MPB de hoje. Reconheço que é um mergulho dramático na tristeza e na saudade – e um reencontro com a minha infância, com as lembranças dos meus avós portugueses.

Na tarde de domingo, 21 de fevereiro de 2016, minha mãe sentou ao meu lado em frente ao computador: assistimos juntos ao show em DVD do Camané - e recordamos os que partiram para a América em uma viagem sem volta; ela me revelou novamente o desejo: que gostaria de rever Falgueiras, a aldeia onde nasceu em Trás-os-Montes – e saiu ainda criança, e não mais retornou. Mas há um oceano a nos separar do continente europeu. A avó Elisa também me disse muitas vezes que gostaria de revisitar a aldeia em que nasceu, Penhas Juntas, mas morreu sem realizar o sonho de voltar a Portugal.
Música e Poesia: Camané: CD/DVD “Ao vivo no Coliseu / Sempre de mim” (2008)

Para Carlos Henrique Vianna de Andrade, de Lisboa

“Ando na vida à procura
De uma noite menos escura
Que traga luar do céu
De uma noite menos fria
Em que não sinta a agonia
De um dia a mais que morreu.
(...) Ser fadista é triste sorte
Que nos faz pensar na morte
E em tudo o que em nós morre
Andar na vida à procura
De uma noite menos escura
Que traga luar do céu”
“Triste sorte”, de João Ferreira Rosa e Alfredo Marceneiro.

Assisti ao show do fadista Camané em dezembro de 2015 na Casa de Portugal. Somente agora, em fevereiro, consegui comprar um disco - o CD/DVD do show no Coliseu dos Recreios, Lisboa, gravado em 2008. Foi um reencontro carregado de emoção com a canção portuguesa contemporânea – e os versos de “Triste sorte” nos revelam porque o fado é trágico.

Há letras de poetas em algumas das 21 músicas: Fernando Pessoa, Pedro Homem de Mello, David Mourão-Ferreira – e a releitura de fados tradicionais.

“Este silêncio”, de Manuela de Freitas e José Mario Branco é a mais comovente – por tentar explicar o fado:

“Há um silêncio pesado
Que não sei de onde vem
Nem sei se lhe chamam fado
Ou que outro nome é que tem.
Se canto, não me dói tanto
O coração magoado
Mas há em tudo o que canto
Este silêncio pesado.
Não é mágoa nem saudade
Nem é pena de ninguém
O silêncio que me invade
E não sei de onde é que vem.
Silêncio que anda comigo
E que mesmo sem eu querer
Diz através do que eu digo
O que eu não posso dizer. (...)”

O poema musicado de Fernando Pessoa, “Ser aquele”, nos apresenta as interrogações do poeta:

“Se estou só, quero não estar
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou”.

É em “As palavras”, de Manuela de Freitas e José Mario Branco, os novos compositores refletem sobre o poder das palavras:

“São as palavras que eu digo
Meu abismo e meu abrigo
Partilha de pão e espanto
Lucidez que desatina
Chão sagrado onde germina
A semente do meu canto.
Palavras a que eu entrego
Prazer e desassossego
Tormento e consolação. (...)”

Camané (Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos) nasceu em Oeiras, uma cidadezinha próxima de Lisboa. É de uma família de fadistas: seu bisavó, José Julio da Silva Paiva, e seus dois irmãos, Helder Moutinho e Pedro Moutinho.

Vocês devem continuar me interrogando: por que ouvir e escrever sobre o fado e os novos fadistas? É na redescoberta da nova canção portuguesa que encontrei a proximidade entre música e poesia – que não estão mais presentes na MPB de hoje. Reconheço que é um mergulho dramático na tristeza e na saudade – e um reencontro com a minha infância, com as lembranças dos meus avós portugueses.

Na tarde de domingo, 21 de fevereiro de 2016, minha mãe sentou ao meu lado em frente ao computador: assistimos juntos ao show em DVD do Camané - e recordamos os que partiram para a América em uma viagem sem volta; ela me revelou novamente o desejo: que gostaria de rever Falgueiras, a aldeia onde nasceu em Trás-os-Montes – e saiu ainda criança, e não mais retornou. Mas há um oceano a nos separar do continente europeu. A avó Elisa também me disse muitas vezes que gostaria de revisitar a aldeia em que nasceu, Penhas Juntas, mas morreu sem realizar o sonho de voltar a Portugal.