domingo, 13 de dezembro de 2015

Duartina: uma cidade. Dom Carlos Duarte Costa (1888-1961): um personagem - João dos Reis



“Hay em mis venas gotas de sangre jacobina,
pero mi verso brota de manantial sereno;
y, más que um hombre al uso que sabe su doctrina,
soy, en el buen sentido de la palabra, bueno. / (...)
E quando llegue el dia del último viaje,
y esté al partir la nave que nunca há de tornar,
me encontraréis a bordo, ligero de equipaje,
casí desnudo, como los hijos de la mar”.
duas estrofes do poema “Retrato”, de Antonio Machado.

Duartina, minha cidade natal, no interior de São Paulo, é uma homenagem ao bispo Dom Carlos Duarte Costa (1888-1961). Foi um personagem polêmico na história do catolicismo no Brasil – e sempre despertou a minha curiosidade. Somente nos anos 80 conheci um dos bispos da Igreja Católica Apostólica Brasileira, fundada por Dom Duarte..

Dom Duarte nasceu no Rio de Janeiro; estudou em Roma – e foi ordenado padre em 1911. Trabalhou em várias igrejas do Rio, até ser nomeado bispo na cidade paulista de Botucatu em 1924. Apoiou a Revolução Constitucionalista de 1932; defendeu o fim de celibato obrigatório para o clero, o ecumenismo, as ideias socialistas e a aprovação ao divórcio; questionou o dogma da infabilidade papal. Foi preso em 1944, a pedido do núncio apostólico, mas libertado meses depois por pressão internacional. Mas foi a denúncia da “Operação Odessa”, que levou à fuga de oficiais nazistas no final de II Guerra, com a colaboração do Vaticano, que provocou a sua excomunhão pelo Papa Pio XII em 1945.

Foi um precursor da Teologia da Libertação; fundou o “Partido Socialista Cristão”, registrado no Tribunal Eleitoral. Foi um crítico do regime autoritário de Getúlio Vargas e da aliança da Igreja Católica com os regimes totalitários. Em 1945, lançou um “Manifesto à Nação" e fundou a Igreja Católica Apostólica Brasileira.

Muitas das ideias defendidas pela nova corrente do cristianismo foram aceitas mais tarde pelo Concilio Vaticano II da Igreja Católica. Como exemplo: a abolição do uso obrigatório da batina fora dos cultos, e do latim nos atos litúrgicos e missas, e o uso do português; e o compromisso da Igreja com a defesa dos pobres e os deserdados da terra.

Hoje, há inúmeras dissidências, como no protestantismo, da igreja fundada por Dom Duarte. Uma nova igreja mais próxima das classes pobres foi uma proposta revolucionária – e ele ficou conhecido como o “bispo vermelho”.

Quando ia nas férias para a casa dos meus avós, não sabia que a cidade de Duartina, fundada em 1926, foi uma reverência a Dom Duarte. O ritual católico da minha infância, com missas e ladainhas, só foi compreendido quando, no primeiro ano do curso ginasial, tive aulas de Latim. Com a utilização do português, penso que minha avó Elisa, uma católica fervorosa, passou a entender melhor os mistérios da religião.

E, para mim, a tradução das orações adquiriram um significado especial - porque empregava uma linguagem nova: em lugar de “ora pro nobis”, “rogai por nós”; e “miserere nobis”, por “tende piedade de nós”.

Vivi os meus primeiros anos na cidade; depois, fui para Gália, e aos 12 anos me mudei para Osasco, outra cidade marcada pela rebeldia, pela contestação, pelo confronto com o autoritarismo e a tirania.

NOTA:
1. poema “Retrato”, in “Poesias”, Antonio Machado, Editorial Losada, Buenos Aires, 1974, pp. 86/87;
2. Não tenho mais o livro que ganhei do bispo da igreja dissidente; pesquisei sobre Dom Duarte na Wikipédia.
3. O longo "Manifesto à nação", de 1945, pode ser consultado na íntegra clicando no site abaixo:

Manifesto à Nação Brasileira de D. Carlos Duarte Costa ...
cafehistoria.ning.com/.../manifesto-na-o-brasileira-de-d-carlos-duarte-cos...3 de mar de 2014 - Pela leitura dos jornais do dia 06 de Julho do corrente ano, tive conhecimento que um homem, igual a mi

sábado, 5 de dezembro de 2015

Sobre artigo de Sylvia Colombo para o jornal “Folha de São Paulo” - João dos Reis



Sobre artigo de Sylvia Colombo para o jornal “Folha de São Paulo” (“Relato de escravo escapa para a internet”) e Entrevista com Paul Lovejoy, da Universidade de Nova York, no Canadá (Caderno Ilustrada, C1 e C5, 30 de novembro de 2015)

“Mahommah Gardo Baquaqua era praticamente um adolescente quando desembarcou na costa do Nordeste brasileiro, em 1845, vindo da África em um navio negreiro. Levado a Olinda, passou os próximos dois anos de sua vida tentando escapar da condição de escravo. Apanhou, tentou matar o mestre e falhou no intento de suicidar-se por afogamento no rio Capiberibe. Por fim, trabalhando para um senhor que exportava café para os EUA, embarcou num navio para Nova York, em 1847. De lá, escapou e passou a colaborar com abolicionistas”.

A história do jovem africano, contada pela jornalista Sylvia Colombo, é uma das mais emocionantes sobre a escravidão nas Américas. O irlandês Samuel Moore colaborou na biografia de Baquaqua, publicada em 1854, em Detroit, e pela primeira vez será publicada no Brasil (em 2016) . Mas o site www.baquaqua.com.br entra no ar hoje na internet, e tem vídeos, entrevistas, imagens e relatos – e foi coordenado por Bruno Véras, da Universidade de Nova York, no Canadá, orientado pelo especialista em escravidão Paul Lovejoy.

“Disse a ele {ao senhor} que nunca mais me chicoteasse e fiquei com tanta raiva que me veio à cabeça a ideia de matá-lo e me suicidar depois, Por fim, resolvi me afogar. Preferia morrer a viver como escravo. Corri para o rio e me joguei na água, mas como umas pessoas que estavam num barco me viram, fui resgatado. A maré estava baixa, senão seus esforços teriam sido infrutíferos”, um dos dramáticos relatos extraídos da “A biografia de Mahommah Gardo Baquaqua”, reproduzidos pela “Folha de São Paulo”.

Baquaqua nasceu no Benin entre 1820 e 1830, de uma família muçulmana influente: estudou árabe na escola, falava várias línguas, um dos tios era comerciante de ouro e prata, outro professor, e o irmão era conselheiro do rei. Como diz Lovejoy, Baquaqua “era uma pessoa real; tinha mãe, pai, irmãos, tios e tias”. Tornar acessível online a sua história “é fazer com que se deixe de considerá-las apenas algo a que chamamos de ‘escravos’. Foram pessoas com coração, dores, amores, devoção a suas famílias, caráter, força e comunidade”, diz o professor.

“Quando todos nós estávamos prontos para embarcar, fomos acorrentados uns aos outros, amarraram cordas em volta de nossos pescoços. (...) Uma espécie de festa foi feita em terra firme aquele dia. Aqueles que remaram os barcos foram fartamente regalados com uísque, e aos escravos deram arroz e outras coisas gostosas em abundância. Não tinha consciência de que aquele seria meu último banquete na África. Não sabia do meu destino. Feliz de mim que não sabia”, em um dos trechos da narrativa autobiográfica de Baquaqua, reproduzidos pelo jornal paulista.

Milhões de africanos foram submetidos à escravidão na América. Essa história não foi documentada pela voz dos próprios escravos. Há poucos relatos escritos do horror das humilhações, castigos físicos, assassinatos nas terras americanas. O atual projeto é pioneiro: tornar acessível a história de resistência dos tempos sombrios da exploração da mão de obra escrava. Baquaqua era um personagem desconhecido por mim até hoje: ele percorreu o continente – esteve no Canadá e no Haiti – na luta abolicionista. No final da vida, embarcou para a Inglaterra, na esperança de voltar à sua terra natal. Mas não é um final feliz: não se tem noticias dele depois de 1857 – e não sabemos se conseguiu voltar à África ou a data da sua morte.