sábado, 31 de outubro de 2015

A chuteira do Saci - Risomar Fasanaro



Era o dia do aniversário de Moisés e o dia amanheceu bonito, como sempre é o dia do aniversário da gente. Um dia especial. Mesmo que chova, a gente acha a chuva linda e pensa até que choveu especialmente para nos agradar. Se fizer frio, a gente acha o frio gostoso; se fizer calor, dizemos que é um dia lindo de sol!
Moisés morava no interior e acordava bem cedo todos os dias para, junto com a mãe, dona Zafira, começar a cuidar das plantas e dos animais.
Ao contrário de muitas crianças que vivem no interior, mas sonham com a cidade grande, com a capital, Moisés adorava viver no campo. Gostava do cheiro de mato que se desprendia da terra quando chovia, achava bonito o galopar dos cavalos e embora os amigos caçoassem dele, parava tudo que estava fazendo no final da tarde, para ver o pôr-do-sol. Como podia ficar tão bonita a cor de laranja junto do lilás?

Ele ficava bravo quando os amigos diziam que aquilo era coisa de maricas. Reagia sempre à altura: não é. Não é só mulher que acha as coisas bonitas. Homem também acha e nem por isso é menos homem. E tem mais: homem que é homem não sente medo de chorar...

Dona Zafira criava duas cabras e várias galinhas, entre elas, Vaidosa, a mais mimada do terreiro. Vez por outra ela entrava na sala, subia na cristaleira antiga que havia na sala, e que pertencera à avó de Moisés, e ficava horas se mirando no espelho. Por esse motivo, a mãe e ele deram a ela o nome de Vaidosa.

Naquela manhã, logo cedo Zafira abraçou e beijou o filho, desejando a ele toda a felicidade do mundo. Depois disse:
-quando terminar de tomar o café, Moisés, quero que você vá até o ninho de Vaidosa e apanhe seis ovos, para eu fazer um bolo. E hoje, quando sair da escola, você pode convidar Gabriel, Otávio, Lucas e Tarsila para a gente comemorar seu aniversário.
-Precisa não, mãe, hoje é um dia como outro qualquer...

-Não, não , não, meu filho, hoje não é um dia qualquer. É o dia do seu aniversário e você não sabe, para uma mãe, o que significa o aniversário de um filho. Há dez anos, quando você nasceu, eu senti a maior emoção de toda minha vida, quando olhei seu rostinho; por isso, gosto de comemorar esse dia todos os anos. Pra mim, é sempre uma data especial. A mais especial de todas.

-Mas, mãe, o pai nem está mais aqui com a gente...

-Não está, mas se ele fosse vivo também iria comemorar. Ele lhe adorava e vendo hoje como você vai bem na escola, iria sentir muito orgulho de você.

-Está bem, mãe, eu vou lá pegar os ovos da Vaidosa.

Moisés foi ao fundo do quintal, entrou no galinheiro e encontrou exatamente seis ovos no ninho. Parecia até coisa encomendada. O menino tirou o primeiro e, muito desastrado que era, deixou-o cair, espatifando-se.

- - Nossa, a mãe vai ficar danada da vida comigo...

-Nem bem chegou a concluir a frase, quando viu que alguma coisa muito extraordinária estava acontecendo. Pois não é que dentro do ovo havia um apito?

- -Um a-pi-to??? Exclamou admirado. Quem já viu uma coisa dessas? Aposto que foi o Lucas ou o Gabriel que colocou esse apito dentro do ovo e depois colou a casca só pra me assustar. Só pode ter sido um dos dois. Sabendo que é meu aniversário, eles imaginaram que eu ia vir aqui buscar os ovos, pra mãe fazer um bolo...

Com o maior cuidado, Moisés apanhou o segundo ovo do ninho. Girou-o entre os dedos, devagar para ver se havia alguma marca de colagem e quando se certificou de que estava inteiro, resolveu quebrá-lo.

- Pois sabe o que havia dentro do segundo ovo? Ah...Você não pode imaginar.... Para surpresa ainda maior do menino, havia uma chuteira. Uma chuteira lindíssima, bem pequenininha. Ele tomou-a entre as mãos e mais surpreso ainda ficou quando a viu pouco a pouco crescer e tornar-se do tamanho exato do seu pé direito.

- -Meu Deus! Mas é igualzinha à do filho do professor de matemática! Eu nunca pensei que pudesse ter uma chuteira dessa em toda minha vida!

Sem esperar nem mais um minuto, quebrou o terceiro ovo. Já que tantas coisas extraordinárias estavam acontecendo naquele dia, com toda certeza o outro pé da chuteira estaria em algum daqueles ovos. Mas para decepção do garoto, não estava. Ele encontrou apenas um ioiô. Quebrou o quarto ovo e novamente ficou decepcionado, encontrou uma colher de chá. Já estava quase desistindo e resolvendo levar os dois últimos ovos para ver se com eles a mãe conseguiria fazer o bolo, quando resolveu tentar a sorte. Quem sabe, o par da chuteira não estaria em um dos dois?

-Dessa vez, contudo, a surpresa foi a maior que Moisés poderia ter: em vez da tão sonhada chuteira, o que lá se encontrava era uma menininha bem pequenina, toda encolhida dentro do ovo.

- Será que estou sonhando??? pensou ele. Como essa menininha entrou aí?

Ele foi quebrando com cuidado o restante da casca e ajudou a garotinha a sair.Com muita delicadeza, colocou-a no chão. A menina ficou olhando-o um tempão e seu semblante demonstrava estar tão surpresa quanto ele. Depois de alguns segundos, a garota começou a crescer, crescer... até ficar quase da altura dele. Então, recobrando o fôlego, Moisés conseguiu perguntar:

-De onde você veio?

E a menininha, olhos muito vivos, muito espertos, como só a Emília de Monteiro Lobato tem, respondeu com outra pergunta:

-E eu sei?

E ele, mais preocupado em encontrar a chuteira do que em entender todo aquele mistério, fez-lhe outra pergunta:

-Onde está o outro pé da chuteira?

-Que pé? Que chuteira? O que é isso?

O menino mostrou a chuteira e explicou:

-Isso aqui...Onde está o outro igual a esse?

Ah...Isso aí? Um dia eu vi o Saci sair pulando por aí com igual a esse. Deve ser o que você está procurando...

- Puxa...então está perdido. Que pena...

-A menininha colocou as mãos na cintura e olhando-o com ar desafiador, lhe disse:

- -Chiii...Você vai desistir, é? De onde eu venho a gente sempre acha saída para as coisas. Às vezes a gente encontra a saída bem rápido, ela já vem pronta, mas às vezes tem de pensar, pensar, rabiscar, desenhar, demora, mas sempre a gente encontra uma saída.

- O garoto ouviu, ouviu e se sentiu envergonhado. Uma garotinha daquela lhe dando lições... Então perguntou:

-Você se acha muito sabida, então me diz aí -como é que eu vou conseguir tirar a chuteira do Saci se eu nem vejo ele, não sei onde ele vive nem nada...Diz!

-Olha, disse a menina, não vai ser fácil, mas se você quiser tentar, eu te ensino: você vai ter de ir à floresta que fica lá perto da ponte, na sexta-feira à meia-noite, e quando vir uma brasinha acesa é porque o Sr. Saci ali se encontra, fumando o seu cachimbo.

-Muito bem, e aí o que é que eu faço? Digo a ele: Sr. Saci, por favor, me devolva a chuteira que o Sr. levou? É assim é?

- Claro que não, seu debochado, se você continuar menosprezando meus conselhos, não lhe ensino mais nada.

-Não, não, me ensine como posso tirar a chuteira dele, se é que você sabe...

-Claro que sei. Afinal, nós dois somos do mesmo mundo o Saci e eu...

-Então fala...

-Quando você vir a brasinha acesa, você vai na ponta do pé, sem fazer barulho, e quando chegar bem perto, dá um pisão bem forte no chão, bem na direção da brasa. Desse jeito, você acerta o pé dele. Com o susto ele vai dar o maior pulo, aí você aproveita e prende a chuteira com seu pé, apanha ela do chão e volta correndo pra casa. Não é fácil?

- Olha, que não é fácil, não é. Mas vou tentar. Melhor, vou conseguir. Você vai ver...

E enquanto ele dizia isso, a menina desapareceu. Moisés voltou triste para casa e contou à mãe que Vaidosa havia quebrado todos os ovos do ninho. A mãe ficou triste e ainda estranhou:

-Que engraçado, ela nunca fez isso antes...Bom, não faz mal. Eu faço outra coisa e a gente festeja do mesmo jeito.

No final da tarde, a mãe arrumou a mesa com quatro pratos de arroz doce com a palavra “Parabéns” escrita com canela.

Alguns dias se passaram e quando chegou a primeira sexta-feira do mês, Moisés esperou a mãe dormir, depois levantou descalço para não fazer barulho e foi, devagarinho, pé ante pé, abriu a porta e saiu. Chegou à mata quando faltavam exatamente dez minutos para a meia-noite. Entrou com muito medo e foi andando. Era difícil andar entre os galhos das árvores que roçavam seu rosto, com as folhas que quase entravam em seus olhos, mas ele continuou. Passou perto de uma árvore e viu dois olhos acesos em cima dele. Deu um grito, e muito assustado, viu uma coruja voar para outro galho.

-Puxa, com esse grito assustei todos os bichos. É capaz de nem o Saci aparecer, pensou ele.

Continuou andando, sem fazer nenhum ruído. Já devia ser meia-noite quando viu a brasinha do cachimbo do Saci. Moisés tremia da cabeça aos pés, mas a vontade de ter a chuteira era maior.

Foi chegando perto, bem perto, aí deu aquele pisão...Procurou a chuteira sob os pés, mas não a encontrou. Viu a brasinha sumir dentro da noite e, com ela, sua chance de tomar a chuteira do Saci.

Voltou triste, cabisbaixo. Entrou em casa e, para sorte sua, a mãe não notara sua ausência.

-Meu medo estragou tudo- pensou ele- mas da próxima vez vou chegar bem perto e só então vou tirar a chuteira dele. O Saci não me escapa de novo. Hoje marquei bobeira, me precipitei antes da hora.

Na segunda sexta-feira, Moisés voltou à mata. Entrou com cuidado, encontrou a mesma coruja no mesmo galho, mas controlou o medo e não gritou. À meia-noite em ponto, o Saci tornou a aparecer. Na verdade, a única coisa visível era a brasa do cachimbo, mas pela altura e pelo movimento, Moisés sabia que era ele. Foi chegando perto, chegando... Cada vez mais perto e, quando deu um pisão no que ele achou que era o pé do Saci, ouviu o coaxar de um sapo e viu a brasinha sumir longe, no meio das árvores.

- - Outra vez estraguei tudo. Nunca mais vou ter outra oportunidade.

- Naquela noite, Moisés voltou mais arrasado ainda para casa. No dia seguinte, muito triste, distraído, não conseguia fazer nada direito. A mãe deu-lhe uma bronca atrás da outra e ele foi ficando cada vez mais triste. Será que não conseguia fazer nada direito? Moisés nunca se sentiu tão infeliz...

- O que você tem menino? Está no mundo da lua? Trate de fazer tudo direito, senão você não vai brincar à tarde com seus amigos.

Que amigos? E Moisés queria lá saber de amigos? Seu único pensamento era a chuteira que o Saci havia levado. Será que valeria a pena voltar na sexta-feira seguinte?

A semana foi difícil. Moisés não conseguia se concentrar nem na escola, nem em casa. Levou bronca da professora, da mãe e, por mais que se esforçasse, seu pensamento era um só: voltar à floresta e tirar a chuteira do Saci.

Na terceira sexta-feira, ele decidiu que daquela noite não passaria. Conseguiria a chuteira, custasse o que custasse. Pra que um Saci precisa de uma chuteira? Pensava enquanto arrumava a cama com travesseiros e cobria-os com o lençol, para que se dona Zafira fosse ao seu quarto e pensasse que era ele deitado.

A noite estava muito escura. Um vento frio soprava, mas nada o amedrontou. Entrou na mata de mansinho, passou pela coruja, sentiu as asas de alguns morcegos roçarem suas orelhas, mas nem isso o intimidou. Era hoje ou nunca. À meia-noite em ponto, avistou a brasa do cachimbo do Saci. Chegou perto, bem perto.

Sentiu o calor da brasa quase encostando em seu nariz. Prendeu a respiração. Dessa vez ficaria calmo o suficiente para não errar o alvo. Deu um pisão tão forte, mas tão forte que sentiu o pé doer... Nesse instante, o grito do Saci ressoou pela mata inteira e ele viu quando a brasa do cachimbo se afastou como se voasse.

Abaixou-se, apanhou a chuteira quase sem acreditar, tamanha era sua felicidade, e voltou correndo para casa, antes que o Saci voltasse e a tomasse de suas mãos.

Ao chegar em casa, encontrou a mãe do lado de fora, aflita com seu desaparecimento. Tentou explicar o que tinha acontecido, mas é claro que não se livrou de uma bela surra.

Mas no dia seguinte, exibindo as chuteiras novas para os amigos, Moisés não parava de contar vantagens:

-Chii, gente, o Saci ficou morrendo de medo. Quando me viu tirou logo a chuteira e fugiu voando...

Os amigos então lhe provocavam:
-Que mentira, Moisés! E Saci existe? Foi por isso que tua mãe te bateu. Pra deixar de contar mentira. E a surra que você levou?

E ele:

-Ah...Por uma chuteira dessas eu levava mais dez surras e não me arrependia...

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risofasanaro@gmail.com

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ANOTAÇÕES sobre “Estive lá fora”, de Ronaldo Correia de Brito- João dos Reis




Para Edna Juçara Rodrigues

Na primeira página do livro, Cirilo, estudante de Medicina, está em uma das pontes em Recife. Olhando para as águas barrentas do rio Capiberibe, lembra das humilhações sofridas de colegas e professores, que não perdoavam sua rebeldia. “Os suicidas jogam com a morte uma peleja cheia de malícia e sedução, trabalham estratégias ao longo de anos e o que chamam de impulso é apenas a cartada final” (p.7).

É uma história de amizade entre Cirilo e o irmão Geraldo - e a reconstituição do período da repressão e da resistência ao golpe militar de 1964. Os dois irmãos foram para a capital pernambucana estudar na universidade, mas estão distantes um do outro. Geraldo, estudante de engenharia, é militante estudantil, e depois um revolucionário que prega a resistência à tirania; Cirilo, um nihilista confesso. A diferença entre eles: um rebelde que se engajou na luta armada - o outro, revoltado que “desejava que fossem destruídos valores sociais e politicos da civilização ocidental, abrindo caminho para uma nova sociedade que ele não sabia ainda qual era” (p. 198)

Luis Eugenio e Celia Regina, os pais dos dois irmãos, vivem em uma cidade do sertão cearense dos Inhamuns. Para acompanhar a trajetória de Geraldo,o pai monta um livro de capa dura em que cola noticias e recortes de jornais do filho militante de organização de esquerda, anota observações, tentando reaproximar-se dele pela escrita. Os pais eram de famílias do campo onde “ninguém conhecia o lazer, entregando-se aos afazeres da agricultura, da pecuária e da casa numa rotina interminável e estafante, que envelhecia as pessoas cedo e as matava antes do tempo”. (p.84).

É uma história de amizade de Cirilo e Leonardo, que vivem na Casa do Estudante Universitário. “Eram dois estudantes {de Medicina} pobres do interior, deslumbrados com o rio cheirando a esgoto, comovidos com a absoluta falta de perspectivas, dispostos a descobrir a poesia da cidade. Empanturravam-se de livros, cinema e música” (p.59).

É também a aventura de um trio amoroso entre Cirilo, Leonardo e Paula - e não é uma história de amor que tem um final feliz.

O romancista retoma os dilemas dos que viveram a ditadura militar: a ausência de futuro, a angústia das prisões, das torturas, dos desaparecimentos – os encontros e desencontros de uma geração. Cirilo vive o conflito permanente, como os pais, à espera de receber noticias do destino do irmão engajado na resistência.

“Acredito que a literatura pode fazer uma autêntica revolução. O que há de verdade nos livros se torna um bem coletivo e a invenção dos escritores se transforma num patrimônio da língua” (p.218), diz o personagem principal do livro de Ronaldo Correia de Brito, médico-escritor que nasceu no Ceará, mas vive há muitos anos em Recife.

Nas últimas páginas do livro, a caminho do plantão do hospital, Cirilo “experimentou uma conhecida angústia, o abandono e o sentimento desagradável de que algo se partia dentro dele. Desde pequeno sofria esses sobressaltos” (p. 284).

Já no hospital, os amigos Leonardo e Silvio vieram com a noticia ouvida no rádio: um estudante de engenharia fora alvejado com vários tiros na ponte da Torre – e poderia ser o irmão Geraldo. Chamam um táxi, e no caminho, ele pede para parar na ponte da Madalena, desce do carro, descalça os sapatos e as meias, despe a camisa e decide caminhar como um equilibrista sobre a amurada. Os dois amigos o chamam do carro: “Vamos, Cirilo”.

“Estive lá fora”, de Ronaldo Correia de Brito, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2012, 294 pp.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

ANOTAÇÕES/REFLEXÕES sobre “O sonho do celta”, de Mario Vargas Llosa - João dos Reis



Roger David Casement aguarda na prisão a sentença de morte por enforcamento, acusado de traição pelo governo inglês em 1916. É um livro de ficção de Mario Vargas Llosa, mas a reconstrução da vida de um personagem esquecido pela História. Em capítulos alternados, o aventureiro que percorreu três continentes, e funcionário da diplomacia inglesa que recebeu o título de nobreza, reflete sobre o seu passado – um “cidadão do mundo, o mais universal irlandês que conheci”, nas palavras do poeta William Butler Yeats.

Participou de duas expedições ao Congo Belga no inicio do século 20, lideradas por Henry Morton Stanley e Henry Shelton Sanford. Foi a descoberta da realidade de uma África desconhecida. Depois, já trabalhando para o Foreign Service, refez as viagens pelo interior do país para escrever um relatório sobre as atrocidades dos colonizadores contra as populações nativas. Descobriu o horror da escravidão, dos castigos, das torturas: o desaparecimento de aldeias,o espetáculo das costas dos trabalhadores das plantações todas listradas pelas chicotadas, as mãos e os pênis esmagados pelos militares da Force Publique. Foi o inicio do questionamento do “papel civilizatório” do europeu. “Graças ao Congo, tinha descoberto a Irlanda, queria ser um irlandês de verdade, conhecer o seu país, apropriar-se da sua tradição, sua história e sua cultura”.

Roger David Casement esteve a serviço alguns anos no Brasil – em Santos, Rio de Janeiro e Pará. Depois esteve no Peru, acompanhado de uma comissão, para escrever um outro relatório sobre a violência contra as populações indígenas da Amazônia pela Peruvian Amazon Company, de Julio Cesar Aranha, de extração de látex. O ponto de partida foi a denúncia do jornalista de Iquitos, Benjamim Saldaña Roca no jornal “La Felpa” e “La sanción” – que foi assassinado e “desaparecido”; e do engenheiro norte-americano Walter Hardenburg no jornal inglês “Truth”.Foi a descoberta de um outro mundo de crueldade e barbárie: os indígenas eram capturados para trabalhar nos seringais – e torturados, mortos, desaparecidos.

A publicação do “Relatório de Putumayo” em 1912, que se chamaria “Blue Book” (Livro Azul) foi um outro marco na visão do cônsul: a Europa, e particularmente a Inglaterra, buscava “levar a civilização”, escravizando, destruindo as culturas originais dos povos da Amazônia.

Torna-se um militante e um dos dirigentes do movimento independentista da Irlanda. Parte para a Alemanha para conseguir armas e apoio à insurreição: o Levante da Semana Santa de 1916 foi reprimido, os lideres foram presos, fuzilados ou condenados à longas penas.

Vargas Llosa registra a controvérsia dos “Black Diaries”, diário em que o nacionalista irlandês escreveu sobre sua vida sexual - e o romancista nos diz que “é impossível chegar a conhecer de forma definitiva um ser humano, totalidade que sempre escapa a todas as redes teóricas e racionais que tentam capturá-la”.

Mr. John Ellis, o carrasco, pediu em um sussurro para Roger David Casement abaixasse a cabeça, e colocou a corda em volta do seu pescoço: “se prender a respiração será mais rápido, sir”. Ele obedeceu. A família e os amigos tentaram enterrar o corpo na Irlanda – mas somente em 1965 os ossos do líder revolucionário foi repatriado – e recebido como os restos mortais de um herói.

Vargas Llosa reconstruiu a saga de “um dos grandes lutadores anticolonialistas e defensores dos direitos humanos e das culturas indígenas do seu tempo, e um sacrificado combatente pela emancipação da Irlanda”.

Fui leitor de todos os romances do escritor peruano. Esse último livro foi uma imersão na cultura da violência nos países colonizados pelos europeus – que ainda está presente no nosso cotidiano com as prisões, torturas e desaparecimentos dos moradores da periferia das grandes cidades – a maioria deles, descendentes dos que sobreviveram à escravidão e ao genocídio.

“O sonho do celta”, de Mario Vargas Llosa, Objetiva, Rio de Janeiro, 2011, 390 pp.


terça-feira, 20 de outubro de 2015

19 de outubro de 2015: Ato de entrega das Recomendações da Comissão Municipal da Verdade de Osasco ao Legislativo e Executivo da cidade- João dos Reis



“Sobe para nascer comigo, irmão
Dá-me a tua mão ai da profunda
zona do teu pudor disseminado.
Não voltarás do fundo das rochas.
Não voltarás do tempo subterrâneo.
Não voltarás a tua voz endurecida.
Não voltarão os teus olhos verrumados.
(...) Através da terra juntai todos
os silenciosos lábios derramados
e lá do fundo falai comigo por toda esta longa noite,
como se estivesse ancorado convosco,
contai-me tudo, cadeia por cadeia,
elo por elo, passo por passo / (...)
e deixai-me chorar, horas, dias, anos,
idades cegas, séculos estelares.(...)
Falai por minhas palavras e por meu sangue”.
Pablo Neruda, poema “Alturas de Macchu Picchu

Na noite do dia 19 de outubro, na Sala Osasco (auditório da Prefeitura da cidade) aconteceu o Ato de entrega das Recomendações da Comissão Municipal da Verdade de Osasco. Estiveram presentes o prefeito Antonio Jorge Pereira Lapas, o representante do Legislativo, vereador Josias Nascimento de Jesus, o deputado Marcos Lopes Martins e o ex-deputado Adriano Diogo, representantes da imprensa, dezenas de cidadãos osasquenses e as vitimas da ditadura militar.

Cada um dos membros das cinco subcomissões (Vítimas, Equilíbrio Federativo, Locais, Agentes do Estado e Entidades civis) apresentou um balanço dos trabalhos dos últimos dez meses. Permanece um grande silêncio: a voz dos torturadores, já que os dois que foram identificados e localizados (Wilson Damasceno e Mauricio Lopes Lima), se recusaram a comparecer a uma audiência da comissão. Antonio Roberto Espinosa, representando as vítimas do Estado policial, fez um discurso emocionado em que lembrou que as marcas da tortura permanecem no corpo e na alma dos torturados. O professor Murilo Leal Pereira Neto, Coordenador da CMVO, leu e comentou cada uma das recomendações entregues aos representantes do poder político na cidade.

No final, o ato se encerrou com o discurso do prefeito, em que ele se comprometeu debater e realizar as propostas da comissão.

Quais foram as recomendações da CMVO? Entre elas, “criar um Centro de Memória, Verdade e Justiça, dedicado ao resgate das lutas contra o regime ditatorial na cidade, das vítimas da ditadura e dos movimentos sociais, voltado à coleta, guarda e produção de documentos sonoros, iconográficos, audivisuais e textuais relacionados à temática” – e um Parque da Memória agregado a esse centro, dedicado à exposição de instalações artísticas.

Uma outra proposta é “identificar e substituir a denominação de praças, logradouros e monumentos que façam referências aos próceres da ditadura militar pelo nome de cidadãos que lutaram pela democracia”.

Com os olhos voltados para o presente, “proceder a identificação de locais que ainda mantêm práticas de tortura e ações policiais que violem os direitos humanos em Osasco”.

Osasco foi uma das cidades mais duramente castigada pela repressão do terror de Estado. A proposta: apresentar ao Congresso Nacional e à Presidência da República “uma medida de desagravo aos poderes Legislativo e Executivo osasquenses pela quebra do equilíbrio federativo, bem como às entidades da sociedade civil pelas intervenções ilegais sofridas, como o Sindicato dos Metalúgicos de Osasco e região, União dos Estudantes de Osasco – UEO , Círculo Estudantil de Osasco – CEO, Igreja Matriz de Santo Antonio – atual Catedral, Paróquia Imaculada Conceição, entre outras”.

A CMVO ratifica todas as recomendações da Comissão Nacional da Verdade, e alguns dos destaques lembrados foram “o reconhecimento e adoção da Convenção sobre a Imprescritibilidade dos crimes de guerra e contra a humanidade, adotada pela ONU por meio da Resolução nº 2391/68, inclusive para a Lei da Anistia”. E também “a investigação, denúncia e punição dos autores de crimes de assassinato, tortura e desaparecimento forçado das vítimas, bem como de empresas privadas e estatais que apoiaram material, financeira e ideologicamente a estruturação e consolidação do golpe de 64 e a ditadura militar”.

Em um momento histórico que vivemos em que os fascistas surgem dos subterrâneos em se refugiram nos últimos anos, é preciso reafirmar que não esquecemos as atrocidades do passado - e que os sonhos de um Brasil mais justo e solidário permanecem em nossas mentes e corações. E recordar aos cidadãos do presente e do futuro: a luta continua para desvendar a verdade, preservar a memória, a dignidade daqueles que foram perseguidos, humilhados, presos, torturados, mortos e desaparecidos no periodo de 1964 a 1985. Foi um acontecimento histórico a noite de 19 de outubro de 2015 em Osasco: para lembrar que estamos vigilantes: para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.

NOTA: poema “Alturas de Macchu Picchu”, Pablo Neruda, in “Canto Geral”, Editora Record, Rio de Janeiro, 1996, pp. 25-40, tradução de Paulo Mendes Campos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

13 de outubro de 2015: uma reunião da Comissão da Verdade de Osasco



“Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo o adeus...”
Vinicius de Moraes, trecho do poema “Pátria minha”.

No dia 13 de outubro de 2015 aconteceu uma das últimas reuniões da Comissão Municipal da Verdade de Osasco. Um ano de trabalho em que foram realizadas oitivas das vítimas da ditadura militar de 1964-1985, localizados os locais de detenção e tortura, identificados alguns dos agentes de Estado que participaram de violação dos direitos humanos, realizada a pesquisa das empresas que colaboram com a repressão policial, registrado o atentado à legalidade republicana com a prisão de vereadores e cassação do prefeito.

Desde que a Comissão foi criada em agosto de 2014, por um decreto do Executivo e aprovada pelo Legislativo, foram dezenas de reuniões com os representantes das sete subcomissões: Agentes do Estado, Equilíbrio Federativo, Entidades Civis, Vitimas e Locais. Albertino de Souza Oliva foi o primeiro coordenador, substituído pelo vice-coordenador Luciano Jurcovichi Costa, e nos últimos seis meses, por Murilo Leal Pereira Neto.

Foi uma longa pauta – encaminhamento de ofícios, visitas aos locais de prisão e tortura, oitivas dos que foram atingidos pela perseguição policial, pesquisa nos anais da Câmara e nas empresas da cidade. Foi programada a projeção de filmes-documentários e a participação e panfletagem no Desfile do 7 de Setembro.

O Ato de Desagravo ao Legislativo e de 50 anos de Reempossamento do Prefeito Hirant Sanazar no dia cinco de outubro foi um acontecimento raro na cidade: reuniu ex-prefeitos e vereadores, autoridades civis e religiosas, e vítimas do terror do Estado policial. Os discursos do atual mandatário, Antonio Jorge Pereira Lapas, e do professor Murilo foram históricos por apontar os desmandos do passado e os caminhos para o presente.

O relatório final está sendo elaborado, retomando o texto preliminar apresentado em dezembro de 2014. Será um documento para lembrar os anos em que Osasco teve vereadores presos, prefeito cassado, operários sitiados, presos e torturados na greve de 1968, estudantes e militantes de organização de esquerda perseguidos, torturados, mortos e exilados.

Foram ouvidos os personagens que resistiram à ditadura e foram vitimas da repressão policial: Gabriel Roberto Figueiredo, Antonio Roberto Espinosa, Stanislaw Szermeta, Maria Aparecida Bacega, Helena Pignatari Werner, os irmãos Iracema e Roque Aparecido da Silva - para citar alguns deles. Muitos outros não puderam comparecer porque foram mortos: Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Carlos Lamarca, José Campos Barreto – e o estudante Sergio Zanardi, que se suicidou nos anos 60. Não conseguimos ouvir em audiência os torturadores identificados; a pergunta que ficará para o futuro: até quando permanecerão calados?

Na reunião de 13 de outubro de 2015 foram discutidas as recomendações finais da comissão ao Legislativo e Executivo da cidade. Entre elas, a criação de um Centro de Memória, Verdade e Justiça dos movimentos sociais e das vítimas da ditadura militar; sugerir ao município de Itapevi a desapropriação e tombamento do centro clandestino de tortura, chamada “Boate Querosene” - e a criação de um memorial de direitos humanos no local.

A comissão deixará um documento que será referência para os osasquenses - embora os que destruíram o poder republicano, prenderam, humilharam, torturaram, assassinaram e “desapareceram” continuam impunes. Mas entrarão para os anais da História como os que sufocaram os sonhos de uma geração que lutou por um país mais justo e solidário.

Recordei a vocês nos últimos doze meses nas minhas crônicas de memórias: houve um tempo de guerra e resistência, depois um longo tempo de silêncio e medo. Hoje, é um tempo de recordar, redescobrir o passado, documentar - para que acreditemos nas esperanças de um futuro com democracia e liberdade.

NOTA: trecho do poema “Pátria Minha”, de Vinicius de Moraes, in “Antologia Poética”, Companhia das Letras, São Paulo, 1992, pp. 198-200

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Um Exemplo de professora - Risomar Fasanaro



Sempre me lembro com muito carinho de todos meus professores, mas na impossibilidade de escrever sobre cada um, escolhi minha professora de português do curso ginasial em um colégio de freiras: dona Celina Plácida Costa. Ela me marcou para sempre por duas razões que aqui irei contar.
A primeira é que foi ela a primeira pessoa a me incentivar a escrever e a segunda foi por ter participado do momento mais constrangedor de toda minha vida escolar.
Meu pai tinha comprado um bar em sociedade com um conhecido dele. Talvez nos primeiros meses o bar tenha tido algum lucro, não sei, a verdade é que em menos de um ano, o bar começou a dar o maior prejuízo e meu pai se viu forçado a desligar-se da sociedade sem receber um centavo sequer, e a assumir uma dívida muito grande.
É claro que sempre pairou no ar suspeitas de que meu pai fora furtado, mas não havia como provar, além disso só Gandhi seria mais pacifista que meu pai.
Com aquele prejuízo, nossa vida mudou muito. Só se comprava o estritamente necessário, nada supérfluo entrava em nossa casa.
O valor da mensalidade do colégio era de 450 cruzeiros na época, e passando por aquela crise financeira, meu pai não pode pagar duas mensalidades. Uma manhã, uma das freiras entrou na classe e, sem nenhum gesto de delicadeza, se dirigiu a mim na frente de toda a classe e disse: “a partir de amanhã você não poderá assistir às aulas porque sua mensalidade está atrasada. Só poderá voltar ao colégio, quando seu pai pagar.”
Na época eu era extremamente tímida. Além de muito magra para os padrões da época, havia o sotaque...Sim, o sotaque era motivo de risinhos disfarçados das colegas, o que me tornava mais tímida ainda.
Quando ouvi a ordem da freira, senti que o chão sumira sob meus pés, as lágrimas me saltaram, e mesmo no meio daquele turbilhão de ideias que envolviam a humilhação, a vergonha, me lembrei que no dia seguinte haveria prova de Português. O que aconteceria? Eu ficaria sem nota?
Como explicaria depois à professora de Português, o porquê da minha ausência? A sala ficou em absoluto silêncio. Um silêncio constrangedor. Nenhuma das colegas fez qualquer comentário. Terminadas as aulas do dia, fui embora.
Em casa contei à minha mãe o que havia acontecido, e ela disse não poder fazer nada. Eles não podiam pagar a mensalidade e pronto. No dia seguinte acordei pela primeira vez na vida, sem ter o que fazer. Triste, fiquei imaginando as colegas fazendo prova.
Estava assim, quando alguém tocou a campainha e minha mãe foi atender. Era Aridelson Turíbio, hoje advogado de renome em Osasco, naquela época um adolescente. Viera de bicicleta até nossa casa trazer um recado. O pai dele tinha uma loja de material de construção, e era lá que havia o único telefone do bairro. Ele recebera um telefonema do colégio. De quem? Da professora Celina. Ela mandava dizer que estava esperando que eu chegasse ao colégio, para poder começar a prova de Português. Que eu fosse logo, pois a classe inteira estava me esperando.
Eu disse que não iria. E Aridelson contou que ela dissera que só faria a prova quando eu chegasse. Comecei a chorar e disse que não iria, que sentia vergonha pelo que havia acontecido, mas minha mãe me convenceu: “você vai decepcionar essa professora que gosta tanto de você? Que se recusou a fazer a prova sem você? Vá logo botar o uniforme e ir correndo pro colégio...Foi o que tive de fazer.
Não sei como percorri um dois quilômetros de minha casa até o colégio. Quando cheguei, a classe estava toda em silêncio. Cada aluna com a prova em branco sobre a carteira, imóvel. Dona Celina me entregou uma folha e eu fiz a prova.
Nunca contei essa passagem de minha vida. Guardei esse segredo como se eu fosse culpada. Segredo partilhado apenas pelas colegas que estudaram comigo.
Somente hoje homenageio dona Celina Plácida Costa, aquela professora corajosa que enfrentou aquela instituição religiosa ultraconservadora, em defesa de uma de suas alunas.
É nela que me inspiro diante de alguma injustiça.


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A Casa dos meus padrinhos – Risomar Fasanaro



Era uma casa pequena que ficava no alto, em frente à linha do trem. Nos fundos da casa havia uma mangueira grande que quase sempre estava carregada de mangas, e ao lado, um abacateiro e muitos pés de bom-dia e boa- noite, flores que recebem esses nomes porque abrem pela manhã e ao anoitecer.
Na pequena cozinha destacava-se o fogão à lenha e um console com duas grandes jarras de barro onde minha madrinha armazenava água.
Na sala de jantar, uma luz suave, filtrada pelas folhas do abacateiro que havia ao lado da janela, entrava iluminando a mesa e deitando sombras sobre a toalha. O bule e o açucareiro de ágata azul, o cestinho com pães, e mais aquelas iguarias que fazem de um café no nordeste uma festa: macaxeira, fruta-pão, às vezes um bolo de mandioca, umas tapiocas...
Meu padrinho, sentado à cabeceira da mesa, comia devagar como se não tivesse de sair para o seu armazém em Afogados. E enquanto comia, contava histórias de sua infância em Santa Combadão, sua cidade em Portugal. Cidade que soube há pouco, era a terra do ditador Salazar.
Além de ele falar pouco, quando falava eu não entendia muito bem o que dizia naquele português de Portugal, mas sentia o quanto gostava de mim.
Não me lembro se quinzenal ou mensalmente ele ia ao Gabinete Português de leitura, na rua do Imperador, e de lá trazia emprestados quatro livros: um para ele, um para minha madrinha, um para meu irmão Paulo e um para mim.
Durante as refeições, ele falava do livro que estava lendo, citava passagens, e nos perguntava, a mim e ao meu irmão, sobre o que estávamos achando dos nossos. Ele trazia Dostoievski, Tolstoi pro meu irmão, Cronin pra minha madrinha, e José de Alencar e Guerra Junqueiro pra mim. Um dia trouxe Dom Casmurro, eu li e odiei Machado de Assis. Só muito mais tarde passei a amar Machado.
Aos domingos ele abria o armazém até meio-dia, e depois vinha pra casa trazendo uma lata de goiabada e algumas garrafas de guaraná “Fratelli vita” para o almoço.
Depois ele e minha madrinha nos levavam para algum passeio: Parque Dois Irmãos, andar pelas ruas do centro do Recife...
À noite ouvíamos um programa de músicas portuguesas, e o fado me vinha até que o sono tomasse conta de mim.
Minha madrinha era muito carinhosa comigo, mas muito severa com meu irmão. Ela o incumbia de várias tarefas: varrer o quintal, tirar água da bomba e encher as jarra de barro...
Quando ela saía, meu irmão e eu ficávamos em casa, e nossa alegria era sentar na janela, com os pés pra fora, vendo os trens passarem. Mas saíamos imediatamente, mal ela apontava do outro lado da linha do trem.
Eu gostava de ficar oito, dez dias naquela casa, não mais que isso. Sentia saudade de Socorro, onde morávamos, saudade dos meus irmãos, dos meus amigos, das brincadeiras... Socorro era um paraíso repleto de árvores, nossa casa ficava à beira do rio Jaboatão e era uma festa me equilibrar nas pedras escorregadias do rio, pescar piabas para pôr num vidro de maionese, onde viviam apenas dois, três dias...subir nas árvores...
Quando eu fiz dez anos, meu padrinho ficou doente. Os médicos diagnosticaram um câncer na garganta e dali em diante ficou mais difícil entender o que ele dizia.
Minha madrinha pediu à minha mãe que me deixasse ficar com ela até a morte dele, e a partir daquele dia, eu o olhava e sentia uma tristeza muito grande por saber que a morte rondava aquela casa, e que só sairia dali quando o levasse.
Muito triste, atravessei a ponte de Socorro me despedindo em silêncio do rio, das árvores, de tudo aquilo que eu amava. E como eu passaria a morar com eles, meus pais me transferiram do Grupo escolar de Socorro, para o colégio Carneiro Leão, no centro do Recife.
Durante um ano vivi um sentimento ambivalente: a tristeza de ver meu padrinho em casa, sofrendo horrivelmente, definhando dia a dia, e a alegria de viajar sozinha de trem, descer na Estação Central e percorrer as ruas da cidade até chegar ao colégio.
Minha madrinha me dava dois cruzeiros por dia, e como as passagens de trem custavam CR$ 1, 20, eu juntava o troco de três dias, e a caminho da estação, de volta para casa, comprava um pão-de-ló e ia comendo-o pela rua.
Tudo no Recife me encantava: a estação Central, o teatro Santa Isabel, as vendedoras de tapioca, de cachorro quente, as bancas de frutas na ponte Duarte Coelho, o perfume de cajá, de pitombas e mangabas se espalhando no ar...Ainda hoje quando penso em felicidade tento rememorar aquele sentimento que me tomava naquelas andanças por minha cidade... mas, como toda felicidade, durava pouco, chegando em casa voltava a tristeza por ver meu padrinho morrendo aos poucos, e a angústia de saber que me era destinado viver aquela dor até o momento final.
E um dia ele chegou: meu padrinho morreu. E aquela casa que antes já me parecia triste,
tornou-se mais e mais vazia sem sua presença falando de livros, falando de sua aldeia.
Alguns dias depois do enterro, meu pai veio me buscar e me trouxe outra triste notícia: ele tinha sido promovido e transferido para o 4º RI, quartel de Quitaúna, São Paulo...
Depois de alguns dias atravessei a ponte de Socorro pela última vez. Ali, olhando a cachoeira, dei adeus à minha infância, e deixei, à beira do rio Jaboatão, os melhores anos de minha vida.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Gália, SP: a Música dos Mestres - João dos Reis




“Ao escrever, e independentemente do valor do que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência de que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre. (...) ao escrever, dou à terra, que para mim é tudo, um pouco do que é da terra. Nesse sentido, escrever é para mim morrer um pouco, antecipar um regresso definitivo à terra. Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras. Violento-me”. Ruy Belo, Breve Programa para uma Iniciação ao Canto.

“Música dos Mestres” da Rádio Gazeta iniciava com a Ária da corda sol de Bach. Era uma hora de programação – que me acompanhou desde a infância em Gália, no centro-oeste paulista.

Meu irmão frequentava o conservatório público da cidade vizinha, Garça – e foi por ele que descobri o programa diário, de segunda a sábado, das 13 às 14 horas. Durante muitos anos, fui ouvinte assíduo dos grandes compositores. Mais tarde, morando em Osasco, pela Rádio Eldorado e Cultura de São Paulo.

Como foi possível um piá, caipira do interior, ouvir a música que sempre foi privilégio da aristocracia e, mais tarde, da burguesia? Devo ao prefeito João Ferreira (1960-1963) o projeto que mudou minha vida intelectual para sempre: a criação da biblioteca pública na cidade de Gália. E, em Garça, a existência de um conservatório público. Foram as duas fontes de cultura e informação importantes para mim: me encantei pelas palavras e pelos sons.

Não cheguei a tocar nenhum instrumento; descobri que não tinha talento para me tornar um pianista, e sim, uma paixão pelo mundo das palavras. Em 1961, quando cheguei à cidade proletária de Osasco, as ruas eram de terra, o esgoto era a céu aberto, o curso ginasial era à noite. Foram os grandes mestres da música e da literatura que me acompanharam na aventura inglória de sair da realidade de pobreza e miséria.

Canto Orfeônico era o nome da disciplina no currículo escolar (hoje, da 5ª a 8ª série). Duas professoras, Vera Corentchuk no Gepa (Ginásio Estadual de Presidente Altino) e Marina no Ceneart (Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares) foram duas grandes incentivadoras: para não esquecer a arte dos grandes mestres.

O primeiro toca-discos que comprei nos anos 70 era portátil – e não cheguei a ter nenhum disco de música clássica. Continuava ouvinte dos programas da Rádio Eldorado e, depois da Rádio Cultura.

Lembro dos anos que vivi no Litoral Norte de São Paulo: estava isolado, não tinha rádio ou televisão. Comprei nos anos 70 um aparelho de som Gradiente – que tenho até hoje; mas foi apenas com a chegada dos CDs é que iniciei minha pequena coleção.

Quase não frequentei salas de concertos ou o Teatro Municipal de São Paulo. Nos anos 80, ganhei de um programa da Rádio Cultura a entrada para uma apresentação do pianista Arnaldo Cohen no Teatro Cultura Artística – uma experiência emocionante. Hoje, a revolução tecnológica torna possível ver e ouvir as grandes orquestras e os pianistas, violinistas - uma viagem fascinante com um toque no computador.

Os programas da FM Cultura comentam, às vezes, a vida dos compositores. Muitas vezes me emocionei com o drama vivido por Robert e Clara Wieck Schumann, com a morte trágica de Piotr Ilicht Tchaikovski, com a exilio de Frederic Franciszek Chopin, com a ausência dos sons no final da vida de Ludwig van Beethoven – para citar alguns dos mestres mais admirados.

Foi ouvindo emocionado o Concerto número 2, opus 18, de Serguei Rachmaninoff, que iniciei essa crônica dedicada aos que me aproximaram da música e da literatura. Reflito às vezes que a iniciação musical e literária que relato para vocês foi uma educação sentimental, mas também a minha salvação: para não submergir em um mundo sem arte e beleza.

NOTA: a citação de “Breve Programa para uma Iniciação ao canto”, de Ruy Belo, in “Todos os poemas”, vol. II, Assírio & Alvim Ed., Lisboa, 2004, pp. 9/10