segunda-feira, 5 de maio de 2025

Recordando - reencontro com Jurema A. R. Valença - João dos Reis

RECORDANDO o reencontro com JUREMA AUGUSTA RIBEIRO VALENÇA em 2011 Em 1966 iniciei uma aproximação com o PCB e participei de algumas reuniões de uma célula em Osasco. Foi no ano seguinte que começou o processo de cisão que deu origem à ALN de Marighella. Na reunião em que se discutiu a luta armada contra a ditadura, não lembro de tomar uma decisão. Maria Aparecida Bacega esteve presente nesse dia. Foi somente mais tarde que li o livro de Régis Debray, “Revolução na revolução”: a crítica ao imobilismo e conformismo do partido foi decisiva para a aproximação com os grupos guerrilheiros. Desde final de 1969 estava em contato com militantes da VAR-Palmares, discutindo propostas e documentos da organização. Estava informado da primeira queda de alguns líderes no final desse ano e inicio de 1970. O debate nesse momento era entre o trabalho político com operários e trabalhadores do campo, a luta armada, a guerrilha revolucionária.Quando em setembro de 1970 “Maria” (nome de guerra) não compareceu ao “ponto” (de encontro), fiquei preocupado. Havia um segundo ponto _ a que deveria comparecer algum companheiro da organização. Ninguém compareceu ao local combinado. Não lembro de como fiquei sabendo de que todos tinham sido presos. Um dos companheiros havia me dado para ler um livro de Henri Alleg sobre as técnicas de tortura usadas pelos franceses na guerra de independência da Argélia. Hoje recordo esses dias e meses de tensão e angústia. Maria estaria suportando as sessões de tortura? Ela abriria o nosso “ponto”? Decidi que deveria continuar no meu trabalho e estudando; tranquei a matricula no curso de Filosofia na USP, mas nesse semestre ainda terminei uma disciplina optativa nas Ciências Sociais (Teoria Politica) com Francisco C.Weffort. Não tinha com quem conversar sobre todos esses fatos. Meu melhor amigo (do POC) estava preso há alguns meses. Foram momentos de solidão. Em 1974, na única viagem que fiz ao Nordeste brasileiro, passei uma noite em Salvador. E, por um feliz acaso, encontrei “Maria” em uma lanchonete, que nesse dia descobri que se chama Jurema. Fiquei aliviado, depois de mais de três anos, em saber que ela sobrevivera à tortura e à prisão. Foi um encontro rápido, e perdemos o contato novamente. Li na “Folha de S.Paulo (08/12/2007) que Dilma Rousseff chamara para trabalhar na Casa Civil duas ex-companheiras da VAR-Palmares. Entrei em contato com Jurema, trocamos cartas e e- mails, conversamos por telefone. E somente em 2011 fui revê-la em Salvador e retomar o diálogo interrompido há 40 anos. Fiquei sabendo que ela foi poupada de novas torturas porque dias antes havia sido preso Eduardo Leite (o Bacuri) _ e os torturadores foram brutais: foi um dos presos mais barbaramente torturados (muitos o foram, mas nunca saberemos, porque estão mortos e desaparecidos). Quando fui encontrar Jurema em Salvador, já havíamos trocados fotos nossas da época e recentes. E brincamos que eu deveria ir com um jornal debaixo do braço: era a senha em 1970 de que estava tudo bem, de que não havia uma cilada armada pela repressão para nos prender. Esperei-a com um jornal debaixo do braço e um buquê de rosas nas mãos. Do companheiro que era meu contato em Osasco, “Cido”, nunca mais tive noticias; acredito que ele vive em algum lugar do Brasil. A repressão da ditadura militar não foi capaz de impedir esse encontro com Jurema – e a retomada do diálogo e da amizade interrompidos há 40 anos. Segue abaixo a foto de identificação na prisão em 1970 de “Maria” (Jurema), que recebi dela antes de viajar em 2011.

domingo, 4 de agosto de 2024

As vozes da ditadura - João dos Reis

Ao Vozes da ditadura Prezados/as Profª Mariluci Uma sugestão para o blog: sobre a vida e a arte de Antonio Benetazzo (1941-1972). Pesquisando na internet, há muita informação sobre o militante e artista.. ANTONIO BENETAZZO nasceu em 01/11/1941 em Verona, Itália. Mudou-se ainda menino para o Brasil. Começou a trabalhar ainda criança; aos 13 anos era operário em São Paulo. Estudante de Filosofia e de Arquitetura na USP; foi presidente do centro acadêmico de Filosofia; professor de Filosofia e História da Arte em cursinho preparatório para o vestibular e no Iade (Instituto de Artes e Decoração). Militou no PCB, e depois da cisão do partido, na ALN. Foi um dos participantes do 30º Congresso de Ibiúna em 1968 – o cartaz da UNE para o encontro foi criação dele. Esteve em Cuba em 1971 e voltou como militante do Molipo. Foi preso em 28/10/1972 e morreu sob tortura dois dias depois; foi enterrado como indigente na Vala de Perus do Cemitério Dom Bosco em Perus; nos anos 80 a família conseguiu localizar e identificar o corpo e fazer o translado. Eu o conheci na Faculdade de Filosofia da USP em 1968; conversei poucas vezes com ele - eu tinha 19 anos, ele já era uma liderança estudantil. Recordo a presença dele durante a ocupação da faculdade e na chamada batalha da rua Maria Antonia com o CCC e estudantes da Universidade Mackenzie. Entre 1973 e 1980 fui professor de Filosofia nas cidades do Litoral Norte de São Paulo. Em Caraguatatuba, onde Benetazzo viveu parte de juventude, e entre os professores que tinham sido seus amigos, foi o personagem ausente, “desaparecido”, mais presente entre nós nos anos 70. Em São Sebastião, fui professor da irmã caçula dele, Italia; conversamos muito depois do final das aulas - era a aluna que esteve mais próxima de mim na escola estadual da cidade. Italia Benetazzo vive em Ribeirão Preto; reencontrei-a no Memorial da Resistência em outubro de 2019, em um “sábado resistente” em que o irmão dela foi homenageado – e ele me contou que escolheu o curso de Psicologia depois dos nossos diálogos. Conheci os filhos dela, Pedro e Isadora Benetazzo Serrer, estudantes de Geografia na USP, e confessei que não visitei os avós deles em São Sebastião nos anos 70: era um tempo de silêncio. Envio o único vídeo que encontrei, do Instituto Vladimir Herzog, com depoimentos das irmãs dele e de companheiros de militância. https://vladimirherzog.org/exposicao-antonio-benetazzo/vida-de-antonio-benetazzo/ Indico o livro de Reinaldo Cardenuto e uma exposição com o mesmo nome: “Antonio Benetazzo, permanências do sensível”. E o curta metragem “Entre imagens (Intervalo)”, de Reinaldo Cardenuto e André Fratti Costa. Uma observação: No texto do Instituto Vladimir Herzog e no site desaparecidospolíticos, está que ele foi enterrado no Cemitério Dom Bosco em 1972. Mas não consta que ele foi um dos foram identificados apenas nos anos 80. Essa informação está na página 30 do livro "Vala clandestina de Perus - desaparecidos políticos, um capítulo não encerrado da História brasileira" (vários autores, Instituto Macuco, São Paulo, 2012). Enviei no final do ano passado uma resenha do livro; envio-a novamente, no final.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Trecho do NOVO LIVRO QUE ESTOU ESCREVENDO - Risomar Fasanaro

Certo dia Chico Rossi andando pela Feira de Artes na praça Duque de Caxias me contou que a escola estadual do Jardim Cipava fora desativada e que pretendia criar naquele local a vila para os artistas projeto antigo dele, e que, para isso convidara Leopoldo Lima, artista plástico que morava em Ribeirão Preto, para ali morar. Fiquei entusiasmada. Sua idéia era que o núcleo residencial abrigasse artistas da cidade para ali viverem e criarem seus trabalhos. Para isso, convidou seu primeiro e mais importante morador, Leopoldo Lima, artista plástico de Ribeirão Preto, que realizava um trabalho de altíssima qualidade, e que veio a ser espécie de guru para os artistas da cidade. Lembro-me do primeiro dia em que estive no local. Os barracões de madeira estavam muito rebentados, não havia nem luz, nem água. Apenas o espaço que servira de sala de aula e a construção de alvenaria em que antes era a diretoria da escola. Irene e eu plantamos flores na entrada e várias árvores em torno daquelas duas construções. Vários dias depois eu ía de carro com Carlos Marx e José Pessoa, então meu namorado, à Secretaria de Obras buscar tábuas, pregos, tintas...E os dois consertaram aquelas paredes para receber Leopoldo. No dia que chegou a mudança de Leopoldo estávamos lá. Com ele tinham vindo Waldomiro Sant’Anna, artista plástico e Ruthenford, ambos de Ribeirão também. Era muito engraçado ver Ruthenford, espécie de lúmpen que acompanhava Leopoldo aonde ele fosse, carregando pequenos objetos, um de cada vez, e lentamente levar do caminhão até o interior do único cômodo de alvenaria, que foi onde Leopoldo se instalou, enquanto nós descarregávamos as peças mais pesadas. Alguns dias depois voltamos lá. De longe vi a cortina feita com roupinhas de crianças emendadas, enfeitando a janela daquele cômodo onde Leopoldo se instalara.. Naquele instante tive consciência de que Leopoldo era alguém muito especial. Fisicamente, ele era a cópia fiel de Van Gogh: magro, barba e cabelos ruivos, olhos intensamente azuis e de uma ternura sem limites. Calmo, tranqüilo, ficava horas esculpindo seus quadros em tábuas de caixotes de maçã. Mas isso não evitava que de repente se irritasse com os que o rodeavam e expulsasse todo mundo. Só conheci seu lado terno. Tivemos Carlos, Irene, José e eu o privilégio de ser amados por ele. Não sei hoje se consegui captar toda a grandeza daquele gênio. Minhas lembranças dele são tão preciosas que posso dizer, mesmo não gostando de adjetivos, que jamais conheci pessoa tão extraordinária, e que sim, eu conheci e convivi com aquele verdadeiro artista, único em tudo. E as lembranças que tenho dele não consigo registrar porque elas vivem dentro de mim, não fazem parte do que é material. Antes de derrubarem a Vila fui até lá certo dia, queria reviver tudo aquilo, mas o clima daquela época, as lembranças das pessoas com as quais convivera não existia mais, a riqueza do que eu vivera só estava em minhas lembranças. Não vendia nenhum de seus trabalhos, por isso, vivia em uma situação de extrema pobreza. Diziam que em Ribeirão Preto, a mulher dele às vezes se revoltava e vendia-os escondido. Entusiasmei-me com seus trabalhos e ele me convidou para aprender a esculpir. Assim, formamos um grupo e embora eu não tivesse nenhum talento, continuei o curso só para ficar perto dele, para conviver com aquela pessoa tão sábia, tão carismática. Na turma de alunos havia gente de talento como Regina Célia Crepaldi e o Cido, cujo sobrenome não me recordo, e que foi o melhor aluno que Leopoldo teve em Osasco. O curso de pirogravura e entalhe alcançou tanto sucesso, que o prefeito resolveu fazer uma cerimônia com coquetel e tudo, para a entrega dos certificados. Durante a cerimônia Rossi falou sobre a importância da criação de um espaço de convivência para os artistas, que agora tinham onde morar e realizar seus trabalhos e ensinar o que faziam. Depois, convidou o Leopoldo para fazer um discurso. Antes não o tivesse feito. Leopoldo com a roupa despojada de sempre, as sandálias de couro franciscanas talhadas por ele a canivete, denunciou as péssimas condições dos barracões, disse que não havia nem água nem luz, que ele tinha precisado tirar luz da favela, para poder viver ali. Que daquele jeito “ chefe, não dá pra ficar ali. Até agora não tive condições de trazer minha família. Aquilo ali tá uma merda!...” e enquanto Rossi disfarçava, nós já carregávamos Leopoldo para comer uns salgadinhos. A família do artista esteve na Vila em algumas ocasiões, mas não conseguiu viver ali, devido à falta de infra-estrutura. Além de Waldomiro Sant’Anna, o Mirinho, artista plástico de Ribeirão, e de Ruthenford, o pintor Paulo César também passou a residir na Vila. Ruthenford era uma figura muito especial. Engraçadíssimo. Ele e Leopoldo nos contavam mil aventuras que tinham vivido, entre elas que em Ribeirão os professores universitários levavam Ruthenford para dar a aula inaugural para os calouros de medicina, e que o Ruthen enrolava os calouros, mandava-os anotarem tudo que ele dizia, e só no final da exposição é que revelava que tudo aquilo não passava de brincadeira. Em 1973 realizávamos a Feira de Artes na Praça Duque de Caxias todos os domingos. Carlos Marx, José Pessoa, Irene e eu a coordenávamos, e era um sucesso. Era ali que Leopoldo expunha seus quadros de entalhe. Todos os domingos a feira ficava lotada. Artistas de São Paulo e de outros municípios também traziam seus trabalhos. Além de artesanato, promovíamos apresentações musicais e para incentivar a participação, entrevistávamos os expositores e publicávamos as matérias em uma página que tínhamos no “Jornal de Osasco” intitulada “Veredas”. Um dos expositores da feira era o José Ranciaro que além de artesão era marceneiro. Leopoldo Lima o convidou para ir até a Vila, e conhecendo seu trabalho, sua garra, convidou-o para morar lá. José Ranciaro aceitou o convite, e a partir dali, a Vila tomou um novo impulso. Ele e sua companheira Elisete, tornaram-se os coordenadores daquele espaço. Ele passou a se chamar Zé da Vila, e ela Baiana. Àquela altura muitos outros artistas passaram a

domingo, 5 de fevereiro de 2023

"A derrota - reflexões desordenadas de uma geração" - João dos Reis

Caros amigos/as Estou retomando minhas memórias a partir do projeto de filme de Heliana/Carlos Henrique sobre Carlos Alberto Soares de Freitas, militante da VAR Palmares, desaparecido político. Envio um texto do livro de Carlos Henrique "A derrota - reflexões desordenadas de uma geração" (2016, edição particular), em que sou citado por ele (página 171), e que ele reflete sobre a condição de exilado - um carioca que esteve no Chile, na Argentina, viveu em São Paulo, e agora, está há anos em Portugal. um abraço João "Leio com admiração os muitos episódios relatados pelo antigo companheiro da VAR de Osasco, João dos Reis, que nos conta as histórias de dezenas de militantes do movimento operário, dos movimentos de base da Igreja progressista, da feroz repressão que levou tantos à prisão, nesta aguerrida cidade operária. João dos Reis é um cronista político e social de sua cidade, de sua família, com tanto para contar. A vida do constante exilado leva-o a ter muitos laços e nenhum. Ele é sempre um pouco estranho ao ambiente, país, cidade onde vive, tantas foram. Por mais que se entrose e até alcance algum protagonismo político ou social, como foi o meu caso em Portugal, somos sempre estrangeiros, como também me sentia em boa parte em São Paulo. São poucos os migrantes que enraízam-se de vez, de corpo e alma, em outras cidades".

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Recordando Felis Penkal, de Araucária/Curitiba - João dos Reis

“Meu coração,É um quarto de espelhos,Que reflete e multiplica, Infinitamente, Uma impressão” Helena Kolody, início do poema “Sensibilidade”. Felis Penkal veio ao meu encontro na Lanchonete Badech em Araucária, PR, com um pacote de feijão – que ele plantou e colheu. Foi um dos presentes que recebi mais inesperados e preciosos.Depois, para retribuir a gentileza do jovem agricultor,4disse que lhe mostraria o mar – que ele ainda não conhecia.Cumpri a promessa: combinamos um dia e fomos até Paranaguá. Almoçamos, passeamos pelo porto, estivemos no Mercado Municipal para comer pastel de camarão. No Iate Clube, realizamos um passeio de barco pela baía: foi a primeira visão dele do oceano Atlântico. Depois, à tarde,4caminhamos pela praia.Nas nossas conversas, perguntava sobre os antepassados poloneses:4se conversavam em casa e se ele entendia a língua do compositor Frederic Chopin. Tinha curiosidade em conhecer a comunidade da Europa Central na região metropolitana de Curitiba4– como eram as festas, as relações de amizade e de parentesco. Com ele aprendi a pronunciar corretamente “pierogi”,um pastel típico da Polônia, que eu descobri na minha temporada no Sul e que gostava bastante.As preocupações de Felis eram com a terra, o clima – a semeadura, a colheita de soja, milho, feijão. As mudanças da estação – verão, outono, inverno, primavera – eram o assunto principal em nossas conversas. Será que choveria? Ou haveria um período de seca? Procurou mudar de ocupação e conseguiu um emprego em uma madeireira; uma única vez o ouvi reclamar: era um trabalho muito pesado – e voltou para a lavoura. Eu o observava, mergulhado em silêncio:4 ele estava feliz?No encontro4de despedida com Felis, ele me trouxe um novo presente: um pacote de pinhão – que ele4e suas irmãs recolheram 4um a um do chão – uma colheita que só é possível depois da queda4da pinha do pinheiro-do-paraná a partir do mês de março.Em minha casa em Cotia, recebi três telefonemas: no réveillon de 2005, a notícia do falecimento do pai de Felis; e depois, a do seu casamento com Magda, e a do nascimento do primeiro filho, Juan Guilherme.Felis vive no sitio da família em Araucária, PR. Conversamos por telefone ou por mensagem de texto:4 como está a vida, os novos desafios do presente,4o trabalho na terra.4Juan Guilherme, o piá paranaense, é o futuro dessa história de amizade e de esperança em dias melhores no Sul do Brasil.“Você nunca vai saberquanto custa uma saudadeo peso agudo no peitode carregar uma cidadepelo lado de dentro”4 Paulo Leminski, inicio do poema “objeto sujeito”.NOTA:- Poema “Sensibilidade”, de Helena Kolody, in “Luz infinita”, Museu-Biblioteca Ucranianos em Curitiba, Curitiba, 1997, edição bilíngue português-ucraniano, p.458;- Poema “objeto sujeito”, de Paulo Leminski

domingo, 3 de abril de 2022

Recordações: o último adeus a minha mãe, Gloria - João dos Reis

Duartina, a cidade onde nasci, foi fundada em 1926; em 14 de junho desse ano, minha mãe chegou ao Brasil, com um ano e oito meses de idade, vinda de Falgueiras/Penhas Juntas, Portugal, junto com os pais Elisa e Marcelino - e a irmã Isaura. Meus avós, tia Isaura e ela, viveram no campo, onde não havia escolas; somente quando vieram para a cidade, minha mãe e tia Isaura foram alfabetizadas. Ela e a irmã trabalharam nas lavouras de algodão desde criança na região de Bauru, e quando vieram para Duartina, se tornaram bordadeiras e costureiras. No quarto da minha mãe há um baú com peças de crochês e bordados - feitas pela avó Elisa (crochês) e pela minha mãe (crochês e bordados). Gostava de cozinhar. Mas desde 2003, quando fraturou o fêmur da perna esquerda, eu assumi o fogão – com ela aprendi as artimanhas da culinária - e outras tarefas domésticas. Lembro dela desde criança no cotidiano da cozinha, ainda de fogão a lenha, preparando o almoço e jantar, bolos, pudins, cremes, sopas, tortas. E os pratos especiais de domingo e dias de festa: macarronada, lombo, frango e pernil assados. Gostava de peixe – e de bacalhoada à moda de Trás-os-Montes, a província portuguesa onde nasceu. E descobri recentemente, para surpresa minha: de feijoada, um prato sempre ausente em casa. Há alguns anos tomava um cálice de vinho do Porto com um pouco de vinho tinto antes do almoço – era um dos seus raros prazeres. E também de almoçar às vezes em restaurante. Tínhamos uma alimentação saudável (frutas, legumes, verduras e, às vezes, carne). Possuía uma memória incrível para recordar fatos, conversas, frases, personagens do passado. Atualmente, realizava algumas tarefas em casa: lavava alguma roupa - e até três meses atrás se encarregava de passar toda a roupa da casa; e, na cozinha, descascar batatas e frutas para a sobremesa, cortar cebola, couve, salsa e cebolinha - e enxugar a louça do almoço e do jantar. Ela tinha boa saúde física e se esforçava para alcançar a tranquilidade da alma: com orações diárias, leitura da Bíblia e textos religiosos. Em 2005 descobrimos que estava com catarata e glaucoma, mas se recuperou com a cirurgia. O problema da retina era irreversível; e fazia acompanhamento regular com oftalmologista. Nunca reclamou do problema da visão, que a impedia de ler a Bíblia, que antes era sua leitura frequente. Tinha micose em algumas unhas, e não conseguimos curar, apesar dos tratamentos constantes. Em 2018 começaram os problemas: pressão alta, colesterol e, em 2021, duas infecções urinárias. Não reclamava de nada, mas há um mês me perguntou se não havia como resolver o problema de incontinência urinária; ela usava absorvente geriátrico desde 2019. Não fazia exercício físico; eu a levava todos os dias no início da manhã para a avenida. Sei que ela gostava da gentileza dos estranhos que passavam e nos cumprimentavam: bom dia! Há três anos, desinteressou-se pela televisão; antes, assistia junto com meu irmão aos jornais do meio dia e das dezenove horas. Eu comentava sempre com ela sobre as novidades da internet, e a mantinha sempre informada sobre a previsão do tempo, as notícias da política, da cidade, de São Paulo, do Brasil, do mundo; e, atualmente, sobre a evolução da pandemia. Desde que meu pai morreu em 1974, assumiu sozinha os cuidados da casa e com o filho Lourival, que lutou desde a adolescência contra uma doença incurável, a esquizofrenia – a doença da solidão porque vive em um mundo estranho, desconhecido e ignorado por todos. Desde maio de 2020, quando meu irmão faleceu, tinha dias em que estava mais calada, triste. Essa tristeza esteve muito presente nos últimos dias: nos olhos cabisbaixos, na ausência de sorrisos. Em vão tentei fazê-la sorrir contando acontecimentos engraçados do nosso cotidiano. Eu até pensei mais de uma vez: parece que ela está renunciando à vida. Eu sabia das dificuldades que enfrentara desde criança no trabalho braçal no campo e com a doença do meu irmão. Às vezes me perguntava: ela era feliz? Não dizia para mim, mas eu sabia que sentia a falta dos parentes do interior de São Paulo – a irmã Anna Rosa e sobrinhos, que visitamos há catorze anos, quando fomos para o velório de tia Adelaide – e eles não puderam vir para o funeral da minha mãe. No início da manhã e no final da tarde, eu a via beijando os porta-retratos da irmã Isaura e do filho Lourival, repetindo o que meu irmão dizia a ela todos os dias, nos mesmos horários: “na paz de Deus. Amém”. Eu trabalho desde os 13 anos, e cursei o antigo ginasial e colegial, e depois a faculdade de Filosofia na USP, porque tinha a colaboração inestimável dela: levantava de madrugada para preparar o almoço e fazer a minha marmita. Fui um leitor voraz de livros, principalmente de literatura - e de ouvir música clássica - desde a infância. E só conseguia a tranquilidade para ler e ouvir música porque a casa estava sempre limpa, a minha roupa lavada e passada, o almoço e o jantar prontos. E, quando ainda eu não havia me aposentado, era ela que ia às compras no supermercado, no açougue, na feira, pagava as contas no banco. Lembro dos anos rebeldes de 1968: a faculdade de Filosofia da rua Maria Antonia foi bombardeada pelo CCC (Comando de Caça aos Comunistas) da Universidade Mackensie; o prédio da USP foi ocupado e passei uma noite em vigília com os estudantes e professores. Ela e o meu irmão passaram também essa noite acordados em casa com o rádio ligado para saber as notícias. Era conhecida por todos pela discrição, pela gentileza e cordialidade nos gestos e nas palavras. Quase sempre calada, introspectiva, como o avô Marcelino e a irmã Isaura – os três foram importantes para a construção da minha personalidade. Não eram de revelar as emoções ou de demonstração efusiva de sentimentos. Com eles aprendi desde criança a descobrir a magia e o segredo das palavras, a não ter medo e compreender a linguagem do silêncio. Não consegui dizer a ela o que meu irmão, prevendo a morte dele (em maio de 2020), disse no início do ano a ela e a mim, pela primeira vez na vida: “mãe, a senhora é a minha melhor amiga”; “João (mãe), eu te amo, e preciso de você (da senhora)”. Minha mãe caiu em casa no dia 9 de março de 2022, fraturou o fêmur da perna direita, foi para o hospital Antonio Giglio, e aguardava a transferência para o Hospital do Servidor Público Estadual, quando teve um “choque séptico e broncoaspiração”, e faleceu no dia 11 às 2.15 horas da madrugada. Falou apenas algumas palavras nos dois dias em que esteve hospitalizada: no primeiro dia, se eu almoçara; no segundo, perguntou se eu dormira; fiz a mesma pergunta e ela me respondeu que não, por causa do barulho. Me pediu água algumas vezes; nos dois almoços e no único jantar no hospital, engoliu apenas algumas colherzinhas de sopa. Na tarde do segundo dia (12), pedi para a técnica de enfermagem da sala fazer a limpeza da minha mãe; ao movimentar o corpo, ela gritou de dor e segurou na roupa da moça; eu retirei a mão dela e disse para segurar na minha – ela apertou com força por um longo tempo. Logo em seguida, veio o chá da tarde, ela tomou uns poucos goles. Fui reclamar para Marcia, a enfermeira chefe, “que ela estava sem se alimentar há dois dias, que tomou pouco soro, que eu não sou médico, mas achava que deveria tomar mais soro”. Chegamos junto dela e, nesse momento, minha mãe não me respondeu e perdeu totalmente a consciência, e foi enviada rapidamente para a emergência e entubada. Alguns minutos depois, que pareceram uma eternidade, o médico clínico veio me avisar que ela “estava em coma, que o estado dela era gravíssimo, e que ela poderia entrar em óbito a qualquer momento”. Eu assisti a sua morte – uma experiência crucial para mim. Pedi, insisti, chorei, implorei aos prantos que a deixasse ver por alguns minutos. Um funcionário do ambulatório de Ortopedia da noite ameaçou de me proibir de continuar na sala de espera. Primeiro, o médico clínico deixou que eu entrasse na sala de emergência; a enfermeira Márcia também permitiu a minha entrada; também Daniele, a funcionária do plantão administrativo, deixou que eu entrasse mais uma vez “por pouco tempo”. Mesmo sabendo que estava inconsciente, falei com ela todas as três vezes, que a amava, que precisava dela, e pedi perdão pelas minhas birras e pelo meu comportamento às vezes errático. Às 19.30 horas, Dr. Pedro Passos Guimarães, do plantão noturno, deixou que eu entrasse novamente na sala de emergência. Entrei, falei com ela e repeti o que havia dito nas vezes anteriores. Dr. Pedro confirmou o diagnóstico: risco eminente de óbito, e que eu deveria ir para casa descansar, que ela seria encaminhada para a UTI. Não havia quase dormido na noite anterior, por isso fui para casa. As 2.30 horas recebi um telefonema do hospital, que deveria comparecer para falar com o médico. Foi uma madrugada solitária e desesperada, e dirigindo pelas ruas desertas da cidade, já sabia que notícia me esperava no hospital. Recebi a informação do óbito pelo Dr. Pedro, e com a funcionária da recepção, também chamada Daniele, fiz o reconhecimento do corpo. Foi o momento mais doloroso da minha vida: “conversar” com minha mãe, dizer mais uma vez que a amava, que me perdoasse por ser tão birrento. O velório e sepultamento foram no mesmo dia (11) no cemitério Santo Antonio em Osasco. Estavam presentes os meus caros amigos: Airton, Rosa, Risomar e Roque, Edna Maria e Erasmo, Juçara, Edna e Cupertino, Marlene, Edna Lazara, e os primos Arlete, padre José Henrique e Marta. A coroa de flores foi enviada pelos professores da Escola Estadual “Vicente Peixoto”, onde trabalhei de 1984 a 1997. No final, antes do fechamento do caixão, o primo-padre José Henrique rezou conosco um rosário. Parece que ela sabia que iria morrer, porque momentos antes de ficar inconsciente, me deu a dentadura dela, “que era para guardar na caixinha” (como ela fazia antes de dormir) – e foram as suas últimas palavras antes de entrar em coma. Eu disse que ela não estava em casa, que estava internada no hospital, e a devolvi a ela. Alguns minutos depois de ser levada para a sala de emergência, a enfermeira chefe me entregou a dentadura da minha mãe. No sepultamento, a urna funerária baixava para a cova, o padre José Henrique rezava conosco um Pai Nosso e uma Ave Maria, eu disse para ela: adeus, minha querida, eu te amo.Descanse em paz. Quando comecei a escrever essa crônica, estranhei a ausência de sons na casa vazia sem a presença da minha mãe. E lembrei que, como ela, tia Isaura o avô Marcelino me ensinaram: tenho que aprender a suportar e aprender com o silêncio. Abri a Bíblia da minha mãe para escolher uma passagem para encerrar a crônica, e foi o Salmo 77.1-2 que surgiu aos meus olhos: “Elevo a Deus a minha voz, e clamo, elevo a Deus a minha voz para que me atenda. No dia da minha angústia procuro o Senhor; erguem-se as minhas mãos durante a noite, e não se cansam; a minha alma recusa consolar-se”. Osasco,18/03/2022

quarta-feira, 9 de março de 2022

Maria da Paixão

Impossível pra mim, pensar em Maria da Paixão morta, ela que era a própria encarnação da vida. Difícil escrever sobre ela depois dos vários e belos textos que postaram aqui, mas tenho doces lembranças dela e penso que os amigos e admiradores dela talvez gostem de saber. A primeira imagem dela me vem da aluna da primeira série ginasial (hoje quinta série do fundamental), no Colégio Estadual de Quitaúna. Era 1968 e em nenhum momento ela me pareceu constrangida por ser alguns anos mais velha e mais crescida que o restante dos alunos. Ela se destacou desde o primeiro momento que entrou na classe. Alegre, sorridente, falou da alegria de estar ali no colégio. Alta, bonita irrequieta, inteligente, participativa, logo se tornou líder no colégio. Com ela era possível contar para apresentações musicais, para peças teatrais, para formar um time de basquete ou um mutirão de limpeza. E sendo líder, arrastava outros alunos para participarem. Em 1970 a prefeitura organizou o segundo festival de música e a comissão organizadora selecionou “Asteroide X”, música de Homero Ricardo, com letra minha. As apresentações aconteciam no teatro do Colégio Misericórdia. Convidei os alunos para irem às apresentações e Paixão não se fez de rogada. Muitos jovens da escola foram com ela que organizou verdadeira torcida pela música. No final, a composição ficou em segundo lugar, e insatisfeitos com o resultado, os jovens fizeram a maior bagunça. Gritavam, pulavam e, por fim, viraram-se de costas para o palco ao mesmo tempo que faziam sinal de negativo e gritavam: “injustiça, injustiça, marmelada, marmelada...” Nem preciso dizer que aquela torcida era liderada por Maria, quem mais se destacava. Os anos passaram, mas ela não ficava muito tempo sem me procurar. Veio me contar quando a selecionaram para “Hair”, para “Gota d’agua”e todas as outras vezes que iria realizar um trabalho importante... Acompanhei grande parte de sua carreira, quando fazia parte das peças de teatro que o Núcleo Expressão apresentava. Aquela aluna rebelde se tornara uma grande cantora, uma grande atriz. Não sei se Mílton Nascimento a conheceu, se a ouviu, se não, é lamentável, porque nunca vi ninguém, nem mesmo o próprio Mílton, cantar Maria , Maria daquele jeito tão forte, tão cheio de vida. Mesmo sem saber, Milton compôs “Maria, Maria” pra Paixão de Jesus. Certa ocasião convidei Maria para almoçar em minha casa. Ela estava muito feliz por ter voltado para Osasco. Vinha pelas mãos de Ana de Hollanda. Queria me ver, dizer o quanto estava feliz. Durante o almoço me contou muitas coisas, de gente famosa que conhecera, de trabalhos de publicidade...e no meio da conversa começou a falar de sua vida sexual. Meu pai muito sem jeito, abaixou a cabeça. Minha mãe arregalou os olhos e ficou com o garfo parado no meio do caminho entre a comida e a boca. Tratei de mudar de assunto e tudo acabou bem. Quando o prefeito inaugurou a Vila dos Artistas ela foi morar lá durante algum tempo. Alma livre, irreverente e verdadeira, certa ocasião provocou a reclamação de uma moradora da comunidade: o Sr. precisa dar um jeito naquela moça grandalhona, que é cantora. Hoje de manhã ela estava nua, nuazinha lavando roupas no tanque. O Sr. sabe, eu tenho crianças pequenas... Essa era Maria da Paixão. Com certeza ela não tinha nenhuma intenção de escandalizar. Apenas via a nudez com naturalidade. Estou desolada, sempre que ouvir Maria Maria vou sentir aquela pontada no peito, a saudade de minha ex-aluna, tão inteligente, tão talentosa e tão amiga, tão querida. Risomar Fasanaro

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Onde estava Maria da Paixão? Risomar Fasanaro

Minha amiga Alfredina me chamou a atenção: -“Não gosto da imagem da Maria da Paixão daquele jeito. Gosto dela mais solta, mais rebelde.” - De que jeito falei de Maria? Falei que ela era rebelde, Dina. Pensei tratar-se do meu texto sobre Maria. Mas aí me dei conta de que havia uma publicidade sobre os sessenta anos de Osasco, que a prefeitura colocou na TV. Procurei o vídeo. Vi-o inteiro mas não encontrei Maria da Paixão. A “senhora” que ali falava dos seus sonhos do futuro era outra. Quem sabe uma pastora evangélica ou a esposa de algum empresário, quem sabe uma professora dos anos 40? Vestido discreto, penteado bem comportado, gestos comedidos. E Maria onde estava? Em qualquer outro lugar, menos ali. Presumo que a intenção do prefeito, quem sabe do secretário da Cultura ou seja lá quem foi da assessoria tenha tido a melhor das intenções, Mas para quem conheceu, ou até mesmo quem a viu apenas uma vez, sabe que ela não era daquele jeito. Isso parece não ter importância, mas demonstra o desconhecimento que o marqueteiro do prefeito tem dos que fazem cultura na cidade. Imaginei num futuro próximo vermos na Globo ou no SBT o Dario Bendas de terno e gravata borboleta falando sobre as maravilhas da cidade. Lembrei-me do professor Mílton Santos no filme “Encontro com Mílton Santos” de Sílvio Tendler usando uma bata de tecido afro. Linda, linda pela estampa, linda por Sílvio e ele terem afirmado nossas raízes africanas. Para administrar uma cidade, especialmente a área da cultura, é preciso conhecer seus habitantes, seus produtores culturais, seus artistas.

sábado, 8 de janeiro de 2022

O CASARÃO DE SANTA TERESA Delicadeza de pássaro. São meus passos dentro da noite. Entro no banheiro, caminho pela sala, passo polo corredor sem acender a luz. O que busco? Procuro o quê? Talvez um pedaço de mim na rachadura da porcelana ou nas pétalas secas de acácia, presas entre as páginas de um livro mil vezes lido. Procuro não incomodar os pássaros, meus iguais, presos nas gaiolas, a esta hora dormindo. Talvez me sinta, eu mesma, engaiolada. Uma mulher noturna caminhando dentro da noite sem esbarrar nos móveis, tocando de leve as paredes de onde a fitam os antepassados, esses presos em molduras antigas. Mas não me assustam, pois não os vejo. E por ser noite sou também manhã quando acendo a cha¬ma do gás e acordo o sol com o cheiro do café. É ele que me aquece o peito e me prepara para as tragédias do jornal que leio toda manhã. E foi hoje, enquanto o lia, que comecei a relembrar minha infância, o que me levou a escrever este livro. Menina, me vejo no casarão antigo de Santa Teresa em que morava a mãe de minha madrinha. Era branco com janelas enormes, pintadas de azul escuro. Subimos, meus pais, irmãos e eu, a enorme escadaria da entrada. Estou sozinha, percorrendo aquela casa com paredes tão altas que eu precisava dobrar a cabeça toda para trás para conseguir ver o teto, todo pintado com guirlandas de flores azuis e rosa bem clarinhos, sobre um fundo branco. Entro em quartos, quartos, quartos, todos mobiliados com camas de casal e camiseiras de madeira escura. Sobre cada camiseira, uma bacia e uma jarra, às vezes de porcelana pintada com flores, às vezes de ágata e algumas de metal. Os quartos davam para um corredor escuro, com piso de tábuas largas, tão enceradas que era quase possível mirar-se nele. Desde a primeira vez, a casa me despertou curi¬osidade. Naquela tarde me vejo sozinha no pequeno jar¬dim de inverno com piso de vidro em duas tonalidades de ver¬de. Sobre ele, vasos de barro tão cobertos de limo que pareci¬am ter brotado das frestas dos vidros e dentro deles, vários pés de hortênsias azuis e rosa. Alguns vasos estavam pendurados e deles pendiam cabelos verdes de samambaias. Uma luz suave passava através do teto, tingindo folhas e flores de violeta, verde, amarelo e rosa. A princípio não en-tendi o porquê daquelas cores. Quando olhei pra cima vi o teto em forma de vitral de onde São Francisco cercado de pássaros se destacava, emudeci. Jamais vira nada igual. Não sei quanto tempo fiquei ali contemplando aquela imagem tão nova. A contemplação só terminou quando vieram me buscar para ir embora. Do que se falou aquela tarde, muito pouco ficou. Lembro-me de fragmentos de frases ditas pela dona da casa, uma mulher muito bonita, com certo ar de mistério. Daquela conversa, o que me pareceu mais importante foi a revelação que fez à minha mãe, sobre o segredo de sua juventude: só banhava o rosto com água que dormisse no sereno. Ao ouvi-la, a imagem do luar mergulhado em uma bacia d‘água me veio à cabeça e achei que o seu mistério vinha daquele pacto com a lua. Trecho do primeiro capítulo de “Eu: primeira pessoa, singular” Editora TM : São Carlos, SP: EDUFSCar,1996 – Risomar Fasanaro

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

A Capelinha de Helena Maria Osasco Risomar Fasanaro Fotos: Roque Aparecido da Silva

_ Fomos hoje Roque e eu visitar a capelinha de Helena Maria. Não se sabe quando ela foi criada, e sobre isso existem algumas lendas. Dizem que ali morreu um padre, outra que um escravo ia passando com um carro de boi quando foi assassinado. A partir de então amigos ou familiares do morto colocaram uma cruz, igual a tantas que encontramos pelas estradas do país. Em data não precisa, alguém construiu um pequeno abrigo para a cruz. E assim, ao longo do tempo, várias " capelinhas" abrigaram a cruz e a população passou a ver aquele local como sagrado e ali ia rezar e acender velas. Hábito que permanece até hoje. Embora a conheça desde adolescente, não sabia que sua última restauração, em 1994, é projeto doado à cidade de Osasco, pelo grande Oscar Niemeyer. Ela tem as curvas e a cor branca de todas as obras dele. É triste ver o que foi feito ali. No interior da capela paredes enegrecidas pelas velas que ali o povo acende, o lixo que toma conta de tudo, cobertor velho, sapatos, garrafas, papéis de todo tipo, piso coberto com a tinta que revela um pintor descuidado... E um Cristo pendurado na cruz testemunha toda essa sujeira, todo esse descaso. A parte externa mostra um “rodapé” também enegrecido pelas velas e seus respingos. Dizem que ali viveu um casal durante algum tempo, e até hoje serve de moradia para moradores de rua. Chegamos ao exagero de ver esta capela pintada de verde e vermelho, desrespeitando completamente o branco característico de Niemeyer. Obra tão importante até hoje não possui uma placa que a identifique e que a valorize por ser assinada pelo gênio da arquitetura. É lamentável constatar o desleixo a que está condenada essa obra de Niemeyer. Mais que desolador é revoltante . O poder público precisa tomar providências e a população do bairro precisa se conscientizar da importância desse monumento histórico. Tomar ciência de que ali não é lixeira, é obra criada por um gênio. Dos maiores arquitetos do mundo. O patrimônio da cidade precisa ser valorizado. Já sofremos muitas perdas, esperamos que a secretaria da Cultura não deixe mais esse monumento desaparecer...

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Minha poesia - Risomar FAsanaro

minha poesia tem cheiro de alecrim paredes de barro e pilão da casa de cosma minha poesia tem cheiro do ingá debruçado sobre o rio tem o som das cantigas que as lavadeiras cantavam batendo roupas nas pedras do rio jaboatão mais bonito que o tejo que pessoa cantou um sabiá cantava e cigarras paravam minha mãe batia bolo e a neve das claras formavam nuvens onde eu sonhava o cheiro de terra vermelha m mimaguas d seguem o curso de minha vida recife 2015

Quarentena Risomar Fasanaro

(Para Cira Cohenca e Vera Pontieri, com carinho) São duas amigas: Vera e Cira. Vera é cientista e está sempre lendo livros sobre ciências e esses dias comentando o que estava lendo, Cira se interessou pelo livro “Da Natureza”, em que a autora escreve sobre a vida de Humboldt e suas peripécias pelo mundo afora. Vera emprestou a obra à amiga. Cira é de família judaica, e todos são leitores compulsivos e, sabemos, o judeu é conhecido como “o povo do livro”. Muito feliz, Cira levou o livro e começou a lê-lo. E dali em dicante falou, falou, falou sobre a vida de Humboldt e de todas suas peripécias. Falou tanto que a família inteira queria ler aquela história tão fantástica. Para quem não sabe, a vida de Humboldt supera em muito a do personagem de “On the Road” (Pé na estrada) de Jack Kerouac. Apaixonante é o mínimo que se pode dizer dela. Mas, como toda delícia traz um pouco de sofrimento, o livro tem mais de 600 páginas. O filho de Cira, Dani, amante da natureza e das viagens tirara um ano sabático, e àquela altura estava saindo do Panamá em direção ao México num trailer que ele alugou para viajar pelo mundo... Nas mensagens via watsap Cira contava algumas passagens da obra para o filho. Não deu outra:Dani também queria ler o livro que, não se esqueçam, pertencia à Vera. A sobrinha que mora com Cira, também queria ler. Chiii...iria demorar muito para ela terminar de ler aquele volume. Mas Cira, inteligentíssima, pensou numa solução: serrou o livro e dividiu-o em três partes: assim que terminou de ler a primeira parte, passou- a para a sobrinha, e esta assim que a leu, enviou-a pelo correio para o primo que estava no México. A essa altura Cira já estava lendo a terceira parte. Passou a segunda para a sobrinha que se comprometeu a enviá-la ao primo. Só havia um problema: como dizer à Vera, dona daquele exemplar, que o livro se multiplicara em três? Cira me liga e pede socorro: estava procurando o livro em várias livrarias e não o encontrava. Será que eu acharia em alguma das livrarias de Osasco? Respondo que aqui, para desespero meu e da torcida do Corinthians , só existe uma livraria: a Saraiva, no Supershopping, todas as outras tinham fechado havia muitos anos. Vamos tentar, se tivermos sorte... Cira vem e vamos juntas à Saraiva. Depois de muito procurar, sim, lá havia dois exemplares. Compramos, ela devolveu o livro à Vera, mandou encadernar o que fora “estripado” e todos foram felizes para sempre durante a pandemia...

Júlia Lopes de Almeida, derrubando muralhas

Júlia Lopes de Almeida é o nome de uma escola, que fica no bairro de Rochdale, Osasco. Confesso que nunca li nenhum livro da escritora, apenas alguns textos nos manuais escolares. Tenho um amigo que sempre me presenteia com o jornal literário “Rascunhos”, de Curitiba, Paraná, e ontem, lendo um exemplar desse jornal, encontrei em Conversas Flutuantes, alguns dados sobre Júlia Lopes que me chamaram a atenção. Senti o tempo que perdi sem conhecê-la. Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida nasceu em 24 de setembro de 1862, no Rio de Janeiro. Além de romances escreveu crônicas, poemas, artigos para jornais, peças teatrais e foi ela a primeira escritora a publicar livros infantis no Brasil. Bem antes de Monteiro Lobato, Júlia e sua irmã Adeelina Lopes Vieira publicaram “Contos Infantis” em 1886, enquanto Lobato só veio a publicar sua primeira obra “A Menina do nariz arrebitado” em 1921. Júlia Lopes foi uma desbravadora das muralhas que toda mulher enfrenta na vida. Feminista, defendia em seus artigos a independência feminina, o divórcio, a abolição da escravatura e a República. Isso em uma época mais conservadora preconceituosa e machista ainda que a de hoje. Corajosa, ela abordou em suas obras o aborto, o estupro, e a falta de liberdade das mulheres. Foi a única mulher entre os organizadores da ABL- Academia Brasileira de Letras, mas não pode ocupar uma de suas cadeiras, porque seus colegas escritores não permitiram; como “prêmio de consolação” foi seu marido, o escritor português Filinto de Almeida, cujo talento nunca alcançou o da mulher, que ocupou a cadeira número 3 na ABL. Ela era demais para a sociedade em que viveu, por isso não recebeu apoio de nenhum de seus colegas. A injustiça praticada contra ela passou em branco. Grandes nomes da literatura: Arthur Azevedo, Machado de Assis, Olavo Bilac, Inglês de Sousa, João Ribeiro eram seus amigos, mas nenhum deles elevou a voz para defender sua entrada na ABL. Esta injustiça mancha a história da academia. Só em 2017 a academia reconheceu e se desculpou da injustiça que cometeu. Em seus romances a autora considerada realista com traços de naturalismo e por alguns denominada gótica. Extensa é a obra desta escritora que foi a autora que teve seus livros entre os mais vendidos em sua época. Destacamos: A Falência, romance, Ânsia Eterna, contos, A Isca e vários outros. Coerente com o que defendia, Júlia Lopes quando já não se interessava mais pelo marido, separou-se. No regresso de uma viagem à África, Júlia ficou doente de malária e faleceu em 30 de maio de 1934 no Rio de Janeiro. Risomar Fasanaro Bibliografia: “Rascunhos número 247 Google, Wikpédia, Youtube.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Homenagem a Albertino Oliva - João dos Reis



Estávamos reunidos no inicio dos anos 70. O grupo da FNT (Frente Nacional do Trabalho) de Osasco - José Groff, Valdomiro Martins da Silva (Dudu), Alberto Abib Andery, Maria Santina, Luis Amaral, Odim Jiorjon, Antonio Vieira de Barros, Maria de Lourdes Vieira Brengel, e outros militantes - foi informado: Albertino Souza Oliva foi preso – nós e a família dele não sabíamos o local onde ele estava e o motivo do desaparecimento. A angústia e a dor da noticia impediam que tomássemos uma decisão: o que fazer?
Depois, ficamos sabemos que ele ficou uma semana detido, incomunicável, no quartel da Policia Militar da Avenida Tiradentes. Nunca houve uma acusação formal a ele na Justiça.
Foram momentos como esse que os que engajaram no movimento operário viveram os anos de repressão durante a ditadura militar. Albertino trabalhou de 1945 a 1962 no Departamento Pessoal da Cobrasma em Osasco. Houve um “ressurgimento espiritual”, como ele o denomina, e passa a frequentar a Igreja Católica. Conhece o metalúrgico João Batista Cândido e participa do movimento sindical na fábrica. Junto com outros trabalhadores, criam a Comissão de Fábrica – que foi um acontecimento histórico na luta por melhores salários e condições de trabalho.
Albertino recordou durante o seu depoimento em outubro de 2014 na Câmara Municipal: a direção da fábrica descobriu o engajamento dele, e foi transferido para a sede da empresa; depois ele decidiu pedir demissão. Foi um período de transição na vida do advogado que nasceu em Casa Branca, SP, e que cursou Direito na USP. Tinha a desconfiança dos trabalhadores: havia participado do quadro repressivo da empresa: a lista dos candidatos a emprego era enviada antes para o Dops. E tinha a recusa da direção patronal em ter um funcionário comprometido com a luta por uma nova sociedade. “Foi um momento difícil: traiu a confiança dos patrões e não tinha a confiança dos trabalhadores”.
A conversão às ideias do Padre Louis-Joseph Lebret (“Principios para a ação”), o compromisso com a nova Igreja que surgia, o conduziram à Frente Nacional do Trabalho, uma organização não governamental fundada por Mario Carvalho de Jesus depois da greve dos trabalhadores de Perus em 1962. Foi essa militância que o levou outras vezes a ser detido pelos militares. Sua participação na criação da Cooperativa dos Trabalhadores da Cobrasma (depois, Coopergran), na instalação dos cursos profissionalizantes no Senai em Osasco, foi o inicio de uma longa trajetória junto com os trabalhadores.
Participei das reuniões e atividades na FNT de Osasco. Quando os trabalhadores abriam uma ação trabalhista, eram convidados a participar de uma palestra: eu fazia a abertura, falava da importância da participação sindical e politica; depois, Albertino explicava os meandros jurídicos de um processo. Foram anos em que tive contato frequente com a realidade da opressão patronal e do desrespeito aos direitos trabalhistas.
Com os ventos da democracia no inicio dos anos 80, participei de um projeto de educação popular da FNT, com ajuda financeira de uma organização não governamental da Bélgica. Fui contratado para colocar em prática o programa de debates, palestras e grupos de estudo em Osasco e na periferia da Região Metropolitana Oeste de São Paulo. E eu o acompanhei nos encontros com os trabalhadores dos bairros das cidades de Carapicuiba (Comunidade Kolping da Vila Dirce e Cohab, e Igreja N.S.Aparecida) e Jandira (comunidade da Vila Analândia).
Nos anos 60, houve um acidente muito grande no forno da Cobrasma, e um operário acabou morrendo. Foi combinado que no enterro a fábrica tocaria o apito. Foi um dos primeiros protestos dos operários osasquenses por respeito, garantia à vida e à dignidade. Albertino recusou entregar os nomes dos que organizaram a manifestação. No final dos anos 70, a participação na criação do Centro de Defesa de Direitos Humanos de Osasco – foram dois momentos de uma longa história de compromisso com os trabalhadores da cidade proletária.
Albertino Souza Oliva foi o primeiro coordenador da Comissão da Verdade de Osasco até inicio de 2015. Com 88 anos, apresentou o seu testemunho: de que é preciso combater as injustiças, ”não ter complacência com o erro, nunca com a violência”.

domingo, 27 de outubro de 2019

Encontros inesperados na grande metrópole - João dos Reis





Nos outros eu sei onde se abriga o coração.

É no peito _ todos sabem disso.

Comigo

a anatomia ficou louca.

Eu sou todo coração

_ ele bate em todo o corpo.

Vladimir Maiakóvski



Em 2005 parti de Curitiba para São Paulo, e encontrei a cordialidade em uma livraria e em uma sala de cinema na cidade. E discordei de que “não existe amor em São Paulo”.

Encomendei um livro com o jovem atendente da Livraria Saraiva do Shopping Eldorado; no dia em que fui buscá-lo, esqueci o contracheque para confirmar o desconto para professores. E, para minha surpresa, ele me abraçou, e disse: que era para o chefe pensar que eu era seu tio - e então não teria problema para dar o desconto.

Estava sozinho na sala do cine Belas Artes na rua da Consolação em São Paulo em uma tarde de sexta feira. E, antes da sessão começar, o lanterninha se aproximou e perguntou se o ar condicionado estava bom, se não estava com temperatura baixa – uma amabilidade para não esquecer .

Mudamos de casa duas vezes em dez meses – em agosto de 2018 de Vargem Grande Paulista para Osasco, e em junho de 2019, para um apartamento em um outro bairro da cidade. Foi um período atribulado; relembramos, eu e minha mãe, os momentos em que encontramos amigos próximos ou anônimos que deixaram marcas na memória.

Reinaldo, Antonio, Lucas, Zaqueu, Joaquim e Fernando foram os trabalhadores-amigos que nos socorreram nas casas das ruas Campinas e Milão na região de Cotia. Eles sempre foram solícitos e prestativos para solucionar os inúmeros problemas de reformas e consertos em eletricidade, encanamento, telhado - e os ouvintes pacientes das nossas desventuras. Despedi-me de Joaquim e Fernando, agradecendo a colaboração inestimável; não consegui me despedir dos outros – Antonio e Reinaldo faleceram há alguns anos.

Na oficina mecânica, pedi a Anderson, no bairro Tijuco Preto, onde morava, para fazer uma revisão geral no carro antes da mudança para Osasco. E, quando fui buscá-lo, ele me disse que estava em bom estado, sem necessidade de nenhum conserto. Fui me despedir dele - e, no dia seguinte, também de Mario da oficina do Jardim dos Ipês - e levei uma garrafa de vinho. E falei do cartaz-propaganda dos anos 80 - duas mãos estendidas, uma delas suja de graxa: “(o mecânico) é o melhor amigo do seu carro – e não pode cumprimentá-lo”. Disse que o mecânico não é apenas o melhor amigo do meu carro, mas é também o meu melhor amigo - e que não esquecerei deles.

Ângela, a vizinha da casa que alugamos na rua Itápolis, Vila Osasco, deu a minha mãe um buquê de rosa. Foi um presente inesquecível de boas vindas para nós, que estávamos cansados com tantos transtornos nas casas anteriores na região de Cotia. E preocupados com o futuro.

No domingo seguinte da última mudança, para o Jardim Santo Antonio, ao entrar na Avenida Nova Granada, houve uma pequena colisão lateral com outro veículo. Desci do carro, cumprimentei o motorista, pedi desculpas a ele e à moça que o acompanhava, dei meu telefone para entrar em contato. Uma hora depois, Alexandre, o motorista do carro, me ligou e disse que não tinha sido nada, para não me preocupar. Quando enviei depois uma mensagem pelo celular, agradecendo mais uma vez a gentileza dele, ele me respondeu “que podia contar com um amigo”.

Comuniquei Simone, do bairro Jardim dos Ipês em Cotia, onde moramos sete anos, o nosso novo endereço. Nos finais de anos, sempre dou um presentinho para ela – uma rosa, um pano de prato -, uma pequena retribuição aos quase dez anos em que ela cortou o cabelo da minha mãe e irmão, e nunca quis receber pelo seu trabalho

Perguntei ao jovem vendedor da Kar Latas na rua Primitiva Vianco, 922: um para-sol para cobrir o para-brisa de carro - e não havia na loja. Vi em uma mesinha um moedor manual de grão de café que usávamos em casa na minha infância. Perguntei se era para fazer café, e ele me disse se eu queria – e moeu os grãos, preparou o café e me serviu em uma xícara de porcelana..

Fernando, Letícia e os filhos Felipe, Gabriel e Elza ofereceram na casa deles uma feijoada em agosto para comemorar a visita de Ricardo e Silda, ex-aluna de Filosofia na escola estadual Vicente Peixoto em Osasco – eles vivem em Brasília há 23 anos. Ela me telefonou, me convidou para a confraternização – um dia carregado de afeto e saudades.

Pedi um strudel no Restaurante Juca Alemão no Shopping Continental em Osasco; e na hora de pagar, o garçon me disse que era uma cortesia do proprietário. Dois anos antes, conversei com ele, que é de Blumenau, em Santa Catarina, mas foi uma conversa rápida: é a cidade que mais gostei na minha temporada no Sul do Brasil.

Caio e Olga, ex-aluna em 1973 de Cultura Contemporânea na escola estadual Capitão Delolindo de Oliveira Santos, em Ubatuba, me convidaram em outubro para almoçar na casa deles em São Paulo: com a colaboração de Raquel, prepararam uma moqueca de peixe. Foi um reencontro depois de décadas em que estivemos incomunicáveis na grande metrópole. E trouxe um presente para minha mãe: uma porção do prato do dia.

Fui ao Tocco, depósito de material de construção, na Avenida Antonio C.Costa, 1240, e na saída, havia pipoca e café de cortesia. Conversei com o jovem vendedor, disse que há muitos anos não a preparávamos em minha casa, e ele me disse que poderia levar uma porção para minha mãe – e foi um presente surpreendente para ela.

Meu irmão estava com problema de mobilidade, e o fisioterapeuta Ari, ex-aluno nos anos 80 na escola estadual “Vicente Peixoto”, esteve em casa, trouxe um andador, convenceu-o a usá-lo – e não quis cobrar pela visita e pelo empréstimo do aparelho. Depois, por telefone, me disse que ele é que está grato pelas minhas aulas de Filosofia no curso colegial.

Na solidão da grande metrópole, foram encontros em que descobrimos nos pequenos gestos de gentileza momentos felizes. Os personagens, muitas vezes desconhecidos e inesperados da aventura cotidiana, reforçaram a crença de que a construção de uma amizade, a descoberta de um sentimento pode tornar o mundo mais solidário.



NOTA

O poema de Vladimir Maiakóvski, está na página 169 de “Maiakóvski, vida e obra”, Fernando Peixoto, José Alvaro Editor, Rio de Janeiro, publicado nos anos 70 (provavelmente 1974), 316 pp


sábado, 12 de outubro de 2019

Crônicas de Segunda - livro de Cacá Mendes- Risomar Fasanaro




Cacá Mendes , poeta responsável pelo Sarau dos Conversadores que alguns anos acontece em SP, nos pega pela mão, ou pelos olhos? E nos leva a verdadeira peregrinação pelos becos e ruas de SP e outros lugares aos distraídos, que andam pela vida sem ver, sem sentir o mundo, toda a poesia que ele descobre e, generosamente, divide conosco.
E nessa viagem cada pessoa, cada lugar lhe traz à lembrança outros lugares, outras pessoas.É o circo que traz de volta a infância, no interior mineiro, quando viu/ouviu pela vez primeira vez, a dupla Tonico e Tinoco ; ora é o artista de rua que o faz comparar aquele sujeito simples com o grande Hermeto Paschoal. Ou seria Sivuca?
Cacá tem um jeito muito peculiar de escrever que o distingue de todos os outras cronistas que conheço. Talvez seja preciso ler e reler seus textos para apreender toda beleza que neles existe.
Destacaria A cidade das torres, Berê e Benê, Um anjo no hotel, A última parada, e paro por aqui porque senão destaco todas as crônicas. Verdadeiros poemas tirados da poeira das ruas, do cheiro de álcool dos bares da vida, da aridez do cotidiano.
Enfim, Crônicas de segunda poderia bem se chamar Poemas de primeira.

Risomar Fasanaro


Pedidos pelo site WWW.desconcertoseditora.com.br

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

O último adeus: meu avô Marcelino Matheus Ferro



Há palavras lança-chamas / Conheço algumas que nos fazem viver,/ por não serem simples som / mas estradas incendiadas por dentro, / duplos corações batendo com o calor / da certeza do dia que se segue. /(...) Quebrando o meu silêncio, / povoo alguns espaços de alegria. / (...) Nas palavras me encontro. / Cansado, quase morto ,à espera, / sempre à espera. Nas palavras vivo, / denuncio ou ataco. Há um grande sol / à nossa espera. Quantos somos?”
Trecho do poema “Algumas palavras”, de Eduardo Guerra Carneiro

Estou sozinho na estação de Duartina à espera do trem para São Paulo. Meu avô Marcelino Matheus Ferro não me acompanha: teve um acidente vascular cerebral e está acamado. Despedi-me dele em silêncio – e foi a última vez que o vi. Foi a imagem mais triste que ficou das minhas férias na minha cidade natal do interior paulista.
Todos os anos ia visitá-lo – era um período de descanso da rotina de trabalho e estudo - e uma volta ao passado familiar. Minha avó Elisa de Jesus Ferro sempre me esperava com meus pratos preferidos: bacalhau à moda de Trás-os-Montes ou lombo assado – e a sobremesa de manjar de côco com ameixas.
Como eram as nossas conversas? Antes de vir para o Brasil, eram agricultores – plantação de vinha, oliveira, figueira -, e do pastoreio de carneiros. Meu avô era de um mutismo absoluto; com ele, nascido nas montanhas do Norte de Portugal, aprendi o segredo das palavras: elas têm uma magia que cabe a nós descobrir a cada vez que precisamos usá-las.
Procurava saber como foi a travessia do Atlântico em 1926 na viagem de aventura para a América. Que sonhos eles carregavam, deixando os pais e familiares? Era um piá – e mesmo quando adolescente e na juventude, perguntava a eles: o que esperavam do Novo Mundo? Tia Isaura era a correspondente epistolar da família espalhada pelo nosso planeta. Ela me entregava para ler as cartas dos que viviam em Angola, França e EUA – a saga dos portugueses que partiram para um novo país, um novo continente. Em uma delas, e que comentei com meu avô, falava da forte nevasca nas aldeias de Penhas Juntas e Falgueiras na província de Trás-os-Montes, que impediu que os moradores saíssem de casa por vários dias.
Como era o nosso diálogo? Lia para eles as cartas que vinham de Portugal – e que falavam do trabalho com a terra, a neve de dezembro, o cotidiano na aldeia. Na foto, a tia-avó Piedade, octagenária, de cabelos brancos, olhando-nos - e eu me perguntava: ela estava feliz, solitária, sob os cuidados de dois sobrinhos solteiros que permaneceram em Trás-os-Montes? Nas imagens, eles apareciam em frente a uma casa construída com pedras: como eles enfrentavam o frio e o vento do inverno? Essa volta às origens esteve marcada pelas orações, realizadas pela minha avó Elisa de Jesus Ferro. Era uma reverência aos nossos mortos – e que mereciam as nossas preces. Acompanhei-a em muitas tardes ao cemitério da cidade, e diante do túmulo da familia, roguei por eles – pedindo a misericórdia divina, o descanso e a paz eterna.
No álbum de fotografias, revisitava os nossos familiares - era um retorno à história da imigração europeia para a América. Ouvia os relatos da longa travessia do Atlântico de navio, das dificuldades dos primeiros anos, do trabalho no campo. A ligação com a terra brasileira surgia logo que eu chegava de viagem: a avó Elisa me pedia que fosse ver a horta e o jardim - em que ela cultivava, com orgulho, roseiras, lírios (copos-de-leite), palmas-de-santa-rita, tomates, couve, almeirão, e onde havia uma parreira, limoeiros e figueiras
Nas manhãs em que minha avó Elisa preparava o forno a lenha para o pão e o almoço com os meus pratos preferidos – lombo assado ou bacalhau à moda transmontana – conversávamos sobre o passado – e conheci a saga dos Negrini, contada por ela, que foi amiga da minha avó Pasqualina. Todos vieram para o Brasil em busca do sonho americano, e eu procurava me reencontrar nessas esperanças de uma vida melhor. Foram anos em que refleti sobre o que o destino me reservava. Foi uma aventura às vezes inglória e desesperada, a de saber qual é o mundo que tanto sonhamos para viver e ser felizes.
Meu avô me presenteou com a bíblia do século XIX que ele ganhou do meu bisavô. Outra recordação é uma pedra: ele a usava como apoio aos papéis de embrulho. É ela a presença mais visível dele e da nossa convivência mergulhada em silêncio – que descobri mais tarde tinha sido muito feliz.
Guardei o registro de identidade do avô Marcelino – e os entreguei para meus primos Miro, Cidinha e Gustavo, que também ficaram com a bíblia e o álbum de fotografias. A estação da estrada de ferro da cidade foi demolida. A parreira, os limoeiros e as figueiras não existem mais. Não há mais documentos da história dos imigrantes - apenas as imagens e as recordações na minha memória.
Era sempre meu avô Marcelino que me acompanhava à estação de trem – e eu me despedia beijando a sua mão– e o fiz desde criança. Lembro que depois o abraçava e agradecia a garrafa de vinho que ele abrira para comemorar a minha visita.
Estava lecionando no Litoral Norte de São Paulo, e tinha vindo visitar minha mãe em Osasco – não soube que, no domingo , dois de março de 1975, em que retornava ao litoral, ele faleceu. Não havia telefone onde morava, e só fui informado na manhã de 3ª feira pela diretora da escola onde trabalhava em Caraguatatuba. À tarde procurei a solidão da praia deserta para o meu último adeus.

NOTA – O poema “Algumas palavras”, de Eduardo Guerra Carneiro, in “Antologia da poesia portuguesa contemporânea – um panorama”, org. de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Editora Lacerda, Rio de Janeiro, 1999,pp. 371/372.













domingo, 15 de setembro de 2019

Reflexões sobre o livro "Polenta com a mão no bolso"- João dos Reis


Reflexões sobre o livro “Polenta com a mão no bolso”, de Risomar Fasanaro
Vi arriva il poeta
e poi torna alla luce con i suoi canti
e li disperde

Di questa poesia
mi resta
quel nulla
d’inesauribile segretto.
Il Porto Sepolto - Giuseppe Ungaretti

Risomar Fasanaro apresentou na tarde de 17 de agosto “Polenta com a mão no bolso” (Desconcertos Editora, São Paulo, 2018) na biblioteca “Monteiro Lobato” em Osasco. E foi para mim uma enxurrada de lembranças e emoções da história da imigração italiana no Brasil no final do século dezenove e início do século vinte.
Francisco emigra com 14 anos para a América não em busca de fortuna ou para possuir um pedaço de terra, mas uma saída para a crise no campo na Itália. A partida do porto na Itália, a chegada a Santos, a Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo, o trabalho na fazenda de café do interior paulista, a fuga para a capital paulista, depois Osasco, e o porto de chegada: Recife. As recordações do personagem se desenrolam ao longo do livro, intercaladas com as narrativas da família: o casamento com Rafaella, os filhos e netos.
A leitura do romance da escritora trouxe de volta as recordações da minha família de imigrantes portugueses e italianos. Nos anos 80 busquei nos livros de História a saga desses aventureiros para compreender a minha própria história.
Francisco recorda as condições de trabalho no campo na Itália; e o que sempre me impressionou foram as dificuldades do cultivo do trigo, da uva, e principalmente da colheita do linho. E a descoberta de que a alimentação era basicamente de polenta e pão de milho – a farinha de trigo, o macarrão, a carne eram raros na mesa dos camponeses.
No Brasil, a situação dos trabalhadores não era muito diferente. Os imigrantes substituíram o trabalho escravo, e estiveram submetidos ao processo de exploração capitalista no campo: descumprimento dos contratos de trabalho, ausência de leis trabalhistas, falta de escolas e assistência médica e em caso de acidentes, emprego de mulheres e crianças, violências físicas e morais – espancamentos, perseguições, estupros, assassinatos.
Essas são também as recordações de Francisco: esteve nas lavouras de café do interior paulista, e depois de um protesto e greve, fugiu para a capital com o amigo Guido. Participou do movimento operário anarquista e da greve dos vidreiros em 1909, se apaixonou por Julia, um amor impossível. E chegou finalmente a Recife.
Eu sempre me perguntei: houve resistência dos imigrantes? Quais foram suas reivindicações? Risomar Fasanaro retoma essas questões por seu personagem. Não era apenas um movimento reivindicatório; havia reuniões, conferências, sessões de leitura e debates, circulação de livros e revistas, comícios, passeatas; criaram centros operários, bibliotecas, cursos noturnos de alfabetização – defendiam uma cultura proletária, uma nova sociedade. Os trabalhadores-imigrantes eram anarquistas e socialistas; tinham em comum o sindicalismo revolucionário. Por isso foram considerados agitadores, subversivos, e muitos foram deportados e expulsos do Brasil.
A diáspora italiana entre 1861 e 1920 apresente números surpreendentes: 17 milhões saíram do país em busca de trabalho; eram em geral “braccianti”, trabalhadores rurais temporários ou por contrato anual; ou famílias de meeiros, arrendatários pequenos proprietários – fugiam do processo de proletarização do campo.
“Polenta com a mão no bolso” é uma retomada da resistência dos imigrantes italianos em São Paulo e em Osasco, em que a Literatura enriquece a visão histórica com as emoções de um personagem que descobriu a fascinação das palavras. Para Julio Cortázar o romance deve ser um ato de consciência, como autoanálise, e provocar a reflexão sobre nosso destino.
Risomar Fasanaro nasceu em Recife e veio ainda criança para Osasco. Participou do grupo cultural Veredas, da Vila dos Artistas – foi uma agitadora da cultura nos anos de silêncio e medo da ditadura militar. Cursou Letras na USP; foi professora de Língua e Literatura na rede estadual de ensino de São Paulo. Escreveu poesia e crônicas para jornais da cidade. Publicou “Casa grande e sem sala”, dos anos 70; “Eu, primeira pessoa, singular” (romance); “O reencontro” (contos): e “Recinfância “ (poesia).

NOTA
I - Os livros que busquei há anos para conhecer a história da imigração italiana no Brasil foram:

1. “Brava gente – os italianos em São Paulo – 1870-1920”, Zuleika M.F.Alvim, Editora Brasiliense, São Paulo, 1986, 1ª edição, 190 pp.;
2. “Imprensa operária no Brasil - 1880-1920”, Maria Nazareth Ferreira, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 1978, 164 pp.;
3 “Raízes do movimento operário em Osasco”, Helena Pignatari Werner, Cortez Editora, São Paulo, 1981, 152 pp.;
4.“A classe operária no Brasil – Documentos (1889-1930”, volume I – O movimento operário, Paulo Sergio Pinheiro e Michael M. Hall, Editora Alfa Omega, São Paulo, 1979, 320 pp.
II – Minha tradução do poema ”O porto sepulto”, de Giuseppe Ungaretti, página 41, “Poesie”, Grandi Tascabili Economici Newton, Roma,1992, 224 pp.
Eis que chega o poeta
e depois retorna à luz com os seus cantos
e os espalha

Desta poesia
me resta
aquele nada
de inesgotável segredo.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Polenta com a mão no Bolso - Cupertino dos Santos


, Recebi do meu amigo Cupertino Santos, o Cuper, um belo comentário sobre meu livro "Polenta com a mão no bolso". A vaidade me impede de não divulgar o comentário, não só por vir de um amigo que estimo muito, mas também porque considero que ele interpretou muito bem o livro. Aí vai, para vocês, o que Cuper escreveu:

"Li o seu livro, um romance que combina vários elementos num formato de novela, como me pareceu: a saga de uma família com uma narrativa ora em terceira pessoa, ora em primeira, que se desenrola em duas épocas, ambas no passado, uma mais próxima e outra mais remota, primordial mo drama que se inicia na Itália, mas prossegue com a mesma intensidade no Brasil.
Em resumo, achei que você dispõe de muita informação histórica sobre a vida do Imigrante e da situação sócio-política da época do início da República, a ponto de conseguir recompor com realismo e emoção a história do sofrido personagem Francisco.
Consegue também manter um "suspense" no caso do desaparecimento da personagem Olga, cuja resolução chega quase ao final do livro.
Toda a trama ressalta a vida e os valores de uma família de trabalhadores; uma Ética de dignidade a perpassa, passando ao leitor uma lição de luta, amor e esperança."

Polenta com a mão no bolso é uma publicação da Editora Desconcertos, SP 2019.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Crônica de um reencontro com Silda em Osasco - João dos Reis





Atendi o telefone na quarta feira – e Silda me convidou, e também Airton Cerqueira Leite, professor de Geografia, para uma feijoada na casa do Fernando no sábado, 24 de agosto. Foi um dia feliz depois de mais de duas décadas em que não nos encontramos ou conversamos.

Fernando Gimenes e Leticia, os filhos Gabriel, Felipe e Elza, e demais convidados, entre eles, Tom, Brando, Renata, Adilson, Sérgio, Rose, Marcia, Jair, Zé – ex-alunos da escola estadual “Vicente Peixoto” em Osasco - , estavam à nossa espera. Já havíamos participado de um almoço em julho de 2017 - e o cozinheiro foi Rogerio Gimenes. Foi uma alegria renovada reencontrar todos eles.

Silda Meire Dandalo Diniz terminou o segundo grau, mudou para São José dos Campos; estudou Psicologia, casou com Ricardo Valenza Diniz, e mudou para Brasília, onde mora há vinte e três anos. A distância no tempo e no espaço não apagaram as lembranças e a amizade entre o professor de Filosofia e a querida aluna.

Nos anos em que foram estudantes na escola, Sidnei e Silda me esperavam para a carona de volta para casa. Era um momento mais descontraído, depois das aulas do período noturno. Nas sextas feiras, nós e um grupo de alunos, frequentamos um bar na Avenida Dionysia Alves Barreto, e depois, a lanchonete Hortelã na Praça Duque de Caxias.

Sobre o que conversava com os jovens durante esses anos de convivência? Quais eram nossos sonhos? O que esperávamos para o futuro? E como foi o encontro nesse dia gelado do inverno de 2019 em Osasco?

Durante o almoço, eu e Airton ouvimos de vários dos presentes, palavras de reconhecimento e gratidão pelo nosso trabalho na escola. Não foi em vão a nossa crença de que é possível uma educação crítica, mas não distante do companheirismo entre educador e aprendiz.

Com Fernando e Letícia conversamos sobre o aprendizado constante de cozinhar, o cardápio do dia, o trabalho deles em instituições financeiras (ele, no Bradesco; ela, no Banco do Brasil), as novas regras da aposentadoria, a preocupação com alimentação e saúde, a reforma da casa dos fundos onde a mãe viveu. Lembrei várias vezes daqueles que estavam ausentes nesse almoço, mas permaneci em silêncio: Rogério – ele faleceu em novembro, a mãe em dezembro de 2018. Enfim, foi um diálogo com os anfitriões em que aprendi a ouvir.

Com as irmãs Meneghini, Marcia e Rose, conversamos sobre o trabalho delas em um banco e em uma empresa, minha experiência de contador de histórias para crianças em Curitiba, e sobre Osasco, que deixou de ser industrial – e a novidade para mim, que estive fora por vinte anos: a verticalização da cidade. Airton falou da participação dele em ONGs em São Paulo.

Com Ricardo, o marido de Silda, conversamos sobre a sua cidade natal, Brasília. Ele, que é engenheiro e trabalha nos Correios, analisou os riscos e acertos de uma provável privatização dessa instituição. Na tela do seu celular, nos mostrou o plano piloto e as trinta e sete cidades satélites. Foi uma visão nova para nós: conhecer a capital do Brasil por quem nasceu e vive nela.

Com Silda, conversamos sobre o trabalho dela como psicóloga e as novas teorias e práticas psicoterapêuticas, a temporada de dois anos no Rio de Janeiro. E recordei o passado que, refirmamos, não está perdido nos labirintos da memória e do esquecimento.

Disse a ela que reconheço hoje a confiança dos seus pais em permitir a sua ida nas noites de boemia das sextas feiras – e ela confirmou que eles autorizavam porque eu estava presente. Contei de um acampamento na Praia Dura no final de 1973 com os alunos do terceiro ano colegial da escola estadual “Capitão Deolindo de Oliveira Santos” em Ubatuba – e que os pais concordaram com a ida das meninas porque tinham a minha companhia.

Um tema que eu e Silda abordamos: somos nômades, eu e ela vivemos em várias cidades brasileiras. E não disse a ela: procurar um lugar para viver é onde não estaremos de passagem, e finalmente encontramos a beleza do mundo, o sentimento de viver juntos, compartilhar ideias e emoções – e de criar vínculos do coração.

Sei que a arte do encontro é muitas vezes a do desencontro - e que na vida nem sempre vamos ter a companhia daqueles a quem amamos. As novas tecnologias permitem aproximar os amigos, mas nunca substituem a presença deles em momentos de confraternização – eles, sim, estarão registrados na nossa história para sempre. E, sem eles, a vida perde seu significado maior: é quando sabemos com quem contar.