segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Julio Cortazar: A Descoberta do fascínio das palavras- João dos Reis


Trinta anos depois da morte de Julio Cortázar, seus leitores ganharam um presente. “A fascinação das palavras” (Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2014, 296 pp), é um diálogo com o jornalista Omar Prego Gadea. O escritor recorda sua infância, as primeiras leituras, a formação em Letras e o trabalho como professor no interior da Argentina.

Para mim, que sou seu admirador, foi uma surpresa agradável conhecer o autor por suas próprias palavras. O livro desvenda os “segredos” de vários contos: quando surgiu a ideia, como foram escritos. A narrativa de como escreveu “O jogo da amarelinha” é fascinante: aos pedaços, como um artesanato, foi sendo construído – e pode ser reconstruído por quem o lê.

“Suas posições políticas e sua arte poética se configuram nesta convicção: a imaginação, a arte, a forma são revolucionárias, destroem as convenções mortas e nos ensinam de novo a olhar, pensar e sentir”, disse o mexicano Carlos Fuentes em artigo para o “New York Times”.

O engajamento do escritor em defesa dos países socialistas foi encorajador nos desesperados anos 70. “... Só acredito no socialismo como possibilidade humana, mas esse socialismo deve ser uma fênix permanente, deixando-se para trás num processo de renovação e de invenção constantes; e isso só se pode atingir por meio da crítica...”, escreveu Cortázar em 1983 para o jornal “El país”, e que não presenciou o fim do bloco soviético.

Em um programa de rádio sobre a Nicarágua no final de 1983, ele disse que “não se deve sacrificar a literatura pela política nem trivializar a política em altares de um esteticismo literário. Eu não acreditaria no socialismo como destino histórico para a América Latina se não estivesse movido por razões de amor”.

A ação subversiva do escritor acontece também pela forma revolucionária, pela interrogação sobre o destino do homem. O romancista, uma espécie de “dinamiteiro do literário”, na expressão do critico Yurkievich, se realiza no terreno da linguagem. A reflexão e a reelaboração dos sonhos foram a origem de muitos dos contos – e aí está a presença do surrealismo em seus escritos.

Não sabia de um livro de poemas – que não está ainda publicado no Brasil. E que os primeiros exercícios da arte da escritura começaram aos 9 anos de idade. Sobre o pai há uma ausência completa nesse livro-entrevista. Em outro ocasião, ele dirá: “ele nunca fez nada por nós” – que abandonou a família quando Cortázar era ainda um “niño”.

O longo exílio em Paris não o afastou do seu pais natal nem da realidade latino-americana. Foi o amigo critico e solidário da revolução cubana e das contradições da construção do socialismo, isolado pelo bloqueio econômico dos países capitalistas.

No prólogo do “Livro de Manuel”, de 1973, um momento histórico de repressão e de organização da esquerda armada, Cortázar escreve “o que conta, o que tentei contar, é o sinal afirmativo diante da escalada de desprezo e horror, e essa afirmação deve ser a mais polar, o mais vital do homem: sua sede erótica e lúcida, sua libertação dos tabus, sua exigência de uma dignidade compartilhada numa terra livre deste horizonte diário de presas e de dólares”.

Ao escrever sobre Cortázar, ressurge minha admiração, que não diminuiu após essas décadas de ausência do escritor. Esse livro foi uma redescoberta do poder das palavras em um mundo que desaprendeu a usá-las com amor.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Leonardo Padura: “O homem que amava os cachorros” -por João dos Reis



“Naquele dia (...) soube com exatidão o que era ter Medo – um medo assim, com maiúscula, real, invasivo, onipotente e ubíquo, muito mais devastador que o receio da dor física ou do desconhecido...” diz Iván Cárdenas Maturell, ao receber a noticia do diretor da revista de que o conto que escrevera era contrarrevolucionário.

“O homem que amava os cachorros” de Leonardo Padura (Edit Boitempo, S.Paulo, 2013, 590 pp) reconstrói o exílio de Leon Trotstky e a “biografia” do seu assassino, Ramón Mercader. Iván é o personagem-escritor que renuncia ainda jovem ao “oficio literário demolidor” – e só retoma a escrita anos depois de vários encontros com Mercader em uma praia cubana.

Há vários tempos históricos nessa reconstrução: as reflexões do revolucionário russo desterrado, do militante do PC espanhol destinado à missão de matar Trotsky, e de Iván, o escritor. É também uma retomada do socialismo no século XX, da Revolução Bolchevique e da construção do comunismo em Cuba.

Em um século em que milhões perderam a vida em conflitos armados, o autor nos leva a pensar na contingência inevitável da morte. “Na guerra ou matamos ou nos matam. Mas eu vi o que há de pior nos seres humanos, sobretudo fora da guerra. Você não pode imaginar do que o homem é capaz, o que podem fazer o ódio e o rancor...” diz Mercader a Iván.

O “personagem” Trotsky reflete sobre os rumos da revolução de 1917. Quais batalhas foram mais árduas? Entre bolcheviques e mencheviques? As do período revolucionário de 1917? As da guerra civil após a revolução? As das disputas pela sucessão e controle do partido? Com a ascensão de Stalin após a morte de Lenin, inicia-se um período de expurgos, julgamentos sumários, campos de trabalho forçado (os gulags) e execuções de antigos militantes bolcheviques. É o terror do Estado em nome da sobrevivência do socialismo.

Ramón Mercader se transforma ao aceitar a conspiração do stalinismo. O que o levou a abandonar a luta da Frente Popular na guerra civil na Espanha para engajar-se no plano de assassinar Trotsky? O que pensava do seu ato suicida? Teve dúvidas em cometer o atentado? O autor do livro reconstrói o personagem e o traz de volta ao local do crime. E depois de 20 anos de prisão no México, parte para Cuba e Rússia, onde foi condecorado como Herói da URSS.

Iván recorda o inicio da revolução cubana: os anos de fidelidade, obediência, disciplina faziam parte dessa empreitada heróica para a saída do subdesenvolvimento, da miséria. O espírito de sacrifício desses anos é abalado com a crise dos anos 90: as decepções, os fracassos, as fugas abalam as esperanças. O personagem-escritor é o retrato trágico de uma geração que concordou em adiar os sonhos por um futuro utópico.

O destino de 2 personagens reais – Trotsky e Mercader – e de um narrador nos conduzem à reflexão dos rumos da esquerda, hoje. No século XXI, Cuba ainda resiste – e Padura nos revela os dilemas do presente.

Na nota final, o autor recorda como surgiu a ideia do livro, dos sonhos que embalaram a sua geração, do exercício entre a realidade verificável e a ficção. Houve “a mediação de anos para refletir, ler, investigar, discutir e, sobretudo, penetrar com assombro e horror pelo menos numa parte da verdade de uma história exemplar do século XX e da biografia desses personagens obscuros mas reais que aparecem no livro”.

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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O Lobo da Estepe: os anos sem esperança- Hermann Hesse - por João dos Reis




Para Risomar Fasanaro

Em dezembro, em um almoço com os camaradas de Osasco, conversamos sobre Hermann Hesse – e Risomar me presenteou depois com o livro que me impressionou na juventude: “O lobo da estepe” (Edit. Record, Rio de Janeiro, 2000, 26ª tiragem, 240 pp). No final dos revolucionários anos 60 e inicio dos desesperados anos 70, os romances e contos do escritor alemão foram publicados - e eram os mais procurados na biblioteca onde trabalhava. Não resisti à curiosidade e li vários deles – confesso com certa displicência. Sabia que o escritor era o guru dos hippies, dos que negavam a cultura e a sociedade capitalista.

Disse aos meus amigos: teríamos muitos anos pela frente de governo ditatorial no Brasil. A resistência à repressão e à censura estava sendo destroçada; muitos dos combatentes estavam presos, exilados, mortos, desaparecidos. Tinha 22 anos: o que o destino me reservava para o futuro? Diante da crueldade e estupidez daqueles dias, me sentia condenado à solidão e ao isolamento. Foi uma surpresa a descoberta e a leitura desse livro.

“Sou, na verdade, o Lobo da Estepe (...) – aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem ar nem alimento num mundo que é estranho e incompreensível” (p.41). Ao mesmo tempo, um homem com um mundo de pensamentos, de sensações, de cultura – que conheceu as delicias da meditação, o desprezo pelo senso comum, mas que sente-se estranho a esse mundo - um prisioneiro da burguesia.

Hermann Hesse nasceu em Calw, Alemanha, em 1877, e morreu em Montagnola, Suiça, em 1962. Filho de pais missionários protestantes, estudou em seminário. Abandonou os estudos, rompeu com a família; trabalhou como relojoeiro e livreiro. Seus livros fascinaram os jovens do pós-guerra com a pregação antibelicista, contra o estilo de vida burguês e as instituições (Estado, família, escola, igreja).

O que me impressionou na primeira leitura – e hoje também – foi a angústia e o abandono do personagem diante da morte. Harry Haller, o lobo da estepe, se debate entre a inutilidade das conversações, do trabalho mecânico – e reconhece-se à margem da vida, na angústia tenebrosa dos que são incapazes de exercer a crítica à própria vida. O aprendizado rumo à libertação - despir-se dos preconceitos, uma nova sensibilidade - terá as companhias das garotas de programa Herminia e Maria, e do músico Pablo.

A vida que o conduz ao niilismo e à destruição o impede de penetrar no mundo das imagens. No final, acaba aceitando o convite à loucura, à recusa da razão, das convenções – para entregar-se “ao mundo flutuante e anárquico da alma e da fantasia”: participa em uma noite do Teatro Mágico, uma viagem ao mundo dos sonhos.

“Quem quiser música em vez de balbúrdia, alegria em vez de prazer, alma em vez de dinheiro, verdadeiro trabalho em vez de exploração, verdadeira paixão em vez do jogo, não encontrará guarida neste belo mundo” (p. 164), escreve o escritor que incendiou a imaginação dos jovens. A experiência da festa, a submersão no onírico só era possível pela literatura - e o escritor conseguiu conquistar mentes e corações com as palavras de rebeldia.

Na última página, Hesse escreve: “O livro trata, sem dúvida alguma, de sofrimentos e necessidades, mas mesmo assim não é o livro de um homem em desespero, mas de um homem que crê.(...) Eu me sentiria contente se alguns desses leitores pudessem perceber que a história do Lobo da Estepe, embora retrate enfermidade e crise, não conduz à destruição e à morte, mas ao contrário, à redenção”.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O FILHO RENEGADO DE DEUS -URARIANO MOTA - POR Risomar Fasanaro


Abro o livro do escritor pernambucano Urariano Mota “O Filho renegado de Deus”, e lá encontro, no início do romance:
“- Senta, filho, que os mortos voltam.
Ela nada lhe disse assim, de viva voz, mas ele obedeceu à ordem. O que faz um homem quando reencontra a sua mãe falecida? Obedece-lhe, contrito, grato, louco doido de amor, de carinho e saudade.”
Sabendo que é a história de um filho que reencontra a mãe morta atiça minha curiosidade, principalmente por ser de Urariano, escritor que já provou seu talento em obras anteriores como “Os corações futuristas” e “Soledad no Recife”.
Mas é segunda-feira. Preciso lavar roupa, colocar feijão no fogo, fazer o almoço e todas essas miudezas que compõem o universo de tantas mulheres. De tantas Marias como as que povoam o romance de Urariano, e que desses afazeres só se livram com a morte. Largo o livro sobre o sofá e vou para a cozinha.
Antes ligo o som para ficar ouvindo Mozart. Mas enquanto descasco alguns legumes, as personagens não me largam. Dona Maria e Jimeralto parecem me puxar pelo avental. Mas agora não posso, digo em voz alta. A mim mesma, a eles ou ao fogão, à geladeira, ao micro-ondas, tal qual a Shirley Valentine do filme de mesmo nome? Mozart está lá. Indiferente, segue as faixas, sonata após sonata, sem se incomodar com minha inquietação.
Por que teria voltado aquela mãe para falar com o filho? O que não lhe disse quando viva e que era preciso dizer agora? A curiosidade não me deixa, preciso voltar ao livro. O que é tão importante para dona Maria que, vencendo as leis da vida, do universo , a levou a transpor o muro que separa o mundo dos mortos do mundo dos vivos?
Pronto, me rendo: boto bastante água no feijão, um truque que utilizo sempre que quero ler ou escrever sem queimar as comidas, agarro o livro, e retomo a leitura. Descubro mais um pouco da história: Jimeralto, a personagem central do livro, vai ao enterro de uma amiga de infância, e o que poderia ter sido apenas uma ida ao cemitério, tal qual o poeta Dante guiado por Virgílio em “A Divina Comédia”, reencontra a mãe morta
É a partir daí, que a história se desenrola. Revisitando o passado, o personagem mergulha em um labirinto que o leva a um passado que parecia completamente esquecido, tal qual um câncer que está lá, silencioso, e por isso dele não tomamos, não queremos tomar conhecimento. Mas há um momento em que ele começa a doer, já não nos é possível ignorá-lo. É preciso encará-lo.
E é assim, nos (des)caminhos desse labirinto que ele rememora a infância, começa a digerir sua história e a compreender àquela mãe tão doce, tão carente, e de quem nunca se vê revolta, nem se ouve reclamações.
A solidão dela, como a de tantas outras Marias daquela “vila, ou conjunto dividido em paredes na senzala” somente agora, a ele se revela. E nesse encontro com o passado, o personagem reencontra também o pai; aquele homem rude, grosseiro, já não lhe parece tão poderoso, tão ruim, como foi para o menino Jimeralto e sua mãe. Era apenas mais uma vítima daquele mundo injusto e preconceituoso.

Penso nessa Maria que me remete à Maria bíblica que tanto sofreu pelo filho, penso naquele menino perdido em meio à insensibilidade do pai, a todas aquelas carências... Há dores tão profundas, que é impossível sofrer em silêncio, por isso Jimeralto geme alto...
Pronto: o livro já me seduziu.
E durante a leitura encontro algumas passagens que revelam a beleza que só agora Jimeralto, adulto, percebe:
“Aquilo lhe chegava como borboleta sem música da crisálida.”
E ao relembrar o suplício do amigo Cecílio, filho de uma mulher linda, que o envergonhava com seu comportamento de mulher livre, já adulto se pergunta: “ por que todos os meninos não merecem ter mãe sem beleza?(...) Mãe mulher sem sexo de cobiça, por que, meu Deus?”
“Lá fora passava o menino que vendia pirulito, que era uma calda sólida em forma de cone comprido, embrulhado em papel barato e anunciado com um apito de madeira, num som que era açúcar, poesia e música em um sopro, “piuí”.”
“ Filadelfo deitado, sem forças, a conversar em inglês sobre prostitutas camaradas que perguntaram por sua saúde, porque as putas são humanas, companheiras, até elas saem dos esquemas rígidos de Jimeralto treze anos depois. Ali, quando estiver na pensão, na clandestinidade.”
E sentindo-se pequeno diante de tudo que vivera, das pessoas daquela Vila da Alegria, Vila Felicidade, Rua Alegre, Rua dos Sete Pecados, constata:
“ Meu Deus, como sou pequeno. Uma página é pouco para mim, ele disse. E a página era a vida em branco que não estava escrita.”
O romance está repleto de passagens líricas como essas, mas me é impossível reproduzir todas aqui, nesta curta resenha. Cabe ao leitor descobri-las.
Ao terminar a leitura, constato que este é, possivelmente, o mais belo romance de Urariano Mota.
Mota, Urariano- O Filho Renegado de Deus,Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2013


domingo, 4 de janeiro de 2015

RECORDANDO ESTEVÃO MIKLOS ARATO, a FNT e a redemocratização - João dos Reis



"Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas".

(Vinicius de Moraes, "Pátria minha")

(Para Alberto Abib Andery, que vive na Casa São Paulo na capital paulistana)


A violência do Estado chegou à educação durante a ditadura militar. A Filosofia foi proibida e eliminada do currículo escolar. Na escola “Thomaz Ribeiro de Lima”, em Caraguatatuba, me atribuíram aulas de várias outras disciplinas. Lecionei durante 5 anos Relações Humanas, Programa de Informação Profissional, Educação Moral e Civica, Cultura Contemporânea, entre outras. Tinha também o cargo de Orientador de EMC – criado pelo regime repressor para “despertar o patriotismo entre os jovens”.

Nos últimos anos no Litoral Norte tive a amizade, o companheirismo de ESTEVÃO MIKLOS ARATO.Paulistano da Vila Anastácio, era filho de imigrantes iugoslavos - viveu a história dos pais, saindo da Europa e de uma nação em crise. Era um adolescente de 16 anos quando foi meu aluno. Inteligente, critico, foi o meu irmão-camarada nesses anos de incertezas.

Conversávamos sobre os rumos da redemocratização no Brasil e na América Latina. Contei a ele do Centro de Direitos Humanos em Osasco, das viagens ao Chile, Argentina, Paraguai. Ele me emprestou o “Querida família”, cartas da prisão de Flavia Schilling. Com ele, um jovem amigo, pude debater política, literatura. Era um grande leitor, e procurei deixá-lo livre para descobrir o mundo dos livros.

Em 1980, perdi todas as aulas para os professores concursados. Como na adolescência, fiquei novamente desempregado, angustiado com o futuro. Albertino Souza Oliva e o grupo da Frente Nacional do Trabalho em Osasco fizeram uma proposta. Criar um projeto de educação popular para a periferia da Região Metropolitana Oeste (Osasco e cidades vizinhas).

Aceitei o desafio de confrontar a ditadura com a arma da conscientização. Tivemos o apoio das Pastorais (de Direitos Humanos, da Juventude, Operária), JOC, ACO, Encontro de Casais com Cristo, Comunidade Kolping, e comunidades eclesiais de base. Durante quase 4 anos, houve um debate mensal, em que convidamos aqueles que estavam marginalizados pela censura e repressão - Florestan Fernandes, Salvador Pires, Dalmo de Abreu Dallari, Waldemar Rossi, Maria Nilde Maschellani, Paulo Schilling, Paul Singer, por exemplo.

Apresentamos também temas para grupos de estudo – sobre Economia, Fé e Política, Educação, Saúde Mental, Filosofia, Psicologia, Comunicação. Alguns deles: Reginaldo C. de Moraes, Antonio Roberto Espinosa, Jorge Baptista Filho, Gabriel Roberto Figueiredo, Padre Agostinho (Marcelo Duarte de Oliveira), Paulo Proscurshim, Jorge Broide, Plinio de Arruda Sampaio, Paulo Freire, Helena Pignatari Werner, Francisco C.Weffort.

Estevão foi prestar o serviço militar em São José dos Campos, eu estava novamente em Osasco - e voltei para a escola pública em 1984. Ele terminou depois o curso de Jornalismo. Mantivemos contato por telefone ou por carta; às vezes combinávamos um encontro. Depois da morte do seu pai, ficou dois anos nos EUA. Na crise do inicio dos anos 90, era ele que esteve desempregado. Em 1999 fui para Curitiba e não tive mais noticias dele; deve ter ido de novo para a sua nova pátria.

Estevão partiu para o Norte, eu para o Sul. Apesar do tempo e da distância, as lembranças do jovem discípulo irrompem na memória e inundam meu coração de saudades.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Canto de saudade a Curitiba - João dos Reis


“Há uma Curitiba cruel, outra fiel. Uma que aprisiona e maltrata, outra que cura tuas feridas com a salivinha dos rocios. (...) Há uma Curitiba dos afogados, degolados e suicidas – e sobre essa Curitiba nós clamamos tua indulgência, ó Senhor. (...) E há ainda a Curitiba dos puros, dos corações desarmados, daqueles que a cada manhã refazem de qualquer retalho a teia de suas vidas... – sobre esses a torrente de tua magnanimidade, porque eles que retecem a teia de Curitiba, amém”. - Jamil Snege, “Canto de amor e desamor a Curitiba".

Parti de Osasco e fui viver em Curitiba no final dos anos 90. Tive a companhia fraterna dos companheiros que eram, como eu, “estrangeiros” na capital das araucárias.

Márcio, de Santa Maria, RS, estava a trabalho na cidade. - instalou o sistema de ar condicionado no Museu Oscar Niemayer. Era bastante calado – em um dia em que nós dois sentíamos a solidão da cidade, me falou “se eu era assim sempre bom para os amigos". Não soube como responder a ele.

Moacir Moreira Carvalho pretendia seguir a carreira militar. O plano de engajamento no Exército não foi possível. Voltou para Santo Antonio de Caiuá. Conversamos por telefone às vezes. Quando nasceu o seu primeiro filho, batizou-o como João Victor. Hoje vive em Luis Alves (SC).

Patricia Xavier, de Campo Mourão; Cesar Augusto Carraro, de Cascavel; Maricélia - estagíários na Clinica de Fisioterapia da PUC. Eles, e outras estudantes, cuidaram não apenas do corpo, mas também da alma - minha gratidão eterna! Presenteei César com um vinho - ele me contou que abriu a garrafa no jantar das bodas de prata de seus pais.

Edgar é professor de dança gauchesca no Clube Albatroz. Com ele aprendi os segredos do vanerão, bugio, chamamé, rancheira .Foi o parceiro amigo, um perfeito cavalheiro, nas noites de baile e música.

Alessandro também pensou em seguir a carreira no Exército. Houve uma dispensa coletiva por corte de verbas – e me confessou que chorou na solenidade de despedida. Voltou para a sua cidade, Telêmaco Borba, sem ter o sonho realizado.

Mazé Mendes, de Laranjeiras do Sul, é minha amiga fraterna e solidária. Fui às exposições das suas belas pinturas - e estamos sempre em contato. Em um fim de tarde gelada, encontrei-a no Parque Barigui, abracei-a – e disse como me sentia honrado com a amizade dela.

Fiz o curso de contação de histórias com Martha Teixeira da Cunha e José Mauro dos Santos. Fomos voluntários - a querida Celina foi para o Instituto Paranaense de Cegos, eu para o Hospital do Trabalhador. Para as crianças, contava histórias infantis; para os adultos, lia noticias do jornal ou declamava poemas.

Ewerton Antunes, de Cascavel, e o pequeno Arthur foram meus companheiros queridos – hoje, é um adolescente-aprendiz de filósofo. Tive um acidente, fraturei o ombro. Fui visitá-lo na escolinha, ele me perguntou “se eu já estava bem”. Nunca me esqueci do carinho de um piá curititbano de 4 anos com o desamparo de um adulto.

O catarinense Luiz Fernando Niedzievski, do Mosteiro Monte Carmelo, adotou minha mãe - e nós o aceitamos como um filho e irmão querido. Somos gratos pelo convite para frequentar a sua mesa, dividir com ele o pão e o vinho. Foi uma viagem para fora do meu Estado, mas também para o interior de mim mesmo. Egnaldo, de Fazenda Rio Grande, na região metropolitana, foi também meu irmão-camarada nessa jornada.

Sandra Tortato: curitibana gentil, atenciosa - as centenas de quilômetros que nos separam não diminuiram o afeto e a amizade.

Felis Penkal, pequeno agricultor em Araucácia, cidade vizinha de Curitiba: é também muito calado. Quando ele vinha para a cidade, me telefonava – e nos encontrávamos na Lanchonete Badech. Veio ao meu encontro uma vez com um presente: feijão, que ele plantou e colheu. Na tarde de minha partida, trouxe um pacote de pinhão. Conversamos às vezes por telefone. Descobri que, entre amigos, nem sempre é preciso o uso das palavras. Já tinha voltado para S.Paulo, e ele me comunicou o nascimento do seu primeiro filho: Juan Guilherme.

Tenho na memória e no coração meus irmãos-companheiros de viagem – que, um dia, desejei sem volta.

"Curitiba sem pinheiro ou céu azul pelo que vosmecê é - provincia, cárcere, lar - esta Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo..." - Dalton Trevisan, "Em busca de Curitiba perdida".

RECORDANDO os anos jovens e os queridos alunos-companheiros - João dos Reis


RECORDANDO os anos jovens e os queridos alunos-companheiros

“Comunicar aos jovens desconhecidos nossa sabedoria e os belos frutos de nossa experiência? De renúncia em renúncia aprendemos uma coisa: nossa radical impotência. (...) Mas temos ossos velhos e, na idade em que as pessoas cogitam escrever o testamento, descobrimos que nada fizemos (...) Nizan pode lhes dizer tudo porque é um jovem belo monstro como eles, partilha com eles o terror de morrer e o ódio de viver no mundo que lhes preparamos.(...) ... tornou-se revolucionário por revolta e quando a revolução teve de ceder à guerra, reencontrou sua violenta juventude e acabou como revoltado”. (Jean-Paul Sartre, prefácio a “Aden, Arábia”, Paul Nizan, Edit.Marco Zero, S.Paulo, 1987,pág 14 e 16).

Fui professor de Filosofia por mais de duas décadas.. Vários dos meus discípulos das cidades do Litoral Norte paulista foram minhas companhias. Depois de 3 anos, a Filosofia foi proibida no currículo escolar – ainda permaneci mais cinco anos lecionando outras disciplinas - até 1980. A casa em Ubatuba de Olga Ribas de Andrade Gil, mãe das gêmeas Olga e Angela, foi meu porto seguro nessa jornada no litoral caiçara.

Lembro de um acampamento na Praia Dura com o grupo do terceiro ano do Colégio "Cap. Deolindo de Oliveira Santos". Recordo também que, depois de um acidente de carro, acordei no hospital – ao meu lado estava Dona Olga, que substituiu minha família ausente. Em muitas noites de sábado, com Angela de Andrade Gil e amigos, conversamos sobre a esperança da volta à democracia.

Quando houve a primeira greve dos professores em 1978, foi com orgulho que tive o apoio e liderança da ex-aluna Angela, recém-formada em Letras. Depois da minha volta a São Paulo, reencontrei-as em 1984 no hospital. D. Olga estava em fase terminal - e foi minha vez de velar o seu sono. Foi a última vez que as encontrei.

Julio Cesar Avelar, do grêmio estudantil da Colégio “Thomaz Ribeiro de Lima", cursou Oceanografia. Revi-o em 1986 – me convidou para passar as férias em sua casa em Olivença, BA, onde trabalhava.

Italia Benetazzo, do Cene de São Sebastião, aguardava o final das aulas para conversar. Reencontrei-a em outubro de 2012 em uma homenagem ao irmão, Antonio Benetazzo, no Memorial da Resistência.

De volta à capital proletária, tive a camaradagem dos professores Airton Cerqueira Leite, Jaime Pontin, Sandra Ceschini Sussmann – trabalhei 14 anos no Colégio “Vicente Peixoto”. E dos jovens do grêmio estudantil – Sidney e Silda, Celso Soares Moitinho, Luiz Fernando Pastorelli. João Antonio nunca se esqueceu dos seus mestres – sempre vinha nos visitar na escola, anos depois de terminar o colegial. No final das aulas do noturno, eles aguardavam a minha carona – e prolongávamos o diálogo da sala de aula.

Eder tinha 16 anos, estava no 1º ano - e me confessou que vivia angustiado. Eu disse que a angústia nos acompanha durante toda a vida. Reencontrei-o em 1991 em Campos do Jordão: ele me viu no ônibus, acenou para que o veiculo parasse, me convidou para me hospedar em sua casa. Na última vez em que estive na cidade da Serra da Mantiqueira, procurei saber noticias dele, em vão.

Silda foi para São José dos Campos – cursou Psicologia; veio me ver algumas vezes na escola. Quando Celso vem da Bahia, almoçamos juntos e conversamos sobre o pequeno Juan, seu filho.

Recordo sempre do convivio com meus companheiros queridos – eles estão na minha memória para sempre.