segunda-feira, 10 de novembro de 2014

REFLEXÕES sobre livro: "A greve no masculino e feminino - Osasco, 1968" - Marta G.O.Rovai - Texto de João dos Reis


O livro da historiadora retoma a história de Osasco, a construção da cidadania osasquense, a greve de 1968, seus personagens.Os depoimentos estão presentes em todas as páginas. Falam sobre a experiência vivida, as emoções, as lembranças. Ao contrário das teses acadêmicas em que os entrevistados desaparecem no pé da página ou constam no apêndice final: surgem a todo o momento, contando o que foram esses agitados anos 60.

As figuras femininas narram a experiência do ponto de vista das mulheres. Maria Santina e Abigail Silva, casada com João Joaquim, se tornam protagonistas da História, ao lado de muitas outras.

É também uma reconstituição da efervescência politica no bairro paulistano que conseguiu emancipação depois de 3 tentativas – a última em 1962. Risomar Fasanaro, professora, escritora, poetisa, foi uma das agitadoras da cultura na cidade proletária.

Recordando: Helena Pignatari Werner, professora de História do Ceneart, foi presa depois do golpe de 1964. Acusação: subversão por ter um projeto de alfabetização de adultos segundo o Método Paulo Freire. José Ibrahim, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, preso depois da greve de 1968 – conseguiu a liberdade depois do sequestro do embaixador norte-americano. Antonio Roberto Espinosa, cursava Filosofia na USP, um dos operários-estudantes presentes na agitação revolucionária - esteve preso por mais de 4 anos. José Groff, metalúrgico, militante da Pastoral Operária e da FNT- Frente Nacional do Trabalho. Joaquim Miranda, metalúrgico, militante da Ação Católica Operária. Albertino Souza Oliva, participante da Comissão de Fábrica da Cobrasma, militante da FNT.

A escritora retoma a proposta do filósofo Walter Benjamim: a narrativa pode renascer as esperanças do passado. Por meio da memória, também o retorno do direito às lembranças e às palavras.

O último capítulo, “As feridas da memória: experiências de dor, coragem e afeto” trouxe novamente uma avalanche de recordações dos amigos. O desemprego, as perseguições dos patrões (entraram para a lista do Dops), as mudanças constantes de fábrica. Acompanhei a maratona deles em busca de trabalho no inicio dos fanos 70.

“Da condição de acusados, os narradores tomaram a palavra e passaram a acusar: o torturador passou a ser réu da História...” escreve Marta. Reapareceu a imagem de um encontro que tive com Joaquim Miranda e com Natael Custódio Barbosa, depois da prisão. Lembro que conversamos, mas não sabia o que dizer aos companheiros.

Senti a falta de alguns atores: Gabriel Roberto Figueiredo, estudante-operário, Josué Augusto da Silva Leite, professor de História no Ginásio de Presidente Altino - meus ídolos, meus heróis no final da infância e adolescência: contribuíram para a formação política da geração que desafiou o poder da ditadura militar.

A História nos devia esse registro da “Petrogrado brasileira”, nas palavras de Espinosa. Meu querido José Groff, irmão-camarada, não está presente para comemorar esse acontecimento – ele é um dos que se despediu de nós, deixando muitas saudades.

( “A greve no masculino e feminino – Osasco, 1968”, Marta Gouveia de Oliveira Rovai (Edit. Letra e Voz, S.Paulo, 2014, 362 pp)





domingo, 9 de novembro de 2014

GABRIEL FIGUEIREDO NA COMISSÃO DA VERDADE/OSASCO -20/10/2014 - Texto de João dos Reis


COMISSÃO DA VERDADE/OSASCO – AUDIÊNCIA PÚBLICA -20/10/2014
RECORDANDO Gabriel Roberto Figueiredo e a UEO (União dos Estudantes de Osasco

Depois de muitos anos reencontrei Gabriel – e lhe disse da lembrança mais antiga que tenho dele. Eu tinha vindo do interior em 1961, e com 12 anos, frequentava o curso ginasial noturno (não havia curso diurno) no GEPA (Ginásio Estadual de Presidente Altino). Lembro de uma das manifestações do movimento pela emancipação de Osasco. Ele era uma das lideranças, e perguntei porque a escola estava bloqueada pelos estudantes, porque não haveria aulas naquela noite.

Minha mãe e MEU irmão conheciam a família dele – e foram eles que me lembraram dos nomes: D. Dirce, o pai William, os irmãos Marina e Valter (o Tim). Quando ele foi preso em 1964 eu tinha 15 anos, não entendi o que estava acontecendo. Soube que mudaram para S.Paulo. Ele nos contou como a vigilância e a espionagem depois da prisão deixaram sua família abalada – sua mãe teve problemas emocionais e físicos (disritmia). Lidia Castellani, namorada de Gabriel, estudou no Ceneart – e lembro de uma conversa em que ela estava preocupada (talvez com a segunda prisão, em que também vários vereadores e sindicalistas foram presos).

A prisão: durante quarenta dias em uma solitária no 4º RI (Regimento de Infantaria), os interrogatórios de madrugada, a comida fria, ter de comer com as mãos. Quando saiu (da solitária), “sabia quem era, onde estava, mas não tinha noção de mais nada” - foi o momento mais pungente do depoimento.

A militância política começou no PCB aos 15 anos. E recordou as leituras que mudaram a sua visão do mundo: “Crítica do Programa de Gotha” (Marx), “Dialética da Natureza” (Engels), “Manifesto Comunista” (Marx e Engels). Contou como foi sua participação na UEO em 1963/1964. Citou nomes de estudantes: Antonio C. Mazotti, Sérgio Zanardi (que suicidou-se dois anos depois), Hélio Bahowski, entre outros. Na sede (da UEO) se discutia temas teóricos, o programa do governo Jango Goulart (as reformas de base, agrária) – foi um espaço de formação politica-ideológica dos estudantes-trabalhadores.

Gabriel estudou na Faculdade de Medicina da Santa Casa de S.Paulo. Em 1968, com um grupo de médicos, deu apoio e assistência aos uspianos durante a ocupação da Faculdade de Filosofia na rua Maria Antonia, e depois da batalha contra o CCC. É uma outra imagem que guardo dele naqueles dias de agitação e revolta.

Ele foi à Europa em 1978, esteve em contato com os exilados (José Ibrahim, Clayton Figueiredo), e com o movimento da anti-psiquiatria. Em junho e julho de 1979, organizou com um grupo de amigos as conferências de Franco Basaglia no Brasil. O livro foi publicado: “Franco Basaglia, a Psiquiatria alternativa, contra o pessimismo da razão, o otimismo da prática – Conferências no Brasil”, Edit. Brasil Debates, S.Paulo, 1979, 160 pp).

Em 1982 voltou a Osasco, quando foi candidato a prefeito pelo PMDB. Em 1983 foi Secretário de Saúde de Osasco do prefeito Humberto Parro e, retomando as ideias do psiquiatra italiano, criou os Caps (centro de assistência psico-social), um espaço terapêutico de recuperação e inserção social – uma política de saúde mental contrária às internações psiquiátricas por longos períodos.

Como Gabriel recordou: ninguém saiu ileso da repressão política na ditadura militar. Perdemos amigos e companheiros, muitos estão mortos e desaparecidos. Contra a prática do esquecimento, trazemos todos eles de volta, e estão hoje presentes na memória e no nosso coração.

domingo, 2 de novembro de 2014


GABRIEL ROBERTO FIGUEIREDO É CIDADÃO OSASQUENSE - João dos Reis

A Comissão Municipal da Verdade de Osasco tem revelado os nomes de vários osasquenses que lutaram contra a ditadura. Hoje trazemos o depoimento de Gabriel Figueiredo, médico psiquiatra, quando recebeu da Câmara Municipal o título de cidadão osasquense, em setembro de 2006.


Gabriel chegou ainda criança à Osasco, cidade que aprendeu a amar e a “quem” diz dever toda a sua formação política e social. O homenageado participou ativamente de movimentos estudantis, enfrentou os porões da ditadura, lutou pela emancipação da cidade, e ainda hoje faz questão de relatar sua vivência para que ela inspire outros jovens a dar um basta à corrupção, à discriminação das minorias e às diferenças sociais. (...)
O jornal “Diário da Região” publica abaixo parte do discurso do homenageado (...)
OSASCO, de GABRIEL ROBERTO FIGUEIREDO
Migrante, vindo de Ribeirão Preto, aqui cheguei há meio século, com 10 anos de idade. Osasco era um bairro, e o meu pai, o velho Figueiredo, trabalhava na capital. Prestava serviços de “continuo” no extinto banco de São Paulo, na rua São Bento. Com parcos recursos, profissionais e materiais, sustentou a família. Às vezes, tinha uns arroubos ideológicos. Fazia uma leitura sindical inocente, getulista, porém sincera e esperançosa.
Dona Dirce, minha mãe, costureira, fazia alguns serviços para fora, enquanto eu, o mais velho dos irmãos, cheguei a ser um dos mais concorridos engraxates do Largo de Osasco, até beirando os 14 anos.
Assim, Figueiredo, dona Dirce e eu ajudávamos a completar a limitadíssima renda familiar. Enfim, sobrevivemos. Walter e Marina, meus irmãos mais novos, vieram contribuir depois, o que garantiu um padrão pouco melhor na nossa qualidade de vida.
O subúrbio de Osasco era um bairro paulistano com pouco mais de 40 mil habitantes. As ruas Antonio Agu e Primitiva Vianco, com suas transversais, se constituíam no Centro, com vários trechos de terra batida e fossas a céu aberto. Havia muitos terrenos livres, alguns como saudosos campinhos de futebol. A Associação Atlética Floresta era ladeada por um grande matagal que se expandia até o pequeno viaduto da Sorocabana, o “pontilhão”; com seu acesso subterrâneo, dava acesso à Vargem, como era conhecido o singelo e simpático Presidente Altino.
A velha matriz de Santo Antonio era imponente, gótica, com sua torre apontando para o céu. Infelizmente hoje só podemos conhecê-la ou revê-la através de fotografias. Ela pontuava no final do aclive da Antonio Agu. Na outra ponta da rua, já bem depois do término do declive, já no plano, no Largo, uma pequena estação ferroviária era contemplada pela Matriz, lá de cima. Se não me falha a memória, Padre Camilo e Moura Leite se viam, mesmo com uma distância quilométrica, todos os dias.
A periferia despontava. Do Jardim Santo Antonio ao Rochdale, e de Quitaúna à Via Yara, emergiam núcleos populacionais decorrentes de uma intensa migração, sobretudo dos nossos irmãos do Norte e Nordeste, em busca de oportunidades num parque industrial que prometia ser a “Cidade Trabalho”. Na década de 50, a população de 41 mil subiu para 114 mil na década de 60. O censo de 2000 revela perto de 700 mil hoje, e provavelmente, já ultrapassamos os 800 mil.
No entanto, a iluminação pública era precária, as fossas a céu aberto, uma incipiente rede de água tratada e a falta de mínima estrutura para resolução de problemas de saúde, educação e segurança pública, já preparava para Osasco um placo de grandes problemas sociais. Problemas que todos nós sabemos não tardaram a chegar. Alguns até hoje nos atingem. Chegamos a ser considerados uma espécie de referência da violência urbana na região metropolitana.
Luta pela emancipação
Em 1958, já dispondo da Carteira de Trabalho do Menor, fui admitido no meu primeiro emprego na Cimaf. Ao me qproximar dos 18 anos fui demitido, para logo em seguida, dispensado do serviço militar, ser contratado pela Cobrasma. Paralelamente a este inicio de vida no mercado de trabalho, assisti e participei de diversos fenômenos sociais.
O plebiscito de 1958, e as lutas que se seguiram até a emancipação de Osasco da cidade de São Paulo, têm múltiplas versões políticas, acadêmicas, corporativas e pessoais.
Levando em conta todas, e por ter sido personagem vivo deste momento, o que nem sempre confere a necessária neutralidade da análise crítica, considero que a liderança do movimento emancipacionista foi, de fato, encabeçada por uma limitada e corajosa elite local, constituída de empresários, comerciantes e profissionais liberais. O que contesto, até por ter sido testemunha participativa, é de que se impôs, no êxito da emancipação, somente por esta corajosa elite.
Não é o que ocorreu.A ela agregou-se uum nascente movimento estudantil e sindical, onde Conrado Del Papa, Lino Ferreira dos Santos, Sérgio Zanardi, João Gilberto Port, Antonio Carlos Massoti, Reginaldo Valadão e inúmeras outras lideranças, tiveram papéis fundamentais.
Atribuir ao movimento burguês a emancipação de Osasco é um equívoco. Na realidade, a pequena elite osasquense da época liderou o novimento, mas ela não deve negar que outras forças sociais que emergiam e se organizavam exerceram papéis, em alguns momentos decisivos, principalmente quando o movimento alcançou o espaço das manifestações públicas, nas ruas e nas praças.
O povão, a massa, de fato teve participação menor do que os movimentos organizados pela burguesia, dos estudantes e dos trabalhadores orientados pelos seus sindicatos. Não foram muitos e até dá para entender as suas razões. A principal, talvez, seja a de que, eles, os migrantes, ainda não haviam tido tempo suficiente de se identificarem com a cidade. Suas identidades ainda estavam nas suas origens. Eles eram o Gabriel Figueiredo que aos 11 anos, devido a um transtorno de adaptação, queria, de forma insana, voltar para Ribeirão Preto. O sentimento de raiz não estava ainda amadurecido.
Movimento estudantil
O surgimento do movimento estudantil organizado, em Osasco, não foi um produto histórico e social de um determinado segmento. Vários estiveram envolvidos. Para usar expressões políticas, ideológicas, eu diria que, em síntese, estiveram envolvidos burgueses e proletários, numa espécie de acordo não explicitado.
Imaginem: o maior líder estudantil de Osasco não passava de um simples operário da Cobrasma, mas que tinha simpatia de alguns setores da burguesia. Nunca dispensei esta simpatia, mas sempre tive curiosidade de entendê-la.
Alguns dados interessantes das reivindicações e conquistas do movimento operário-estudantil de Osasco, no período entre 1962 e 1964, devem ser registrados para o futuro da História.
- Boa parte dos estudantes era também de trabalhadores, no sentido literal da palavra. Era natural, espontânea, a aproximação do trabalhador-estudante e do estudante-trabalhador.
- Melhoria das condições de ensino, construção da Casa do Estudante, incentivo às atividades recreativas e culturais, estratégias para obtenção de bolsas de estudo para estudantes com carências materiais, e participação ativa nos movimentos sociais - eram tópicos incansavelmente discutidos e permanentemente transformados em movimentos de ação prática.
- Presença ativa nos problemas nacionais, tendo o protesto contra o Acordo MEC-USAID - que subordinava a educação do povo brasileiro aos interesses norte-americanos – e o apoio às Reformas de Base propostas pelo Presidente João Goulart , eram as principais bandeiras de luta.
Nestas alturas, já com quase 20 anos de idade, me sentia beneficiado pela formação de uma consciência política. A vivência no interior das fábricas, o contato com colegas e professores nos espaços escolares de segundo grau - e a dificuldade de sobreviver material mente devido às minhas próprias origens - me conferiu uma visão de mundo que até hoje me acompanha.
Recentemente, num depoimento feito para a tese de doutorado de Sonia Regina Marin (...), disse que vejo crescer no país o número de jovens sem militância e consciência política. Jovens sem causa. Jovens que, perdidos, sem perspectiva de rumos para a construção de um mundo melhor, se entregam à alienação, às drogas, ao desespero, à violência e às Febens da vida. Devolver aos jovens a utopia é a primeira e a maior das nossas responsabilidades para alimentarmos esperanças de construir uma sociedade mais justa e solidária.
Comportamentos corruptos e antiéticos deixam proliferar a filosofia da esperteza e a lógica da discriminação das minorias, desmoralizando os princípios democráticos que estão na base da formação do cidadão.
Devo à Osasco, portanto, o meu maior patrimônio, que é esta visão de mundo, compartilhada por uns, não compartilhada por outros, mas é esta consciência o meu maior patrimônio. É uma dívida impagável, que este título hoje recebido, me concede a honra de diminui-la no meu débito.
Agradeço esta homenagem que recebo, com grande emoção, ao nobre e jovem vereador Antonio Claudio Piteri, que foi quem a propôs, e a todos os senhores vereadores desta Casa, que ao atenderem a propositura de Piteri, mais ainda me deixa honrado.
Aos meus filhos Luciano, Gabriela e Ligia, desejo manifestar publicamente o meu carinho, admiração e alegria por tê-los. Sobretudo porque me presentearam, ao longo da vida, com a convicção de que é possível formar cidadãos íntegros, competentes e com sensibilidade social. Acrescentaria a eles o meu neto Guilherme e a minha neta Lívia, ainda na barriguinha da Ingrid, mas que com certeza está atentamente ouvindo, visto que para ela tudo, até discurso, se constitui parte da grande curiosidade de entrada neste mundo.
Também à minha esposa Daisy, grande companheira, sem a qual talvez hoje eu não estaria aqui, pela força que me concedeu para continuar não apenas vivendo, mas existindo.
Devo umas palavras aos ex-prefeitos presentes: a Guaçu Piteri, nossa maior liderança ao longo da resistência democrática, as minhas saudações. Ao Francisco Rossi, que apesar das divergências políticas, devo declarar que, ao contrário do que se propaga a meu respeito no golpe de 1964, ele não me delatou. Rossi não é um delator, pelo contrário, um homem digno e honrado.
A Celso Giglio, meus parabéns pela coragem de desengavetar e dar prosseguimento a bons projetos, ainda que sejam de governos anteriores e politicamente adversários.
Ao Silas Bortolosso, minha admiração pela tranquilidade que sempre mostrou para administrar esta complexa cidade que é a nossa Osasco.
A este público que aqui comparece, constituído de irmãos, queridos parentes, amigos, companheiros e cidadãos, agradeço pela paciência de me ouvirem. E acredito que é um público que está formando uma geração que, de fato, está em busca da relação imanente que deve haver entre o Direito e a Justiça como garantia para a formação do cidadão.
Aqui está o título, outorgado por esta Casa legislativa a qual agradeço, e que com certeza vai me permitir, simbolicamente, dedicar a todos aqui presentes, e também aos saudosos ausentes e a todos que constroem não apenas o crescimento e o desenvolvimento, mas também o espírito desta cidade. O TITULO É DE TODOS NÓS.
Este texto foi publicado pelo jornal "Diário de Osasco" setembro de 2006

sábado, 1 de novembro de 2014

"Francisco Julião, uma biografia", de Claudio Aguiar- por João dos Reis



Claudio Aguiar escreveu um livro sobre o líder das Ligas Camponeses (“Francisco Julião, uma biografia”, Civilização Brasileira, R.Janeiro, 2014, 854 pp). Foi o revolucionário que incendiou o Nordeste nos anos 60 - organizou a maior greve de trabalhadores rurais no Brasil. O governo reconheceu o piso salarial dos camponeses da zona canavieira pernambucana e o direito à sindicalização.

FRANCISCO JULIÃO ARRUDA DE PAULA nasceu em 1915 na Fazenda Espera (antes Boa Esperança) em Bom Jardim, Agreste de Pernambuco. Era de família de pequenos e médios proprietários de terras e engenhos. Estudou Direito em Recife. Ainda muito jovem, advogado recém-formado, começa a defender os camponeses. Contra a prática medieval do “cambão”- alguns dias de trabalho gratuito por ano nas terras do senhor. E do “cabocó” - o trabalhador rebelde era colocado longas horas ou mesmo dias seguidos num tanque de água fria na altura da boca.

A primeira vitória foi a expropriação pelo poder público do Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão: as terras e o engenho passam a ser administrados pelos “galileus” em gestão coletiva.

Escreve manifestos, panfletos e cartilhas sobre a questão da terra, organiza protestos e manifestações públicas. Deputado Estadual pelo PSB em 1954 e 1958 e Federal. Participa do debate sobre as reformas de base do governo de Jango Goulart . Com o golpe militar de 1964, vive na clandestinidade até junho; foi preso e esteve em diferentes cárceres - Brasilia, Rio de Janeiro e Recife -, sendo barbaramente torturado. Consegue a liberdade por um habeas corpus impetrado por Sobral Pinto em dezembro de 1965. Parte para o exílio na Iugoslávia, Chile e México. Voltou depois de 14 anos, mas em 1986 volta ao México; morre em 1999.

Um dos documentos escritos por ele, “Bença, mãe”, em 1963, aborda a história dos sindicatos rurais, que surgiram com a organização das Ligas Camponesas. Seu projeto de escrever um livro de memórias (“As utopias de um homem desarmado”) nunca foi concluído.

NOTAS
1) - O envio do convite, pelo Raul, do lançamento do livro em Porto Alegre foi o ponto de partida para escrever esse texto.
2) - Não tenho (ainda) o livro; retirei as informações sobre Francisco Julião do artigo de Carlos Augusto Addor, prof. de História da UFF, no site da "Revista de História".

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Recordando Antonia Carlota Gomes - João dos Reis



"Brasil, um sonho intenso, um raío vívido /De amor e de esperança à terra desce (...) Mas se ergues da justiça a clava forte, / Verás que um filho teu não foge à luta, / Nem teme, quem te adora, a própria morte".
Outubro de 2014, 6 horas da manhã. A Rádio FM Cultura/SP inicia a programação com o Hino Nacional Brasileiro. 1973: começa o dia de trabalho na Escola Estadual “Thomaz Ribeiro de Lima” em Caraguatatuba. Os estudantes se reúnem no pátio e cantam o hino antes do inicio das aulas. Sou Orientador de Educação Moral e Cívica, um cargo criado pelo ditadura militar para despertar o patriotismo nos estudantes. Nas datas cívicas faço um pequeno discurso para o público de alunos e professores.
Recordo dos amigos-companheiros quando as crianças e jovens cantam a música que nos identifica como uma nação, um povo. Camaradas presos, mortos ou desaparecidos. A campanha do “Ame-o ou deixe-o” dos militares golpistas me deixa indignado. Difícil pensar que esse é o país que amamos– e que não queremos abandonar. Durante muitos anos, desde 1973, é a cerimônia inaugural do trabalho escolar. Somente no final dos anos 70 quando assume a direção o professor Euclydes Ferreira, essa rotina é suprimida.
ANTONIA CARLOTA GOMES foi namorada de Antonio Benetazzo, morto sob tortura em 1972, “desaparecido”, depois identificado na Vala de Perus do Cemitério Dom Bosco em Perus. Diretora da escola em que fui professor de Filosofia de 1973 a 1980. Escolhi as aulas em Santos, cheguei na cidade do Litoral Norte, deixei a mala no guarda-volumes da Rodoviária e fui para o colégio. Foi ela que me recebeu, que me indicou um lugar para morar, que me apoiou em todos os momentos nos primeiros anos do magistério. Estava com poucas aulas e ela me nomeou para o cargo de Orientador de EMC. Para ser “aprovado” pela Secretaria de Educação, tinha que obter um atestado de antecedentes políticos dos órgãos de repressão e vigilância da ditadura.
40 anos depois, cada vez que a rádio anuncia o hino brasileiro, essas imagens estão presentes. E a lembrança de Antonia Carlota torna a manhã mais dolorida. Soube que estava doente, conversamos várias vezes por telefone. Fui visitá-la no hospital em S.Paulo, mas estava sedada depois da sessão de quimioterapia. Enviei uma carta dizendo como ela foi importante para mim – usei a palavra escrita para a despedida. A amiga solidária e muito querida nos anos que vivi no litoral caiçara morreu em 1987.
Viajo às vezes para Pindamonhangaba, cidade onde ela nasceu e está sepultada. Sei que ela não lerá esses meus escritos, mas é de quem sempre lembro - com muitas saudades - quando escrevo.

sábado, 11 de outubro de 2014

RECORDANDO Jorge Baptista Filho e o Jornal “Batente”- João dos Reis


RECORDANDO Jorge Baptista Filho e o Jornal “Batente”

Refletindo com o filósofo que conquistou nossos corações e mentes em 1968:

" Essa capacidade para esquecer (...) é um requisito indispensável da higiene mental e física, sem o que a vida civilizada seria insuportável ... (...) Esquecer é também perdoar o que não seria perdoado se a justiça e a liberdade prevalecerem. Esse perdão reproduz as condições que reproduzem injustiça e escravidão: esquecer o sofrimento passado é perdoar as forças que o causaram _ sem derrotar essas forças. As feridas que saram com o tempo são também as feridas que contêm o veneno. Contra essa rendição do tempo, o reinvestimento da recordação em seus direitos, como um veiculo de libertação, é uma das mais nobres tarefas do pensamento. (...) Tal como a faculdade de esquecer, aparece-nos a capacidade para relembrar é um produto da civilização _ talvez a sua mais vetusta e fundamental realização psicológica". (Herbert MARCUSE, “Eros e civilização", Zahar Edit., R.Janeiro, 1981, p.200)

No final dos anos 70, os ventos da anistia e a volta dos exilados trouxeram esperança de retorno à democracia. Antonio Roberto Espinosa e Jorge Baptista Filho, ex-presos políticos, e um grupo de militantes sindicais da oposição (bancários, metalúrgicos, professores) e dos movimentos populares, decidiram criar o “Batente” em Osasco. O jornal teve 13 edições e circulou entre 1979 e 1981 com financiamento da Novib da Holanda. Foram participantes dedicados: meu querido amigo Jesse Navarro, Luis Egipto, João Joaquim da Silva, Marcos L. Martins.

Na experiência inovadora de um jornalismo popular e democrático, convivi com pessoas especiais: José Ramos Neto, Horácio Coutinho, Sérgio Avancine. Acredito que nossa crença é de que era possível desafiar o poder da grande imprensa burguesa. Com noticias produzidas pelos moradores dos bairros e dos lideres do sindicalismo de oposição, investimos nossos sonhos nesse projeto. Lembro de uma conversa com um jovem colaborador: os jornais de bairro nos países europeus também eram a grande novidade em comunicação de massa.

JORGE BAPTISTA FILHO nasceu em 1942 em Cássia (MG). Em 1966, estudante de Jornalismo, foi presidente do DCE da UFMG. Participou do 28º Congresso da UNE em 1968 em Ibiúna. Foi militante do COLINA em Belo Horizonte, e depois da VAR-Palmares. Todos os que o conheceram admiravam a serenidade, a amabilidade, o compromisso com os trabalhadores. Jorge era um dos palestrantes da Frente Nacional do Trabalho: participei do grupo de estudo “Imprensa Popular: um novo jornalismo”, e aprendi a escrever um texto para jornal. Foi um dos fundadores do PT em Osasco; contribuiu para a formação da jovem democracia - e construiu nesse processo a sua cidadania osasquense.

Jorge é um dos personagens da história de Osasco que hoje não está presente: morreu com a mulher e um filho em um acidente de carro em 1986 ; não viveu para participar dos desafios de um novo tempo. Seu filho Manoel sobreviveu ao acidente e foi criado pelos avós em Natal (RN).
(Sou grato ao Espinosa pela revisão e sugestões a esse meu texto).

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Recordando Padre Agostinho- João dos Reis


RECORDANDO
PADRE AGOSTINHO (Marcelo Duarte de Oliveira), monge beneditino
e a pátria latino-americana

No final dos anos 70, surgiu o movimento pela anistia e a provável volta dos exilados. Padre Domingos Barbé, Padre Agostinho, Albertino Souza Oliva, José Groff, participantes da Frente Nacional do Trabalho, da JOC (Juventude Operária Católica),das Pastorais (Operária, Carcerária, de Direitos Humanos, da Juventude), da ACO (Ação Católica Operária) , das comunidades eclesiais de base, discutiram e fundaram em Osasco o Centro de Direitos Humanos. Foi um baluarte durante aqueles anos frente à rede de espionagem e prisões que ainda aconteciam em S.Paulo. Cida Lopes, João Joaquim da Silva, Marinete foram militantes nesse trabalho corajoso.

PADRE AGOSTINHO é o nome que Marcelo Duarte de Oliveira escolheu como monge beneditino. Cursou Direito na USP e fez a opção religiosa já adulto, sendo ordenado em 1967. No trabalho da Pastoral Carcerária no Presidio Tiradentes descobriu em 1969 as torturas e desaparecimentos de presos. Denunciou, junto com Hélio Bicudo, a ação do Esquadrão da Morte do delegado Sérgio Fleury. Em 1980 foi ele que me apresentou ao grupo do psicólogo Jorge Broide da PUC-SP, que discutia as ideias do psicanalista Wilhelm Reich e que trabalhava com crianças de rua em Osasco. Com Cibele Giaconni, durante 5 anos, fiz uma "análise terapêutica”: ela foi a minha amiga querida – tive o privilégio da sua presença na minha vida no inicio dos anos 80.

Viajei em julho de 1978 para a Argentina. Encontrei com Adolfo Perez Esquivel, que ganharia o Prêmio Nobel da Paz em 1980; ele havia sido preso por um decreto do ditador de plantão e solto dias antes da minha chegada. Esquivel me contou que estava muito grato a Dom Paulo Evaristo Arns e à CNBB pela campanha por sua liberdade. Trouxe uma carta pessoal de agradecimento dele ao cardeal brasileiro e à CNBB. Eduardo, que trabalhava no Serpaj-Servicio Paz y Justicia, me recebeu em sua casa, e foi um amigo presente e solicito na minha estadia em Buenos Aires. Visitei junto com ele a associação das mães e parentes de presos políticos, e me mostraram o fichário com as informações dos presos e desaparecidos – foi o momento mais comovente dessa viagem.

Fui para o Chile no final de julho desse ano, 1978; pelos militantes do Serpaj fui informado das prisões, das torturas e desaparecimentos de militantes de esquerda. Na casa onde fiquei alojado, me contaram da morte do músico Vitor Jara -“le cortaran las manos” – depois do golpe militar de 1973: uma imagem que me acompanha até hoje. Estive com meu acompanhante chileno, José Maurício, em um ato pela liberdade dos presos políticos no auditório da PUC de Santiago – um momento histórico nessa viagem. No ano seguinte, Viviane e Sérgio (filho de militante do PC chileno) estiveram refugiados em Osasco. Cida Lopes, Fred e o grupo de jovens da pastoral de direitos humanos da Igreja Imaculada Conceição/km 18 em Osasco, de que eu também participava, lhes deram casa, trabalho, apoio, antes deles partirem para o exílio na Suécia.

Em janeiro de 1979, estive em Assunção no Paraguai. Antes da minha chegada, muitos presos políticos tinham sido soltos e expulsos do país e vindo para o Brasil. Na sede do Comitê de Igrejas, recebi um documento com denúncias de prisões arbitrárias (Eulogio C.C.Zorrila), de atentados (Doroteo Grandel) de prisões por mais de 20 anos (Virgilio Barcero Riveros e Elvero Acostra Aranda). Recebi cartas dos familiares, que não tinham noticias dos que foram banidos, e um dossiê para Dom Paulo Evaristo Arns e para a CNBB. De volta ao Brasil, numa coletiva de imprensa convocada pela Cúria metropolitana, em que estive presente, tornei público o documento e entreguei as cartas - os expatriados viviam em S.Paulo, e lendo o jornal “Folha de S.Paulo” (01/02/1979) procuraram a arquidiocese. Vieram depois para Osasco - Albertino S.Oliva e Marcos L.Martins foram solidários, oferecendo casa, trabalho, apoio.

Padre Agostinho, companheiro e hermano, será sempre lembrado - vive há muitos anos no Mosteiro beneditino de Ribeirão Preto, no interior de S.Paulo.