segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
O Homem do Sertão-Joaquim Belo
Antonio e Joaquim Belo - Dois irmãos, dois Poetas
Quando Deus criou o homem
Para viver no sertão,
Mudou a essência da fórmula
Da primeira criação...
Não usou o barro mole
Com o qual moldou Adão
Fez de quartzo, feldspato e mica,
Extrato da rocha, granito
Para suportar o sol, a seca e o atrito...
Para sobreviver na região
Não basta oração e fé
Tem que ter o couro feito de jacaré
Agilidade felina, astúcia de leão,
Saber esquivar do perigo igual a camaleão.
Aprender a conviver com a morte,
Ás vezes, até invejar a sorte,
Daquele que já morreu...
Onde havia os campos verdes
No grande sertão de outrora,
Aurora do mais belo amanhecer,
Que descia planalto ao pé de serra...
E do baixio ao chapadão...
Hoje, nada mais é do que,
Um raio xis daquele chão...
restos de mata queimada,
Rastos que a chuva nunca apagou...
Fumaças negras que saem do chão,
Das cinzas carbonizadas,
Nas caieiras de carvão.
São léguas e léguas de areias salinizadas,
Nascente de riachos que já não brotam,
Grota, vala, maçaroca e erosão...
Realidade dura que a natureza chora,
Morte prematura da fauna e da flora...
Mais um deserto em formação...
Uma tristeza emana das faces nordestinas...
Saudade do arvorar dos pássaros nas campinas...
A certeza das mortes que se espalham no chão...
Com os voos rasantes das aves de rapinas.
Restos de seres se cruzam a todo instante
Seres de rostos e vozes dissonantes...
Que alguns chamam de peregrinos,
Outros de retirantes...
Ambulantes anônimos, sem nomes.
Sem sorte, sem rumo, sem norte...
Aqui, o nome que se conhece é da fome,
E o rumo que se conhece é da morte.
Era a chuva que fazia do sertão o paraíso.
Pois, do pouco que se colhia...
Se sustentava a família
E ainda sobrava dinheiro...
Para pagar o aluguel
Das terras dos fazendeiros...
Mas quando falta o inverno,
O sertão vira o inferno,
Que Dante não escreveu...
Rondonópolis/MT, 20/01/2013.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Forró em Caruaru Antonio Belo da Silva
Essa aconteceu em Paraíso do Tocantins, entre os anos de 1999 e 2000. Meu irmão Paulo estava de passagem para São Paulo e passou uma semana comigo.
Nesse meio-tempo, entrou em contato com o nosso irmão mais novo, Carlinhos, e combinaram vender camarões para um conhecido restaurante que havia em Palmas: “O Caranguejo”. Tudo acertado, o Carlinhos mandaria um isopor repleto de camarões, de Belém, pelo ônibus da Transbrasiliana; e nós, receberíamos na rodoviária de Paraíso. Já estava acertada a venda ao restaurante.
Aconteceu que o ônibus atrasou – coisa muito difícil de acontecer, não é mesmo?... – e estivemos várias vezes no Box da Transbrasiliana, pedindo informações sobre o horário da chegada. Até mesmo, preocupados com o tempo de viagem; pois camarão é um produto que se estraga com muita facilidade, e o gelo poderia não ser suficiente.
Notamos que, de tanto irmos ao box, acabamos chamando atenção dos dois policiais militares (um dele era cabo) que faziam a ronda na rodoviária que, como se sabe, é um local que atrai golpistas, ladrões e outros meliantes.
O meu carro, um Ford-Fiesta, tinha placa de Arapiraca, Alagoas, que juntamente com Garanhuns em Pernambuco, além de outras cidades do nordeste, goza da fama de ser uma cidade com um grande contingente de pistoleiros. Verdade ou mentira, a má fama existe.
O Paulo, depois que ouviu um dos meus Cds do Jackson do Pandeiro, não queria ouvir outra coisa, pois passou um longo tempo longe da terrinha, e lá pras bandas do norte o Jackson não era muito cultuado. Hoje a coisa é bem diferente...
Lá pela quarta ou quinta vez que paramos no estacionamento da rodoviária para sabermos do ônibus que nunca chegava, o toca fita do carro estava tocando “Forró em Caruaru”, em um volume suficiente para ser ouvido lá da calçada da rodoviária, de onde os PMs já estavam de olho em nós...
E o Jackson, sem cerimônia, não tava nem aí:
“No forró de Siá Joaninha em Caruaru,
cumpade Mané Bento só faltava tu”...
depois...
“Nas alta madrugada
Por causo de uma danada que vêi de Tacaratu...
Matemo doi sordado, quato cabo e um sargento
Cumpade Mané Bento só faltava tu”...
Aí os PMs, “apelaram”: aproximaram-se com cara de quem não estava gostando, as mãos sobre as armas, e:
- documentos, por favor, e mantenha as mãos sobre o volante; e o senhor aí, referindo–se ao Paulo, sobre a cabeça...
- O que é isso, “seu” guarda? Somos de paz...
Mostrei-lhe logo minha carteira do CREA, com foto de 1976. Ele olhou detidamente. Devo admitir que o original atual, não fazia muita justiça à foto; os cabelos, parecendo com os de uma foto muito conhecida do Benito de Paula, há muito já tinham ido embora... mas o bigode, ah! esse era inconfundível e continuava preto como antes, e assim continuou até ser removido inapelavelmente em 2012.
- O que é que vocês tanto procuram aqui? Estão esperando alguém?
Expliquei detalhadamente que estávamos esperando um “carregamento” de camarão, etc e tal e que o ônibus estava atrasado e, portanto, estávamos preocupados.
- E o que quer dizer essa música aí?
Não aguentamos, eu e o Paulo, e caímos na gargalhada...
03 de janeiro de 2013
E para vocês conhecerem a íntegra da letra da música que ouvíamos, aí está:
Forró em Caruaru
Jackson do Pandeiro (Zé Dantas)
No forró de Sá Joaninha em Caruaru...
Cumpade Mané Bento só faltava tu (2x)
Cumpade Mané Bento só faltava tu (2x)
Eu nunca vi, meu cumpade
Forgansa tão boa
Tão cheia de brinquedo e de animação
Bebemo na função, dançamo sem parar
Num galope de matar
Forgansa tão boa
Tão cheia de brinquedo e de animação
Bebemo na função, dançamo sem parar
Num galope de matar
Nas alta madrugada
Por causo de uma danada que vêi de Tacaratu...
Matemo doi sordado, quato cabo e um sargento
Cumpade Mané Bento só faltava tu
No forró de Sá Joaninha em Caruaru
Cumpade Mané Bento só faltava tu (2x)
Cumpade Mané Bento só faltava tu (2x)
Meu irmão Gisuíno grudou numa nêga
Xamego de sujeito valente e brigão
Eu vi que a confusão não tardava a começá
Pois um cabra de punhá
Com cara de assassino
Partiu pra Gisuíno e tava feito o sururu
Matemo doi sordado, quato cabo e um sargento
Cumpade Mané Bento só faltava tu
Xamego de sujeito valente e brigão
Eu vi que a confusão não tardava a começá
Pois um cabra de punhá
Com cara de assassino
Partiu pra Gisuíno e tava feito o sururu
Matemo doi sordado, quato cabo e um sargento
Cumpade Mané Bento só faltava tu
No forró de Sá Joaninha em Caruaru
Cumpade Mané Bento só faltava tu (2x)
Cumpade Mané Bento só faltava tu (2x)
Ao doutor delegado que é veio, trombudo
Eu disse que naquela grande confusão
Houve apena uns arranhão
Mas os cabra morredô
Nesse tempo de calô tem a carne reimosa
O véio zombou da prosa eu fugi do Caruaru!
Matemo doi sordado, quato cabo e um sargento
Cumpade Mané Bento só faltava tu
Eu disse que naquela grande confusão
Houve apena uns arranhão
Mas os cabra morredô
Nesse tempo de calô tem a carne reimosa
O véio zombou da prosa eu fugi do Caruaru!
Matemo doi sordado, quato cabo e um sargento
Cumpade Mané Bento só faltava tu
No forró de Sá Joaninha em Caruaru
Cumpade Mané Bento só faltava tu (2x)
Cumpade Mané Bento só faltava tu (2x)
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Rômulo, meu irmão - Risomar Fasanaro
Ela não chega de repente. Antes estende uma nuvem cinza que invade a casa. Tudo perde o brilho: os móveis, os bibelôs. É como se há anos a casa estivesse abandonada, e a poeira cobrisse tudo.
Mas não é essa poeira que todos nós conhecemos, é algo mais denso, mais forte que nos entra pelos poros, e vai nos tomando aos poucos, em compasso de espera, até que ela chega. Inteira. E nos encharca por inteiro.
A morte. É assim que a sinto. A casa antes tão clara, tão cheia de luz, onde o vento entra balançando as folhas das plantas, às vezes tão forte que derruba algo, de repente paralisa tudo. Tudo se cala.
Foi assim que ficou a casa com a partida do meu irmão. Aquele irmão que era só silêncio. Que de tão calado, eu dizia – antes de casar ele falava pouco, agora ficou mudo. E todos riam dessa verdade tão dura.
O que guardaria ele dentro daquele coração de criança, incapaz de uma palavra áspera, de um gesto de desagrado, de um momento de insensatez?
O que sentiria ele com aqueles olhos expressivos, extremamente escuros, ao ver as barbáries do mundo, se ao ver uma formiga entrar na sala, levantava-se, deixava o que estivesse fazendo, para levá-la até à rua, para que ninguém a esmagasse?
Ele que guardava as sementes de todas as frutas que comia, que as plantava para doar a quem tinha terra, já que nos últimos tempos morava em uma casa sem quintal?
Lembro-me de que nos anos 80 ele sabia de cor quantas árvores havia na rua Pedro Fioretti, e em contagem regressiva, lamentando muito, ia me contando uma a uma quantas árvores tinham sido abatidas, até que nenhuma mais houve e ele se calou.
Era assim meu irmão. Com sua câmera fotográfica gostava de captar os pequenos brotos que teimosamente nasciam dos troncos cortados, para mostrar a força da vida. Tanto quanto eu, revoltou-se quando dizimaram as 3.400 árvores da reserva atlântica que havia na cidade. Ouvi dele um “longo” discurso de protesto: ” absurdo”, que repetiu três vezes. Foi a única ocasião que vi a fúria em seus olhos. Olhos que primavam por uma “ternura sem igual” como disse sempre minha amiga Juçara Rodrigues. Aqueles olhos falavam, não precisavam de boca.
Quatro gerações: João, Rômulo, Rômulo /filho e Klaus
Com ele aprendi muito cedo a amar os indígenas. Todos os anos, quando solteiro, ele ia a Goiás, e ficava entre os carajá. De lá trazia peças de arte deles. Nos anos 60 ganhei dele duas peças em madeira que guardo como relíquia ( e é).
Ao receber o título de cidadão osasquense, no ano passado, chamado a falar ele fez um longo discurso. Disse aos presentes: “muito obrigado”. Era assim meu irmão que partiu.
Enquanto o outro, Paulo, esbanja notas musicais em seu bandolim, e as duas irmãs falam sem parar, ele nos ouvia e se calava.
Meu irmão Rômulo fotografou esta cidade palmo a palmo, de ponta a ponta, desde os 14 anos. Difícil para todos nós da família, percorrê-la agora, pois a lembrança dele está em cada rua, em cada esquina, em cada viaduto...
Aí ele entre seus companheiros de trabalho...
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
RETALHOS DA VIDA Joaquim Belo da Silva
No dia 04 de Novembro, Dona Julieta, minha saudosa mãe,
faria 92 anos. Eu escrevi esse relato para homenagear uma mulher de fibra que
passou pela vida sem vivê-la plenamente, pois toda ela, foi-nos dedicada, aos
filhos e por bem pouco, bem pouco mesmo, não se tornou uma das mães da Plaza de
Mayo.
Quando eu li “A Mãe”, do escritor russo Máximo Gorki, senti
que Pelágia, tinha muitos nomes e muitas nacionalidades, inclusive, poderia
muito bem chamar-se Julieta. As transformações das pessoas se dão
quando elas se conscientizam e descobrem que a fome e a miséria não são
determinadas por Deus, mas pelas consequências de uma sociedade centralizadora,
injusta, cruel e desumana.
Estávamos no período mais duro da ditadura militar. Os
militares tinham iniciado a globalização da tortura e do desrespeito aos
direitos humanos, abrindo mão das fronteiras e da soberania nacional,
permitindo que qualquer agente de outro país entrasse em seus territórios em
busca de terroristas, como assim eles tratavam aqueles que se manifestavam
contra a opressão, e lutavam pela volta do estado de direito. Era a operação
Condor. Vou omitir as datas, porque, com certeza, seria corrigido pelo meu
irmão Antonio Belo.
Minha irmã, Maria
Inês da Silva e o Namorado, Abiasaf Xavier de Brito, que haviam saído
recentemente da prisão aqui no Brasil, aproveitaram os ventos da liberdade e
fugiram para o Chile. Primeiro ele, ela
depois.
No Chile, o governo Socialista de Salvador Allende lutava
contra o boicote econômico patrocinado pelo governo americano, “arautos da democracia e respeitadores dos
direitos humanos”, como sempre se apresentaram para o resto do mundo. O governo
democrático de Salvador Allende caiu em 11 de Setembro de 1973 e instalou-se no
país, talvez a mais cruel ditadura já vista em nosso
continente, sob o comando do general fascista Augusto Pinochet.
Diante das circunstâncias, foram eles obrigados a fugir para
a Argentina, país que ainda estava sob um regime democrático. Mas o vírus da
ditadura se alastrava como erva daninha pela América do Sul. O governo daquele
país também caiu, instalando-se mais uma
sangrenta ditadura em nosso continente, ficando à frente do governo, o General
Carlos Rafael Videla, que se celebrizou por se revelar o maior torturador da
ditadura argentina.
Inês e Abi foram
presos e torturados nos porões da ditadura argentina, em companhia de mais dois
outros brasileiros. A mãe de um dos prisioneiros, residente no estado de Goiás, de volta da Argentina, após a visita e a libertação
do filho preso, colocou uma nota no jornal “O Popular” de Goiás, sobre a
situação de penúria em que Inês e Abi se encontravam, nos cárceres da ditadura
do governo Rafael Videla”. Uma senhora de nome Aurora Baú, recortou e me enviou
aquela nota publicada no Jornal. Como
ela descobriu meu endereço, até hoje é um mistério...
Começamos a nos movimentar no sentido de libertar o
casal; ou pelo menos tornar pública as prisões, evitando assim que mais dois corpos não identificados
aparecessem boiando nas águas do Rio da Prata. Uma missão que não era fácil
dentro do contexto político não só da Argentina, mas de todos os países
Latino-americanos.
Por mais que
tentássemos esconder o fato de Dona
Julieta, a nossa mãe, era uma missão praticamente impossível, pois ela era
muito perspicaz, capaz de antever coisas incríveis em relação aos filhos. Certa
vez viajei de Anápolis, estado de Goiás, para o Recife, sem avisar a ninguém,
pois se eu avisasse ela iria fazer despesas extras e desequilibrar o orçamento
doméstico. Mas, inexplicavelmente, quando eu cheguei, ela tinha feito uma
peixada de Cioba e doce de ovos que era a minha paixão. Sorriu e disse: eu não
falei que Joaquim iria chegar?...
À mediada que o tempo
ia passando, ficava cada vez mais difícil manter a história em segredo. Quando
ela finalmente tomou conhecimento dos fatos, com firmeza e determinação começou a movimentar-se, e teve uma reação
oposta à que todos imaginavam. Sua primeira providência foi fazer uma carta para
o Sr. Carlos Rodriguez, do Alto Comissariado das Nações Unidas, carta essa que
foi lida e colocada nos anais da Assembleia Legislativa do estado de
Pernambuco, pelo jovem Roberto Freire, na época um aguerrido deputado que,
junto com Maurílio Ferreira Lima, era uma das poucas vozes que tinha coragem de
se manifestar contra o regime militar.
Dona Julieta fez uma
reunião com os filhos e disse: estou indo para Buenos Aires tirar minha filha
da prisão. A surpresa foi geral. Tentamos demovê-la da ideia com todas as ponderações possíveis: que ela
não sabia falar espanhol e que Buenos Aires era na época uma cidade maior do
que São Paulo e tantos outros inúteis argumentos. Os amigos e conhecidos
começaram a se manifestar e conseguiram passagens, dinheiro, roupas, e outras providências mais.
Na véspera de sua viagem, chegou uma carta das Nações Unidas
comunicando que os dois haviam sido
libertados e aceitos pelo governo da Bélgica como exilados políticos. Onde
permanecem até os dias atuais.
Dona Julieta vive hoje em outra dimensão, a dimensão dos
nossos pensamentos. Vive em nossa memória, nas canções que gostava de cantar.
Vejo-a como se fosse um filme, sentada em sua inseparável máquina Singer,
costurando os retalhos da vida ou em frente do velho fogão à lenha cozinhando
as ilusões que matavam nossa fome.
Entre todas as lembranças, talvez a mais comovente seja a
sua luta obsessiva para nos manter vivos e saudáveis, época em que havia um
elevadíssimo índice de mortalidade infantil e tinha para isso um arsenal
terrível tanto para os inimigos externos que queriam se apropriar indevidamente
do pão nosso de cada dia - os vermes - quanto para nós, as vítimas: Sementes de
mamão, Biotônico Fontoura, Emulsão Scott, que era um extrato de óleo de fígado
de Bacalhau - acredito que seja muito bom para memória, pois nunca mais consegui
esquecer aquele gosto horrível.
Lembro-me que ela apanhava limalhas de ferro na oficina de
um ferreiro que tinha perto da nossa casa, em Betânia, colocava dentro de uma
vasilha com água e depois de sete dias nos dava para ingerir àquela água
ferruginosa, que era para repor o ferro subtraído pelo inimigo. Pela saúde,
energia e disposição que têm todos os seus filhos, acredito que tenham sido
eficazes, as suas fórmulas artesanais. Uma coisa é certa: foi eficaz o exemplo
de amor e determinação de uma mulher e mãe extraordinária.
Belém, 02 de Novembro de 2012.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Eudes, este era seu nome, hoje estaria completando 70 anos, daí a homenagem que sua irmã, minha amiga Alfredina Nery, lhe presta nesta data. Leiam esta beleza de texto:
Uma vida sob uma perspectiva
Dina
30/outubro/2012
Meu irmão nasceu de um grande amor: ela, viúva jovem, ele, solteiro, filho único. Mas como não eram casados, ele só soube do menino, quando este já tinha dois anos. Duas certidões de nascimento sempre foram o grande segredo da nossa infância. Havia algo, dito aos sussurros, que, à época não entendíamos.
Filho mais velho de cinco começou cedo a trabalhar. Com nove anos, entregava remédios da farmácia nas casas da pequena cidade do interior de São Paulo. Lá ía ele na bicicleta do farmacêutico, com suas pernas curtas enfiadas entre o cano e os pedais. Aos onze anos foi trabalhar em uma oficina mecânica. Era preciso ajudar no orçamento da família. Escola? Era suficiente ter o curso primário.
E o menino já fazia sucesso entre as meninas, com aqueles olhos enormes e expressivos. Também já mostrava sua inventividade, como curioso e habilidoso que era. Um dia, invejando a liberdade dos pássaros quis voar. E como Ícaro moderno, criou umas asas, colocou-as amarradas nos pequenos e magros braços , subiu no forno à lenha, no quintal. e...triunfante...esborrachou-se no chão! Contudo, ali estava plantada a semente: nunca o chão era suficiente. Sonhar com a liberdade ficou sendo seu jeito de ser.
Aos dezoito anos, a grande mudança. A família mudou para a capital, em busca de vida melhor. Ele continuou sonhador, namorador e sedutor. Na cidade grande, continuou sendo operário. E, ao mesmo tempo, um sentimento de inadaptação à vida comum de família comum: levantar cedo, trabalhar, esperar o salário no final do mês, não consumir nada além da necessidade. Para ampliar isto, muita música, bailes e moças bonitas. A alegria da vida sorvida, como se o fim estivesse próximo ( e estava...).
Um dia fez, com as próprias mãos e com a ajuda da mãe, um barco de madeira, para navegar nas águas de um rio próximo. Muita diversão, ele proporcionou com mais uma das suas invencionices. Novamente, a ideia de viajar, de ampliar horizontes dava o seu toque naquela vida!
A irmã mais nova nunca se esqueceu de uma de suas tarefas diárias: ir levar o almoço quentinho preparado pela mãe a ele, na fábrica de trens em que trabalhava. Ela chegava, assim, menina, também de grandes olhos. E lá estava ele, de macacão sujo de graxa, mas lindo como sempre, recebendo-a com aqueles olhos inesquecíveis e um grande sorriso, pela marmita que matava a fome que, na época, era possível matar. Ah, se ela tivesse podido ajudar a matar outras fomes tantas que ele teve, ao longo de sua curta vida...
Um dia, uma decisão: ser torneiro mecânico não dava mais. Ele queria viver outras paragens. Ícaro dava, de novo, a direção: era necessário voar, buscar a liberdade! Tornou-se vendedor de ações, uma novidade na época. Passava dias e semanas longe da família, viajando, trabalhando e sorvendo a vida, em tudo que ela podia oferecer a ele. E, quando retornava, trazia a alegria de volta no coração da mãe e na imaginação dos irmãos que ficaram, que viveram, no cotidiano, as durezas e as alegrias de uma família brasileira comum. Ele trazia nos olhos e nos seus relatos a alegria da viagem, novamente. Isto nos alimentava e nos dava a possiblidade de, um dia, também sermos Ícaros, como ele!
Namorou muito, mas um dia, resolveu que se casaria. A surpresa foi a escolha, pois, entre as mulheres independentes e glamurosas que namorara, escolheu uma tímida moça. Pequena, perto dele. Muito quieta perto do brilho da fala dele. A dura realidade econômica bateu, mais uma vez, à porta. Ele voltou a ser torneiro mecânico. Tornou a usar um macacão sujo de graxa.
Nasceu o primeiro filho. Parecido com ele. A paixão dele pelo filho emocionava a todos. Sempre gostou de levar o filho para ir ver os enormes caminhões que estacionavam em um posto de gasolina. Nasceu outro filho e junto com ele, a função de pai se sobrepôs a todas. O pai carinhoso e paciente com as diabruras infantis continuava.
Entretanto, uma das parcas já tinha selado seu destino. Ele tinha pouco tempo para viver. Um câncer fulminante matou-o aos trinta e oito anos de idade. Um filho com seis anos e o outro, com dois. Novamente, a irmã mais nova estava lá, quando de sua passagem, no hospital. Ele pediu a ela, antes do fim, que o ajudasse a sentar na cama porque queria ver a enorme árvore que havia lá fora, perto da janela. Novamente, a viagem se pôs. Mais uma vez, seus olhos grandes e expressivos olharam, profundamente, aquela manhã de sol, como uma despedida. As asas de Ícaro foram cortadas tão cedo!
Hoje, ele faria setenta anos. Não consigo deixar de pensar como seria sua vida, a nossa vida, se ele estivesse vivo. O que mais Ìcaro teria podido viver? Que pessoa ele teria se tornado, com o amadurecimento? Como estariam seus olhos expressivos, hoje? Quais viagens ele nos proporia?
domingo, 15 de julho de 2012
Antonio Belo: 4 poemas e uma crônica
Metamorfose
Quando amanheci
Me convenci
Que “aquilo” não era eu
Fui consultar os oráculos
Mas nenhum me convenceu...
Cabeça de leão,
Corpo de águia,
Destino de Prometeu?
Ou, quem sabe,
De Cervantes,
Herdei o que era meu...
Coração dilacerado
Procurando o que perdeu
**O Mar e as Rosas
O perfume das rosas,
Tem vida efêmera.
Como o amor,
Só duram uma noite:
Aquela noite que faltou
Quantas noites não vividas
E outras que nunca virão
Como aplacar o desejo?
Latente no coração...
Do outro lado do mar
Rosas me esperam
Rosas mudas,
Rosas flor?
Ou em buquês
Prá disfarçar
O cheiro de morte
A morte do amor
13-06-2012
A Felicidade é um mistério:
Impossível penetrar.
é a distância entre o real
e o virtual
medida em escala
infinitesimal.
Imaterial, não se encontra em bazar
mas tem um preço
o qual não posso pagar.
O Último pacote
Aquele
pacote queimou-me as mãos. A Josi ligara dizendo: Belinho, tem uma encomenda
para você, pode passar aqui? Sabia do que se tratava, quase lhe conhecia o
conteúdo: Cds, Cds, Cds. Música da melhor qualidade e o dicionário digitalizado,
de Antonio Houaiss, que iria me ajudar no entendimento das novas regras de
ortografia e gramática com as quais deveria preparar-me para a tarefa, tantas
vezes adiada, de escrever um livro...
Pensei:
para que vou aprender tudo isso? Essas regras têm um período de carência de dez
anos para entarem em vigor. Dez anos...é muito tempo! Será que estarei vivo até
lá? Será que em dez anos não teria
concluído o tal livro e, assim, dispensaria o entendimento das tais regrinhas?
Conformei-me; ou melhor: desesperei-me! Se até aos sessenta e quatro ainda não
escrevera nada que prestasse, como esperar que em apenas dez, conseguisse? Sem
querer, estava utilizando-me da Lei de Relatividade. Pois o tempo nem é curto
nem longo, depende do que se planeja fazer....acho melhor aprender as tais
regras, posso precisar delas. Entretanto, vou entrar com uma ação indenizatória
contra, contra, contra quem? Afinal, eu perdi tantos anos estudando as regras
antigas para agora não servirem para nada?
A presidenta que me aguarde...
Mas, o
pacote? Ah, o pacote. Passei na seção após o almoço e o peguei. Não tinha
ninguém na sala. Levei-o embaixo do braço para o meu local de trabalho, lá é
que deveria abrí-lo, longe da presença de curiosos. Estava em pânico. Como
abrir aquele pacote, sabendo que seria o último? Veio-me à memória o poema do
Joaquim Cardozo: "A Visão do Último Trem Subindo ao Céu", que relera
recentemente. Por que não deixá-lo do jeito que estava; assim, adiando aquela
ruptura de um relacionamento que mal começara, mas que tinha sido tão intenso?
Olhei a data: o carimbo dos Correios indicava cinco de junho. Hoje é doze. Ou
são doze? Meus Deus, parece que preciso mesmo das tais "Novas Regras"
da Língua Portuguesa...
Pois é,
em apenas sete dias, quanta coisa mudou.
É certo que, a apenas dois dias da postagem, senti nas
"entrelinhas" que algo mudara. Aquele ultimato estava bem claro:
"não posso esperar quatro, seis anos...meu tempo se esvai. E se eu arranjar
companhia, um namorado, será bom para você?"...
Aquilo
deixou-me apavorado, perplexo. Sabia que quando ela tomava uma decisão era prá
valer. Foi assim o fim do primeiro casamento, conforme li no seu livro
autobiográfico; e em outras decisões igualmente difíceis. Pensei: o que é que
eu vou fazer? Pensei pior: se já não houvesse nada a fazer? Cobrança nesse sentido já tinha havido, é
certo, mas nenhuma com aquele veemência e aquela condição apavorante. Será que
já não tem? Pensei e me angustiei. Chorei aquele choro rouco e desesperado dos
que se sentem traídos, dos que perderam tudo, até a esperança de vida...
Minha
resposta fora breve, lacônica e mordaz. Afinal, até aquele momento, ainda me
sentia seguro, senhor de mim e de um fascínio que julgava possuir. Ledo engano.
Nos dias seguintes, nem uma resposta, o mais absoluto silêncio...
Enfim,
quando recebi aquele telefonema, comunicando a chegada do pacote, sebia que
seria o último; o fechamento de um ciclo que não se fechou, de uma vida que não
vivi, de uma paixão que não se apagou.
Palmas, 12 de junho de 2012
Não importa a nota
em que Mi tocas
Dó Ré ou Fá,
Prá Lá da clave de Sol,
em sustenido ou bemol...
Si não existe,
Eu invento!,
A nota Ti ...
O que importa:
és a canção
que Mi toca o coração...
Antônio Belo
Araguaína-Araguatins,
10/11.07.12
domingo, 1 de julho de 2012
6 Poemas do poeta Alberto Oliveira
Alberto Oliveira
Lembras do carro de boi
Das cantigas de cocão
De um tempo que se foi
E de um certo baião?
O que escuto hoje em dia
É rima sem poesia
E os versos sem beleza...
No céu Zé Dantas calado
Marcolino envergonhado
Luiz Lua na tristeza.
Não te desejes primeiro
Do sonho e da vastidão
Usa o sentido e razão
Não digas eu sou herdeiro
É difícil essa jornada
Muito longa a caminhada
Para um baião inventar...
As loas metrificadas
E rimas sem dizer nada
E um baião a faltar.
Tu te lembras do cocão
Carro de boi pela serra?
Segue nessa direção
E chega ao meio da terra
Tu vais encontrar ali
Beija Flor e Maturi
A carregar meu baião...
E um carreiro feliz
Tangendo a própria raiz
Da toada do meu chão
***
AMIZADE
I
Amizade não comporta
Caminhar numa só via
Lembrança dum negro dia
Nada disso ela suporta...
II
Amizade não tem porta
De saída ou de entrada
Amizade é como estrada
Pra se caminhar a dois...
III
Pra num futuro depois
Vir saudade da jornada...
IV
Amizade não precisa
De afago e de carinho
nem que se mostre o caminho
do sol, do mar e da brisa
Ela é concreta e concisa...
V
Um gesto deseducado
No presente ou no passado
Afastará para um lado
Amigo de toda hora
O fim será no agora
Um do outro separado...
VI
São duas vias somente
Que cabem na amizade...
VII
Compreensão, lealdade
E um ao outro se dar
Sem ter pressa de cobrar
A paga acaso devida...
VIII
Só assim a nossa lida
Terá sentido e razão
Navegar não foi em vão
Pelas trilhas dessa vida!
AS CRIANÇAS E AS PLANTAS
As crianças são anunciadas pelos ventos...
E chegam à vida,
cavalgando o corcel do sol.
São anunciadas também,
pela chuva fina, que prenuncia a lua
e fecunda a terra.
Ao chegarem,
enchem de amor e prazer,
o coração dos Pais. E dos Poetas.
O CORDELISTA
Na mente crias as imagens
Arruma por um momento...
Matuta no pensamento
As mais diversas paisagens
E assim nessas viagens
No oficio a trabalhar
No papel vai anotar
Com lápis firme na mão
Traz o céu bota no chão
Põe o mundo pra girar!
***
O Artesão
Com as mãos molda as imagens
A madeira é seu tesouro
Com os dedos passa o ouro
Do tronco sai mil miragens
E assim nas engrenagens
Oficio da criação
Pra ele o verso e canção
E meu profundo respeito
Só sei dizer desse jeito
A minha admiração.
***
Quem é Alberto Oliveira
Alberto Oliveira nasceu em Caiçara, Paraíba. É casado, tem duas filhas e três netos. Mora no bairro do Derby, no Recife.
Consultor dos Projetos Livraria Expressa, Biblioteca Expressa, Cordel no Meio do Mundo, Plantando Sementes e Cultura da Terra.
Sólida experiência na área de organização e métodos, comando de equipes e desenvolvimento de Projetos na área cultural. Escritor e Poeta.
Experiência Profissional
1965 a 1995 – Colaborador do Banco do Nordeste do Brasil S/A, onde exerceu as mais diversas funções.
Desde 1995 – Atuando exclusivamente na área cultural, onde já desenvolveu diversos Projetos. Dentre eles, merecem destaque: Livrarias Expressas, Cultura nas Escolas e Universidades, Luz no Verso, Cultura da Terra, etc...é o Coordenador do grupo UZYNA CULTURAL.
Autor de Livros e Cordéis, merecendo destacar: Sertão Despedaçado e Pelas Trilhas do Repente no Nordeste Brasileiro. Fez parte do grupo musical A uZyna, com 01 CD lançado em 2006: Cantigas de Sertões.
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