domingo, 15 de julho de 2012

Antonio Belo: 4 poemas e uma crônica


Metamorfose

Quando amanheci
Me convenci
Que “aquilo” não era eu
Fui consultar os oráculos
Mas nenhum me convenceu...

Cabeça de leão,
Corpo de águia,
Destino de Prometeu?

Ou, quem sabe,
De Cervantes,
Herdei o que era meu...
Coração dilacerado
Procurando o que perdeu
**O Mar e as Rosas

O perfume das rosas,
Tem vida efêmera.
Como o amor,
Só duram uma noite:
Aquela noite que faltou

Quantas noites não vividas
E outras que nunca virão
Como aplacar o desejo?
Latente no coração...

Do outro lado do mar
Rosas me esperam
Rosas mudas,
Rosas flor?

Ou em buquês
Prá disfarçar
O cheiro de morte
A morte do amor
13-06-2012
                                                     
A Felicidade é um mistério:

Impossível penetrar.

é a distância entre o real

e o virtual

medida em escala

infinitesimal.

Imaterial, não se encontra em bazar

mas tem um preço

o qual não posso pagar.


O Último pacote

             Aquele pacote queimou-me as mãos. A Josi ligara dizendo: Belinho, tem uma encomenda para você, pode passar aqui? Sabia do que se tratava, quase lhe conhecia o conteúdo: Cds, Cds, Cds. Música da melhor qualidade e o dicionário digitalizado, de Antonio Houaiss, que iria me ajudar no entendimento das novas regras de ortografia e gramática com as quais deveria preparar-me para a tarefa, tantas vezes adiada,  de escrever um livro...
              Pensei: para que vou aprender tudo isso? Essas regras têm um período de carência de dez anos para entarem em vigor. Dez anos...é muito tempo! Será que estarei vivo até lá?  Será que em dez anos não teria concluído o tal livro e, assim, dispensaria o entendimento das tais regrinhas? Conformei-me; ou melhor: desesperei-me! Se até aos sessenta e quatro ainda não escrevera nada que prestasse, como esperar que em apenas dez, conseguisse? Sem querer, estava utilizando-me da Lei de Relatividade. Pois o tempo nem é curto nem longo, depende do que se planeja fazer....acho melhor aprender as tais regras, posso precisar delas. Entretanto, vou entrar com uma ação indenizatória contra, contra, contra quem? Afinal, eu perdi tantos anos estudando as regras antigas para agora não servirem para nada?  A presidenta que me aguarde...
              Mas, o pacote? Ah, o pacote. Passei na seção após o almoço e o peguei. Não tinha ninguém na sala. Levei-o embaixo do braço para o meu local de trabalho, lá é que deveria abrí-lo, longe da presença de curiosos. Estava em pânico. Como abrir aquele pacote, sabendo que seria o último? Veio-me à memória o poema do Joaquim Cardozo: "A Visão do Último Trem Subindo ao Céu", que relera recentemente. Por que não deixá-lo do jeito que estava; assim, adiando aquela ruptura de um relacionamento que mal começara, mas que tinha sido tão intenso? Olhei a data: o carimbo dos Correios indicava cinco de junho. Hoje é doze. Ou são doze? Meus Deus, parece que preciso mesmo das tais "Novas Regras" da Língua Portuguesa...
               Pois é, em apenas sete dias, quanta coisa mudou.  É certo que, a apenas dois dias da postagem, senti nas "entrelinhas" que algo mudara. Aquele ultimato estava bem claro: "não posso esperar quatro, seis anos...meu tempo se esvai. E se eu arranjar companhia, um namorado, será bom para você?"...
              Aquilo deixou-me apavorado, perplexo. Sabia que quando ela tomava uma decisão era prá valer. Foi assim o fim do primeiro casamento, conforme li no seu livro autobiográfico; e em outras decisões igualmente difíceis. Pensei: o que é que eu vou fazer? Pensei pior: se já não houvesse nada a fazer?  Cobrança nesse sentido já tinha havido, é certo, mas nenhuma com aquele veemência e aquela condição apavorante. Será que já não tem? Pensei e me angustiei. Chorei aquele choro rouco e desesperado dos que se sentem traídos, dos que perderam tudo, até a esperança de vida...
               Minha resposta fora breve, lacônica e mordaz. Afinal, até aquele momento, ainda me sentia seguro, senhor de mim e de um fascínio que julgava possuir. Ledo engano. Nos dias seguintes, nem uma resposta, o mais absoluto silêncio...
               Enfim, quando recebi aquele telefonema, comunicando a chegada do pacote, sebia que seria o último; o fechamento de um ciclo que não se fechou, de uma vida que não vivi, de uma paixão que não se apagou.
                                                                                Palmas, 12 de junho de 2012

 A oitava nota

Não importa a nota
em que Mi tocas
Dó Ré ou Fá,
Prá Lá da clave de Sol,
em sustenido ou bemol...
Si não existe,
Eu invento!,
A nota Ti ...
O que importa:
és a canção
que Mi toca o coração...

Antônio Belo
Araguaína-Araguatins,
10/11.07.12

domingo, 1 de julho de 2012

6 Poemas do poeta Alberto Oliveira



CERTOS HERDEIROS
Alberto Oliveira

Lembras do carro de boi
Das cantigas de cocão
De um tempo que se foi
E de um certo baião?
O que escuto hoje em dia
É rima sem poesia
E os versos sem beleza...
No céu Zé Dantas calado
Marcolino envergonhado
Luiz Lua na tristeza.

Não te desejes primeiro
Do sonho e da vastidão
Usa o sentido e razão
Não digas eu sou herdeiro
É difícil essa jornada
Muito longa a caminhada
Para um baião inventar...
As loas metrificadas
E rimas sem dizer nada
E um baião a faltar.



Tu te lembras do cocão
Carro de boi pela serra?
Segue nessa direção
E chega ao meio da terra
Tu vais encontrar ali
Beija Flor e Maturi
A carregar meu baião...
E um carreiro feliz
Tangendo a própria raiz
Da toada do meu chão

***
AMIZADE
I
Amizade não comporta
Caminhar numa só via
Lembrança dum negro dia
Nada disso ela suporta...

II
Amizade não tem porta
De saída ou de entrada
Amizade é como estrada
Pra se caminhar a dois...

III
Pra num futuro depois
Vir saudade da jornada...

IV
Amizade não precisa
De afago e de carinho
nem que se mostre o caminho
do sol, do mar e da brisa
Ela é concreta e concisa...

V
Um gesto deseducado
No presente ou no passado
Afastará para um lado
Amigo de toda hora
O fim será no agora
Um do outro separado...

VI
São duas vias somente
Que cabem na amizade...

VII
Compreensão, lealdade
E um ao outro se dar
Sem ter pressa de cobrar
A paga acaso devida...

VIII
Só assim a nossa lida
Terá sentido e razão
Navegar não foi em vão
Pelas trilhas dessa vida!

AS CRIANÇAS E AS PLANTAS


As crianças são anunciadas pelos ventos...
E chegam à vida,
cavalgando o corcel do sol.
São anunciadas também,
pela chuva fina, que prenuncia a lua
e fecunda a terra.
Ao chegarem,
enchem de amor e prazer,
o coração dos Pais. E dos Poetas.




O CORDELISTA
Na mente crias as imagens
Arruma por um momento...
Matuta no pensamento
As mais diversas paisagens
E assim nessas viagens
No oficio a trabalhar
No papel vai anotar
Com lápis firme na mão
Traz o céu bota no chão
Põe o mundo pra girar!
***

O Artesão
Com as mãos molda as imagens
A madeira é seu tesouro
Com os dedos passa o ouro
Do tronco sai mil miragens
E assim nas engrenagens
Oficio da criação
Pra ele o verso e canção
E meu profundo respeito
Só sei dizer desse jeito
A minha admiração.
***

Quem é Alberto Oliveira

Alberto Oliveira nasceu em Caiçara, Paraíba. É casado, tem duas filhas e três netos. Mora no bairro do Derby, no Recife.
Consultor dos Projetos Livraria Expressa, Biblioteca Expressa, Cordel no Meio do Mundo, Plantando Sementes e Cultura da Terra.
Sólida experiência na área de organização e métodos, comando de equipes e desenvolvimento de Projetos na área cultural. Escritor e Poeta.
Experiência Profissional
1965 a 1995 – Colaborador do Banco do Nordeste do Brasil S/A, onde exerceu as mais diversas funções.
Desde 1995 – Atuando exclusivamente na área cultural, onde já desenvolveu diversos Projetos. Dentre eles, merecem destaque: Livrarias Expressas, Cultura nas Escolas e Universidades, Luz no Verso, Cultura da Terra, etc...é o Coordenador do grupo UZYNA CULTURAL.
Autor de Livros e Cordéis, merecendo destacar: Sertão Despedaçado e Pelas Trilhas do Repente no Nordeste Brasileiro. Fez parte do grupo musical A uZyna, com 01 CD lançado em 2006: Cantigas de Sertões.






domingo, 24 de junho de 2012


PARTEIRAS: ESSSA INSTITUIÇÃO NACIONAL
Dona Chiquinha Macaxeira trouxe ao mundo meio Guaporé e mais um pouquinho, não tinha tempo para atender a todo mundo, tal a demanda- sabe como é... Noites de lua cheia... as águas mornas e límpidas dos igarapés, sem falar no lendário BOTO AMAZÔNICO sobre quem recaia a responsabilidade paterna de centenas de crianças.
Só se viam os cochichos das mães aperreadas: - ai! Maninha, o safado do BOTO fez mal para a minha menina, coitada! Ela estava lavando roupa no Igarapé Grande e morta de cansaço, já estava voltando para casa quando ele apareceu com um terno de linho e sapatos brancos, chapéu tipo panamá, todo cheiroso, segundo ela, e a levou para dentro d’água. Nem deu tempo de correr e desmaiou coitadinha...
Quando acordou era tarde, o mal já estava feito e ela não sabia como contar para a família (o pai era uma fera), foi um custo para ela dizer o sucedido, mesmo assim só contou quando já faltavam poucos dias para a criança nascer...
A parteira, Dona Chiquinha Macaxeira, chamada para atender o caso, demorou em aceitar o serviço, pois além de super ocupada, não acreditava naquela história de BOTO, aquele cabra safado, como o chamava, a voz grave e sem rodeios.
E foi logo falando para a Mãe, Sinfro(de Sinfronia) tu sabes como é a minha tônica no trabalho, quarto, camisolas e lençóis bem limpinhos, tinas d’água fervendo, mas principalmente sem homens dentro de casa-NENHUM, sublinhava- pois na hora de mulher prenha dar a luz não quero macho dando ordens e palpitando dentro de casa, cruz credo!
Outra coisa ,completou, avise à Medusa que nada de gritos na hora dos espasmos porque mulher que se preza não faz escândalo, aguenta tudo calada!
Só que a parturiente, MEDUSA, não queria saber dessa conversa e à hora do nascimento ao sentir as dores fortíssimas começou a gritar como louca no que foi asperamente repreendida por dona Chica Macaxeira: - Menina toma vergonha nesta tua cara! Ninguém precisa saber que o BOTO te engravidou, então ou tu tomas tento ou eu te largo na cama e vou-me embora!
Medusa, sem saber o que fazer nem para onde correr, quando as dores do parto aumentaram só lembrou-se de um trecho do Navio Negreiro de Castro Alves que ouvia o seu pai declamar ,sob o aplauso dos amigos, desde pequena, nos animados saraus em sua casa, então mandou ver nos berros poéticos: “Deus Senhor Deus dos desgraçados”!/Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura... Se é verdade/Tanto horror perante os céus?! E repetiu a estrofe até a criança sair...
Assim, entre xingamentos da Dona Chica Macaxeira e o poema épico de Castro Alves nasceu Pandora II, uma das filhas do BOTO...


Wilma Leal de Lyra, nasceu em Porto Velho-Rondônia, quando ainda era GUAPORÉ, filha de uma ilustre família-pioneira local- Sr José Alves de Lyra e Doralice Leal Lira, ambos com densa história conhecida pelos antigos e , certamente, rico material de pesquisa para quem se interessar em saber do início daquele pedaço da amazônia que reproduz nos seus “causos”.
Mas Wilma é muito mais do que isso. Trabalhou vários anos em Osasco, como professora de Língua Portuguesa e de Literaturas Brasileira e portuguesa. Foi diretora do Colégio Estadual de Quitaúna, e era a coordenadora geral do FICAN-Festival de Música que reunia estudantes de todas as escolas de Osasco, além de algumas da região.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Entrevista com o Pastor presbiteriano Paulo Roberto da Silva




“A Gente não pode abandonar os sonhos. Não pode abandonar a si mesmo... Precisa abrir as gaiolas que prendem nossos sonhos, e voar ao encontro deles.”



Meu primeiro contato com o Abya Ayala foi através do pastor Paulo Roberto que me convidou para ir à inauguração do Centro de Inclusão Digital, no bairro de Novo. Católica, entre evangélicos, durante o culto me emocionei até às lágrimas com a fala dos pastores, com o canto das crianças, enfim... Tinha sido conquistada por aquelas pessoas que desenvolvem um trabalho tão sério na periferia de Osasco.
Mas o projeto não se resume apenas ao Centro de Inclusão Digital, ele abrange também o acampamento Carlos Lamarca, e foi quando lá estive pela primeira vez que tive a nítida sensação de que “o Haiti é aqui”.
Em um prédio abandonado, cem famílias que já foram antes expulsas de três lugares, hoje estão vivendo ali desde 2002.
Entro com o pastor Paulo que é recebido com festa pelas crianças que correm para abraçá-lo; e ao percorrer aqueles estreitos caminhos que me lembram um labirinto, torço para os moradores daquele acampamento não terem o trágico destino do Minotauro da lenda grega.
Pequenos cômodos abrigam cinco, seis ou mais pessoas. Entramos em alguns daqueles cômodos, e mesmo tendo entrado em muitas favelas aqui na cidade, me choco com o que vejo. Sim, “o Haiti é aqui”.

É preciso andar com cuidado, desviando-se do lixo e das poças d’água. Aqui e ali portas se abrem e ouvimos queixas de uma mulher que não consegue realizar alguns exames pedidos pelos médicos, nem em Osasco, nem em SP, e denuncia com argumentos claros e bem fundamentados a situação caótica da saúde no país. Outra surge como se de um pesadelo, com os cabelos desgrenhados de quem acabou de acordar, e uma expressão que denuncia o uso de drogas.
Muitas crianças circulam pelo local, e talvez sejam elas o principal alvo do trabalho de Paulo Roberto: preservar, proteger aquelas crianças, além é claro de tentar resgatar algumas ovelhas desgarradas.
Iniciamos esta entrevista perguntando a ele:




Pastor, o que é o Abya Ayala?
Tranquilo, fala mansa, ele me explica: é um projeto social que trabalha com famílias de catadores de material reciclável, ligadas ao MTST – Movimento dos Trabalhadores sem teto. Cem famílias vivem em um prédio abandonado, aqui no Novo Osasco, na periferia de Osasco. Nossa missão no início do projeto dizia: coletar, transformar e vender materiais recicláveis, gerando renda para os catadores, investindo na formação da família através da educação, da arte e da cultura, preservando o meio ambiente.
Como surgiu esse projeto?
O Abya Ayala nasceu em uma sala de uma igreja presbiteriana do Jardim Novo Osasco, na sala das mulheres, em um projeto voltado para a igreja, através da pedagoga Mariângela, minha esposa.Inicialmente era focado na reciclagem dentro da própria igreja, só com os próprios membros. Tínhamos a intenção de ajudar missionários de países carentes, principalmente países da África. Durante dois anos o projeto atuou dessa maneira.



O que levou vocês a mudarem?

Durante o processo de buscar os materiais nas casas dos membros da igreja, eu era o encarregado. E aí, na rua, conheci os catadores do bairro nos locais de venda. Foi quando surgiu a necessidade de ajudá-los a formar uma cooperativa de catadores que terminou não acontecendo.
Por quê?
Porque são pessoas que não se submetem a uma disciplina de horário de trabalho. Eles preferem vender e receber o dinheiro na hora, sem ter de esperar um salário no final do mês.
Pastor, como é que você, um indigenista há mais de vinte anos , de repente se voltou para esse trabalho com moradores de rua e dependentes químicos?
Vou responder essa pergunta com uma frase que me acompanha há uns trinta anos: “ou defendemos a vida onde ela está sendo esmagada, ou devemos ter a coragem de não pronunciar o nome de Jesus Cristo”.
Não houve um afastamento da minha militância junto aos indígenas. As duas coisas convivem igualmente. Pelo fato de morar em SP, para onde vim estudar, fui forçado pelas circunstâncias a permanecer no ambiente urbano, me envolvi com a camada mais excluída da sociedade, que são os catadores, os dependentes químicos, e em especial, os filhos dessas pessoas. Muitas delas, nordestinas.


O Sr. Poderia contar como tudo isso começou na sua vida? A questão indígena, os drogados, os sem-teto?

A questão indígena é a mais importante no meu ministério pastoral. Tudo começou na década de 70. Eu era um andarilho hippie, e ao chegar na aldeia dos potiguares, no Rio Grande do Norte, me deparei com o problema de uma índia com hemorragia no hospital. Tonhô, o marido dela, estava na porta da delegacia da FUNAI, esperando o chefe acordar, para pedir ajuda a ele pra salvar a mulher.
Pacientemente esperava. Não bateu à porta.
Perguntei por que ele estava tão triste, e ele me respondeu que a mulher estava morrendo no hospital com hemorragia. Imediatamente bati à porta e acordei o funcionário da FUNAI. Esse funcionário nos levou de carro até a aldeia, e de lá levamos quinze índios para doarem sangue.
No hospital fui o primeiro da fila e o tipo do meu sangue era exatamente igual ao da índia. Só o filho dela e eu tínhamos o mesmo tipo e só nós dois doamos sangue a ela.
Naquele momento, senti aquilo como um chamado, que aquela era minha missão.
O Sr. Já era ligado à religiosidade?
Eu não era um cristão formal, mas senti uma grande revolta por ver que o oprimido simplesmente se submete, não reivindica.
A mulher se salvou, e os índios me convidaram para ficar na aldeia. Quando cheguei à aldeia, abri meus artesanatos, e distribuí as bijuterias que eu fazia para as crianças, e como eu não tinha artesanatos para todos, passei o resto do dia fazendo peças para as que ficaram sem.
O casal me convidou para dar um nome à criança e eu escolhi Maíra, nome que posteriormente dei à minha primogênita.
A partir dali fui “contaminado” com o vírus da cultura indígena.
Vivi como hippie mais alguns anos, e aí tive uma experiência religiosa. Com 25 anos tive um encontro com o Cristo cósmico. Descartei de minha vida tudo aquilo que não me preenchia: drogas, o prazer cultural apenas por si mesmo... Pois eu tinha uma intensa vida cultural: convivia com a geração 68, da qual meus irmãos faziam parte, e embora muito jovem, lia todos os livros que eles liam, via todos os filmes, assistia a todas as peças de teatro, era a cultura pela cultura, o envolvimento com o marxismo, com a luta contra a ditadura...E senti que nada daquilo me preenchia.
Houve um episódio marcante que mudou minha vida: havia no Recife a casa de um amigo poeta, que reunia os intelectuais da cidade. Esse poeta tinha em casa três pássaros presos em gaiolas ao mesmo tempo em que ouvia Francis Hime e Chico Buarque cantarem “Passaredo”. Aquela incoerência sempre me incomodou, e um dia resolvi abrir as gaiolas e soltar os pássaros. Houve uma revolta muito grande, e fui exilado do grupo. Apenas meu irmão, Antonio Belo me deu apoio.
De repente eu estava sozinho. Sem nenhum amigo, com todos contra mim. Mas aquilo foi minha libertação. Senti que a partir dali precisava buscar meus caminhos. Na verdade, ao libertar os pássaros quem tinha se libertado era eu. Quem voou, fui eu.


E sua experiência com Cristo, como se deu?
Nessa busca, nesse desencontro com as filosofias, os prazeres, o hedonismo encontrei no Cristo andarilho o que buscava.
Mariângela, minha mulher, era minha vizinha, me admirava, e a irmã dela, Marisa, resolveu me evangelizar, e surpreendentemente, no dia 14 de fevereiro de 1982, um domingo, me converti instantaneamente. Imediatamente deixei tudo isso e fui estudar em um seminário que prepara pessoas para trabalhar com os índios na missão Novas Tribos do Brasil. Veja a coincidência que Deus me preparou: na mesma semana da minha conversão, abriu-se um seminário de estudos bíblicos, para preparar pessoas para trabalharem com os índios nas aldeias.
E o Senhor foi...
Sim, fui para o Instituto Pau D’Alho, em Pernambuco, no meio do mato, durante três anos. Foi o tempo necessário para trabalhar com professores que cuidavam do meu corpo e do meu espírito, de todas as dimensões do meu ser.
Gerson Celeti, que tinha sido hippie, foi o professor que mais se aproximou de mim, e que mais tarde foi missionário durante doze anos na Guiné Bissau e em vários outros países do mundo. É ele que atualmente dirige uma escola missionária que prepara pessoas para trabalhar com indígenas em várias partes do mundo.
Agora, tantos anos depois, Gerson me convidou para dar um curso na Noruega.
Então o Sr. continua ligado às questões indígenas?
Sim. Acho que a gente não pode abandonar os sonhos. Não pode abandonar a si mesmo... Precisa abrir as gaiolas que prendem nossos sonhos, e voar ao encontro deles.
Meu grande apelo atual e que talvez seja o projeto da minha vida sempre foi realizar um grande encontro no Brasil em um grande parlamento com as grandes lideranças indígenas do continente Aby Ayala, o que misteriosamente terminou acontecendo no mês passado com o Tribunal Popular da Terra, encontro esse que reuniu entre muitos, figuras importantes da luta na América Latina como: Hugo Blanco, Millaray Huichalaf, Patricia Troncoso, Osmarino, amigo de Chico Mendes, lideranças kaiowá, Pataxó Hã-hã-hãe e outros.


Uma vez que aconteceu o Tribunal da Terra você e a Patrícia ainda pretendem organizar esse encontro no Brasil?
A Patrícia Troncoso, que foi presa política mapuche, reconhecida no Chile por ter feito uma greve de fome durante 112 dias, tem uma história de luta impressionante e que recentemente recebeu um prêmio internacional por sua luta em defesa do seu povo. Conversando a respeito acreditamos que nossa intenção de reunir lideranças latino-americanas em um encontro no Brasil foi contemplada no Tribunal, e que mais produtivo agora seria organizar algo semelhante no Chile, ou seja, um Tribunal Popular no Chile, para colocar o Estado no banco dos réus.
Quer dizer que a intenção de vocês é unificar as demandas dos povos originários entre os países do nosso continente?
Exatamente, a globalização sem saber, trouxe como um efeito colateral, a possibilidade de estreitar as relações entre as pessoas, e através das redes sociais estamos unindo os povos originários que lutam pela terra e por outros direitos; com isso usamos as armas do inimigo para neutralizar e combater o novo colonialismo imposto aos povos. Podemos chamar esse fenômeno de a globalização do bem. Quem diria que num mesmo encontro pudéssemos reunir tantas lideranças que de outra forma seria quase impossível acontecer? Temos em curso a luta pela terra entre os povos indígenas, quilombolas, camponeses, sem-terra e sem-teto, marcha pelas águas que através das redes juntamos esse povo e que trocam experiências e possibilitam uma agenda comum.


Você, sendo brasileiro, o que o levou a criar um Comitê de Apoio ao Povo Mapuche e não de outros povos mais próximos como por exemplo, os kaiowa?
Na verdade eu já participei de vários organismos indigenistas no Brasil, fui coordenador executivo do GTME (Grupo de Trabalho Missionário Evangélico) que foi uma criação de uma pastoral solidária das Igrejas Luterana, Metodista, Anglicana e Presbiterianas, que juntas formaram uma entidade de apoio à causa indígena muito parecida com o CIMI da Igreja Católica. Fui fundador junto com outros pastores do Grupo de Solidariedade ao Tupiniquim e Guarani no Espírito Santo e de outro grupo de apoio aos Krenak em Minas Gerais.
A paixão pelos Mapuches se deu através da observação, e de uma viagem que fiz ao Chile, onde constatei a luta e a obsessão pela terra. O nome Mapuche significa povo da terra, eles têm no seu mito fundante seu povo nascendo da terra semelhante a uma árvore, o que significa dizer que sem a terra eles não sobrevivem e por isso é comum ver jovens, mulheres, anciões e homens em geral, dando suas vidas para defender seu território e reconquistar parte das terras usurpadas. Quando vi essa garra para lutar, eu me encantei e resolvi fazer amizade com esses guerreiros. Usei parte de minhas férias para ir à Patagônia e conhecer mais de perto a problemática dos PPM e assim fui fazer uma visita na prisão de Lebu aos presos Mapuches. Posteriormente criei o Comitê de Apoio aos Mapuche e convidei a Patrícia Troncoso para vir ao Brasil e ela aceitou. Juntos conseguimos colocar a questão Mapuche na preocupação dos Movimentos Populares brasileiro, o que está dando seus frutos, agora mesmo estamos planejando fazer um protesto em frente ao Consulado chileno na Av. Paulista e a empresa UNICA que é responsável pela industrialização do Etanol no MS. Será uma forma de mostrar que tanto a luta dos Mapuches quanto a dos kaiowá e outros povos são as mesmas, estão sendo travadas conjuntamente.
Como o Abya Yala está participando desse luta?
Bem o Abya Yala está junto nessa luta pelos catadores e por todos os que sofrem perseguição, e com isso abrimos as portas para o povo Mapuche, na vinda da delegação Mapuche. Por duas vezes os irmãos ficaram hospedados nas dependências do Abya Yala, com alimentação e outros benefícios, o Abya Yala conseguiu viabilizar todas as passagens de ida e volta ao Chile, seja com seus próprios recursos ou com ajuda de parceiros, como o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, a CESE e a Rosa de Luxemburgo que aprovou dois projetos feitos pela organização do TP e que o Abya Yala foi a instituição beneficiada e repassadora dos recursos.
Quais seus planos para o futuro em relação ao Abya Yala?
Nosso sonho é ampliar o Abya Yala a nível continental e criar sedes onde haja um povo sofrendo e discriminado, e para isso já começamos a dar os primeiros passos entre a comunidade da Millaray em Osorno, onde os Mapuches estão nesse momento cercados por carabineiros que querem invadir o espaço sagrado dos comuneros. O Abya Yala forneceu um Notebook à comunidade e está lutando para manter uma banda larga móvel para os líderes poderem se comunicar com o mundo e denunciar as atrocidades cometidas contra seu povo. Estamos ainda em contato com a Patrícia e o Pr. Hugo Marillan para a construção de uma sala onde iremos desenvolver inclusão digital e formação de lideranças que lutam pela conquista da terra e de outros direitos, para isso já ganhamos seis computadores que brevemente iremos enviar para os responsáveis pelo projeto.


Uma última pergunta: como foi a visita do Rev. Dr. Olav Fykse Tveit ao Abya Yala?
Ele estava no Brasil para entregar os documentos do projeto” Brasil: Nunca Mais Digital” que Rev. Jaime Wright e Dom Paulo tinham enviado para fora do Brasil, para preservar a história da tortura no regime militar e o ano passado foi repatriado para o Brasil e o Dr. Olav, como Secretário Geral do Conselho Mundial de Igrejas, foi o responsável pela operação de devolução e no final teve um dia livre e desejou conhecer um projeto social ligado a alguma Igreja filiada ao CMI e lhe indicaram justamente o Abya Yala. Foi um momento de profunda interação e amizade. No dia seguinte na homilia pregada na Catedral Presbiteriana de São Paulo da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, ele se referiu ao Abya Yala como um sinal do Reino de Deus no Brasil.



sábado, 26 de maio de 2012

Inez Oludé - Artista Plástica e Poeta



Imagine



 

Inêz oLudé& da Silva


Através das artes expresso
O conteúdo da vida
Imagine sem a rima
O que seria a canção?
Imagine sem a viola
O que seria do Cão?

Sem os lápis, os pincéis
Como pintar corações?
Se a vida não bastasse
O que bastaria então?
O peito de um moreno
Para encostar a cabeça?

O riso de um curumim ?
O cheiro do seu jardim ?

A felicidade agora
É saber por que eu vim
Mostrar meu canto pro mundo
Mesmo porque não sou Raimundo
Nem tenho a solução

Tirar o de dentro pra fora
Não é fácil e me apavora
Como dizer que vi o mundo
E carrego-o na sacola
Feridas que não se fecham
Que volta e meia me voltam

Como dosar a dor
E ver o que me consola
Sorrir, cantar de viola

Violeira, xangozeira
Espiritada e ligeira
Desta vez cheguei primeiro
Cantarei alegre ao vento
Fugirei de assombração
Não contarei os sofrimentos
Dos índios desta nação
Quilombolas, sem terras, favelas

Não lembrarei de prisão, militares,
Cachorros da ditadura
Estes deixarei de vez
Que a justiça se faça
Mas se voltarem
A ter poder na minha nação
Retomarei o Cangaço
E meus chutes pra eles serão

Verei a vida que vem
Com mel queijo e rapadura
Mas não esquecerei dos deuses
Que me fizeram a cabeça
E me saciaram em doçuras

Acenderei as candelas
com o samba “Brasil Nunca Mais”
Contarei o meu segredo
Da pedra do meio do mar
Me sentarei na aurora
Com Zé Limeira em cartaz

Farei mil versos
Medonhos na viola
Que ganhei de Satanás




Este é um dos trabalhos de Inez Oludé


BIOGRAFIA de Inez Oludé :

Artista plástica muralista, poeta, nascida em Pernambuco, residente em Bruxelas desde 1976, onde chegou como exilada política.

Inêz Oludé é a “Artista brasileira que tem o sol nas mãos”, como é conhecida na Europa, é uma inusitada pintora de imagens do inconsciente, produzidas ora com a mão esquerda, ora com a direita, quando não com as duas simultaneamente. Suas obras, paisagens e personagens imaginárias, realizadas por fases que relatam sua história de vida como num diário, não nos deixam indiferentes, produzindo grandes obras abstratas, com cores espetaculares que tocam o essencial da natureza humana. Sua obra tem o sentido da existência: caos e ordem, luz e sombra, sopro de vida e de morte, beleza e feiura, humanidade e crueldade, paz e guerra, tudo e nada. O caos gera ordem e vice-versa, como a poesia, suas obras têm verso e reverso, sendo que o verso é tão verdadeiro como o reverso. Enraizadas na sua cultura, elas podem ser vistas de qualquer ângulo, guardando sempre uma coerência. Seus temas são recorrentes; vão da cultura popular à erudita e contam experiências vividas. A cada momento o universo se destrói e se reconstrói no olhar do observador que pode reinventar inteiramente a obra com sua própria imaginação. O universo pictórico de Inêz Oludé expressa sentimentos sutis e criam atmosferas de encantamento e deslumbramento numa verdadeira explosão de cores. Grande parte dos trabalhos desde o início de sua carreira fazem parte do imaginário brasileiro, retratando histórias enraizadas na ancestralidade.
Artista engajada, Inêz Oludé foi perseguida nos anos de chumbo no Brasil, exilada no Chile e na Bélgica, onde chegou em 1976, depois de libertar-se das prisões da Argentina. Suas obras integram importantes coleções públicas e privadas no Brasil e no exterior.




segunda-feira, 16 de abril de 2012

Alguns Haicais de Vera Lúcia Godoy

Trago hoje alguns haicais de Vera Lúcia Godoy, poeta osasquense que conta com vários livros publicados, entre eles "Haicai- Imagens para ver e sentir", livro artesanal todo ilustrado com xilogravuras do artista plástico Susumo Harada. Trata-se de um belíssimo livro todo construido artesanalmente página a página.
Eu confesso ser fã dos haicais de Vera Lúcia, poemas em que, a meu ver, ela melhor se realiza enquanto poeta.
A seleção dos haicais que aqui estão foi feita por mim. E quem sentir sede de outros, entre em contato com a autora e adquira o livro.
Além de poeta, Vera Lúcia é professora da rede municipal de ensino de Osasco. Com as crianças ela desenvolve um trabalho de releitura de poemas de autores consagrados, e já conseguiu que a prefeitura publicasse uma antologia com essas obras das crianças.
Lamentamos a autora não nos ter enviado uma foto sua, para que os leitores a conheçam.


Rodas quebradas
Tantos sonhos trincados
Perdidas ilusões.
*


Barco encalhado
Lágrimas sufocadas
Amor ausente
*


Romãs abertas
Beija-lhes as sementes
O sol de verão
*

Súbito a cerca
No caminho da vida
Limita o sonho
*
A lua banha-se
À noite, nua no lago
Só o salgueiro vê
*

Cerca farpada
Não tolhe a liberdade
Pra quem voa alto
*

Devolve o sonho
que levaste contigo
Naquele verão
*

Só o mar amigo
Compreende esta saudade
Murmúrios de dor
*