sábado, 26 de maio de 2012

Inez Oludé - Artista Plástica e Poeta



Imagine



 

Inêz oLudé& da Silva


Através das artes expresso
O conteúdo da vida
Imagine sem a rima
O que seria a canção?
Imagine sem a viola
O que seria do Cão?

Sem os lápis, os pincéis
Como pintar corações?
Se a vida não bastasse
O que bastaria então?
O peito de um moreno
Para encostar a cabeça?

O riso de um curumim ?
O cheiro do seu jardim ?

A felicidade agora
É saber por que eu vim
Mostrar meu canto pro mundo
Mesmo porque não sou Raimundo
Nem tenho a solução

Tirar o de dentro pra fora
Não é fácil e me apavora
Como dizer que vi o mundo
E carrego-o na sacola
Feridas que não se fecham
Que volta e meia me voltam

Como dosar a dor
E ver o que me consola
Sorrir, cantar de viola

Violeira, xangozeira
Espiritada e ligeira
Desta vez cheguei primeiro
Cantarei alegre ao vento
Fugirei de assombração
Não contarei os sofrimentos
Dos índios desta nação
Quilombolas, sem terras, favelas

Não lembrarei de prisão, militares,
Cachorros da ditadura
Estes deixarei de vez
Que a justiça se faça
Mas se voltarem
A ter poder na minha nação
Retomarei o Cangaço
E meus chutes pra eles serão

Verei a vida que vem
Com mel queijo e rapadura
Mas não esquecerei dos deuses
Que me fizeram a cabeça
E me saciaram em doçuras

Acenderei as candelas
com o samba “Brasil Nunca Mais”
Contarei o meu segredo
Da pedra do meio do mar
Me sentarei na aurora
Com Zé Limeira em cartaz

Farei mil versos
Medonhos na viola
Que ganhei de Satanás




Este é um dos trabalhos de Inez Oludé


BIOGRAFIA de Inez Oludé :

Artista plástica muralista, poeta, nascida em Pernambuco, residente em Bruxelas desde 1976, onde chegou como exilada política.

Inêz Oludé é a “Artista brasileira que tem o sol nas mãos”, como é conhecida na Europa, é uma inusitada pintora de imagens do inconsciente, produzidas ora com a mão esquerda, ora com a direita, quando não com as duas simultaneamente. Suas obras, paisagens e personagens imaginárias, realizadas por fases que relatam sua história de vida como num diário, não nos deixam indiferentes, produzindo grandes obras abstratas, com cores espetaculares que tocam o essencial da natureza humana. Sua obra tem o sentido da existência: caos e ordem, luz e sombra, sopro de vida e de morte, beleza e feiura, humanidade e crueldade, paz e guerra, tudo e nada. O caos gera ordem e vice-versa, como a poesia, suas obras têm verso e reverso, sendo que o verso é tão verdadeiro como o reverso. Enraizadas na sua cultura, elas podem ser vistas de qualquer ângulo, guardando sempre uma coerência. Seus temas são recorrentes; vão da cultura popular à erudita e contam experiências vividas. A cada momento o universo se destrói e se reconstrói no olhar do observador que pode reinventar inteiramente a obra com sua própria imaginação. O universo pictórico de Inêz Oludé expressa sentimentos sutis e criam atmosferas de encantamento e deslumbramento numa verdadeira explosão de cores. Grande parte dos trabalhos desde o início de sua carreira fazem parte do imaginário brasileiro, retratando histórias enraizadas na ancestralidade.
Artista engajada, Inêz Oludé foi perseguida nos anos de chumbo no Brasil, exilada no Chile e na Bélgica, onde chegou em 1976, depois de libertar-se das prisões da Argentina. Suas obras integram importantes coleções públicas e privadas no Brasil e no exterior.




segunda-feira, 16 de abril de 2012

Alguns Haicais de Vera Lúcia Godoy

Trago hoje alguns haicais de Vera Lúcia Godoy, poeta osasquense que conta com vários livros publicados, entre eles "Haicai- Imagens para ver e sentir", livro artesanal todo ilustrado com xilogravuras do artista plástico Susumo Harada. Trata-se de um belíssimo livro todo construido artesanalmente página a página.
Eu confesso ser fã dos haicais de Vera Lúcia, poemas em que, a meu ver, ela melhor se realiza enquanto poeta.
A seleção dos haicais que aqui estão foi feita por mim. E quem sentir sede de outros, entre em contato com a autora e adquira o livro.
Além de poeta, Vera Lúcia é professora da rede municipal de ensino de Osasco. Com as crianças ela desenvolve um trabalho de releitura de poemas de autores consagrados, e já conseguiu que a prefeitura publicasse uma antologia com essas obras das crianças.
Lamentamos a autora não nos ter enviado uma foto sua, para que os leitores a conheçam.


Rodas quebradas
Tantos sonhos trincados
Perdidas ilusões.
*


Barco encalhado
Lágrimas sufocadas
Amor ausente
*


Romãs abertas
Beija-lhes as sementes
O sol de verão
*

Súbito a cerca
No caminho da vida
Limita o sonho
*
A lua banha-se
À noite, nua no lago
Só o salgueiro vê
*

Cerca farpada
Não tolhe a liberdade
Pra quem voa alto
*

Devolve o sonho
que levaste contigo
Naquele verão
*

Só o mar amigo
Compreende esta saudade
Murmúrios de dor
*

segunda-feira, 9 de abril de 2012

4 Poemas de Joaquim Belo



Joaquim Belo da Silva

Joaquim é Pernambucano, nascido no povoado Carvalho, município de Custódia, em 03 de agosto de 1946. É o terceiro filho, de dez irmãos, de Augusto Belo da Silva e de Julieta Januária da Rocha, depois Silva, ambos pernambucanos dos municípios de Arcoverde (o pai) e Sertânia (a mãe). Durante a infância morou nos municípios de Custódia, Betânia e Custódia, novamente; quando, aos 13 anos, a família se transferiu para Sertânia.

Sertânia era, naquela época, uma espécie de Atenas do sertão pernambucano: tinha cinema com exibições diárias, várias bancas de revista, ensino médio, nas modalidades - normal, técnico em contabilidade e clássico - embora não tivesse o curso científico. As famílias da cidade mantinham a tradição de enviar os seus filhos para a capital do estado, para fazerem o curso superior; razão pela qual, nas férias, existia muita troca de experiências entre os universitários e os estudantes de nível médio que ainda estudavam na cidade. Além disso, muitos profissionais da cidade se formavam e permaneciam na região, continuando com a transmissão e a troca de informações. Em razão disso, os alunos locais tinham uma grande participação na política estudantil.


Joaquim Belo ladeado pelo irmão Antonio e pelo genro Josias.
Note-se a situação incômoda de Joaquim, forçado pelo irmão a vestir a camiseta do Payssandu...



Joaquim foi um deles. Participou de grêmios estudantis, de congressos em cidades de todas as regiões do estado, editou jornais, tomou cachaça, jogou futebol e tudo o mais que um adolescente na década de sessenta tinha direito. Sabe-se que naquela ocasião - pré-golpe militar - as opiniões eram muito polarizadas e Joaquim nunca foi de ficar em cima do muro. Por isso mesmo, chegou a ser detido pelo comando militar de Arcoverde, e prestou esclarecimentos aos militares, juntamente com seu irmão Manoel, três anos mais velho. E a coisa só não ficou “preta” por conta da interferência de um político local, aliado ao regime de exceção que se iniciava, mas que era amigo da família. Na ocasião, Joaquim ainda não tinha completado dezoito anos.

Depois disso, em 1967 começa a trabalhar e parte para o Recife acompanhando a empresa e com o objetivo de terminar o ensino médio. A partir daí trabalhou no ramo da engenharia rodoviária, sempre em localidades diferentes, até se aposentar. Hoje é microempresário do ramo da engenharia e reside em Belém do Pará.

A poesia entrou na sua vida através de leituras e por ser uma “doença” hereditária da família. O “Seu Augusto” escrevia poesias, apesar de não ter freqüentado escolas e tendo aprendido a ler com as sua tias. Os seus irmãos também cometem o mesmo pecado da família, razão pela qual pretendem escrever um livro de poesias, reunindo todos os membros que se dispuserem a participar.

(Esta e uma biografia não-autorizada, escrita por seu irmão Antonio Belo)


Biblioburro

Monteiro Lobato dizia
Com muita convicção
Que é com homens e livros
Que se faz uma nação.

Para formação do homem
É a cultura essencial
E para se ter conhecimento
O livro é fundamental.

Mas para adquirir um livro
Precisa muito dinheiro
É um objeto de luxo
Para o povo brasileiro.

Para difundir a cultura
Nos confins do sertão
É preciso ter postura
E muita imaginação.

Vi no facebook um foto,
Que me chamou atenção,
Um cara muito devoto
Cheio de imaginação.

Trazia no seu jumento
Uma carga preciosa
Dois caçoa de livro sebento
De verso, romance e prosa.

Essa biblioteca ambulante
É pra chamar atenção
Com o descaso reinante
Em nossa educação.

Belém, 01/04/2012Sou Custódia sou saudade.


Sou Custódia sou Saudade

Sou Custódia, sou saudade
da praça Padre Leão
Das festas do padroeiro
e das noites de São João.

Sou Custódia sou saudade
Da vila de Quitimbu
Macaxeira e carne de sol
Cachaça boa e caju.

Sou Custodia sou saudade
Das festas de arraia
Da banda de pau e corda
Do maestro Zé bia.

Sou Custodia sou saudade
Da missa lá na matriz
Do sitio de dona auta
Do banho no chafariz.

Sou Custodia sou saudade
Da fazenda umbuzeiro
Comer buchada de bode
Na sombra do juazeiro.

Sou Custodia sou saudade
Da vila da samambaia
Com um toque de maravilha
Toca Pedro Maravalha.

Sou Custodia sou saudade
Com vontade de voltar
Correr num cavalo de pau
De caiçara até ingá.

Sou Custodia sou saudade
Da música solta no ar
A voz de duas Américas
Que animava o lugar.

Sou Custodia sou saudade
Dos campos de muçambê
Do cheiro do marmeleiro,
Do canto do zabelê.

Sou Custodia sou saudade
Dessa lembrança constante
atrás do tempo passante
que não retorna jamais.





Minha Estrada


Deus projetou minha estrada
Com muitas curvas e retas
Deixou-me exemplos de vida
Para atingir minhas metas.

Botou também no caminho
Muita subida e descida
E uma paciência de Jó
Para curar as feridas.

Juntei ao seu meu caminho
Como as águas das três ribeiras
Correndo devagarzinho
Nos lados das ribanceiras.

Fizemos das nossas outras vidas
Pra continuar a viagem
Pavimentamos os caminhas
Para espalhar a linhagem

Venci todos os obstáculos
Com garra e persistência
Mas só vou parar a viagem
Quando Deus me der a licença.

Belém, 02 de julho de 2007.

Atrás do tempo passante
Que não retorna jamais.

Belém, 13\11\2009.

Passageiro do Tempo

Sou passageiro no tempo
Que o vento da saudade levou
Nas veredas do pensamento
Para um tempo que já passou.
Para minha geração futura
Não esquecer o passado
Fui buscar no presente
Futuros antepassados.
Para gravar na memória
Fui ao sítio dos Robertos
Lá na pequena Custódia
Viver de perto a história.
Uma casinha no carvalho
Que a cor o tempo mudou
Como gota de orvalho
Uma lágrima rolou.
E no meu eu de criança
Foi Betânia a emoção
Onde criei a esperança
E cultivei a ilusão.
Sertânia foi a adolescência
A essência da razão...
E vi a vida como triângulos
Que é vista de vários ângulos.
Mas de repente... As sementes
Na cronologia do tempo
Brotam de outras sementes
Para não se perder no tempo
Passado e presente se fundem,
Presente e futuro se confundem
Da vida me resta no peito a esperança
Na mente em festa o resuma das lembranças...

Joaquim Belo da Silva 6 de Abril de 2012 23:29
Belém - Pará, 05/04/2012.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

3 Poemas de Antonio Belo




SER PROFESSOR
“se não fosse Imperador, gostaria
de ser professor, pois não há função
mais nobre que a de dirigir as inteligências
juvenis e preparar os homens do futuro”
D. Pedro II


Ser professor nesta vida
Não é profissão de festa:
Diários, papéis, planejamento
É tudo que a gente detesta

Mas,
Ensinar a viver
“Sem rodeios, sem aresta”
Não é fácil de fazer!
É o prazer q’ inda nos resta...




O Fim do Mundo - João Cabral de Mello Netto
No fim do mundo melancólico
os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.

Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.

O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
O sonho final.




O Ciclo do Tempo Antonio Belo

Como é bom ter a idade do tempo!
Tempo que passa
Mas não flui...
Tempo que só argumenta
Mas não conclui...

Eu sou como o tempo
Que nunca passou
O Passado e o Presente
Que o Futuro deixou
Ah, quem me dera voltar!
A ser o que sou...
07.07.2011
23:30h



Juizo Final

Não precisamos mais temer
O fogo do inferno
Todos vão queimar
Por conta do aquecimento global
Puta, juiz e advogados
Esses, principalmente
aluno e professor
Padre, comerciante
Pastor e delinquente,
Você e o promotor
Pois o homem criado
À imagem e semelhança
Do seu criador,
Com a sua "inteligência"
O juizo final
Antecipou
**

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O Trem e o Tempo- Risomar Fasanaro

O TREM E O TEMPO - Risomar Fasanaro
(aniversário de 50 anos de Osasco)






o trem parou na estação
era maio
o frio gelava meus passos
e a garoa desenhava
uma paisagem sem contornos
Recife se perdera pra sempre
xerém, cajá, araçá
eram apenas lembranças
cristalizada saudade
do que não voltará jamais

Osasco
pelas ruas caminhei
buscando tua alma
procurei-a na poeira
nos rastros dos romeiros
da velha estrada de Itu


busquei
no Glamour da João Batista
o sarong de Doroty Lamour
os passos de Gene Kelly
o sorriso de Ava Gardner
mas eles ficaram em Recife

só encontro aqui
jacó do amendoim
À porta do cinema...
Quem sabe venha da Itália
Quem sabe lá do Japão
Por que não lá da armênia
Ou dos cravos quem sabe venha
Esse amor à revolução?

na Antonio Agu vou em busca
do voo da Asa Branca
na voz de Gonzaga, o Luís
mas apenas o silêncio
acompanha essa saudade

paramos nas Lojas Sis
onde minha mãe comprou
o 1° fogão a gás
continuo caminhando
e na igreja matriz
reencontro santo Antônio
que é de minha devoção

missa, comício, quermesse
domingos no Estoril
reuniões secretas
tecem a emancipação
que burburinho é esse?
São cédulas que me entregam

me falam do SIM e do Não
agora somos cidade
agora temos prefeito
depois...
tempo de intempérie
explode dentro do peito
paixão pela liberdade
paixão que não tem mais jeito

fábricas param
baixa a repressão
tanques de guerra invadem
o centro da cidade
tempo de armadilha

tempo de barreto, lamarca, espinosa
tempo de marília
tempo de miranda, albertino, roque
tempo de dilema e de iracema
tempo de aninha,miranda, ibrahim
tempo ruim

tempo de tortura
de mortes, exílio

e o silêncio pairou sobre a cidade

de repente
novamente ela se agita
as canções invadem as ruas

é tempo de festival
afrânio, celsinho, dudu
rubens , ricardo, chu
homero, césar, varinha,
Paula, pálida pequena
No asteroide X
Embaladeira
Fim de Reza

Nas ruas o cristo negro
É o teatro expressão
reuniões, comícios, passeatas
anistia, diretas...
caminho por essas ruas
cadê o glamour?
a igreja
o Estoril?
dinamitaram as paineiras
que um dia vestiram de rosa
o tietê que morreu

o tempo devorou tudo
o glamour , o estoril, a farmácia do seu Vasco
papelaria do galepe
o tempo também levou
a febre das greves
as quermesses, os festivais
a euforia das diretas
o tempo também levou
o trem da vida passou
carregando
meus amores
meu soluço
minha dor
e esta saudade infinda
desse tempo que passou.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Retorno a Belém do Pará - Risomar Fasanaro -Fotos: Renato Otílio e Risomar


Estou de volta a Belém. Cidade que elegi como a número um do país. E antes que me censurem, quero dizer que sei que ela tem problemas. Mas as cidades são como as pessoas. Algumas nos provocam amor à primeira vista, outras só percebemos que amamos com o passar do tempo, há ainda aquelas que serão amadas por toda a vida. Pessoas e cidades existem que mesmo tendo defeitos, são amadas por nós. Não fosse assim, e o que seria de nossa vida? Só conviveríamos com seres perfeitos? Seria uma chatice viver no céu em vida.
Ainda que digam que o amor é cego, eu acho que mesmo vendo os defeitos do objeto amado não deixamos de amá-lo. O resto é fingimento, é falsidade, é falta de firmeza de sentimentos.
E aqui estou eu a filosofar, em vez de falar daquela cidade linda que é Belém. Dessa vez tive a felicidade de contar com a presença de dois grandes cicerones: meus primos Renato Otílio e Claudia Fonseca.

Já na primeira noite eles nos levam para tomar um tacacá delicioso e que se revela pra mim como algo conhecido, embora seja a primeira vez que tenha oportunidade de experimentar. A primeira vez que ali estive, fui através de agência e nada pude usufruir do que faz parte da vida do povo paraense.
Minha alma sentia necessidade disso: emendar os laços familiares. Sempre convivi mais com os parentes de meu pai, do Rio Grande do Norte, faltava o que é meu e que vem dessa região do norte do país. Faltava desencavar as origens desse lado indígena que sempre mexeu tanto comigo.
Andar pela cidade das mangueiras, das docas do cais, com seus sorvetes de inúmeros sabores: castanha do Pará, açaí, cupuaçu, e tantos e tantos outros. Faltava ver de perto essa Belém, debruçar-me na amurada para ver as águas da baía do Guajará , ir ao Mercado de Ver-o-Peso, ver suas inúmeras vendedoras cantando os poderes miraculosos de suas ervas para atrair sorte, dinheiro, saúde e um amor verdadeiro.

São óleos, elixir, pós e pomadas que, segundo elas curam de frieira a câncer...que promovem desde a vinda de um namorado, à cura da dor pela perda do grande amor de nossa vida. Algo que só em “Cem Anos de Solidão” de Gabriel G. Marques é possível encontrar.
Percorremos, minha irmã e eu, aquele mercado onde a vida palpita em cada palmo de chão, e fotografo tudo: mulheres descascando castanhas do Pará, de caju, homens produzindo tucupi, extraindo o suco do cupuaçu.


Meu peito só falta explodir de tanta felicidade por estar ali em Belém do açaí, da maniçoba, do bolo de macaxeira, da dourada com açaí saboreada ali no balcão do Ver-o-Peso, junto com aquele povo lindo, com traços indígenas. Conviver com os que têm por tarefa descascar castanhas do Pará, extrair o suco do açaí, preparar o molho de tucupi.

Na saída, encontramos alguns neo-hippies vendendo artesanato. Enfim algo novo em suas bijuterias, trabalhos que não encontrei em nenhuma outra cidade em que já estive. Minha alma cigana sente vontade de comprar tudo, e tento conter esse nosso lado consumista.
Renato nos levou a Icoaraci, bairro de Belém que antes foi balneário, e junto com sua mulher, Zezé, e sua mãe, Ivone , temos a oportunidade de ver um índio de perto , tocando flauta .
No outro final de semana tomamos banho na praia de Mosqueiro, emoção que só havia sentido antes na ilha do Marajó havia oito anos. Para minha irmã era a primeira vez que entrava em águas doces.
Acredito que conhecer um pouco de uma cidade é participar do dia a dia, e que aqueles que viajam com empresas de turismo, saem sem conhecer quase nada da vida das pessoas dos lugares que visitam. Só conseguimos isso graças aos nossos familiares.

No último sábado em que lá ficamos, minha prima Cláudia nos levou ao bosque Rodrigues Alves, e novas emoções ali vivemos. Antes de entrar, peço licença aos deuses da floresta para penetrar em seu reino, para tocar de leve os troncos nodosos daquelas árvores centenárias, algumas espécies que jamais havíamos visto, imaginar que por entre as folhagens há de haver o Saci Pererê, a Curupira, quem sabe a Matinta perê, que um pouco de fantasia não faz mal a ninguém.
Alguns quiosques oferecem comidas típicas, e Cláudia nos sugere experimentar maniçoba. E aquela como todas as outras que comi me pareceu tão familiar, como se tivesse feito parte de minha vida inteira. Mistério que não se explica, pertence ao imponderável.
Belém aonde fui juntar os fios de minha história, conhecer as raízes do meu povo do lado materno. Esse chamado que há anos me acompanha, que vem da Amazônia, e que sinto dentro de mim como uma teia rompida. Algo que me falta, e que, quem sabe, um dia venha a reconstituir.
Belém onde na primeira noite em que chegamos Renato Otílio nos levou para tomar tacacá. E cada prato que eu saboreava, era como se já conhecesse, houvesse apenas uma retomada. E foi maravilhoso conviver com minha família do lado materno, foi maravilhoso conhecer o dia a dia do povo paraense. Adorei meus primos e o que mais trouxe de lá foi a saudade daquela terra e daquela família maravilhosa.