sexta-feira, 14 de maio de 2021

Minha poesia - Risomar FAsanaro

minha poesia tem cheiro de alecrim paredes de barro e pilão da casa de cosma minha poesia tem cheiro do ingá debruçado sobre o rio tem o som das cantigas que as lavadeiras cantavam batendo roupas nas pedras do rio jaboatão mais bonito que o tejo que pessoa cantou um sabiá cantava e cigarras paravam minha mãe batia bolo e a neve das claras formavam nuvens onde eu sonhava o cheiro de terra vermelha m mimaguas d seguem o curso de minha vida recife 2015

Quarentena Risomar Fasanaro

(Para Cira Cohenca e Vera Pontieri, com carinho) São duas amigas: Vera e Cira. Vera é cientista e está sempre lendo livros sobre ciências e esses dias comentando o que estava lendo, Cira se interessou pelo livro “Da Natureza”, em que a autora escreve sobre a vida de Humboldt e suas peripécias pelo mundo afora. Vera emprestou a obra à amiga. Cira é de família judaica, e todos são leitores compulsivos e, sabemos, o judeu é conhecido como “o povo do livro”. Muito feliz, Cira levou o livro e começou a lê-lo. E dali em dicante falou, falou, falou sobre a vida de Humboldt e de todas suas peripécias. Falou tanto que a família inteira queria ler aquela história tão fantástica. Para quem não sabe, a vida de Humboldt supera em muito a do personagem de “On the Road” (Pé na estrada) de Jack Kerouac. Apaixonante é o mínimo que se pode dizer dela. Mas, como toda delícia traz um pouco de sofrimento, o livro tem mais de 600 páginas. O filho de Cira, Dani, amante da natureza e das viagens tirara um ano sabático, e àquela altura estava saindo do Panamá em direção ao México num trailer que ele alugou para viajar pelo mundo... Nas mensagens via watsap Cira contava algumas passagens da obra para o filho. Não deu outra:Dani também queria ler o livro que, não se esqueçam, pertencia à Vera. A sobrinha que mora com Cira, também queria ler. Chiii...iria demorar muito para ela terminar de ler aquele volume. Mas Cira, inteligentíssima, pensou numa solução: serrou o livro e dividiu-o em três partes: assim que terminou de ler a primeira parte, passou- a para a sobrinha, e esta assim que a leu, enviou-a pelo correio para o primo que estava no México. A essa altura Cira já estava lendo a terceira parte. Passou a segunda para a sobrinha que se comprometeu a enviá-la ao primo. Só havia um problema: como dizer à Vera, dona daquele exemplar, que o livro se multiplicara em três? Cira me liga e pede socorro: estava procurando o livro em várias livrarias e não o encontrava. Será que eu acharia em alguma das livrarias de Osasco? Respondo que aqui, para desespero meu e da torcida do Corinthians , só existe uma livraria: a Saraiva, no Supershopping, todas as outras tinham fechado havia muitos anos. Vamos tentar, se tivermos sorte... Cira vem e vamos juntas à Saraiva. Depois de muito procurar, sim, lá havia dois exemplares. Compramos, ela devolveu o livro à Vera, mandou encadernar o que fora “estripado” e todos foram felizes para sempre durante a pandemia...

Júlia Lopes de Almeida, derrubando muralhas

Júlia Lopes de Almeida é o nome de uma escola, que fica no bairro de Rochdale, Osasco. Confesso que nunca li nenhum livro da escritora, apenas alguns textos nos manuais escolares. Tenho um amigo que sempre me presenteia com o jornal literário “Rascunhos”, de Curitiba, Paraná, e ontem, lendo um exemplar desse jornal, encontrei em Conversas Flutuantes, alguns dados sobre Júlia Lopes que me chamaram a atenção. Senti o tempo que perdi sem conhecê-la. Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida nasceu em 24 de setembro de 1862, no Rio de Janeiro. Além de romances escreveu crônicas, poemas, artigos para jornais, peças teatrais e foi ela a primeira escritora a publicar livros infantis no Brasil. Bem antes de Monteiro Lobato, Júlia e sua irmã Adeelina Lopes Vieira publicaram “Contos Infantis” em 1886, enquanto Lobato só veio a publicar sua primeira obra “A Menina do nariz arrebitado” em 1921. Júlia Lopes foi uma desbravadora das muralhas que toda mulher enfrenta na vida. Feminista, defendia em seus artigos a independência feminina, o divórcio, a abolição da escravatura e a República. Isso em uma época mais conservadora preconceituosa e machista ainda que a de hoje. Corajosa, ela abordou em suas obras o aborto, o estupro, e a falta de liberdade das mulheres. Foi a única mulher entre os organizadores da ABL- Academia Brasileira de Letras, mas não pode ocupar uma de suas cadeiras, porque seus colegas escritores não permitiram; como “prêmio de consolação” foi seu marido, o escritor português Filinto de Almeida, cujo talento nunca alcançou o da mulher, que ocupou a cadeira número 3 na ABL. Ela era demais para a sociedade em que viveu, por isso não recebeu apoio de nenhum de seus colegas. A injustiça praticada contra ela passou em branco. Grandes nomes da literatura: Arthur Azevedo, Machado de Assis, Olavo Bilac, Inglês de Sousa, João Ribeiro eram seus amigos, mas nenhum deles elevou a voz para defender sua entrada na ABL. Esta injustiça mancha a história da academia. Só em 2017 a academia reconheceu e se desculpou da injustiça que cometeu. Em seus romances a autora considerada realista com traços de naturalismo e por alguns denominada gótica. Extensa é a obra desta escritora que foi a autora que teve seus livros entre os mais vendidos em sua época. Destacamos: A Falência, romance, Ânsia Eterna, contos, A Isca e vários outros. Coerente com o que defendia, Júlia Lopes quando já não se interessava mais pelo marido, separou-se. No regresso de uma viagem à África, Júlia ficou doente de malária e faleceu em 30 de maio de 1934 no Rio de Janeiro. Risomar Fasanaro Bibliografia: “Rascunhos número 247 Google, Wikpédia, Youtube.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Homenagem a Albertino Oliva - João dos Reis



Estávamos reunidos no inicio dos anos 70. O grupo da FNT (Frente Nacional do Trabalho) de Osasco - José Groff, Valdomiro Martins da Silva (Dudu), Alberto Abib Andery, Maria Santina, Luis Amaral, Odim Jiorjon, Antonio Vieira de Barros, Maria de Lourdes Vieira Brengel, e outros militantes - foi informado: Albertino Souza Oliva foi preso – nós e a família dele não sabíamos o local onde ele estava e o motivo do desaparecimento. A angústia e a dor da noticia impediam que tomássemos uma decisão: o que fazer?
Depois, ficamos sabemos que ele ficou uma semana detido, incomunicável, no quartel da Policia Militar da Avenida Tiradentes. Nunca houve uma acusação formal a ele na Justiça.
Foram momentos como esse que os que engajaram no movimento operário viveram os anos de repressão durante a ditadura militar. Albertino trabalhou de 1945 a 1962 no Departamento Pessoal da Cobrasma em Osasco. Houve um “ressurgimento espiritual”, como ele o denomina, e passa a frequentar a Igreja Católica. Conhece o metalúrgico João Batista Cândido e participa do movimento sindical na fábrica. Junto com outros trabalhadores, criam a Comissão de Fábrica – que foi um acontecimento histórico na luta por melhores salários e condições de trabalho.
Albertino recordou durante o seu depoimento em outubro de 2014 na Câmara Municipal: a direção da fábrica descobriu o engajamento dele, e foi transferido para a sede da empresa; depois ele decidiu pedir demissão. Foi um período de transição na vida do advogado que nasceu em Casa Branca, SP, e que cursou Direito na USP. Tinha a desconfiança dos trabalhadores: havia participado do quadro repressivo da empresa: a lista dos candidatos a emprego era enviada antes para o Dops. E tinha a recusa da direção patronal em ter um funcionário comprometido com a luta por uma nova sociedade. “Foi um momento difícil: traiu a confiança dos patrões e não tinha a confiança dos trabalhadores”.
A conversão às ideias do Padre Louis-Joseph Lebret (“Principios para a ação”), o compromisso com a nova Igreja que surgia, o conduziram à Frente Nacional do Trabalho, uma organização não governamental fundada por Mario Carvalho de Jesus depois da greve dos trabalhadores de Perus em 1962. Foi essa militância que o levou outras vezes a ser detido pelos militares. Sua participação na criação da Cooperativa dos Trabalhadores da Cobrasma (depois, Coopergran), na instalação dos cursos profissionalizantes no Senai em Osasco, foi o inicio de uma longa trajetória junto com os trabalhadores.
Participei das reuniões e atividades na FNT de Osasco. Quando os trabalhadores abriam uma ação trabalhista, eram convidados a participar de uma palestra: eu fazia a abertura, falava da importância da participação sindical e politica; depois, Albertino explicava os meandros jurídicos de um processo. Foram anos em que tive contato frequente com a realidade da opressão patronal e do desrespeito aos direitos trabalhistas.
Com os ventos da democracia no inicio dos anos 80, participei de um projeto de educação popular da FNT, com ajuda financeira de uma organização não governamental da Bélgica. Fui contratado para colocar em prática o programa de debates, palestras e grupos de estudo em Osasco e na periferia da Região Metropolitana Oeste de São Paulo. E eu o acompanhei nos encontros com os trabalhadores dos bairros das cidades de Carapicuiba (Comunidade Kolping da Vila Dirce e Cohab, e Igreja N.S.Aparecida) e Jandira (comunidade da Vila Analândia).
Nos anos 60, houve um acidente muito grande no forno da Cobrasma, e um operário acabou morrendo. Foi combinado que no enterro a fábrica tocaria o apito. Foi um dos primeiros protestos dos operários osasquenses por respeito, garantia à vida e à dignidade. Albertino recusou entregar os nomes dos que organizaram a manifestação. No final dos anos 70, a participação na criação do Centro de Defesa de Direitos Humanos de Osasco – foram dois momentos de uma longa história de compromisso com os trabalhadores da cidade proletária.
Albertino Souza Oliva foi o primeiro coordenador da Comissão da Verdade de Osasco até inicio de 2015. Com 88 anos, apresentou o seu testemunho: de que é preciso combater as injustiças, ”não ter complacência com o erro, nunca com a violência”.

domingo, 27 de outubro de 2019

Encontros inesperados na grande metrópole - João dos Reis





Nos outros eu sei onde se abriga o coração.

É no peito _ todos sabem disso.

Comigo

a anatomia ficou louca.

Eu sou todo coração

_ ele bate em todo o corpo.

Vladimir Maiakóvski



Em 2005 parti de Curitiba para São Paulo, e encontrei a cordialidade em uma livraria e em uma sala de cinema na cidade. E discordei de que “não existe amor em São Paulo”.

Encomendei um livro com o jovem atendente da Livraria Saraiva do Shopping Eldorado; no dia em que fui buscá-lo, esqueci o contracheque para confirmar o desconto para professores. E, para minha surpresa, ele me abraçou, e disse: que era para o chefe pensar que eu era seu tio - e então não teria problema para dar o desconto.

Estava sozinho na sala do cine Belas Artes na rua da Consolação em São Paulo em uma tarde de sexta feira. E, antes da sessão começar, o lanterninha se aproximou e perguntou se o ar condicionado estava bom, se não estava com temperatura baixa – uma amabilidade para não esquecer .

Mudamos de casa duas vezes em dez meses – em agosto de 2018 de Vargem Grande Paulista para Osasco, e em junho de 2019, para um apartamento em um outro bairro da cidade. Foi um período atribulado; relembramos, eu e minha mãe, os momentos em que encontramos amigos próximos ou anônimos que deixaram marcas na memória.

Reinaldo, Antonio, Lucas, Zaqueu, Joaquim e Fernando foram os trabalhadores-amigos que nos socorreram nas casas das ruas Campinas e Milão na região de Cotia. Eles sempre foram solícitos e prestativos para solucionar os inúmeros problemas de reformas e consertos em eletricidade, encanamento, telhado - e os ouvintes pacientes das nossas desventuras. Despedi-me de Joaquim e Fernando, agradecendo a colaboração inestimável; não consegui me despedir dos outros – Antonio e Reinaldo faleceram há alguns anos.

Na oficina mecânica, pedi a Anderson, no bairro Tijuco Preto, onde morava, para fazer uma revisão geral no carro antes da mudança para Osasco. E, quando fui buscá-lo, ele me disse que estava em bom estado, sem necessidade de nenhum conserto. Fui me despedir dele - e, no dia seguinte, também de Mario da oficina do Jardim dos Ipês - e levei uma garrafa de vinho. E falei do cartaz-propaganda dos anos 80 - duas mãos estendidas, uma delas suja de graxa: “(o mecânico) é o melhor amigo do seu carro – e não pode cumprimentá-lo”. Disse que o mecânico não é apenas o melhor amigo do meu carro, mas é também o meu melhor amigo - e que não esquecerei deles.

Ângela, a vizinha da casa que alugamos na rua Itápolis, Vila Osasco, deu a minha mãe um buquê de rosa. Foi um presente inesquecível de boas vindas para nós, que estávamos cansados com tantos transtornos nas casas anteriores na região de Cotia. E preocupados com o futuro.

No domingo seguinte da última mudança, para o Jardim Santo Antonio, ao entrar na Avenida Nova Granada, houve uma pequena colisão lateral com outro veículo. Desci do carro, cumprimentei o motorista, pedi desculpas a ele e à moça que o acompanhava, dei meu telefone para entrar em contato. Uma hora depois, Alexandre, o motorista do carro, me ligou e disse que não tinha sido nada, para não me preocupar. Quando enviei depois uma mensagem pelo celular, agradecendo mais uma vez a gentileza dele, ele me respondeu “que podia contar com um amigo”.

Comuniquei Simone, do bairro Jardim dos Ipês em Cotia, onde moramos sete anos, o nosso novo endereço. Nos finais de anos, sempre dou um presentinho para ela – uma rosa, um pano de prato -, uma pequena retribuição aos quase dez anos em que ela cortou o cabelo da minha mãe e irmão, e nunca quis receber pelo seu trabalho

Perguntei ao jovem vendedor da Kar Latas na rua Primitiva Vianco, 922: um para-sol para cobrir o para-brisa de carro - e não havia na loja. Vi em uma mesinha um moedor manual de grão de café que usávamos em casa na minha infância. Perguntei se era para fazer café, e ele me disse se eu queria – e moeu os grãos, preparou o café e me serviu em uma xícara de porcelana..

Fernando, Letícia e os filhos Felipe, Gabriel e Elza ofereceram na casa deles uma feijoada em agosto para comemorar a visita de Ricardo e Silda, ex-aluna de Filosofia na escola estadual Vicente Peixoto em Osasco – eles vivem em Brasília há 23 anos. Ela me telefonou, me convidou para a confraternização – um dia carregado de afeto e saudades.

Pedi um strudel no Restaurante Juca Alemão no Shopping Continental em Osasco; e na hora de pagar, o garçon me disse que era uma cortesia do proprietário. Dois anos antes, conversei com ele, que é de Blumenau, em Santa Catarina, mas foi uma conversa rápida: é a cidade que mais gostei na minha temporada no Sul do Brasil.

Caio e Olga, ex-aluna em 1973 de Cultura Contemporânea na escola estadual Capitão Delolindo de Oliveira Santos, em Ubatuba, me convidaram em outubro para almoçar na casa deles em São Paulo: com a colaboração de Raquel, prepararam uma moqueca de peixe. Foi um reencontro depois de décadas em que estivemos incomunicáveis na grande metrópole. E trouxe um presente para minha mãe: uma porção do prato do dia.

Fui ao Tocco, depósito de material de construção, na Avenida Antonio C.Costa, 1240, e na saída, havia pipoca e café de cortesia. Conversei com o jovem vendedor, disse que há muitos anos não a preparávamos em minha casa, e ele me disse que poderia levar uma porção para minha mãe – e foi um presente surpreendente para ela.

Meu irmão estava com problema de mobilidade, e o fisioterapeuta Ari, ex-aluno nos anos 80 na escola estadual “Vicente Peixoto”, esteve em casa, trouxe um andador, convenceu-o a usá-lo – e não quis cobrar pela visita e pelo empréstimo do aparelho. Depois, por telefone, me disse que ele é que está grato pelas minhas aulas de Filosofia no curso colegial.

Na solidão da grande metrópole, foram encontros em que descobrimos nos pequenos gestos de gentileza momentos felizes. Os personagens, muitas vezes desconhecidos e inesperados da aventura cotidiana, reforçaram a crença de que a construção de uma amizade, a descoberta de um sentimento pode tornar o mundo mais solidário.



NOTA

O poema de Vladimir Maiakóvski, está na página 169 de “Maiakóvski, vida e obra”, Fernando Peixoto, José Alvaro Editor, Rio de Janeiro, publicado nos anos 70 (provavelmente 1974), 316 pp


sábado, 12 de outubro de 2019

Crônicas de Segunda - livro de Cacá Mendes- Risomar Fasanaro




Cacá Mendes , poeta responsável pelo Sarau dos Conversadores que alguns anos acontece em SP, nos pega pela mão, ou pelos olhos? E nos leva a verdadeira peregrinação pelos becos e ruas de SP e outros lugares aos distraídos, que andam pela vida sem ver, sem sentir o mundo, toda a poesia que ele descobre e, generosamente, divide conosco.
E nessa viagem cada pessoa, cada lugar lhe traz à lembrança outros lugares, outras pessoas.É o circo que traz de volta a infância, no interior mineiro, quando viu/ouviu pela vez primeira vez, a dupla Tonico e Tinoco ; ora é o artista de rua que o faz comparar aquele sujeito simples com o grande Hermeto Paschoal. Ou seria Sivuca?
Cacá tem um jeito muito peculiar de escrever que o distingue de todos os outras cronistas que conheço. Talvez seja preciso ler e reler seus textos para apreender toda beleza que neles existe.
Destacaria A cidade das torres, Berê e Benê, Um anjo no hotel, A última parada, e paro por aqui porque senão destaco todas as crônicas. Verdadeiros poemas tirados da poeira das ruas, do cheiro de álcool dos bares da vida, da aridez do cotidiano.
Enfim, Crônicas de segunda poderia bem se chamar Poemas de primeira.

Risomar Fasanaro


Pedidos pelo site WWW.desconcertoseditora.com.br

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

O último adeus: meu avô Marcelino Matheus Ferro



Há palavras lança-chamas / Conheço algumas que nos fazem viver,/ por não serem simples som / mas estradas incendiadas por dentro, / duplos corações batendo com o calor / da certeza do dia que se segue. /(...) Quebrando o meu silêncio, / povoo alguns espaços de alegria. / (...) Nas palavras me encontro. / Cansado, quase morto ,à espera, / sempre à espera. Nas palavras vivo, / denuncio ou ataco. Há um grande sol / à nossa espera. Quantos somos?”
Trecho do poema “Algumas palavras”, de Eduardo Guerra Carneiro

Estou sozinho na estação de Duartina à espera do trem para São Paulo. Meu avô Marcelino Matheus Ferro não me acompanha: teve um acidente vascular cerebral e está acamado. Despedi-me dele em silêncio – e foi a última vez que o vi. Foi a imagem mais triste que ficou das minhas férias na minha cidade natal do interior paulista.
Todos os anos ia visitá-lo – era um período de descanso da rotina de trabalho e estudo - e uma volta ao passado familiar. Minha avó Elisa de Jesus Ferro sempre me esperava com meus pratos preferidos: bacalhau à moda de Trás-os-Montes ou lombo assado – e a sobremesa de manjar de côco com ameixas.
Como eram as nossas conversas? Antes de vir para o Brasil, eram agricultores – plantação de vinha, oliveira, figueira -, e do pastoreio de carneiros. Meu avô era de um mutismo absoluto; com ele, nascido nas montanhas do Norte de Portugal, aprendi o segredo das palavras: elas têm uma magia que cabe a nós descobrir a cada vez que precisamos usá-las.
Procurava saber como foi a travessia do Atlântico em 1926 na viagem de aventura para a América. Que sonhos eles carregavam, deixando os pais e familiares? Era um piá – e mesmo quando adolescente e na juventude, perguntava a eles: o que esperavam do Novo Mundo? Tia Isaura era a correspondente epistolar da família espalhada pelo nosso planeta. Ela me entregava para ler as cartas dos que viviam em Angola, França e EUA – a saga dos portugueses que partiram para um novo país, um novo continente. Em uma delas, e que comentei com meu avô, falava da forte nevasca nas aldeias de Penhas Juntas e Falgueiras na província de Trás-os-Montes, que impediu que os moradores saíssem de casa por vários dias.
Como era o nosso diálogo? Lia para eles as cartas que vinham de Portugal – e que falavam do trabalho com a terra, a neve de dezembro, o cotidiano na aldeia. Na foto, a tia-avó Piedade, octagenária, de cabelos brancos, olhando-nos - e eu me perguntava: ela estava feliz, solitária, sob os cuidados de dois sobrinhos solteiros que permaneceram em Trás-os-Montes? Nas imagens, eles apareciam em frente a uma casa construída com pedras: como eles enfrentavam o frio e o vento do inverno? Essa volta às origens esteve marcada pelas orações, realizadas pela minha avó Elisa de Jesus Ferro. Era uma reverência aos nossos mortos – e que mereciam as nossas preces. Acompanhei-a em muitas tardes ao cemitério da cidade, e diante do túmulo da familia, roguei por eles – pedindo a misericórdia divina, o descanso e a paz eterna.
No álbum de fotografias, revisitava os nossos familiares - era um retorno à história da imigração europeia para a América. Ouvia os relatos da longa travessia do Atlântico de navio, das dificuldades dos primeiros anos, do trabalho no campo. A ligação com a terra brasileira surgia logo que eu chegava de viagem: a avó Elisa me pedia que fosse ver a horta e o jardim - em que ela cultivava, com orgulho, roseiras, lírios (copos-de-leite), palmas-de-santa-rita, tomates, couve, almeirão, e onde havia uma parreira, limoeiros e figueiras
Nas manhãs em que minha avó Elisa preparava o forno a lenha para o pão e o almoço com os meus pratos preferidos – lombo assado ou bacalhau à moda transmontana – conversávamos sobre o passado – e conheci a saga dos Negrini, contada por ela, que foi amiga da minha avó Pasqualina. Todos vieram para o Brasil em busca do sonho americano, e eu procurava me reencontrar nessas esperanças de uma vida melhor. Foram anos em que refleti sobre o que o destino me reservava. Foi uma aventura às vezes inglória e desesperada, a de saber qual é o mundo que tanto sonhamos para viver e ser felizes.
Meu avô me presenteou com a bíblia do século XIX que ele ganhou do meu bisavô. Outra recordação é uma pedra: ele a usava como apoio aos papéis de embrulho. É ela a presença mais visível dele e da nossa convivência mergulhada em silêncio – que descobri mais tarde tinha sido muito feliz.
Guardei o registro de identidade do avô Marcelino – e os entreguei para meus primos Miro, Cidinha e Gustavo, que também ficaram com a bíblia e o álbum de fotografias. A estação da estrada de ferro da cidade foi demolida. A parreira, os limoeiros e as figueiras não existem mais. Não há mais documentos da história dos imigrantes - apenas as imagens e as recordações na minha memória.
Era sempre meu avô Marcelino que me acompanhava à estação de trem – e eu me despedia beijando a sua mão– e o fiz desde criança. Lembro que depois o abraçava e agradecia a garrafa de vinho que ele abrira para comemorar a minha visita.
Estava lecionando no Litoral Norte de São Paulo, e tinha vindo visitar minha mãe em Osasco – não soube que, no domingo , dois de março de 1975, em que retornava ao litoral, ele faleceu. Não havia telefone onde morava, e só fui informado na manhã de 3ª feira pela diretora da escola onde trabalhava em Caraguatatuba. À tarde procurei a solidão da praia deserta para o meu último adeus.

NOTA – O poema “Algumas palavras”, de Eduardo Guerra Carneiro, in “Antologia da poesia portuguesa contemporânea – um panorama”, org. de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Editora Lacerda, Rio de Janeiro, 1999,pp. 371/372.