sexta-feira, 29 de março de 2013

Poema de Paulo Roberto da Silva

O poema abaixo é de Paulo Roberto, mais um membro da família Belo. E não é motivo de espanto, pois nesta família todos que conheço são artistas. Os poetas Antonio, Joaquim, Paulo Roberto, e Inez Oludé, artista plástica.

Subvertendo-me

Hoje acordei com vontade de deixar de ser,
De deixar de ter e deixar de lado,
Hoje preferi me ignorar,
Descomplicar e me insubordinar.
Hoje pensei em voltar o rosto,
Senti o ar solto e me lançar no mar,
Hoje bebi o sol, comi a lua e vomitei estrelas,
Hoje perdi o rumo, segui sem prumo.
Hoje estupefato, comi no prato a doçura do mel,
Hoje virei zangão, piquei o patrão e me mandei.
Hoje pedi carona, fui chupar cana na beira da estrada,
Hoje comi goiaba, senti o cheiro da estrada.
E me mandei para Pindamonhangaba.

Paulo Roberto, 27.03.2013, 23.16hs.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Dom Pedra - Antonio Belo



Pedro!, és pedra!

Tens a aspereza natural

comum aos minerais

e planos de clivagem,

ortogonais.

Para os poderosos,

difícil de engolir...

Mas, vieste do pó

e ao pó, retornarás.

Mas, tuas cinzas

não serão levadas

pelos ventos da infâmia...

Com elas, reconstituiremos,

a argamassa mais forte,

para esse mundo em mudança.

Na calada da mata,

os sicários da fazenda

te espreitam,

de armas em punho...

Mas não conseguirão

seu intento.

Sei que não usas

coletes, à prova de balas;

mas elas, não te acertarão:

O teu manto protetor

é a fé no Teu Senhor!

És filho de homem e mulher,

por isso, pregas o amor...

Nessa tua caminhada

Não andas com os filisteus.

És o líder dos verdadeiros cristãos

e dos que eram melhores,

quando eram ateus...

Teu Livro Sagrado

não contém, somente:

parábolas, hipérboles,

histórias, enredo.

Mas, a verdade absoluta,

de um Deus

que não tem medo.

Por isso, és pedra,

És Pedro!



Antonio Belo da Silva

Palmas, 03 de fevereiro de 2013


domingo, 3 de fevereiro de 2013

A Menina que queria tocar sanfona - Antonio Belo




Clarice era uma menina muito esperta. Antes de completar sete anos, já lia quase tudo. Também gostava de música. Toda tarde ficava colada no velho aparelho de rádio de válvulas da casa da sua amiguinha Helena, já que não tinha rádio em casa. Depois seu pai comprou um rádio à prestação e foi uma festa. Rapidamente ela aprendeu a imitar as cantoras mais populares da época: Emilinha Borba, Linda Batista, Nora Ney, Marlene... Ela queria ser cantora.
Toda tarde, era sagrado o programa de música da PRA-8, Rádio Clube de Pernambuco, a pioneira. E era. É a emissora de rádio mais antiga do Brasil, fundada em 1919.
Um dia ela ouviu uma música estranha, não era cantada, era só tocada. Como se diria hoje: instrumental. Não que ela não conhecesse música sem cantar, pois ouvira umas músicas de orquestra bem bonitas. Mas aquela era diferente, era um instrumento só, e desconhecido, soava mais ou menos assim: fonrom, fonronrom, fonronronronrom. Ela ficou extasiada! Mas não pode anotar o nome da música nem do homem que tocava. Ou seria uma mulher? Não dava pra saber. Mas sabia que sempre eram os homens que tocavam, nunca tinha visto uma mulher tocar.
No dia seguinte, no mesmo horário, tocou aquela música de novo. Ela chamou a mãe e perguntou: mãe! O que é essa “coisa” que toca assim? A mãe respondeu: minha filha, isso é uma sanfona. Aí, ela decidiu: não queria mais ser cantora, queria aprender a tocar sanfona...E ao final da música, conseguiu ouvir o nome do intérprete, algo parecido com “seu Vuca”. Guardou aquele nome.
Naquela época, a menina morava com a família em um bairro de Jaboatão, em Pernambuco, denominado Socorro. Era uma vila militar, pois seu pai, que era sargento do exército, servia no Quartel do 14° RI.
Por uma dessas coincidências da vida, um dia apareceu por lá, o multi-instrumentista paraibano, Severino Dias de Oliveira, conhecido pelo apelido carinhoso de “Sivuca”, que iria dar um show musical no clube dos oficiais, mas que era extensivo a todos os sargentos e suas famílias. Mesmo tocando qualquer instrumento que se conheça, o Sivuca era mais conhecido pelas harmonias que conseguia criar com a sanfona. Era sanfoneiro dos bons!



Seu João foi e levou toda a família. Tinha um filho, o mais velho, que já “arranhava” um bandolim; e diziam que a música na família era “atávica”, pois a avó materna também tocava bandolim. Quando Sivuca começou a tocar a primeira música, Clarice identificou na hora, que aquela música que ouvira no rádio, só podia ser daquele homem.

Depois que ele terminou a quarta música, enquanto deu uma paradinha para tomar um copo de água, a menina saiu correndo, lá das cadeiras e subiu ao palco. Foi uma ação tão rápida que ninguém se deu conta de segurá-la. Lá chegando, puxou na perna da calça do músico e exclamou: “Seu Vuca”, toque aquela música que faz assim: “fonrom, fonronrom, fonronronronrom, fonrom, fonronrom, fonronronronrom”. O músico não resistiu e caiu na gargalhada. Todo mundo riu. O músico, então, tomou-a nos braços, deu-lhe um cheiro nos cabelos e perguntou:
- Onde é que você ouviu essa música, minha filha?
- Foi no rádio, “Seu Vuca”, toque ela pra mim...
- Essa música se chama: “Barca Nova”. Vou tocá-la para você.
E ele tocou. Uma música muito bonita. Mesmo em ritmo “ligeiro” era uma música triste. Como pode uma música ser triste? Música é uma combinação de notas. Notas essas que, isoladamente, não fazem muito efeito, mas combinadas, o efeito pode ser até “devastador” para a nossa alma. A música não tem sentimentos, nós é que temos. Então, como se pode dizer que uma música é triste? A tristeza está em nós... O compositor apenas “junta” as nossas tristezas com as dele e as transforma em sons.
Acabado o show, a menina não cabia em si de contente. Sivuca tinha tocado para ela e ainda lhe dera um cheiro nos cabelos. Não iria esquecer isso pelo resto da vida. E as colegas, ah! Estavam para morrer de inveja. Agora não tinha mais volta: iria aprender a tocar sanfona...
Pouco tempo depois, a família teve que se mudar para São Paulo. Lá chegando, depois de resolverem as necessidades mais imediatas como: moradia e escola, lá vai a menina procurar uma escola de música. Queria, porque queria aprender a tocar sanfona.
Encontrou. Matriculou-se e começou a assistir às aulas de teoria musical. Mas tinha um problema: ela não tinha instrumento e música não se aprende somente na teoria. Seu pai não estava em condições de gastar dinheiro com aquele “capricho”. Eis que outra menina, uma vizinha, também resolveu estudar “acordeon”, como ela falava. Essa aí tinha tudo: o pai deu-lhe de presente um “acordeon”, novinho em folha.
“Nossa” Clarice praticava no instrumento da colega, e apresentou um desenvolvimento que deixava o professor abismado. Principalmente, depois que ela viu uma fotografia de, ninguém menos que, Jimi Hendrix, com uma sanfona, em um boteco. Exclamou! Até ele!!! Nossa! Eu pensava que ele só tocasse guitarra.
Tudo foi “às mil maravilhas” até que, seis meses depois o professor resolveu fazer um teste para avaliar o desenvolvimento das alunas. O problema é que essa avaliação tinha uma nota classificatória. Submetidas as alunas, nossa “heroína” tirou o primeiro lugar. Só que a colega que ficou em segundo não se conformou. E não mais permitiu que a Clarice tocasse no seu instrumento. Aí acabou a carreira musical da mais promissora acordeonista de que se tem notícia.
Palmas, 24 de janeiro de 2013

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Homem do Sertão-Joaquim Belo


Antonio e Joaquim Belo - Dois irmãos, dois Poetas

Quando Deus criou o homem
Para viver no sertão,
Mudou a essência da fórmula
Da primeira criação...
Não usou o barro mole
Com o qual moldou Adão
Fez de quartzo, feldspato e mica,
Extrato da rocha, granito
Para suportar o sol, a seca e o atrito...

Para sobreviver na região
Não basta oração e fé
Tem que ter o couro feito de jacaré
Agilidade felina, astúcia de leão,
Saber esquivar do perigo igual a camaleão.
Aprender a conviver com a morte,
Ás vezes, até invejar a sorte,
Daquele que já morreu...
Onde havia os campos verdes
No grande sertão de outrora,
Aurora do mais belo amanhecer,
Que descia planalto ao pé de serra...
E do baixio ao chapadão...
Hoje, nada mais é do que,
Um raio xis daquele chão...
restos de mata queimada,
Rastos que a chuva nunca apagou...
Fumaças negras que saem do chão,
Das cinzas carbonizadas,
Nas caieiras de carvão.
São léguas e léguas de areias salinizadas,
Nascente de riachos que já não brotam,
Grota, vala, maçaroca e erosão...
Realidade dura que a natureza chora,
Morte prematura da fauna e da flora...
Mais um deserto em formação...
Uma tristeza emana das faces nordestinas...
Saudade do arvorar dos pássaros nas campinas...
A certeza das mortes que se espalham no chão...
Com os voos rasantes das aves de rapinas.
Restos de seres se cruzam a todo instante
Seres de rostos e vozes dissonantes...
Que alguns chamam de peregrinos,
Outros de retirantes...
Ambulantes anônimos, sem nomes.
Sem sorte, sem rumo, sem norte...
Aqui, o nome que se conhece é da fome,
E o rumo que se conhece é da morte.
Era a chuva que fazia do sertão o paraíso.
Pois, do pouco que se colhia...
Se sustentava a família
E ainda sobrava dinheiro...
Para pagar o aluguel
Das terras dos fazendeiros...
Mas quando falta o inverno,
O sertão vira o inferno,
Que Dante não escreveu...
Rondonópolis/MT, 20/01/2013.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013


Forró em Caruaru                                              Antonio Belo da Silva

Essa aconteceu em Paraíso do Tocantins, entre os anos de 1999 e 2000. Meu irmão Paulo estava de passagem para São Paulo e passou uma semana comigo.
Nesse meio-tempo, entrou em contato com o nosso irmão mais novo, Carlinhos, e combinaram vender camarões para um conhecido restaurante que havia em Palmas: “O Caranguejo”. Tudo acertado, o Carlinhos mandaria um isopor repleto de camarões, de Belém, pelo ônibus da Transbrasiliana; e nós, receberíamos na rodoviária de Paraíso. Já estava acertada a venda ao restaurante.
Aconteceu que o ônibus atrasou – coisa muito difícil de acontecer, não é mesmo?... – e estivemos várias vezes no Box da Transbrasiliana, pedindo informações sobre o horário da chegada. Até mesmo, preocupados com o tempo de viagem; pois camarão é um produto que se estraga com muita facilidade, e o gelo poderia não ser suficiente.
Notamos que, de tanto irmos ao box, acabamos chamando atenção dos dois policiais militares (um dele era cabo) que faziam a ronda na rodoviária que, como se sabe, é um local que atrai golpistas, ladrões e outros meliantes.
O meu carro, um Ford-Fiesta, tinha placa de Arapiraca, Alagoas, que juntamente com Garanhuns em Pernambuco, além de outras cidades do nordeste, goza da fama de ser uma cidade com um grande contingente de pistoleiros. Verdade ou mentira, a má fama existe.
O Paulo, depois que ouviu um dos meus Cds do Jackson do Pandeiro, não queria ouvir outra coisa, pois passou um longo tempo longe da terrinha, e lá pras bandas do norte o Jackson não era muito cultuado. Hoje a coisa é bem diferente...
Lá pela quarta ou quinta vez que paramos no estacionamento da rodoviária para sabermos do ônibus que nunca chegava, o toca fita do carro estava tocando  “Forró em Caruaru”, em um volume suficiente para ser ouvido lá da calçada da rodoviária, de onde os PMs já estavam de olho em nós...
E o Jackson, sem cerimônia, não tava nem aí:

 “No forró de Siá Joaninha em Caruaru,
  cumpade Mané Bento só faltava tu”...


  depois...


 “Nas alta madrugada
  Por causo de uma danada que vêi de Tacaratu...
  Matemo doi sordado, quato cabo e um sargento
  Cumpade Mané Bento só faltava tu”...

Aí os PMs, “apelaram”: aproximaram-se  com cara de quem não estava gostando, as mãos sobre as armas, e:
- documentos, por favor, e mantenha as mãos sobre o volante; e o senhor aí, referindo–se ao Paulo, sobre a cabeça...
- O que é isso, “seu” guarda? Somos de paz...
Mostrei-lhe logo minha carteira do CREA, com foto de 1976. Ele olhou detidamente. Devo admitir que o original atual, não fazia muita justiça à foto; os cabelos, parecendo com os de uma foto muito conhecida do Benito de Paula, há muito já tinham ido embora... mas o bigode, ah! esse era inconfundível e continuava preto como antes, e assim continuou até ser removido inapelavelmente em 2012.
- O que é que vocês tanto procuram aqui? Estão esperando alguém?
Expliquei detalhadamente que estávamos esperando um “carregamento” de camarão, etc e tal e que o ônibus estava atrasado e, portanto, estávamos preocupados.
- E o que quer dizer essa música aí?
Não aguentamos, eu e o Paulo, e caímos na gargalhada...
           
                                                  03 de janeiro de 2013

E para vocês conhecerem a íntegra da letra da música que ouvíamos, aí está:
Forró em Caruaru
Jackson do Pandeiro (Zé Dantas)
No forró de Sá Joaninha em Caruaru...
Cumpade Mané Bento só faltava tu (2x)
Eu nunca vi, meu cumpade
Forgansa tão boa
Tão cheia de brinquedo e de animação
Bebemo na função, dançamo sem parar
Num galope de matar


Nas alta madrugada
Por causo de uma danada que vêi de Tacaratu...
Matemo doi sordado, quato cabo e um sargento
Cumpade Mané Bento só faltava tu
No forró de Sá Joaninha em Caruaru
Cumpade Mané Bento só faltava tu (2x)
Meu irmão Gisuíno grudou numa nêga
Xamego de sujeito valente e brigão
Eu vi que a confusão não tardava a começá
Pois um cabra de punhá
Com cara de assassino
Partiu pra Gisuíno e tava feito o sururu
Matemo doi sordado, quato cabo e um sargento
Cumpade Mané Bento só faltava tu
No forró de Sá Joaninha em Caruaru
Cumpade Mané Bento só faltava tu (2x)
Ao doutor delegado que é veio, trombudo
Eu disse que naquela grande confusão
Houve apena uns arranhão
Mas os cabra morredô
Nesse tempo de calô tem a carne reimosa
O véio zombou da prosa eu fugi do Caruaru!
Matemo doi sordado, quato cabo e um sargento
Cumpade Mané Bento só faltava tu
No forró de Sá Joaninha em Caruaru
Cumpade Mané Bento só faltava tu (2x)

terça-feira, 27 de novembro de 2012


 Rômulo, meu irmão  - Risomar Fasanaro

Ela não chega  de repente. Antes estende uma nuvem cinza que invade a casa. Tudo perde o brilho: os móveis, os bibelôs. É como se há anos a casa estivesse abandonada, e a poeira cobrisse tudo.
Mas não é essa poeira que todos nós conhecemos, é algo mais denso, mais forte que nos entra pelos poros, e vai nos  tomando aos poucos, em compasso de espera, até que ela chega. Inteira. E nos encharca por inteiro.
 


A morte. É assim que a sinto. A casa antes tão clara, tão cheia de luz, onde o vento entra  balançando as folhas das plantas, às vezes tão forte que derruba algo, de repente paralisa tudo. Tudo se cala.
Foi assim que ficou a casa com a partida do meu irmão. Aquele irmão que era só silêncio. Que de tão calado, eu dizia – antes de casar ele falava pouco, agora ficou mudo. E todos riam dessa verdade tão dura.
O que guardaria ele dentro daquele coração de criança, incapaz de uma palavra áspera, de um gesto de desagrado, de um momento de insensatez?



  
O que sentiria ele  com aqueles olhos expressivos, extremamente escuros, ao ver as barbáries do mundo, se ao ver uma formiga entrar na sala, levantava-se, deixava o que estivesse fazendo, para levá-la   até à rua, para que ninguém a esmagasse?



Ele que guardava as sementes de todas as frutas que comia, que as plantava  para doar a quem tinha terra, já que nos últimos tempos morava em uma casa sem quintal?
Lembro-me de que nos anos 80 ele sabia de cor quantas árvores havia na rua Pedro Fioretti,  e  em contagem regressiva, lamentando muito,  ia me contando uma a uma quantas árvores tinham sido abatidas,  até que nenhuma mais houve e ele se calou.



Era assim meu irmão. Com sua câmera fotográfica gostava de captar os pequenos brotos  que teimosamente  nasciam dos troncos cortados, para mostrar  a  força da vida. Tanto quanto eu, revoltou-se quando dizimaram as 3.400 árvores da reserva atlântica que havia na cidade. Ouvi dele um “longo” discurso de protesto: ” absurdo”, que repetiu três vezes. Foi a única ocasião que vi a fúria em seus olhos. Olhos que primavam por uma “ternura sem igual” como disse sempre  minha amiga Juçara Rodrigues. Aqueles olhos falavam, não precisavam de boca.



Quatro gerações: João, Rômulo, Rômulo /filho e Klaus

Com ele aprendi muito cedo a amar os indígenas. Todos os anos, quando solteiro, ele ia a Goiás, e ficava entre os carajá. De lá trazia peças de arte deles. Nos anos 60 ganhei dele duas peças  em madeira que guardo como relíquia ( e é).


Ao receber o título de cidadão osasquense, no ano passado,  chamado a falar ele fez um longo discurso. Disse aos presentes: “muito obrigado”. Era assim meu irmão que partiu.
Enquanto o outro, Paulo, esbanja notas musicais em seu bandolim, e as duas irmãs falam sem parar, ele nos ouvia e se calava.
Meu irmão Rômulo fotografou esta cidade palmo a palmo, de ponta a ponta, desde os 14 anos. Difícil para todos nós da família, percorrê-la agora, pois  a lembrança dele está em cada rua, em cada esquina, em cada viaduto...
Aí ele entre seus companheiros de trabalho...
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012


RETALHOS DA VIDA  Joaquim Belo da Silva

No dia 04 de Novembro, Dona Julieta, minha saudosa mãe, faria 92 anos. Eu escrevi esse relato para homenagear uma mulher de fibra que passou pela vida sem vivê-la plenamente, pois toda ela, foi-nos dedicada, aos filhos e por bem pouco, bem pouco mesmo, não se tornou uma das mães da Plaza de Mayo.
Quando eu li “A Mãe”, do escritor russo Máximo Gorki, senti que Pelágia, tinha muitos nomes e muitas nacionalidades, inclusive, poderia muito bem  chamar-se  Julieta. As transformações das pessoas se dão quando elas se conscientizam e descobrem que a fome e a miséria não são determinadas por Deus, mas pelas  consequências de uma sociedade centralizadora, injusta, cruel e desumana.
Estávamos no período mais duro da ditadura militar. Os militares tinham iniciado a globalização da tortura e do desrespeito aos direitos humanos, abrindo mão das fronteiras e da soberania nacional, permitindo que qualquer agente de outro país entrasse em seus territórios em busca de terroristas, como assim eles tratavam aqueles que se manifestavam contra a opressão, e lutavam pela volta do estado de direito. Era a operação Condor. Vou omitir as datas, porque, com certeza, seria corrigido pelo meu irmão Antonio Belo.
 Minha irmã, Maria Inês da Silva e o Namorado, Abiasaf Xavier de Brito, que haviam saído recentemente da prisão aqui no Brasil, aproveitaram os ventos da liberdade e fugiram para o Chile. Primeiro ele,  ela depois.
No Chile, o governo Socialista de Salvador Allende lutava contra o boicote econômico patrocinado pelo governo americano,  “arautos da democracia e respeitadores dos direitos humanos”, como sempre se apresentaram para o resto do mundo. O governo democrático de Salvador Allende caiu em 11 de Setembro de 1973 e instalou-se no país,  talvez  a mais cruel ditadura já vista em nosso continente, sob o comando do general fascista Augusto Pinochet.
Diante das circunstâncias, foram eles obrigados a fugir para a Argentina, país que ainda estava sob um regime democrático. Mas o vírus da ditadura se alastrava como erva daninha pela América do Sul. O governo daquele país  também caiu, instalando-se mais uma sangrenta ditadura em nosso continente, ficando à frente do governo, o General Carlos Rafael Videla, que se celebrizou por se revelar o maior torturador da ditadura argentina.
 Inês e Abi foram presos e torturados nos porões da ditadura argentina, em companhia de mais dois outros brasileiros. A mãe de um dos prisioneiros, residente no estado de Goiás,  de volta da Argentina, após a visita e a libertação do filho preso, colocou uma nota no jornal “O Popular” de Goiás, sobre a situação de penúria em que Inês e Abi se encontravam, nos cárceres da ditadura do governo Rafael Videla”. Uma senhora de nome Aurora Baú, recortou e me enviou aquela  nota publicada no Jornal. Como ela descobriu meu endereço, até hoje é um mistério...
Começamos a nos movimentar no sentido de libertar o casal;  ou pelo menos  tornar pública as prisões,  evitando assim que mais dois corpos não identificados aparecessem boiando nas águas do Rio da Prata. Uma missão que não era fácil dentro do contexto político não só da Argentina, mas de todos os países Latino-americanos.
 Por mais que tentássemos  esconder o fato de Dona Julieta, a nossa mãe, era uma missão praticamente impossível, pois ela era muito perspicaz, capaz de antever coisas incríveis em relação aos filhos. Certa vez viajei de Anápolis, estado de Goiás, para o Recife, sem avisar a ninguém, pois se eu avisasse ela iria fazer despesas extras e desequilibrar o orçamento doméstico. Mas, inexplicavelmente, quando eu cheguei, ela tinha feito uma peixada de Cioba e doce de ovos que era a minha paixão. Sorriu e disse: eu não falei que Joaquim iria chegar?...
 À mediada que o tempo ia passando, ficava cada vez mais difícil manter a história em segredo. Quando ela finalmente tomou conhecimento dos fatos, com firmeza e determinação  começou a movimentar-se, e teve uma reação oposta à que todos imaginavam. Sua primeira providência foi fazer uma carta para o Sr. Carlos Rodriguez, do Alto Comissariado das Nações Unidas, carta essa que foi lida e colocada nos anais da Assembleia Legislativa do estado de Pernambuco, pelo jovem Roberto Freire, na época um aguerrido deputado que, junto com Maurílio Ferreira Lima, era uma das poucas vozes que tinha coragem de se manifestar contra o regime militar.
 Dona Julieta fez uma reunião com os filhos e disse: estou indo para Buenos Aires tirar minha filha da prisão.  A surpresa foi geral.  Tentamos demovê-la da ideia  com todas as ponderações possíveis: que ela não sabia falar espanhol e que Buenos Aires era na época uma cidade maior do que São Paulo e tantos outros inúteis argumentos. Os amigos e conhecidos começaram a se manifestar e conseguiram passagens, dinheiro, roupas,  e outras providências mais.
Na véspera de sua viagem, chegou uma carta das Nações Unidas  comunicando que os dois haviam sido libertados e aceitos pelo governo da Bélgica como exilados políticos. Onde permanecem até os dias atuais.
Dona Julieta vive hoje em outra dimensão, a dimensão dos nossos pensamentos. Vive em nossa memória, nas canções que gostava de cantar. Vejo-a como se fosse um filme, sentada em sua inseparável máquina Singer, costurando os retalhos da vida ou em frente do velho fogão à lenha cozinhando as ilusões que matavam  nossa fome.
Entre todas as lembranças, talvez a mais comovente seja a sua luta obsessiva para nos manter vivos e saudáveis, época em que havia um elevadíssimo índice de mortalidade infantil e tinha para isso um arsenal terrível tanto para os inimigos externos que queriam se apropriar indevidamente do pão nosso de cada dia - os vermes - quanto para nós, as vítimas: Sementes de mamão, Biotônico Fontoura, Emulsão Scott, que era um extrato de óleo de fígado de Bacalhau - acredito que seja muito bom para memória, pois nunca mais consegui esquecer aquele gosto horrível.
Lembro-me que ela apanhava limalhas de ferro na oficina de um ferreiro que tinha perto da nossa casa, em Betânia, colocava dentro de uma vasilha com água e depois de sete dias nos dava para ingerir àquela água ferruginosa, que era para repor o ferro subtraído pelo inimigo. Pela saúde, energia e disposição que têm todos os seus filhos, acredito que tenham sido eficazes, as suas fórmulas artesanais. Uma coisa é certa: foi eficaz o exemplo de amor e determinação de uma mulher e mãe extraordinária.

Belém, 02 de Novembro de 2012.