terça-feira, 12 de maio de 2015

Comentário sobre a crônica de Jaílson Vital de Souza- Antonio Belo


Excelente crônica!
Não somente sou amigo pessoal do autor, Jaílson, como também vivi nesse ambiente e participei de alguns desses agradáveis momentos. Ainda poderia acrescentar alguns "heróis" não citados pelo meu amigo, como sejam: O Homem de Borracha, que esticava e encolhia de acordo com a necessidade; o mágico Mandrake, que fazia os bandidos confessarem seus crimes mediante o efeito provocado por ilusões de ótica e, quando o combate exigia o uso da força, sue fiel escudeiro, Lothar, um negro musculoso o tirava das enrascadas. O Mandrake ainda tinha um noiva muito bonita, que era a princesa Narda.
Mas, de todos aqueles heróis, o meu preferido era mesmo brasileiro. Sim, para mim, nenhum deles se comparava ao Jerônimo, o Herói do Sertão - com maiúsculas mesmo -. Todo mês eu esperava ansiosamente a chegada do gibi, que sempre era comprado pelo Armando, que era filho de um dono de oficina em Custódia e ele emprestava ou vendia.
Jerônimo encarnava o típico defensor dos pobres e oprimidos contra o poder dos coronéis nordestinos. sim, porque embora não fosse explicitamente definida, a temática e a indumentária dos envolvidos era típica dos cangaceiros nordestinos, como era o João Corisco, o pai do Moleque Sacy, este, fiel escudeiro do Jerônimo. Ainda havia a noiva do Jerônimo,a Aninha, que era sua prima. Existia uma trama shekespeareana, pois Jerônimo e Aninha, embora primos, eram descendentes de famílias rivais, pois o pai de Aninha era irmão de pai de Jerônimo, que namorava com Maria Homem - mãe do Jerônimo - que era filha de um coronel inimigo do coronel Saturnino Bragança, que era o avô de Jerônimo e de Aninha, por parte dos pais de ambos. Assim, Jerônimo era uma espécie de Dom Quixote sertanejo e em parte sua leitura influenciou um pouco do meu senso de justiça social. Detalhe: O nome da mãe de Jerônimo - Maria Homem - não tinha nada a ver com lesbianismo, era apenas devido à sua coragem, pois lutava bem e com qualquer homem em igualdade de condições. Segue então, uma música que retrata bem o espírito do herói:
"Quem passar pelo sertão
vai ouvir alguém falar
no herói dessa canção
que eu venho aqui cantar

Se é por bem vai encontrar
com Jerônimo protetor
se é por mal vai enfrentar
o Jerônimo lutador

Filho de Maria Homem nasceu
Serro Bravo foi seu berço natal
entre tiros e tocaias cresceu
e hoje luta pelo bem contra o mal

Galopando está em todo lugar
pelos pobres a lutar sem temer
com Moleque Sacy prá ajudar
ele faz qualquer valente tremer...
Antônio Belo da Silva

domingo, 10 de maio de 2015

minha mãe- risomar fasanaro


Escrevi este poema nos anos 70. Que todas as mães se sintam homenageadas. Embora as tarefas se diferenciem, de região para região, as mães são muito parecidas. Como dizem: "só mudam de endereço".


minha mãe

eu te via batendo bolo
costurando noite e dia
vestidos lindos de rendas
roupas que nunca vestias
enquanto isso eu pescava
no rio jaboatão
subia nas pitombeiras
procurava os araçás
enquanto bordavas vidrilhos
nos vestidos das grã-finas
meus olhos teciam sombras
e se fizeram tão tristes
foi esse teu jeito, mãe
manso, doce, cordato
que me tornou tão rebelde
foi de te ver, mãe,
lavando, passando, varrendo
de um lado a outro correndo
que me tornou desse jeito
enquanto eras dona de casa
eu enfrentava a vida
em protestos, passeatas,
“pão que o diabo amassou”
os sonhos transpunham rios
que nunca alcançaram mares
e tu navegavas ali
-comandante-
de um barco sempre à deriva
o cheiro de manjericão
em ti era tão natural
como Chanel nas grã-finas
e foi “tua filosofia”
“ruim com ele, pior sem ele”
que me tornou desgarrada
a querer apagar-te mansa
em toda minha lembrança
mas disso tudo ficou
um fiapo de memória
faísca de fogueira
das festas de São João
da canjica, da pamonha
da fogueira e dos balões
pois é, mãe,
de tudo isso ficou
um fiapo de lembrança
com gosto de caju verde
e esse cheiro de cajá...
**

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Um sonho de liberdade: Vila Analândia, Jandira, SP - João dos Reis



Para José Henrique do Carmo

Os trabalhadores saiam do turno da noite cansados, com sono, com corpos encharcados e roupas manchadas de sangue. Elza - eu e José Groff, da Frente Nacional do Trabalho, estávamos em 1981 reunidos com o grupo de jovens trabalhadores da comunidade católica da Vila Analândia em Jandira. Eles nos contaram da jornada de trabalho no frigorifico: queriam criar um sindicato para garantir direitos trabalhistas que estavam sendo desrespeitados. Quando a empresa descobriu o projeto deles, todos foram demitidos.

Em 1968 eu trabalhava no Banco Auxiliar em Osasco - e Marcos Lopes Martins me procurou para criar uma subsede dos bancários na região, o que só aconteceria anos depois. No final dos anos 70, os professores da rede pública, organizados em uma chapa de oposição, conquistaram o sindicato (Apeoesp). Foram tentativas de organizar os trabalhadores diante do arrocho salarial, das péssimas condições de trabalho, de jornadas exaustivas, da ausência de liberdade.

Vila Analândia, na periferia da cidade de Jandira, foi um exemplo nos anos 80 de que era possível acreditar em uma nova sociedade . Elza e os italianos do movimento católico da província de Reggio Emilia, na Itália, viviam no bairro. Com eles, a FNT programou várias “Semanas do Trabalhador” – em que discutimos temas como Partidos Politicos, Fé e Política, Direitos Trabalhistas, Sindicatos e participação política, entre outros. Nunca me esqueci: na palestra de Plinio de Arruda Sampaio, um casal percorreu a pé uma longa distância para ouvi-lo, com a mulher e os filhos pequenos carregados nos braços.

O surgimento de um novo partido, o PT, a conquista dos sindicatos, trouxe de volta a esperança de se criar uma nova sociedade onde conseguiríamos eliminar as injustiças e a desigualdade . Com o grupo do sindicato dos professores (Apeoesp) de Osasco, eu e Jeanete Beauchamp, indicamos os nomes de Rosa Lopes Martins e Leônidas Gonçalves da Silva (Léo) para candidatos às eleições de 1981 na cidade – e Léo declinou da candidatura e apoiou Rosa.

Ricardo Madacki, Célia, Cupertino de Arrochela L. dos Santos, Airton Cerqueira Leite - foram alguns dos que apoiaram a candidatura vitoriosa de Rosa. Foi um período de muitas reuniões e panfletagens. Elaboramos um projeto de visitas às casas dos trabalhadores a partir de uma lista da ACO (Ação Católica Operária), dos metalúgicos e do grupo de professores. Lembro de um domingo em que eu, a advogada e colaboradora do projeto de educação popular da FNT, Marcia Terezinha Rossato, e companheiros, fomos para uma das favelas da Zona Norte de Osasco conversar com os moradores sobre o novo partido, sobre as eleições, sobre a importância do engajamento na política.

Por que acreditei na força do poder da cidade no processo de mudança para uma nova sociedade? Penso que foi, em parte, ao seminário organizado pelo Jornal “Batente” em Osasco; e ao ciclo de debates por Sergio Luiz Avancine , na PUC-SP – os dois eventos no inicio dos anos 80 discutiram a experiência de “governo popular” entre 1977 e 1982 nas cidades de Americana (Waldemar Tebaldi) e Piracicaba (João Hermann Neto), no interior de São Paulo, e Lages, em Santa Catarina (Dirceu Carneiro), e a de Miguel Arraes em Pernambuco antes do golpe de 1964.

Depois da derrota da resistência à ditadura militar nos anos 70, retomamos as esperanças de um novo tempo. A escolha pela conquista do poder parlamentar nas cidades, dos sindicatos, apontavam que era possível acreditar na democracia. O PT surge no quadro da legalidade com a proposta revolucionária do socialismo – os outros partidos de esquerda continuavam na clandestinidade pela legislação eleitoral autoritária. Militantes das Pastorais e das CEBs (comunidades eclesiais de base) da Igreja Católica, das oposições sindicais, dos movimentos populares, dos sobreviventes das organizações da luta armada contra a ditadura, contribuíram para construir o novo partido e os novos sindicatos.

Décadas depois ainda me recordo da imagem dos operários que trabalham para que a carne chegue à nossa mesa. Nunca mais tive noticias dos jovens da Vila Analândia – me informaram depois que alguns deles, desempregados, voltaram para o interior. Levaram com eles a experiência da vida comunitária no bairro proletário – mas também da exploração do trabalho e da repressão aos trabalhadores.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

MANZUALTO! CAMONEBÓI! Jailson Vital de Souza




Era mágico. Eu entrava na casa de Fernando de Laura (Florêncio) sem pedir licença, me dirigia para a pilha de revistas de histórias em quadrinhos (HQ) que chamávamos gibís e fascinado com tanta diversidade escolhia a que queria ler ou reler e ler mais quantas vezes a revista me convidasse. Era fascinante incorporar os personagens heróis defensores da lei e da ordem. As revistas ainda eram impressas em tinta preta, mas meus olhos de menino davam colorido, davam movimento e davam som a cada quadrinho. Eu realmente vivenciava cada história. Os heróis eram diversos. Haviam os cowboys, os meus preferidos, cujo cenário era o velho oeste americano e nomes como Billy The Kid, Cavaleiro Negro, Tom Mix, Zorro, Hopalong Cassidy, Roy Rogers, Rocky Lane, Flecha Ligeira e muitos outros. Na Selva estavam lá atentos, Tarzan, O Fantasma e Jim das Selvas. Na cidade os heróis voadores Super Homem, Capitão Márvel, Capitão América e Centelha Vermelha além da dupla Batman e Robin. Nos mares, o Homem Submarino, no espaço planetário, Flash Gordon e Buck Rogers. Enfim, o mundo naquela época estava protegido dos malfeitores em todos os seus ambientes por esses personagens maravilhosos. Hoje, lembro de uma característica interessante. Nunca um herói matou um bandido. No máximo, um tiro era disparado na mão do facínora para derrubar-lhe a arma, estes eram dominados, presos e entregues ao xerife ou outra autoridade policial. Os autores tinham o cuidado de não estimular a violência. Muitos anos depois, com o advento das HQ de lutas marciais é que a violência começou a ser mostrada em suas histórias.
Depois veio o cinema. Zé de Isaías montou uma sala de exibição num prédio que ficava de frente para a Praça Padre Leão, próximo onde hoje é a Câmara Municipal e era a primeira sede ou veio a ser depois, do CLRC (Clube Lítero Recreativo de Custódia). O projetor era de 16 mm e a sessão precisava ser interrompida para trocar os rolos de filme. Tinha sessão apenas nos fins de semana. Foi nesse cinema que assisti: O Homem da Máscara de Ferro, O Conde de Monte Cristo e Os Sinos de Santa Maria, todos em preto e branco, pois o filme colorido ainda era raro. Mas o que mais atraía a meninada e mesmo os adultos eram os seriados. Eram filmes curtos de mais ou menos meia hora, semelhantes à novela de hoje, com uma diferença; o “mocinho ou a mocinha” terminava cada capítulo em perigo de vida. Passava sempre depois da exibição do filme semanal. A meninada ficava imaginando e discutindo, o resto da semana, o modo como eles sairiam daquela enrascada. Assim, ninguém perdia o próximo capítulo. O seriado que ficou na minha lembrança foi “Os Perigos de Nyoka”. O casal Nyoka e seu companheiro Larry eram os artistas. Todo capítulo essa mocinha caía numa armadilha montada pelos bandidos, era ameaçada por um leão ou uma cobra, despencava de uma cachoeira, era ameaçada por índios e muitas outras situações. Nós, meninos ficávamos apreensivos, torcendo pela nossa heroína.
Algum tempo depois, esse cinema passou a ser propriedade de Inácio Germano, onde Osminda Carneiro era a bilheteira.
As nossas brincadeiras, na época, incluíam a reedição dos filmes de faroeste com uns sendo os “artistas” e outros os bandidos. Brincávamos principalmente na Praça Ernesto Queiroz e em volta da igreja. As armas eram feitas de madeira ou simplesmente imitadas com a mão estendendo dois dedos. Quando algum menino surpreendia outro, vinha a ordem de rendição: “manzualto”! Isto é, mãos ao alto. Dizendo assim ficava mais claro, pois a pronúncia MÃOS-AU-AU-TO ficava parecendo um latido. No final com todo mundo rendido fazia-se a conta de quem venceu. Geralmente todos. E para irmos embora vinha a ordem imitando os cowboys: “Camonebói”! (Come on boys) – Vamos rapazes.
Pois é. Vamos rapazes, vamos para Pasárgada, ainda dá tempo.

jalvital@gmail.com

domingo, 12 de abril de 2015

ANOS 70: de resistência e companheirismo - Alberto Abib Andery e Reginaldo C. Corrêa de Moraes- Por João dos Reis



Abib e Reginaldo estiveram em minha casa no Km 18 em Osasco – queriam saber porque eu não compareci à reunião da Frente Nacional do Trabalho. No inicio dos anos 70 havia o perigo de prisões e desaparecimentos de companheiros. Por que estive ausente nesse dia?

ALBERTO ABIB ANDERY esteve muitas outras vezes em minha casa. Eu o convidava, depois das reuniões da FNT, para almoçar ou tomar a sopa portuguesa da minha mãe - que ele muito apreciava. Conversamos muito sobre esses anos de ausência e destruição de sonhos, de perspectivas para o futuro.

Eu me perguntava : o que o destino me reservava? Abib era a presença amiga nesses anos desesperados. Quando meu pai faleceu, foi um dos apoios para mim, meu irmão e minha mãe - ela lembra até hoje, com gratidão, que o procurou no ITO (Instituto Tecnológico de Osasco), onde trabalhava como psicólogo, para conversar.

Salete de Jesus Macedo e Silva, minha prima querida, estava a trabalho em S.Paulo, vinda de Duartina, interior de São Paulo. Eu e Abib combinamos com ela vários encontros. Depois, sempre perguntava dele e lembrava com carinho desses diálogos - em um último telefonema, quis saber noticias dele. Em 2007 despediu-se tragicamente da vida em Brasilia.

Abib estudou na Bélgica, onde morou 10 anos; era pároco na Igreja do Jardim São Vitor em Osasco e professor de Psicologia Social na PUC-SP; foi assessor do projeto de educação popular da FNT/Osasco (em 1980-1984); criou uma extensão universitária – a psicologia na comunidade - no Jardim Santo Antonio – para atender os trabalhadores. A presença dele – e a do grupo da FNT - foi fundamental para que ousássemos enfrentar a opressão e o governo tirânico com esperança de um mundo melhor.

Em 1971 e 1972, e no inicio dos anos 80, realizamos “Encontros sobre a realidade brasileira”- com militantes da FNT, das Pastorais (Operária, da Juventude, Direitos Humanos), da JOC (Juventude Operária Católica), da ACO(Ação Católica Operária), da Oposição Metalúrgica, das CEBs (comunidades eclesiais de base). Foi um desafio à censura e à repressão policial: convidamos como conferencistas intelectuais e trabalhadores que estavam marginalizados pela ditadura militar: Paulo Schilling, Salvador Pires, Paul Singer, Waldemar Rossi, Plinio de Arruda Sampaio Jr.

REGINALDO CARMELLO CORRÊA DE MORAES foi meu amigo no curso de Filosofia na USP. Lembro de que desapareceu por uma semana da faculdade. Eu e Patrizia Piozzi, sua namorada, ficamos preocupados. Somente 40 anos depois, em um almoço, fiquei sabendo o que aconteceu: ele era militante do POC (Partido Operário Comunista), e encarregado de levar e buscar companheiros na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. E me contou da prisão e morte sob tortura de Luiz Eduardo Merlino, o contato dele com a organização de esquerda.

Reginaldo foi um dos colaboradores dos grupos de estudos e dos encontros sobre a realidade brasileira da FNT-Osasco. E também um dos convidados para a sopa da minha mãe, quando, às vezes, me dava carona da faculdade e me levava até à a escola do Jardim Baronesa em que fui professor-alfabetizador. Uma outra gentileza – e talvez não tenha revelado como sou grato: nunca tinha frequentado um restaurante na capital paulista – e ele me convidou para jantar no restaurante chinês na rua Fernão Dias, em Pinheiros.

Foram anos que tivemos a audácia de enfrentar a tirania. Recordo de várias panfletagens da Oposição Metalúrgica que realizamos juntos – em uma das vezes, ele passou a noite em minha casa para, de madrugada, estarmos nas portas das fábricas no bairro do Jaguaré. Eu como mesário, ele como fiscal, participamos em 1972 das eleições para o Sindicato dos Metalúrgicos de S.Paulo (Chapa Waldemar Rossi). Era aluno de Prática de Ensino de Filosofia na Faculdade de Pedagogia na USP, e para justificar a ausência ao trabalho, consegui um “atestado” – de que eu participara de um “estágio”.

Os anos 70 estão marcados, para mim, pelo companheirismo, pela ousadia e coragem de Abib e Reginaldo – entre muitos outros camaradas. Alberto Abib Andery vive hoje na Casa São Paulo, no bairro Ipiranga; Reginaldo C. Corrêa de Moraes é professor na Unicamp – eles estão presentes na minha memória e na história de Osasco.

quinta-feira, 19 de março de 2015

RECORDANDO Dona ANA CARA ESPINOSA ou Como dizer adeus - João dos Reis


RECORDANDO Dona ANA CARA ESPINOSA ou Como dizer adeus

Estávamos em 1974 - e me despedia do Espinosa na varanda da casa dele, na rua Mal. Bitencourt, em Osasco. Ele havia saído da prisão depois de 4 anos. Tinhamos conversado sobre esses anos de isolamento, mas não tive coragem de perguntar a ele como foI a solidão do cárcere. Ele me mostrou as inúmeras anotações que fizera da leitura de “O Capital” de Karl Marx. Na saída, Dona Ana Cara Espinosa , a mãe dele, estava presente – e eu não sabia como encerrar a visita. Olhava para eles, e as palavras desapareceram.

Nesse dia, voltei para o Litoral Norte de São Paulo, onde trabalhava desde 1973 como professor de Filosofia. Quando vinha à cidade proletária visitar minha família, telefonava ou visitava o amigo de adolescência. No inicio dos anos 70 não tínhamos ilusões. O que os golpistas de 1964 planejavam para essa década? Como os sobreviventes da repressão, da tortura enfrentariam o presente e planejariam o futuro?

Recordava a Revista “Veja”, que registrou a prisão de Espinosa, Maria Auxiliadora Lara Barcelos e a morte sob tortura de Chael Charles Schreier. Era dezembro de 1969, e estava na casa de um amigo, militante do POC (Partido Operário Comunista), que foi preso no ano seguinte por 8 meses. Em setembro de 1970, li no jornal que um dos meus contatos com a VAR-Palmares tinha sido presa. As lembranças retornavam: o cerco aos resistentes à ditadura militar foi cruel e implacável.

Em Osasco, sabia que companheiros da greve de 1968 – José Groff, Antonio Vieira de Barros - estavam na lista do Dops e não conseguiam emprego nas fábricas. Não tínhamos noticias dos que estavam presos e “desaparecidos”. As detenções arbitrárias continuavam - Albertino Souza Oliva esteve no quartel da Av. Tiradentes – e não tínhamos informações dele e nem o motivo da prisão. Meu amigo de escola, José Campos Barreto, foi morto com o Capitão Carlos Lamarca em uma emboscada no sertão da Bahia.

Em Caraguatatuba, uma das mais belas paisagens brasileiras, me vi muitas vezes isolado e angustiado. Olhava para o mar à minha frente e a montanha do outro lado, e me sentia desesperado.

Encontramos às vezes nessa viagem transitória pelo nosso planeta pessoas que nos oferecem momentos de alento e esperança. Já mencionei várias delas antes – Antonia Carlota Gomes, Olga Ribas de Andrade Gil, Ângela Bernardes de Andrade Gil, Estevão Miklos Arato. Foram eles – entre outros personagens queridos - que tornaram possível enfrentar a década de 70. Que eu chamo os anos desesperados.

Mais tarde, em meados de 1980, voltei para Osasco. Decidi, com o apoio dos camaradas da Frente Nacional do Trabalho, confrontar a tirania com o poder da palavra. Contra a opressão, o medo, o terrorismo de Estado, acreditamos na força da classe trabalhadora.

A imagem sempre reaparece: os três na varanda da casa: Espinosa e sua mãe, Dona Ana – e eu sem saber o que dizer. Ficou gravado na memória: descobri nesse dia, mais uma vez, como é difícil encontrar as palavras para a despedida.

Disse adeus muitas outras vezes em minha vida – e todos eles foram dolorosos – e não há como evitar a dor, a tristeza e a saudade. Necessitamos das palavras para revelar nossos sentimentos e emoções – e nem sempre aprendemos ou sabemos como dizer adeus.

quinta-feira, 12 de março de 2015

DEPOIMENTO DE RISOMAR FASANARO à Comissão da Verdade de Osasco- João dos Reis


DEPOIMENTO DE RISOMAR FASANARO à Comissão da Verdade de Osasco –março/2015

“Seo” João Fasanaro abriu o portão da rua e me convidou para entrar. Nesse dia, estava mais cordial do que de outras vezes. Diria que estava mesmo sorridente: afável, me convidou para sentar, dizendo que iria chamar a filha, Risomar. E essa é a última imagem que guardo dele. Depois, já em outra casa, na rua Avelino Lopes, entrou em uma fase de mutismo absoluto – quando o visitava, imobilizado no sofá da sala, me olhava em silêncio.

Essa introdução é para dizer o que mais me emocionou no depoimento da professora Risomar à Comissão da Verdade de Osasco no Sindicato dos Metalúrgicos. Lembrar que as Forças Armadas brasileiras não reconhecem a participação em prisões arbitrárias, espancamentos, sequestros, torturas e desaparecimentos de presos políticos. Aguardamos delas o pedido de perdão à nação e ao povo brasileiro - sabemos que a grande maioria dos militares não compactuaram nem concordam com as atrocidades cometidas durante os anos de terrorismo policial.

“Seo” João foi militar do Exército no Quartel de Quitáuna em Osasco até a aposentadoria. Fiquei informado mais uma vez que ele sempre apoiou a participação política da filha, que sabia das atividades em que os amigos dela estavam engajados.

RISOMAR FASANARO, a agitadora cultural da cidade de Osasco, professora de Lingua Portuguesa e Literatura, escritora, poetisa, militante do movimento das mulheres e dos professores, não esqueceu das lembranças do pai durante a sessão que se realizou no Sindicato dos Metalúrgicos.

Algumas informações da biografia dela me marcaram nessa tarde de recordações. As reuniões do grupo de estudantes na Biblioteca Municipal; a participação em um projeto de alfabetização de adultos – que foi proibido pelos golpistas; o apoio e envolvimento com o grupo de teatro Barracão, com o Núcleo Expressão e com a Vila dos Artistas no Jardim Cipava; a criação de letras de músicas nos Festivais da cidade; a professora-militante do Ginásio de Quitaúna, frequentado pelos militares do quartel. Fiz uma intervenção no debate nesse dia – para dizer a ela que uma revolução não se faz apenas com armas, mas também com palavras.

Fui leitor dos seus textos na coluna de jornal chamada “Girassol”. Ela já havia me contado, mas a força da imagem retornou com emoção: “seo” João lia as crônicas da filha, guardava, mostrava para os amigos, com orgulho da filha militante.

Dois casos contados no depoimento eu já conhecia. A prisão da professora Regina Crepaldi – porque presenteou um aluno com uma desenho do Che Guevara. E a detenção em Recife – estava de passagem pela cidade e queria fotografar o bairro do Socorro e o quartel onde o pai havia trabalhado e ela havia passado a infância. Foi uma volta ao passado que revelou o clima de terror que vivemos nos 20 anos de ditadura.

Risomar, nascida em Recife, disse no final a gratidão que sente por Osasco, a força que a cidade tem – que teve a coragem de enfrentar a ditadura com a greve dos trabalhadores em 1968. É a cidade proletária que deve estar grata pela presença dela na vida cultural, mesmo nos tempos de censura, desconfiança, medo do governo tirânico. Que, mesmo nesse clima de guerra, a artista pernambucana-osasquense soube criar arte e beleza. Osasco deve a ela uma homenagem digna do papel que desempenhou nesses anos de resistência.

Nos anos de juventude, estudantes e trabalhadores de Osasco ousaram sonhar, lutar, resistir. Em momentos de opressão, não perdemos os laços de amizade e solidariedade. Risomar - e a retomada da figura do “seo” João - nos fez recordar nossas esperanças por um mundo melhor. A revolução que queremos começa também nos pequenos gestos de delicadeza.