segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Linguagem & Exclusão - Risomar Fasanaro


Minha amiga Alfredina Nery, que também é professora de língua portuguesa e de literaturas brasileira e portuguesa, me presenteou com o livro “A Língua de Eulália”, de Marcos Bagno. Graças à leitura desta obra e a longas conversas com ela, passei a refletir mais sobre a linguagem oral e o preconceito de que ela é vítima.
Atenta às observações que as pessoas fazem a respeito das “incorreções” da linguagem do povo, resolvi me aliar a alguns linguistas, e defender a forma de falar de grande parte da população.
Um dia estava no elevador do prédio com o jornal do dia, e ao olhar a primeira página comentei com um rapaz que tinha vindo consertar alguma coisa no condomínio: “nossa!...só traz notícias ruins.” E ele concluiu: “pois se é disso que ele vévem...”
Naquele instante constatei o quanto a língua é um divisor de águas entre os incluídos e os excluídos. Já passara da hora de eu escrever sobre o assunto. A exclusão se estampava naquela figura simples, vestida humildemente, calçando sandálias havaianas.
Aquele rapaz expressava seu pensamento em uma variação de língua não consagrada pela gramática normativa, mas revelava a consciência que ele tem, capaz de reconhecer seu papel de cidadão, e de perceber claramente que a mídia, em nossa sociedade, enxerga muitas vezes, apenas uma fatia da realidade: a das tragédias humanas, aquela que produz lucros. “notícia boa não vende” é o que dizem.
Faz algum tempo, em um curso de “Políticas públicas para mulheres” que fiz, ouvi de uma das presentes: “eu sinto vontade de falar, de participar dos debates, de dar minhas opiniões, mas tenho medo de falar errado e as pessoas rirem de mim”.
Aquele desabafo me causou profundo mal-estar. Saber que a linguagem, um dos mais importantes instrumentos que existem para promover a comunicação entre as pessoas, pode se tornar uma barreira, e, o que é pior, pode promover a exclusão, exige dos que a utilizam como instrumento de trabalho, alguma (re)ação.
Mas nem sempre pensei assim. Houve um tempo em que meus ouvidos faziam “toiiimmmm” cada vez que ouvia alguém se expressar diferentemente das normas gramaticais. O encontro com aquele rapaz no elevador me deixou feliz. Feliz por perceber quanto eu mudara, o quanto agora eu entendia e compreendia a língua brasileira, a língua do meu povo que, ao contrário do que pensam os que ditam suas normas, ela não é pobre, não é corrompida, nem está na sarjeta, como ouvi alguns dizerem. Ao contrário, ela segue o caminho natural que é o dinâmico, passa pelas transformações a que todas as línguas vivas estão sujeitas.
A cada momento que um brasileiro inventa uma palavra, a cada instante em que ele supre um s, troca um l por um r, ou traz para nosso vocabulário uma palavra árabe, norte-americana ou japonesa...sei lá, ela se enriquece.
Vamos defender a leitura de obras literárias sim, mas não façamos delas “camisas-de-força” que obriguem as pessoas a falar exatamente como se escreve. Por enquanto língua falada é uma, escrita é outra.
Que o exemplo de Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Aluísio Azevedo, João Antônio e Lima Barreto, esse último usou até gírias em “Triste fim de Policarpo Quaresma”, todos defensores da linguagem popular, seja seguido e inspire outros autores a utilizá-la em seus escritos. Quem sabe passemos a ver essas fugas das normas oficiais não como incorreções, e sim como fazendo parte da língua. Uma língua que há muito já deveria se chamar de brasileira.
Aos que acham que ela deve ser fiel ao português de Portugal, pergunto: é possível hoje excluirmos do nosso vocabulário palavras como: sachimi, deletar, quibe e tantas outras? É interessante exigir que nosso povo diga dois reais, nós fazemos, nós iremos, quando ele já consagrou “dois real”, “nós faz”, “nós vai”?
Os que têm consciência disso, devem continuar insistindo pelo direito de todas as variações de usos da língua serem consideradas em sua riqueza de conteúdo. A língua falada de um país é a da classe dominante. Assim, nosso papel enquanto pessoas que têm o objetivo de construir um país verdadeiramente democrático, é o de brigar para que nossa língua nunca se feche às transformações dos que “vévem” à margem das gramáticas.
É preciso lembrar que a literatura sobreviveu muitos séculos completamente independentes da gramática. Homero escreveu a “Ilíada” e a “Odisseia” no século VI antes de Cristo, enquanto as gramáticas gregas só surgiram no século II AC.
Não vamos esquecer o poeta pernambucano Manuel Bandeira que em seu poema “Evocacção do Recife”, em 1930 já reconhecia a beleza da língua do povo:
“...a vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros/vinha da boca do povo na língua errada do povo/língua certa do povo/porque ele é que fala gostoso o português do Brasil/ao passo que nós/o que fazemos/ é macaquear/ a sintaxe lusíada”


sábado, 1 de agosto de 2015

2015: um encontro de amigos em Osasco - João dos Reis



Para Ewerton Antunes e Arthur Antunes, de Curitiba

“Estamos os meus amigos. (...)
Os gestos, a alegria
do encontro tornara-os ternos e desajeitados.
Mais do que dirigindo-nos a nós próprios,
fazíamo-lo para uma presença imaginária,
a secreta corrente que cada um unia, e,
mais secretamente ainda, dois e três escondia.(...)
Os meus amigos falam, falam todos ao mesmo
tempo e não se entendem.
E quanto mais querem dizer mais abraços dão”
João Miguel Fernandes Jorge, inicio do poema “Jantar em Alcabideche”.

No restaurante “La Manchega” em Osasco, Albertino revela as dificuldades da Comissão da Verdade de Osasco. José Geraldo nos conta do período e que ele e o filho estiveram com dengue; e da viagem ao campo de concentração Auschwitz na Polônia. Risomar descreve o personagem do livro que está terminando de escrever. Toninho nos fala da cela no DOPS do Largo General Osório onde esteve preso nos anos 70. Espinosa anuncia a série de artigos que está escrevendo sobre a universidade pública. Airton mostra o entusiasmo com o curso de Fenomenologia que está frequentando na USP.

O grupo se reúne mensalmente para um almoço de confraternização há quatro anos. Albertino Souza Oliva, advogado, participou do movimento emancipacionista de Osasco. José Geraldo Vieira, advogado, esteve ligado ao movimento dos padres operários – e é o principal idealizador desses encontros. Risomar Fasanaro, professora de Literatura e Lingua Portuguesa, ativista cultural que esteve ligada aos artistas que agitaram a cidade desde os anos 60. Antonio Vieira de Barros, operário, participou da JOC, da Frente Nacional do Trabalho e da Oposição Metalúrgica. Antonio Roberto Espinosa foi do comando da organização guerrilheira VAR-Palmares e proprietário do Jornal “Primeira Hora”. Airton Cerqueira Leite, professor de Geografia, militou na Apeoesp, sindicato dos trabalhadores da educação pública.

Sobre o que conversamos? Nossos diálogos não têm roteiro; nossos almoços não têm data nem dia definidos: é um encontro de amigos para trocar idéias, revelar as agruras do cotidiano, expor as dificuldades e os novos projetos – uma celebração à vida e ao futuro.

Estivemos sempre ligados por laços de amizade e de ideais políticos. A passagem do tempo não nos afastou, apesar dos caminhos que cada um de nós percorreu. O que nos aproxima ainda hoje? Penso que é o compromisso com a luta da classe trabalhadora, a defesa de um humanismo radical, de uma sociedade com justiça e igualdade.

Todos participaram da vida sindical e política na cidade. Albertino e José Geraldo como militantes e da assessoria jurídica da Frente Nacional do Trabalho; Toninho e Airton como sindicalistas; Risomar como militante sindical e da cultura; Espinosa como jornalista e professor universitário.

Em muitas outras reuniões os amigos estiveram presentes: no Partido dos Trabalhadores, na Frente Nacional do Trabalho, no sindicato, na vida cultural da cidade. Acredito que em nenhuma dessas ocasiões ficou evidente como nos nossos almoços-encontro: a amizade fraterna e solidária – que sobreviveu aos anos do terror policial, aos dilemas da redemocratização, à partida definitiva de companheiros, aos embates da vida presente.

E vocês me perguntam: quem sou eu no grupo de amigos do passado? Sou o “secretário” indicado por eles para articular o encontro, marcar o dia, escolher o restaurante, enviar e-mails para os convidados. Como no verso final de João Miguel Fernandes Jorge, estou presente entre meus amigos e, em silêncio, “olhava-os como vocês, leitores, nos estão a olhar agora”.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O dia que conheci o fundador da Banda de Pífanos de Caruaru- Risomar Fasanaro



Em 2013 fui convidada pelo casal Cupertino e Edna dos Santos para conhecer o fundador da Banda de pífanos de Caruaru. Era uma quarta-feira quando minha amiga Edna e eu chegamos à casa de Sebastião Biano, no bairro de M’boi Mirim. Ele nos recebeu à porta, e me foi difícil acreditar que aquele senhor que não aparentava mais de 70 anos, estivesse com 93.
Vendo e conversando com ele, fui tomada pelas lembranças da minha terra: as cirandas de Lia, o pastoril de Piedade, bumba-meu-boi e reisado, maracatu e, sobretudo, a banda de pífanos de Caruaru.
Ali naquela sala, ouvindo a história de Sebastião, meu ouvido interno “escuta” o som da banda enquanto ele me conta: a história dele começou quando ainda era muito criança. Foi quando em 1924 o pai, Manuel Clarindo Biano viu uma banda de pífanos tocando em uma novena em Alagoas. Os sons da banda encantaram aquele homem que fugia da seca, não saíram mais de sua cabeça, e se alojaram em seu coração.

Anos depois ele levava os filhos pra roça, para aprender a plantar o roçado. Brincando, as crianças, Sebastião Biano então com 5 anos e o irmão com 7, descobriram que fazendo 2 furos nos talos das folhas de jirimum ( abóbora) era possível extrair algum som. Naquele instante a emoção tomou conta daquele lavrador, só de pensar que ali começavam a despontar aqueles músicos. Naquele instante decidiu procurar alguém que confeccionasse pífanos para os dois garotos:
-Vocês vão aprender a tocar.
O pai mandou fazer uma par de pífanos porque para fazer 1ª e 2ª voz é preciso que haja um par, e quando os instrumentos chegaram, os meninos começaram a ensaiar, o que seria a nascente Banda de Pífanos de Caruaru.
Mas não bastou ver os filhos tocarem, analisando como os instrumentos eram feitos, ele resolveu tentar fazer um. Deu certo, e tendo aprendido com o pai, hoje Biano também faz pífanos que vende aos interessados.
O músico nos explica que os instrumentos são feitos de taquara que ele colhe em terra bem úmida, na mata.
No início, a banda tocava só em novenas, enterros de crianças e nas festas religiosas. Percorriam longas distâncias, para se apresentar em cidadezinhas do nordeste. Vida difícil, bem diferente dos locais em que hoje se apresenta.
Encantada com a história que ouvimos, peço a ele que toque um pouco e ele não se faz de rogado, toca “Asa Branca” e outras composições suas. É impossível traduzir a emoção que sinto ao ouvir o que para nós, nordestinos, é um hino. Em seguida, ele me presenteia com um pífano, e nos convida para um café. Enquanto tomamos café com ele e a filha, ele continua falando sobre a trajetória do grupo:
Em 1939 a família Biano chegou a Caruaru, no interior pernambucano, onde decidiu se estabelecer. Com a morte de Manoel, em 1955, a zabumba foi assumida por João, o primeiro neto do fundador a integrar o grupo, então batizado oficialmente de Banda de Pífanos de Caruaru. E logo começou a fazer sucesso. Biano conta que eles tocaram para Gilberto Gil, e se lembra do encantamento do compositor com o trabalho do grupo.
Hoje, a banda ainda é formada por membros da família, e no repertório não faltam baiões, cirandas, xotes, a maior parte composições dele em parceria com algum componente do grupo.
Sebastião Biano e seu grupo já tocou muitas vezes “com Luiz Gonzaga, com Jackson do Pandeiro, Anastácia, Marinês, Trio Nordestino, e vários outros”, diz ele, referindo-se aos artistas que deram consistência a esse gênero musical.
Em 1972, a banda veio para SP gravar o primeiro LP, “Banda de Pífano Zabumba Caruaru”. Aqui participaram de documentários, espetáculos e de discos de outros artistas. Em 1973, gravaram o volume 2 de “Banda de Pífano Zabumba Caruaru”. Depois viajaram para apresentações no exterior, onde fizeram muito sucesso.
Em 1999 eles sofreram uma grande perda: Benedito Biano, um dos fundadores do grupo, faleceu em São Paulo, vítima de problemas cardíacos. Mas a banda continuou se apresentando e nesse espaço de tempo, gravou mais seis discos, hoje CDs, e é reconhecida no cenário musical nacional e internacional, tendo recebido o prêmio Grammy Latino, na categoria de Melhor Grupo Regional de Raiz, com o disco “Banda de Pífanos de Caruaru: No Século XXI”, em 2004.
Em 2005, na segunda edição do Prêmio TIM de Música, Sebastião recebeu o prêmio de Melhor Grupo na categoria regional, das mãos do então presidente Lula. Hoje este grande artista é um homem sereno, tranquilo que deixou Caruaru e vive em M-boi mirim; mas continua se apresentando e encantando o público.
Agora com o Trio "Esquenta muié",se apresentou recentemente no Sesc Santana,com a participação de Naná Vasconcelos e Siba", no lançamento de seu CD.E como disse minha amiga Edna: "foi de chorar, coisa que sempre faço quando o ouço tocar.".
São muitas as histórias que ele entusiasmado nos conta. Entre elas a de que quando era pequeno tocou para Lampião. E disse que ele e o irmão tremendo de medo, mal conseguiam segurar os pífanos, mas que logo ficou à vontade com o comentário do cangaceiro. Ao ouvi-los tocar, ele teria comentado com seus homens: “olhem só, esses meninos tão pequenos e já tocam e vocês não sabem fazer nada...”
Saímos daquela casa, Edna e eu, ainda “ouvindo” o som de “Asa Branca”, ainda com pedaços das histórias daquele homem tão gentil, tão simpático, tão jovem nos seus 94 anos...







segunda-feira, 27 de julho de 2015

Litoral Norte: o reencontro com a cultura caiçara 2 - João dos Reis



"Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
como o surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão de obra a mais
que o tempo não está para a poesia".
Ruy Belo, trecho do poema "Emprego e desemprego do poeta"


Para Pedro Paulo Teixeira Pinto, de Ubatuba

Em um sábado à noite o jovem Lenin, meu aluno de Filosofia no curso colegial , tocou a campainha do apartamento onde eu morava na Praça Cândido Mota em Caraguatatuba – e me convidou para acompanhá-lo a uma festa. Em 1973, ano em que cheguei à cidade para lecionar na Escola Estadual “Thomaz Ribeiro de Lima”, ele foi um dos meus amigos-camarada.

Lenin trabalhava com artesanato de taboa. Reclamou para mim: tinha que entrar na água do manguezal para recolher a planta – que depois se transformava em obras de arte: tapetes, assentos para bancos e cadeiras. Conversamos muitas vezes sobre a ausência de emprego no litoral. Era filho de um militante do PCB que morreu atropelado na Rodovia Manuel Hipólito Rego (SP-55) – e que deu a ele o nome do líder soviético.

Julio César Lopes Avelar foi presidente do centro cívico (grêmio) estudantil da escola onde eu trabalhava em Caraguatatuba. Conversei com o jovem estudante: não tínhamos eleições para governador e presidente da República, mas devíamos nos preparar para a volta da democracia. No final do ano e do mandato, convidei-o e aos outros participantes da diretoria do grêmio para um jantar com pizza para comemorar a despedida.

Lucio Mascarenhas foi um aluno-companheiro querido: conversávamos sobre livros, música, sobre a participação dele no grupo de jovens católicos. O pai dele, que faleceu em um atropelamento na Rodovia SP-55, era um grande leitor – tinha os livros da Coleção Saraiva de Literatura. Em um domingo Lucio gentilmente me convidou para o almoço - sua mãe preparou o prato típico caiçara: o azul marinho.

O casal de namorados Isabel Cristina de Oliveira e Márcio foram também meus caros companheiros nos primeiros anos da minha temporada no litoral. Não recordo o que conversava com Isabel, mas lembro que Márcio era bastante calado.

Acordei às 7 horas da manhã do dia do meu aniversário no primeiro ano no litoral com o toque da campainha: eram Rita e Ester com um bolo de presente. As duas alunas eram amigas inseparáveis – e nossas conversas eram frequentes. Quais eram os assuntos dos nossos diálogos? Elas participavam do grupo de jovens da Igreja Católica.

Nasci no interior de São Paulo, vivi desde os 12 anos em uma cidade proletária - e os anos em que fui professor no Litoral Norte foi uma experiência nova e enriquecedora. O convivio com os jovens alunos me tornou também um caiçara: tinha pouca roupa, um sapato, um chinelo, uma bicicleta, livros, e mais tarde, umamáquina de escrever e um carro. Não era proprietário de móveis ou utensílios domésticos: a casa alugada onde morava já era mobiliada.

Lenin foi para o planalto em busca de trabalho – não lembro se para São José dos Campos ou São Paulo; soube noticias dele por sua irmã, Tatiana. Tive durante muitos anos um tapete artesanal de taboa – e tenho dúvidas: foi um presente dele? O banquinho tenho até hoje, mas o assento de taboa se desfez com a passagem dos anos.

Julio cursou Oceanografia na UFRJ; nos encontramos em 1987 – trabalhava em Olivença no litoral da Bahia. Me convidou para passar as férias com ele, e hoje me arrependo de não ter aceito o convite.
Lúcio foi trabalhar em São Paulo - nos encontramos quando vinha à Caraguatatuba; durante alguns anos, tive noticias dele por sua irmã.

Rita cursava Engenharia; estive no casamento dela e, ao me despedir – e foi a última vez que a vi – ela chorou. Ester cursou Enfermagem na USP; ainda nos vimos algumas vezes, mas depois desapareceu na voragem da grande metrópole.

Márcio cursou Engenharia; Isabel, Psicologia. Nunca mais nos encontramos: o que restou foi uma foto no teleférico de Campos de Jordão, onde estivemos em uma excursão da escola.

Tive milhares de alunos em quase três décadas no magistério. Se recordo alguns deles é porque eles deixaram marcas na memória, apesar da destruição de vestígios que o tempo provoca em nossas vidas. A recordação mais triste é saber que o jovem abandonava a sua cidade, sua terra em busca de trabalho – e perdia para sempre os vínculos de afeto e amizade – e com a cultura caiçara.

sábado, 25 de julho de 2015

Ensino superior para a elite e o proletariado? Uma “aristocracia espiritual” na universidade? Uma reflexão sobre os 45 artigos de Antonio Roberto Espinosa- João dos Reis




“Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder venha arder em nosso peito
E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece
E saiam todos os sóis
que apodreceram no céu
dos que não quiseram ver
_ mas que saiam de joelhos
E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem”.
Alexandre O’Neill, poema “Canção”.

O título das minhas reflexões começa com duas interrogações – e surgiram pelas questões apresentadas por Antonio Roberto Espinosa em uma série de 45 artigos (“Algo de podre no reino da Universidade pública”), que estão sendo publicados na imprensa de Osasco.

Partindo da experiência de docente do ensino superior, o escritor retoma os concursos de que participou para uma vaga de professor na Unifesp de Osasco e do ABC para refletir e pesquisar a formação da aristocracia acadêmica, investigar os mecanismos que permitem a transformação do público em privado. “A presunção e a arrogância, além do sentimento de impunidade, constituem a marca indelével do aparelhamento da universidade pública pela burocracia acadêmica privatista”.

O primeiro artigo da série já revela as análises seguintes: “Mérito ou compadrio na seleção de professores?” O poder do saber ou, como ele mesmo diz, a reflexão sobre “o poder sobre o saber” é o caminho seguido pelo professor-filósofo.

Não pretendo – nem seria possível em uma página - explicar os mecanismos corruptos dos concursos públicos acadêmicos analisados pelo articulista. Me interessou denunciar a universidade como um aparelho ideológico do Estado: o “lucro do saber acadêmico beneficia capitalistas particulares casuais”. A “aristocracia espiritual” detêm o monopólio do saber por meio de burocratas especializados.

Pensei particularmente a identificação no domínio do conhecimento superior de “formas correspondentes de perversão: a ‘tirania intelectual’ e a ‘oligarquia espiritual’”. E a revelação na crença na palavra como um veiculo de dominação: para isso o autor recorre a Marx da Introdução de 1857 da “Para uma Crítica da Economia Politica”: a produção da realidade pelo pensamento - a elevação do abstrato ao concreto, produzindo um todo pensado a partir do devir em movimento da realidade e da ordenação do conhecimento.

Não há impiedade na expressão “fábrica de mediocridades” usada pelo jornalista-filósofo. É uma tentativa de lamentar e descrever o processo de burocratização dos mecanismos de seleção de professores – um instrumento de reproduzir e perpetuar a ideologia dominante. E dizer que o saber acadêmico é “apenas uma das formas de conhecimento, não a única”. O professor-candidato a uma vaga na universidade lembra aqueles que foram excluídos da academia: Jacob Gorender, Karl Marx, Mauricio Tragtenberg, Albert Einstein, para citar alguns deles.

Quais as sugestões para os concursos de novos professores para a universidade? O ex-guerrilheiro da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares apresenta, entre outras propostas, a introdução de alunos de graduação e de membros da comunidade no exame da prova didática (uma aula pública) – e também como fiscais em todas as etapas do processo de seleção. A avaliação do mérito e a transparência do processo seletivo envolve uma transferência do poder de uma classe que domina o Estado para a gestão direta da sociedade – o inicio de uma proposta de reforma.

Recordei o ano de 1968 em que houve a ocupação do prédio da Faculdade de Filosofia da rua Maria Antonia por alunos e professores, e das fábricas de Osasco pelos operários. Participei dos cursos livres e das discussões sobre uma “Universidade Crítica”- uma experiência revolucionária em Berlim e Paris. O debate era: qual era a universidade dos nossos sonhos? As palavras de ordem da revolta estudantil-operária: “é proibido proibir”, “a imaginação no poder”, “a humanidade só será livre quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último burocrata”.

Mais tarde, em 1980, o sonho de um fórum de debates com o proletariado foi o ponto de partida para a elaboração do projeto de educação da Frente Nacional do Trabalho em Osasco. Intelectuais, muitos deles não ligados à academia, concordaram em ir à periferia das cidades da Região Metropolitana Oeste para dialogar com os trabalhadores. O Brasil vivia ainda sob o terror e a repressão da ditadura militar, mas acreditamos na força do saber e da reflexão – e Antonio Roberto Espinosa, estudante-trabalhador na fábrica Cobrasma que cursou Filosofia na USP, foi um dos pensadores convidados.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Minhas telas mais recentes- Risomar Fasanaro


Um encontro histórico: militantes da VAR-Palmares em Osasco – novembro-2013 - João dos Reis


Estávamos reunidos à noite na casa do Espinosa no dia 15 de novembro de 2013. Foi um encontro dos militantes da VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares), depois de mais de 40 anos.
O projeto de reunião dos antigos combatentes começou um ano antes – deveria acontecer no feriado do 7 de setembro em Porto Alegre. Fui convidado por Antonio Roberto Espinosa para colaborar na organização junto com Raul Moura Ellwanger e Carlos Franklin Paixão de Araujo. Durante mais de um mês houve trocas de e-mails, elaboração de lista de participantes, escolha de locais e hotéis para o encontro. Foi suspenso porque muitos convidados estavam envolvidos nas eleições municipais.
Um ano depois, retomamos o trabalho, e a cidade escolhida foi Osasco, em 15 e 16 de novembro. Foram enviados centenas de e-mails e dezenas de telefonemas, e com a participação de Ieda Chaves, pesquisamos e indicamos três hotéis na cidade e escolhemos um restaurante. No sábado, o encontro aconteceu no salão de festas do prédio do Espinosa. No domingo, nos reunimos para o almoço no “Rincão Gaúcho Grill” na Vila Campesina.
Foram dois dias de reencontro, de emoções, de recordações do passado. Todos nós éramos muitos jovens no final dos anos 60 e inicio dos 70 – e arriscamos nossas vidas com coragem e generosidade. Em que acreditávamos? Na organização guerrilheira havia um debate sobre a luta armada contra a ditadura, os caminhos para o socialismo – que aconteceu em dois congressos, em Mongaguá e Teresópolis.
Espinosa lembrou em um último comunicado a “qualidade organizacional de nossa estrutura organizacional, uma das mais resistentes às investidas dos serviços de informação da ditadura, da qualidade ímpar das nossas reflexões, da nossa formação de quadros, das criticas que ousávamos fazer ao socialismo real do final dos anos 60 e da defesa esclarecida do socialismo contra as ilusões nacionalistas...”
Não conhecia a maioria dos presentes – e tive contato por e-mail. Compareceram militantes de vários estados – Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, Espirito Santo, São Paulo e interior (Campinas, Guarujá). Com exceção do Norte e Centro Oeste, havia representantes de todas as regiões brasileiras. No balanço final, contatamos 63 companheiros, 51 participaram, 18 justificaram, e 12 foram convidados - cineastas, escritores, jornalistas, e quatro amigos de Osasco.
De um total de 2000 a 3000 militantes e da rede de apoio em 1969, apenas 5% foram localizados – por e-mail ou por telefone. O ponto de partida foi a rede de contatos de Cristina Chacel – que escreveu o livro “Seu amigo esteve aqui”.
Por sugestão do Espinosa, enviei durante os três meses que antecederam o encontro, correspondências semanais. Recordei os que foram mortos pela repressão ou estavam desaparecidos: Carlos Alberto Soares de Freitas, Carlos Lamarca, Marcos Antonio Dias Batista, Eremias Delizoicov, Maria Auxiliadora Lara Barcelos, Chael Charles Schreier, José Campos Barreto - para citar alguns deles. Enviei um texto que pedi para Ana Matilde escrever sobre as lembranças dela de Maria Auxiliadora. E links da revista “Veja” de 3 e 10 de dezembro de 1969 sobre a prisão e morte sob tortura de Chael.
Depois do encontro, enviei os agradecimentos – é uma grande lista: Carlos Franklin Paixão de Araújo; Raul Moura Ellwanger - que apresentou um belo vídeo da história da VAR-Palmares; Julia Monteiro Espinosa - a anfitriã perfeita na noite de sábado; Jurema Augusta Ribeiro Valença – entusiasta do projeto desde 2011; Risomar Fasanaro – que escreveu um texto emocionado sobre as recordações dos anos de juventude; os amigos de Osasco, escritores e jornalistas; e os cineastas que, junto com Paulo César Azevedo Ribeiro, filmaram os depoimentos. Parte dos e-mails enviados e ou recebidos foram gravados por mim em CD – um documento para a história da resistência à ditadura militar no Brasil.
Espinosa escreveu um texto final, que enviei aos convidados, dizendo da dificuldade de resumir em um espaço de um e-mail o significado do reencontro dos militantes da VAR-Palmares. Lembrou daqueles que, durante os preparativos do encontro, não compareceram porque se despediram de nós para sempre: José Ibrahim, Leonel Itaussu Almeida Mello, Rafton Nascimento Leão. E acrescentou: “no sentido grego da expressão não há relação mais rara e profunda do que a amizade (...) A amizade é uma relação de cumplicidade e franqueza, de curiosidade sempre insatisfeita, de tolerância e compartilhamento de palavras nos momentos em que é possível falar e de silêncios nos momentos em que é preciso manter segredo. Amizade, enfim, é mais que lealdade, trata-se (...) de um estágio superior do companheirismo possibilitado pelo pacto de sangue do passado, que deixa marcas eternas indeléveis”.