quarta-feira, 24 de junho de 2015

Canto de saudade a Curitiba 4 - João dos Reis



“Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos _
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra”.
Vinicius de Moraes, inicio do “Poema de Natal”.

Eram cinco dezenas de homens na confraternização no refeitório do Mosteiro Monte Carmelo, no Pinheirinho - e minha mãe era a única mulher presente. Minha casa na rua La Salle estava localizada em frente à chácara do mosteiro – onde os frades carmelitas criaram uma comunidade terapêutica para dependentes de álcool e drogas. O jovem Luiz Fernando Niedzievski nos convidou para o almoço – e pediu para homenagear minha mãe nesse domingo – ele não tinhas os pais há muitos anos. Ela tinha se acidentado, e eu percorri o bosque de araucárias, conduzindo-a na cadeira de rodas.

Conversávamos sempre: Fernando me dizia se eu tinha ciúmes da “adoção”da minha mãe. Deveria ter dito: que nós o aceitamos como um filho e um irmão querido - e como admirávamos o trabalho dele e da equipe de religiosos e leigos. Muitas outras vezes nos convidou para o almoço dominical. Ele, Frei Chico (Francisco Manoel de Oliveira) e Frei Teodoro Krucoski foram as presenças amigas na temporada em Curitiba – sabíamos que podíamos contar com o apoio e a palavra amiga.

Frequentei as aulas de contação de histórias - no Senac da rua André de Barros - com a psicóloga Martha Teixeira da Cunha e o ator-educador José Mauro dos Santos. Depois do término do curso, nos reunimos várias vezes aos sábados: para contar histórias, ler poemas – e em seguida, convidados para jantar na casa de um dos companheiros. Lembro de que todos éramos forasteiros – Mauro era o único curitibano, filho do ator e diretor de teatro José Maria (Ferreira Maciel) Santos.

Fui para o Hospital do Trabalhador como voluntário: contava histórias para as crianças – e lia noticias de jornal ou declamava poemas para os adultos. A experiência foi novidade para mim: encarar a dor e o sofrimento com reflexão, arte e beleza.

Nunca me esqueci de um jovem e uma senhora - eles me contaram suas vidas e como pretendiam encarar o futuro: foi uma catarse para eles e uma surpresa para mim. Um menino estava de saída para a sala de cirurgia – desesperado, chorava muito; tentei confortá-lo, e depois de narrar várias histórias, ele se acalmou, e eu me despedi dele na porta do centro cirúrgico.

Celina Guimarães Hardy foi a amiga querida no curso: ela foi para o Instituto Paranaense de Cegos contar histórias. Estávamos em contato para trocar impressões da nossa participação nesse universo novo e comovente: a descoberta do poder da palavra.

Nossa participação nesse projeto – minha e de Celina - foi interrompida por problemas de saúde, e não pudemos seguir adiante na aventura literária.

Com Arthur, de três anos, filho do amigo Ewerton Antunes, decidi inovar: quando ia visitá-lo, ele me pedia para repetir as mesmas histórias: eu contava uma parte da narrativa, e pedia para ele continuar, e íamos retomando e recriando o conto, com a participação dele. Foi um convivio fascinante com a literatura e o mundo infantil.

Fernando saiu do mosteiro, casou-se com Zamily. De volta a São Paulo, recebi uma carta: o nascimento de Davi Fernando - hoje, o piá está com três anos. Martha e José Mauro atuam na Casa do Contador de histórias. Frei Chico continua no projeto terapêutico no mosteiro. Frei Teodoro faleceu há alguns anos; Celina em 2009. Arthur é estudante de piano e de Filosofia.

Eles foram meus caros amigos na capital paranaense – e é com saudades que recordo os diálogos, os encontros em que dividimos o pão e o vinho - e comemoramos a nossa crença num mundo fraterno e solidário. A revolução que sempre sonhei será também com pequenos gestos de gentileza e de ternura.


sexta-feira, 12 de junho de 2015

Canto de saudade a Curitiba 3 - João dos Reis


Canto de saudade a Curitiba 3

“Meu coração,
É um quarto de espelhos,
Que reflete e multiplica,
Infinitamente,
Uma impressão”.
Helena Kolody, inicio do poema “Sensibilidade”.

Felis Penkal veio ao meu encontro na Lanchonete Badech em Araucária, PR, com um pacote de feijão – que ele plantou e colheu. Foi um dos presentes que recebi mais inesperados e preciosos.
Depois, para retribuir a gentileza do jovem agricultor, disse que lhe mostraria o mar – que ele ainda não conhecia.

Cumpri a promessa: combinamos um dia e fomos até Paranaguá. Almoçamos, passeamos pelo porto, estivemos no Mercado Municipal para comer pastel de camarão. No Iate Clube, realizamos um passeio de barco pela baia: foi a primeira visão dele do oceano Atlântico. Depois, à tarde, caminhamos pela praia.

Perguntei sobre os antepassados poloneses: se conversavam em casa e se ele entendia a língua do compositor Frederic Franciszek Chopin. Tinha curiosidade em conhecer a comunidade da Europa Central na região metropolitana – como eram as festas, as relações de amizade e de parentesco. Com ele aprendi a pronunciar corretamente “pierogi”, um pastel típico da Polônia.

As preocupações de Felis eram com a terra, o clima – a semeadura, a colheita de soja, milho, feijão . As mudanças da estação – verão, outono, inverno, primavera – eram o assunto principal em nossas conversas. Será que choveria? Ou haveria um período de seca? Procurou mudar de ocupação e conseguiu um emprego em uma madeireira; uma única vez o ouvi reclamar: era um trabalho muito pesado – e voltou para a lavoura. Eu o observava, mergulhado em silêncio: ele estava feliz?

O jovem Moacir Moreira Carvalho terminou o serviço militar na capital e voltou para Santo Antonio de Caiuá ,PR . Sempre me telefonava – e eu sabia das dificuldades de emprego no interior. Depois, trabalhou como vendedor pelos Estados do Sul. Às vezes eu recebia um telefonema de Santa Catarina ou do Rio Grande do Sul: era o viajante solitário me dando noticias da sua longa jornada.

Em uma das passagens por Curitiba, combinamos um encontro: almoçamos, passeamos pela cidade: no Memorial de Curitiba, no Passeio Público – e ele me disse: estava feliz por estar novamente na capital paranaense. Nenhum de nós tinha um projeto de vida definido para o próximo ano: o que o destino nos reservava?

Com Moacir, fiquei sabendo como era a realidade no Noroeste do Paraná. Quando ele partiu definitivamente da sua cidade natal, me contou da reunião do adeus à margem do rio da sua cidade. Seus amigos de infância e adolescência estavam presentes – e foi também a passagem para um novo tempo. Ele foi morar em Itajaí, SC, onde já se encontrava um dos seus irmãos. Depois, foi a minha vez de partir de volta para São Paulo - e fui à cidade portuária de Santa Catarina me despedir.

No encontro de despedida com Felis, ele me trouxe um novo presente: um pacote de pinhão – que ele e suas irmãs recolheram um a um do chão – uma colheita que só é possível depois da queda da pinha do pinheiro-do-paraná.

Em minha casa dem Cotia, recebi três telefonemas: no réveillon de 2005, a noticia do falecimento do pai de Felis, e depois, a do nascimento de Juan Guilherme; e um telefonema de Moacir: o nascimento de João Victor.

Hoje, Moacir trabalha em uma fazenda em Luiz Alves, SC. Felis vive no sitio da família em Araucária, PR.
Conversamos por telefone ou por mensagem de texto: como está a vida, os novos desafios do presente, o trabalho na terra. Os piás, um catarinense e um paranaense, são o futuro dessa história de amizade e de esperança em dias melhores no Sul do Brasil.

“Você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade
pelo lado de dentro”.
Paulo Leminski, inicio do poema “objeto sujeito”.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Canto de saudade a Curitiba- João dos Reis




Há “uma Curitiba que te promete um paraíso de campos bordados de bostas, onde vacas opalescentes ruminam tenros crepúsculos, e uma Curitiba que te atira no inferno da existência, no qual demônios de hálito doce e ancas lascivas rasgam tua carne com unhas esmaltadas de gangrena”. Jamil Snege, “Canto de amor e desamor a Curitiba”.

Estava em um bar no bairro Santa Felicidade - o jovem Ewerton Antunes me contou do incêndio na casa: perdeu roupas, móveis, mas a desolação maior foram os livros e discos devorados pelo fogo. Depois, comprei para ele um sobretudo, luvas e um cachecol para enfrentar o duro inverno curitibano – e dei de presente livros e discos.

Escurecia em um fim de tarde gélida – e encontrei Mazé (Maria José Mendes) na lanchonete do Parque Barigui. Abracei-a, e apesar de agasalhado, me sentia congelando - e disse como foi difícil atravessar a cidade, enfrentando o frio e o vento polar, para vê-la.

No carro com Arthur, esperando a volta do pai, Ewerton, fiquei emocionado – ele me contou do acidente da mãe. Não sei dizer quem estava mais desamparado - um adulto ou um piá curitibano de três anos.

Muitas outras vezes, encontrei os meus amigos paranaenses. Com Arthur, fui ao teatro de bonecos, ao parque de diversões, almoçamos juntos, estive na escolinha onde estudava para vê-lo – era uma criança adorável. Presenteei-o com livros, contei histórias infantis. A que ele mais gostava: a do Patinho Feio - era um prazer inventar a narrativa para prender a atenção e comover com o destino do personagem.

Morava no outro extremo da cidade, e por isso, conversei muitas vezes com Mazé por telefone. Fui às exposições de seus quadros – uma retrospectiva na Escola de Música e Belas Artes, “Identidades paralelas” na Casa Andrade Muricy, e “Matiz” em uma galeria. Foram experiências novas: conhecer a artista e a obra de arte.

Foram momentos da minha vivência em Curitiba no inicio dos anos 2000: eles foram meus companheiros de viagem na aventura desesperada – o eterno retorno ao passado - para construir um futuro. Foram momentos felizes?

Passei um réveillon com Ewerton e Arthur – estávamos distantes dos parentes e amigos de juventude. Ele foi o chef de cozinha e preparou o jantar; conversamos sobre a sua cidade, Cascavel, no interior do Paraná. Éramos três tristes? Em um outro réveillon, estive com Mazé e seus amigos comemorando o Novo Ano. Lembro que conversei sobre minha temporada na cidade em que viveu a poetisa Helena Kolody, onde éramos “estrangeiros”. Estávamos alegres?

São Paulo estava distante do meu horizonte. As noticias vinham das cartas dos amigos Risomar Fasanaro , Marcelino Jesus de Lima, Alberto Abib Andery e Albertino Souza Oliva. Parece que não veria mais a minha cidade natal, Duartina, e a cidade proletária de Osasco . Foram momentos de solidão?

Registrei as interrogações sobre a felicidade, a tristeza, a solidão – porque eu não sei as respostas. Foram, sim, momentos de descoberta da força da amizade, da solidariedade.

Ewerton é hoje um “restaurateur” e sommelier; Mazé continua criando beleza com seus quadros; Arthur é um jovem estudante – são os meus caros amigos da longa jornada no Sul do Brasil.

“Meu coração de polaco voltou / coração que meu avô / trouxe de longe pra mim / um coração esmagado / um coração pisoteado / um coração de poeta” - Paulo Leminski

domingo, 31 de maio de 2015

Sampa - Joaquim Belo



No coração da avenida Paulista pulsa o PIB do país.
No ápice da pirâmide a elite branca está feliz,
A cotação do dólar subiu e o risco do país caiu.
As estatísticas indicam o que os gráficos confirmam
As aplicações financeiras cada vez valendo mais
Dorme nas redes bancárias dos paraísos fiscais.

Na outra ponta da cidade, por vias marginais,
Gente dormindo sentada, acordada ou de pé,
Espremidos nos vagões dos trilhos metroviários,
São despejados como gado na estação da central
É a grande força do trabalho, que faz o bolo crescer,
Amassa a massa, tempera e assa, mas sem direito a comer.

E nas cercanias dos proscritos ao lado da Júlio Prestes,
Entre muros invisíveis um novo inferno terrestre,
São as tribos dos miseráveis e excluídos da nação
Onde impera a lei e a ordem da desordem social.
E a rapinagem política disputa, numa luta fratricida,
Quem vai tocar a batuta na disputa eleitoral.

Indiferente aos conceitos e preceitos sociais
São os zumbis que viajam pelas vias ilusórias,
Veias de sangue entorpecidas pelas drogas ingeridas.
No olhar a mesma tristeza, no peito a mesma história
Nas frustrações da vivência e nas ilusões perdidas.
Uma borracha que borra, mas não apaga as feridas.

Enquanto a garoa filtra uma tênue e pálida luz,
Sobe em forma de espirais as fumaças expelidas
Projetando silhuetas de figuras estremecidas,
Como fantasmas que dançam e pela noite vagueiam
Mortos-vivos, que num lampejo o pensamento reluz,
Antigos, mortos e insepultos sentimentos.

25 de maio de 2015

terça-feira, 26 de maio de 2015

Osasco, uma história: Albertino Oliva - João dos Reis



Para os companheiros da Frente Nacional do Trabalho

Estávamos reunidos no inicio dos anos 70. O grupo da Frente Nacional do Trabalho de Osasco - José Groff, Valdomiro Martins da Silva (Dudu), Alberto Abib Andery, Maria Santina, Antonio Vieira de Barros, Luis Amaral, Odim Jiorjon, Maria de Lourdes Brengel, e outros militantes - foi informado: Albertino Souza Oliva foi preso – nós e a família dele não sabíamos o local onde ele estava e o motivo do desaparecimento. A angústia e a dor da noticia impedia que tomássemos uma decisão: o que fazer?

Depois, ficamos sabemos que ele ficou uma semana detido, incomunicável, no quartel da Policia Militar da Avenida Tiradentes. Nunca houve uma acusação formal a ele na Justiça.

Foram momentos como esse que os que engajaram no movimento operário viveram os anos de repressão durante a ditadura militar. Albertino trabalhou de 1945 a 1962 no Departamento Pessoal da Cobrasma em Osasco. Houve um “ressurgimento espiritual”, como ele o denomina, e passa a frequentar a Igreja Católica. Conhece o líder sindical João Batista Cândido e participa do movimento sindical na fábrica. Junto com outros trabalhadores, criam a Comissão de Fábrica – que foi um acontecimento histórico na luta por melhores salários e condições de trabalho.

Albertino recordou durante o seu depoimento em outubro de 2014 na Câmara Municipal: a direção da fábrica descobriu o engajamento dele, e foi transferido para a sede da empresa; depois ele decidiu pedir demissão. Foi um período de transição na vida do advogado que nasceu em Casa Branca, SP, e que cursou Direito na USP. Tinha a desconfiança dos trabalhadores: havia participado do quadro repressivo da empresa: a lista dos candidatos a emprego era enviada antes para o Dops. E tinha a recusa da direção patronal em ter um funcionário comprometido com a luta por uma nova sociedade. “Foi um momento difícil: traiu a confiança dos patrões e não tinha a confiança dos trabalhadores”.

A conversão às idéias do Padre Louis-Joseph Lebret ("Princípios para a ação"), o compromisso com a nova Igreja que surgia, o conduziram à Frente Nacional do Trabalho, uma organização não governamental fundada por Mario Carvalho de Jesus depois da greve dos trabalhadores de Perus em 1962. Foi essa militância que o levou outras vezes à ser detido pelos militares. Sua participação na criação da Cooperativa dos Trabalhadores da Cobrasma (depois Coopergran), na instalação dos cursos profissionalizantes no Senai em Osasco foi o inicio de uma longa trajetória junto com os trabalhadores.

Participei das reuniões e atividades na FNT de Osasco. Quando os trabalhadores abriam uma ação trabalhista, eram convidados a participar de uma palestra: eu fazia a abertura, falava da importância da participação sindical e politica; depois, Albertino explicava os meandros jurídicos de um processo. Foram anos em que tive contato frequente com a realidade da opressão patronal e do desrespeito aos direitos trabalhistas.

Com os ventos da democracia no inicio dos anos 80, participei de um projeto de educação popular da FNT, com ajuda financeira de uma organização não governamental da Bélgica. Fui contratado para colocar em prática o programa de debates, palestras e grupos de estudo em Osasco e na periferia da Região Metropolitana Oeste de São Paulo. E eu o acompanhei nos encontros com os trabalhadores dos bairros das cidades de Carapicuiba ( Comunidade Kolping da Vila Dirce e Cohab, e Igreja N.S.Aparecida) e Jandira (comunidade da Vila Analândia).

Nos anos 60, houve um acidente muito grande no forno da Cobrasma, e um operário acabou morrendo. Foi combinado que no enterro a fábrica tocaria o apito. Foi um dos primeiros protestos dos operários osasquenses por respeito, garantia à vida e à dignidade. Albertino recusou entregar os nomes dos que organizaram a manifestação. No final dos anos 70, a participação na criação do Centro de Defesa de Direitos Humanos de Osasco – foram dois momentos de uma longa história de compromisso com os trabalhadores da cidade proletária.

Albertino Souza Oliva foi o primeiro coordenador da Comissão da Verdade de Osasco até inicio de 2015. Com 88 anos, apresentou o seu testemunho: de que é preciso combater as injustiças ,”não ter complacência com o erro, nunca com a violência”.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O Eclipse - Jailson Vital



Nos dias de hoje a crendice em fantasma, alma penada, lobisomem, vampiro, etc., está desmoralizada. Os filmes de terror que antigamente nos assustavam tanto e nos deixavam sem dormir, hoje são comédias, e os personagens embora de aparência aterrorizadora e executando ações macabras, só provocam gargalhadas dos jovens espectadores. No entanto, uma parcela grande da população, principalmente aquela menos culta, ainda acredita que fenômenos naturais, como enchentes, secas prolongadas, grandes incêndios e eclipses, são castigos de Deus ou sinais do fim do mundo. Imaginem essa situação no início da década de 60. Ou melhor, imaginem o anúncio em Custódia, de um eclipse total, naquela época. Pois eu lhes conto.
O anúncio de que haveria um eclipse total da lua, trouxe inquietação a grande parte dos moradores e então, começaram a correr os boatos dos malefícios trazidos por esses acontecimentos, como doenças, pestes e mortes. Mas corria também, para alívio dos desesperados, a receita do antídoto para tudo isso. À semelhança dos castigos de Deus ao faraó e seu povo, no episódio bíblico das 7 pragas do Egito (Êxodo), onde a salvação para os israelitas seria pintar as ombreiras das suas portas com sangue de cordeiro (pois Deus veria esse sinal e seu castigo não entraria naquela casa), a salvação para os custodienses(*) naquela ocasião, seria colocar um ramo de pinhão bravo, planta endêmica da caatinga, ou um galho de arruda, em um vidro com água e colocá-lo pendurado na porta de entrada das suas casas.
Alguns estudantes, eu entre eles, achávamos aquilo tudo um absurdo e tentávamos explicar a algumas pessoas que, o eclipse se tratava de um fenômeno natural, causado pelo alinhamento do sol, da terra e da lua, mas éramos vozes vencidas. Éramos pouquíssimos em relação aos que criam que o ramo de pinhão era a barreira contra o mal iminente. Não nos conformávamos vendo que quase todas as casas tinham um vidrinho com um ramo de pinhão ou arruda pendurado na porta.
Então “bolamos” um modo de demonstrar esse absurdo. Naquela noite, quando aconteceria o eclipse, já altas horas, quando todos dormiam, saímos no jeep de propriedade de um de nós, e cuidadosamente, fomos recolhendo os vidrinhos e colocando-os no jeep. Ao final da coleta, fomos para a praça em frente à igreja, e lá, em uma construção circular de paralelepípedos, construída talvez com a intenção de futuramente ser colocada uma estátua ou um busto de algum político, fomos depositando os vidrinhos.
No dia seguinte ao acordarmos, fomos para a praça para vermos a reação dos que paravam para ver aquilo, sem entender o que significava, nem como todos aqueles vidros tinham ido parar ali. Os comentários e opiniões eram os mais diversos, inclusive os fantásticos. Havíamos finalmente demonstrado que, mesmo sem o pinhão e sem a arruda, estavam todos sãos e salvos.
Cerca de cinquenta anos depois, apesar de todo avanço que o mundo teve, tivemos que assistir, não em Custódia, mas no mundo inteiro, milhares de pessoas se refugiando em cidades pseudo imunes e refúgios construídos com milhares de dólares, para escapar do “fim do mundo” que aconteceria no dia 21 de dezembro de 2012, supostamente predito pelo calendário Maia.


(*) nascidos ou
moradores da cidade de Custódia- Pernambuco.

domingo, 17 de maio de 2015

O Último adeus:meu avô Marcelino Matheus Ferro - João dos Reis



Para os Razera: Gustavo, João Argemiro e Maria Aparecida

Meu avó Marcelino se despedia de mim na estação de trem de Duartina, no Estado de São Paulo. Estava de partida para Osasco, depois das férias de verão na minha cidade natal. De volta à metrópole, distante quase 400 quilômetros dos queridos avós, tios e primos, vinha com o coração carregado de saudades - e de um presente: a bíblia do século 19 que ele trouxera de Portugal quando chegou ao Brasil em 1926.

Durante muitos anos, eu, um jovem estudante-trabalhador, depois professor, revisitava a cidade do interior. E, quando ainda existia a linha férrea de transporte de passageiros, era meu avô que me acompanhava, quase sempre, até à estação. Ele era muito calado e, antes de me despedir, beijava a mão dele, como fazia desde criança, e lhe agradecia em silêncio pela garrafa de vinho que abrira no almoço para comemorar a minha visita.
Em uma das despedidas, meu tio Toninho (Antonio Herculiani), pediu licença na oficina de marcenaria em que trabalhava, e gentilmente foi minha companhia até à estação.

Nunca me esqueci do abraço quando se aproximava o trem, esse gesto de gentileza e carinho: o último adeus sempre foi acompanhado de tristeza. Parece que me despedia de todos para sempre, mesmo sabendo que voltaria no próximo ano para visitá-los.

Tia Isaura era a correspondente epistolar da família espalhada pelo nosso planeta. Ela me entregava para ler as cartas dos que viviam em Angola, França e EUA – a saga dos portugueses que partiram para um novo país, um novo continente. Em uma delas, e que comentei com meu avô, falava da forte nevasca nas aldeias de Penhas Juntas e Falgueiras na província de Trás-os-Montes, que impediu que os moradores saíssem de casa por vários dias.

Essa volta às origens esteve marcada pelas orações, realizadas pela minha avó Elisa de Jesus Ferro. Era uma reverência aos nossos mortos – e que mereciam as nossas preces. Acompanhei-a em muitas tardes ao cemitério da cidade, e diante do túmulo da familia, roguei por eles – pedindo a misericórdia divina, o descanso e a paz eterna.

No álbum de fotografias, revisitava os nossos familiares - era um retorno à história da imigração europeia para a América. Ouvia os relatos da longa travessia do Atlântico de navio, das dificuldades dos primeiros anos, do trabalho no campo. A ligação com a terra brasileira surgia logo que eu chegava de viagem: a avó Elisa me pedia que fosse ver a horta e o jardim – em que ela cultivava, com orgulho, roseiras, palmas-de-santa-rita, tomates, couve, almeirão, e onde havia limoeiros e figueiras.

Ainda hoje, quase um século depois, minha mãe lembra que ia, nas primeiras horas da manhã, para a lavoura de algodão nas fazendas da região de Bauru.

Não recordo dos meus bisavós italianos– eles partiram de Verona e chegaram ao Brasil em 1888, ano da libertação dos escravos. Trabalharam nas fazendas de café - viveram na região de Campinas, no distrito de Sousas. Minha avó Pasqualina Negrini dos Reis, provavelmente me contaria suas lembranças, mas faleceu em 1953, quando eu tinha 4 anos.

Nas manhãs em que minha avó Elisa preparava o forno a lenha para o pão e o almoço com os meus pratos preferidos – lombo assado ou bacalhau à moda transmontana – conversávamos sobre o passado. Foi nesses diálogos que fiquei sabendo da saga dos Negrini, contada por ela, que foi amiga da minha avó Pasqualina. Era um piá e, mais tarde, um jovem que gostava de ouvi-la. Todos vieram para o Brasil em busca do sonho americano, e eu procurava me reencontrar nessas esperanças de uma vida melhor. Foram anos em que refleti sobre o que o destino me reservava. Foi uma aventura às vezes inglória e desesperada, a de saber qual é o mundo que tanto sonhamos para viver e ser felizes.

Os documentos pessoais de tia Isaura e avó Elisa, as cartas que receberam ao longo dos anos dos parentes, se perderam. Guardei o registro de identidade do avô Marcelino – e os entreguei para meus primos Miro, Cidinha e Gustavo, que também ficaram com a bíblia e o álbum de fotografias. A estação da estrada de ferro da cidade foi demolida. Os limoeiros e as figueiras não existem mais. Não há mais documentos da história dos imigrantes - apenas as imagens e as recordações na minha memória.