sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Chá das 5 - risomar fasanaro


Amigo

meu amigo chegou
me abraçou
e não disse nada

não precisou

senti sua tristeza

preparei chá
tomamos em silêncio
e ele se foi

para sempre

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O REENCONTRO da VAR-PALMARES - Risomar Fasanaro


Ali estava eu, entre o seletíssimo grupo de convidados para o reencontro dos guerrilheiros que fizeram parte da VAR-PALMARES. E foi difícil conter a emoção ao ver de perto muitos daqueles pelos quais tantas vezes meu coração disparou de revolta, se encolheu de tristeza, ou pulou de alegria a cada ação bem sucedida...
Por eles, anos e anos eu “devorara” a “Folha”, o “Estadão” , o “Pasquim”, o “Movimento”, “Em Tempo”, “Versus” e outros da imprensa nanica, tentando encontrar alguma notícia; quase sempre inutilmente. Elas nos chegavam nas entrelinhas dos versos de Camões, ou eram o sal das receita culinárias do “Estadão”. Poemas que não decifrávamos, pratos que não saboreávamos, apenas nos aguçavam a curiosidade e o medo.
Elas nos vinham de outras fontes: dos irmãos de Espinosa, da mãe de Ibrahim, dos irmãos de Roque...
Um dia a mãe de Aninha tirou dos canos do fogão uma carta dela que estava no exílio; tão amassada, tão desgastada, que mal dava para ler o que a filha escrevera. E constrangida, ela nos aconselhou a não ir mais lá, pois a casa era vigiada noite e dia, e corríamos o perigo de ser presas.
Restava-me recortar as poucas notícias dos jornais que me chegavam, arquivo que após minha prisão no Recife meu pai colocou em uma lata, enterrou no quintal e nunca soube localizar, mesmo depois que o pesadelo acabou.
Que rostos teriam aqueles rapazes e moças que arriscavam a vida naquela luta de Davi contra Golias? Sentiriam fome, sede, frio?
Quantas vezes, sentada no chão de alguma das inúmeras repúblicas de estudantes da época, chorei ao lado de amigos, ouvindo Chico, Vandré, Gonzaguinha, Taiguara?
E como festejara a cada embaixador sequestrado e trocado por alguns dos que ali estavam...Naquelas ocasiões era “Gracias a la vida” que ouvíamos na voz de Violeta Parra...
E que alegria fora a volta do exílio do poeta Thiago de Melo, que veio à casa de Ibrahim, trazendo notícias dos que estavam do lado de lá...
Enquanto eles tomavam vinho e conversavam alegremente na noite de 15 de novembro no Encontro dos militantes da VAR-Palmares, eu rememorava muitos dos momentos que vivera naqueles anos difíceis. Lembrei-me das vezes em que junto com outros amigos arrancávamos os cartazes de “Procurados”. Operação que precisava de umas três pessoas, e envolvia certo risco, mas que risco era aquele, diante do que eles enfrentavam?
Alguns não tinham podido vir àquele reencontro, mas muitos estavam ali. Naquelas mesas repletas do que falariam? Relembrariam passagens nas operações arriscadas, nos aparelhos, nos presídios? Relembrariam os amores vividos na clandestinidade, ou evitariam falar do passado e falariam só do presente? Não sei. Circulando pelas mesas ouvi apenas fragmentos de conversas.
Enquanto conversavam, por minha cabeça passava um “filme”. Lembrei-me das reuniões na Biblioteca municipal de Osasco, quando despontaram as lideranças de Espinosa, Roque, Barreto, Aninha.
“Revi” um dia em que Espinosa e eu fomos encarregados de pintar uma faixa, para a passeata de protesto pela morte do estudante Edson Luis de Lima Souto, e, inexperientes, pintamos o tecido sem colocar jornal embaixo do pano. Aquele descuido me custou mais de uma semana passando palha de aço, para apagar “Abaixo a ditadura” do assoalho da sala, além de despistar os familiares, para não descobrirem que eu estava envolvida no movimento contra a ditadura.
Depois, Espinosa, Roque, Aninha, Barreto e Ibrahim sumiram. Nunca mais as portas da biblioteca se abriram aos domingos, os que nela se reuniam partiram sem dizer adeus, e as ruas da cidade nunca me pareceram tão desertas.
Depois começaram a chegar as notícias: Espinosa preso, Aninha, Roque, Ibrahim e Osni no exilio, João Domingues, Barreto e Lamarca mortos, entre tantos outros que eu não conhecia pessoalmente.
Pouco podíamos fazer além de ir aos inúmeros atos de protesto, às reuniões mantidas sob o maior sigilo, e, enfim...surgiu o movimento pela Anistia, talvez o movimento que tenha reunido mais mulheres neste país. Comecei a participar com Iracema dos Santos, a mãe e as sobrinhas de Ibrahim e muitas outras mulheres da cidade.
Mas naquela noite de sexta-feira, o encontro organizado por Espinosa e João dos Reis, todas aquelas lembranças faziam parte de um passado distante. Ali não havia espaço para a tristeza, mas sim para festejar a vida. Era o reencontro de amigos. Amigos verdadeiros que, como tão bem disse Roberto Espinosa, “o amigo torna-se uma parte do nosso corpo, a principal de todas elas, sem a qual a vida não tem sabor, rumo ou graça.”
Sim, o que eu vi ali foi um imenso coração que durante anos difíceis se dividira em mil pedaços, e naquela noite aqueles pedaços voltavam a se unir e a formar um só.

sábado, 7 de setembro de 2013

pátria a(r)mada, bom dia!



pátria a(r)mada bom dia!
bom dia
a todos os poetas
a todos os bêbados
a todos os torturados
mortos e sepultados
desta (in) dependência sem fim
bom dia a todas as gaivotas
a todos os Tiradentes
do meu país
bom dia a Theodomiro
do seu Pa(r)is distante
bom dia a todos que fa(r)dados
ou não
escureceram nossos dia
**

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O Reencontro- Antonio Belo


Quando recebi o convite da Risomar para fazer um prefácio do seu livro de contos: “O Reencontro”, senti uma certa apreensão. Sabia que não seria um "pré" fácil. Não poderia agir com veleidades e era urgente! Por onde começar? Não havia necessidade de apresentar a autora. Bastante conhecida no meio literário e cultural de Osasco, onde participou da militância política desde os anos setenta no ambiente estudantil: seja em festivais de música, saraus literários, participação em jornais e revistas; sempre irrequieta e colocando o oração em cada atividade a que se dedicou.

Mas o livro... Ah! O livro. É uma coletânea de 22 contos onde a autora demonstra todo o seu potencial inventivo e vivencial, numa linguagem clara e preciosa com amplo domínio da técnica de escrever, mas, sobretudo, consegue criar um universo lúdico e mágico onde não se sabe onde termina a realidade e onde começa a fantasia; ou se ambas - realidade e fantasia - são as faces de um mesmo universo real-fantástico.

O livro começa com o extraordinário conto "Gravidez", que nos deixa em suspense até o inusitado final e já prenuncia o quanto a autora domina o uso da palavra; isto é, das palavras, milhões de palavras que brotaram do seu ventre. E como essas palavras - suas filhas - ganharam o mundo em forma de romance, contos, crônicas, poesias, ensaios e críticas, enfim...

Essas palavras têm o seu valor realçado no conto, “O peso da Palavra”: "A vida, pensou, é tão misteriosa quanto as palavras. Só que para elas ainda existe um dicionário, e a vida... A vida não tem bula, não tem roteiro, nem tradutor... "
Mas sabe-se que para as palavras ainda existe esperança; enquanto que, para a vida...

A condição da mulher está sempre presente nos seus contos - autobiográficos? – Em "Mulher", sente-se a desesperança da condição da mulher após uma vida inútil, dedicada ao nada; e quando se procura o sentido da vida já não se consegue perceber onde se errou, o que faltou. Em "A Apanhadora de Estrelas", é impressionante a descrição das rugas da velha índia. Quase se consegue ver a "topografia" daquele rosto cheio de sulcos por onde, em vez de água, escoam lágrimas. E em "Pecado Capital" e "Morrer duas vezes", o universo da mulher é dissecado com precisão cirúrgica. É um verdadeiro tratado da psicologia feminina. A descrição do envelhecimento de Clarice só é comparável, em beleza estética, à decadência de Veneza no filme de Visconti. Do conto, "O Reencontro", falarei depois.

De certa maneira, mesmo vivendo longe de suas raízes pernambucanas e nordestinas a autora não consegue fugir da saudade da sua infância e das suas origens. Nos contos: “O Culpado é João”, “A Menina e Deus” e “Construção” essa evocação está sempre presente, de maneira, às vezes, nem sempre direta: é a referência a uma comida típica, a solidariedade entre operários migrantes, é a lembrança de episódios da infância naquela longínqua vila militar de Socorro, e o condado imaginário cheio de estórias e lendas, nos contos: "Afogados da Ingazeira" e "Apocalipse do Sertão". Talvez aquela menininha estivesse certa nos seus questionamentos sobre a existência de Deus. Autobiográfico ou não, a autora também sonha em seus contos: sonha em voltar às suas origens, à sua terra, e corrigir parte de uma trajetória de vida, nem sempre possível. Isso está bem claro - de maneira, talvez, inconsciente - nos contos "O retorno" e "Riacho das Acácias" onde a fantasia consegue reinventar o mito de Dorian Gray ao contrário. Nenhuma literatura está isenta dos seus autores.

Qual o meu conto preferido? Todos. Mas o que mais me emocionou, pela densidade psicológica, foi "O Reencontro". Foi como uma paulada na testa. É como um filme de suspense, onde não se sabe qual o desfecho, mas sabe-se que não será agradável. Novamente volta à baila a condição da mulher: renúncias, amores desfeitos, prisão domiciliar, solidão. No caso presente, o alcoolismo que para a mulher é sempre ruim, sendo dela ou do companheiro. Nesse conto magistral, vemos como é leviano julgar alguém por algo que não fazemos. Não se vira uma página da vida como se troca uma fechadura.

Finalizando, gostaria de relembrar a doce Beatriz, de "A mulher que chorou por Proust": “- É que Proust escreve tão bem, Lúcia, tão bem, que é como se ele tivesse vivido mil vidas, conhecido profundamente mil pessoas. E saber que nunca mais vou ler nenhum autor como ele me dá uma dor tão grande, tão grande... “: Talvez ela nunca mais vá ler um autor como Proust; mas, para nosso deleite, esperamos continuar a ler, ainda por muito tempo, uma escritora como Risomar Fasanaro.





domingo, 7 de julho de 2013

O Brasil nas Ruas- Paulo Roberto da Silva


Os únicos lugares que ainda não foram colonizados são as ruas (Boaventura de Sousa Santos)

Uma sensação emocionante tomou conta das ruas do Brasil nesses últimos dias reacendendo a velha máxima que diz: ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição biológica. O vinho novo sempre vem arrebentando os odres velhos e o remendo novo detonando a velha calça azul e desbotada, já dizia Jesus. Não quero chover no molhado analisando a postura mutante e reacionária da grande mídia, que como um camaleão, assumia a forma ambiental que lhe era favorável, destacando mais os pontos negativos do que os verdadeiros anseios do povo por um Brasil mais justo e fraterno. Incutindo o medo como um instrumento de paralisação.
Chamou-me a atenção um recado de uma jovem cristã que foi a uma das grandes marchas no Largo do Batata e me segredou: pastor eu fui escondido para não levar bronca. Bronca dos pais ou bronca dos pastores? Fiquei feliz pela sua coragem de sair das quatro paredes da Igreja e gritar nas ruas que o povo acordou em uníssono com milhares de outros jovens.
Os “vândalos” de ontem são os heróis de amanhã, alguns até com feriado em homenagem ao seu nome, quem diria que a Casa Branca teria um presidente negro? Foi necessário uma negra insubordinada se recusar a levantar-se da cadeira para dar lugar a um branco racista. Rosa Parks deu a deixa para Martin Luther King “sonhar” com um mundo sem discriminação e sua Igreja antenada com o Deus da libertação, marchou sobre Washington no meio da multidão de 250 mil pessoas em uma época que não tinha Facebook, Twitter e outras redes sociais de grande velocidade de mobilização.
Fiquei me questionando por que as Igrejas colocam tantas pessoas nas ruas na Marcha para Jesus, como se Jesus estivesse necessitando de apoio, em perigo, precisando de Ibope, e numa marcha pela vida, pelos direitos e pela justiça quase que não se enxerga a Igreja, a não ser algumas pessoas que por conta própria tomam a decisão de sair para colocar sua fé em ação? Graças a Deus que o Espírito Santo sopra fora dos arraiais eclesiásticos, comprovando as palavras de Jesus: Se os meus discípulos se calarem, até as pedras clamarão!(Lc. 19.40).
Termino bebendo em Isaías que soube perceber o poder de manipulação dos ideólogos do seu tempo ao dizer: Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem chamam mal, que fazem do amargo doce e do doce amargo, da luz escuridão e da escuridão luz. (Is. 5.20) Isso me faz enxergar porque os mapuche que estão nas ruas de Angol, Santiago, Concepção, Valdívia e tantas outras cidades do Walmapu (Chilena) são tratados como terroristas e o Sebastião Piñera uma das maiores fortunas do país seja colocado na presidência. O mesmo princípio o bispo Marcelo Crivella quer aplicar no Brasil a lei antiterrorista para criminalizar os Movimentos Sociais. Se aprovada, os representantes indígenas que tomaram a Câmara dos Deputados no mês de abril poderiam ser enquadrados como terroristas e serem presos. Isso me faz perceber porque os Estados Unidos, a “Besta” da atual Babilônia dá uma ordem para França, Portugal e Espanha impedir que um presidente latinoamericano, Evo Morales seja impedido de circular nos referentes espaços aéreos com a suposição de está levando a bordo um jovem acusado de revelar o terrorismo do Estado em invadir a privacidade de milhões de pessoas no seu próprio país e no mundo. Com certeza se Jesus estivesse vivo e atuante fisicamente falando, seria tido como terrorista, vândalo ou baderneiro ao invadir o Templo (Casa da Moeda) e expulsado os capitalistas com extrema violência, ou seria preso por desacato à autoridade ao chamar Herodes de Raposa. Tem um ditado africano que diz: a história sempre foi contada pelos caçadores, chegou a hora de ela ser contada pelos leopardos. Que venham os novos “vândalos” corajosos derrubando os símbolos do deus mamon que é adorado no mundo inteiro, inclusive por muitos cristãos hoje. Disney, Shopping centers e Papai Noel não me deixam mentir.
“Ou defendemos a vida onde ela está sendo esmagada, ou devemos ter a coragem de não pronunciar o nome de Jesus Cristo”.
Paulo Roberto da Silva