quinta-feira, 18 de maio de 2017

Belchior -o músico-poeta-filósofo e os anos desesperados- João dos Reis


Para Risomar Fasanaro


Foi com tristeza que li no jornal a notícia da morte de Belchior (Antonio Carlos Belchior). Nos anos 70, suas canções foram uma descoberta emocionante: o compositor foi para mim o poeta desses anos desesperados.

“Se você me perguntar por onde andei
no tempo em que você sonhava
de olhos abertos lhe direi:
amigo, eu me desesperava”.
(“A palo seco”)

Ouvia sempre comovido o dois LPs do músico-filósofo, “Alucinação”de 1976, e “Coração selvagem” de 1977 – eram poemas que traduziam a angústia e desesperança dos anos jovens. Nunca cheguei a encontrá-lo em São Paulo; meu amigo Jesse Navarro o conheceu, fizeram uma viagem juntos para o Rio de Janeiro. Lembro de ter perguntado sobre ele, mas a memória não registrou mais nada.

“Eu quero que esse canto torto feito faca
corte a carne de vocês”.
(“A palo seco”)

Naqueles anos, estive em um show dele no Teatro Paramount (hoje Teatro Renault), em São Paulo, mas depois não acompanhei a sua carreira artística. Ouvia falar dele pela imprensa; e, recentemente, descobri um admirador, o historiador osasquense Luciano Jurcovich Costa: ele fez em 2015 um show-tributo em um bar de Osasco, cantando músicas de Belchior.

“Não quero lhe falar, meu grande amor,
das coisas que aprendi nos discos
quero lhe contar como eu vivi, e tudo o que aconteceu comigo.
Viver é melhor do que sonhar
eu sei que o amor é uma coisa boa,
mas também sei que qualquer canto
é menor do que a vida de qualquer pessoa.
Por isso, cuidado meu bem, há perigo na esquina,
eles venceram, e o sinal está fechado para nós,
que somos jovens”.
(“Como nossos pais”)

Com a nova tecnologia da comunicação foi possível rever com emoção o jovem Belchior no programa de 1974 “MPB Especial”; no “Vox Populi” em 1983; em “Ensaio”, de 1992; e entrevistado pelo professor Pasquale Cipro Neto em “Nossa língua portuguesa” em 1996 – programas da TV Cultura de São Paulo - esses vídeos e todas as músicas do compositor estão disponíveis na internet em diversos canais (Youtube, etc).

“Você me pergunta pela minha paixão,
digo que estou encantado como uma nova invenção.
Vou ficar nesta cidade, não vou voltar para o sertão,
pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação,
e eu sinto tudo na ferida viva do meu coração”.
(“Como nossos pais”)

Belchior viveu a infância em Sobral, no interior do Ceará. Mais tarde, partiu para Guramiranga para estudar Filosofia e, depois, para Fortaleza para cursar Medicina na Universidade Federal do Ceará. Mas desistiu da nova profissão para se dedicar à música, vindo para o Rio de Janeiro, e depois, para São Paulo. Não se tornou médico, mas foi o poeta-filósofo da música popular brasileira daqueles anos de desalento e desilusão. Eu me perguntava: que o destino planejava para o nosso futuro?

“Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve
correta, branca, suave, muito limpa, muito leve.
Sons, palavras, são navalhas, e eu não posso cantar como convêm
sem querer ferir ninguém”.
(“Apenas um rapaz latino-americano”)

Nos últimos tempos, decidiu viver isolado no Rio Grande do Sul, distante de parentes e amigos. Quais eram os seus planos? Li na imprensa que ele estava trabalhando com a tradução e ilustração da “Divina Comédia” de Dante Alighieri.

“Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão
o meu som, a minha fúria e essa pressa de viver,
e esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
e arriscar tudo de novo com paixão,
andar caminho errado pela simples alegria de ser.
Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo, vem morrer comigo”.
(“Coração Selvagem”)

O meu querido amigo Jesse Navarro não poderá registrar as lembranças dele sobre o poeta-cantor, pois faleceu há muitos anos. E eu retomo minhas recordações para prestar, mais uma vez, uma homenagem póstuma.