segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Livro: “Italianos no mundo rural paulista”, João Baptista Borges Pereira - Joao dos Reis




“O italiano nasce pensando em emigrar; vive pensando em emigrar e instilando nos filhos e nos netos esse desejo; quando não consegue o seu intento, morre lamentando não haver emigrado”. A afirmação é do intelectual italiano Camilo Cecchi, citada por João Baptista Borges Pereira na página 5 do livro “Italianos no mundo rural paulista” (Editora Pioneira, São Paulo, 1974, 192 pp.).

Foi uma surpresa descobrir que a emigração italiana, que iniciara no século 19, continuou no século 20 depois da II Guerra. Houve dois planos governamentais – em 1949 e em 1950 - com envio de missões técnicas de reconhecimento de regiões para a imigração. Os especialistas em colonização agrícola escolheram uma região próxima de Assis, hoje município de Pedrinhas Paulista, distante 480 quilômetros da capital paulista. Foi um projeto planejado: ”O empreendimento (aquisição de terras e execução do plano de colonização) era feito em nome da Companhia Brasileira de Colonização e Imigração italiana”, uma empresa constituída em 1950 (p. 19).

Foi uma colonização capitalista: investimento de capital na compra dos 180 lotes e financiamento às famílias, construção das casas, assistência técnica agrícola. E o que buscaram os italianos-imigrantes que chegaram a São Paulo no início da década de 50? As mesmas aspirações dos seus antepassados (trabalho, a esperança de um futuro melhor), mas com os traumas vividos da última guerra.

Não sabemos como foi o choque cultural dos quase um milhão e meio de italianos que vieram para o Brasil entre 1870 e 1920. Na análise antropológica do escritor, é possível conhecer os diferentes processos de aculturação dos novos imigrantes, descobrir o que sentiram, como viveram a nova realidade. Tudo era diferente: o solo, o tipo de relevo, a vegetação, a cor da terra, o clima, e até o sabor e o cheiro da água e dos alimentos (p. 39, 50 e 51). Chegando a Pedrinhas, percorre “um tratto di strada naturale, dalla caratteristica ‘terra roxa’, fertile, finemente polverizzata, che penetra dovunque, si respira nell’aria, s’attaca ai panni e alla pelle, colora di rosso ogni cosa, segnando tutto col suo marchio incofondibili...” - trecho do relatório “Pedrinhas, San Paolo, Brasile, Colonia Italiana”, 1962, pp. 4 e 6.

Era uma relação comercial: 33% da produção deviam ser entregues à companhia colonizadora, para abatimento do débito dos colonos com a compra do lote, implementos agrícolas, fornecimento de animais. A orientação e a presença de um técnico agrícola não impediram que muitos voltassem para a Itália. A pesquisa e o estudo do professor-sociólogo foi realizada em 1963, portanto uma década depois do início da colonização. E houve um ajustamento do projeto: a prática da policultura, garantindo uma produção para a subsistência e para a economia de mercado. Por exemplo: o cultivo do trigo era intercalado entre a colheita do milho e o plantio do algodão.

Não foi apenas um processo de integração econômica, mas também cultural: a participação na realidade brasileira. Não viviam isolados e em uma região despovoada; mas mesmo assim, houve resistência à integração social, diz o professor-pesquisador. Na própria colônia, originária de italianos do Norte, do Centro e do Sul, há sinais de conflito e de tensão: os vindos do sul da Itália são adjetivados de “terrone”, “meridionale”, “árabo”, “marocchino”, “albanese”; os do Norte, chamados de “polenteiros”, curiosamente a mesma expressão generalizada e preconceituosa usada pelos brasileiros em relação a todos os italianos (p. 105 e 109).

A diferença entre os novos imigrantes e os do passado é que os de Pedrinhas vieram com a aspiração inicial de voltar para o seu país – um dilema permanente para os que permaneceram no projeto. Para os que se fixaram na colônia, há ainda a assimilação da nova língua: fala-se em casa os dialetos, mas lêem jornais em italiano, e se relacionam com a comunidade em português.

Como os jovens da colônia vêem o processo de aculturação no início dos anos 60? Há os que questionam a emigração, outros a aceitam como o seu destino. Apesar das “fases de marginalidade e ambivalência” próprias da juventude, em que há a resistência à assimilação cultural, há um maior sentimento de aceitação da nova realidade (pp. 166-168).

Ao ler o livro, lembrei do amigo Felis Penkal, lavrador em Araucária. A região metropolitana de
Curitiba tem ainda hoje “colônias” originárias da imigração polonesa. Em 2005, nos nossos
Encontros, procurava compreender esse universo novo para mim: a língua, os costumes, a
vida na comunidade, o trabalho na terra, os sonhos do jovem agricultor. Hoje, 14 de abril, é o
aniversário de quatro anos de seu filho, Juan Guilherme. Telefonei, parabenizei o piá, conversamos sobre o
o clima, o início da colheita da soja, feijão, batata e milho.

NOTA

1. O texto em italiano ( do relatório sobre Pedrinhas) está na página 47 do livro de João Baptista Borges Pereira.
2. A citação de Camilo Cecchi está em “Estudo comparativo da assimilação e marginalidade do imigrante italiano”, in “Sociologia”, vol. XIX, nº 2, maio de 1957, São Paulo, p. 114.
3. Sobre a colonização polonesa: “Contenda: a assimilação de poloneses no Paraná”, Hiroshi Sato, Editora Sociologia e Política de São Paulo, São Paulo,, 1963; e “A situação do polonês em São Paulo”, Octavio Ianni, in “Sociologia”, vo. XXIII, nº 4, dezembro de 1961 – ambos os textos citados por João Baptista Borges Pereira na nota 5 da página 4.

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