terça-feira, 1 de novembro de 2016

Um cronista da cidade de Curitiba - João dos Reis



Para Sandra Tortato, de Curitiba

“Nunca estive em alto-mar, mas aqui e agora, no Centro de Curitiba, me sinto um capitão à deriva. As velas rasgadas, os mastros partidos, a tripulação fugitiva e distante. Lá embaixo, a cidade é um oceano adormecido, falsamente pacífico. Poucas ondas, muitos náufragos. Atrás de cada janela escura, a possibilidade de um abismo” (1).

Luís Henrique Pellanda publicou em 2016 mais um livro de crônicas: “Detetive à deriva” (Arquipélago Editorial, Porto Alegre, 224 pp.). São 68 crônicas em que o escritor curitibano nos revela a cidade e seus mistérios.
Para mim, que viveu na cidade alguns anos, foi uma redescoberta. O cronista perambula pelo Centro de Curitiba - um espaço para o flâneur e observador das ruas e parques, e seus personagens anônimos e solitários.

Pegar o biarticulado Santa Cândida-Capão Raso, percorrer a Avenida República Argentina, as ruas XV de Novembro, Carlos Cavalcanti, Cruz Machado, Saldanha Marinho; vagabundear pelo Passeio Público, Largo da Ordem, pelas Praças Tiradentes, Generoso Marques e Santos Andrade foi o retorno ao meu passado de caminhante perdido na capital das araucárias.

A maioria das crônicas foram publicadas no jornal “Gazeta do Povo” em 2013-2015. “O cronista é, sobretudo, um cortejador de coincidências, e é esta condição que me leva a amarrar as pontas soltas deste e daquele acontecimento, e emaranhá-las com certo arremedo de técnica e arte até chegar a um novo laço, um nó original” (2).

Como o cronista vê a cidade? Ele nos conta: “Há uma segunda cidade no topo de Curitiba. Posso vê-la da minha sacada. Ela cresce devagar, não só nos terraços vizinhos, mas também naqueles mais distantes, que só alcanço com algum esforço, em dias de céu limpo” (3). Nas manhãs geladas ou nas tardes desoladas de domingo, ele tem a companhia dos urubus para olhar a paisagem do alto dos prédios.

O reencontro com a cidade acontece a todo o momento, em uma caminhada ou em seu observatório privilegiado: as ruas do Centro. “A cada noite eu me postava no terraço do meu apartamento na Èbano Pereira, à espera de um milagre narrativo, um olho no horizonte cada vez mais curto que nos cabe, e outro no espaço” (4).

Curitiba aos poucos se tornou uma metrópole cosmopolita. Como é possível continuar acreditando na arte do encontro? O cronista se pergunta: “Por que a vida nos permite o luxo de desprezar certos afetos?” (5).

Escrever é também invenção e imaginação. Luís Henrique Pellanda avisa que “todo bom narrador cultiva algum amor pela mentira e pela subversão”(6). Não desprezar os acasos, aprender a contemplar as coisas, as pessoas. O cronista, “pastor de acasos” (7), é o que gosta “de enigmas impossíveis, e afirma “ser um herdeiro de espantos”(8). A definição é primorosa: “o cronista é um dançarino acidental, e a natureza, sua melhor coreógrafa” (9).

As crônicas “Caveira de anjo”, “Águas cruzadas”, “O jardineiro do futuro”, “Rainha interrompida”, “O favor que ela me fez”, e “Fulano faleceu” são obras primas da literatura brasileira que eu desconhecia.

Há uma Curitiba que está no mapa da região Sul do Brasil - essa é a localização geográfica da capital do Paraná. Há uma outra cidade que carregamos conosco – plena de sentimentos e recordações, que só o cronista é capaz de nos revelar. Nela habitam todos aqueles que estão abandonados na grande cidade – e que procuram refúgio contra o desamparo e a solidão. Há em alguns momentos uma trégua na violência urbana, reconhece Luís Henrique Pellanda: “é ela que nos permite viver e amar nesta cidade com cada vez menos recursos afetivos” (10). Escrever uma narrativa, registrar uma reminiscência - é a nossa esperança de evitar o desespero e o naufrágio na multidão. “Uma história é sempre a ponte mais segura entre dois silêncios” (11).

NOTA

As citações são das crônicas:

Notas: 1.”Detetive à deriva” (p. 14); 2. “O bebê e o mar”(p. 116); 3. “O povo dos telhados”(p.75); 4. “Notícia das nuvens” (p. 69); 5. “Um modo de fazer mel” (p. 167); 6. “A história sem fundo” (p.93); 7. “Fotografia do vento”(p. 181); 8. “O jardineiro do futuro” (p. 133); 9. “Rotações e renascimentos” (p. 141); 10. ”O velho com a menina no colo” (p. 19); 11. “A onça nas ruínas” (p. 96).

Nenhum comentário:

Postar um comentário