sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Luís Henrique Pellanda: o reencontro com a cidade de Curitiba - João dos Reis





“Escrevo crônicas, e uma crônica, muitas vezes, é só um exercício compartilhado de desesperança”, escreve Luís Henrique Pellanda sobre o ofício de cronista (1).”Apenas não acho que os leitores precisem buscar, num cronista, uma identificação de fundo pessoal. Não é comigo que os leitores devem se identificar, e sim com a cidade, esse conjunto de resistências solitárias”. (2)

Foi um reencontro feliz com a cidade em que vivi o final dos anos 90 e início dos anos 2000 - no bairro do Pinheirinho, vizinho do Capão Raso, onde o escritor passou a maior parte da sua vida; hoje, ele reside no Centro de Curitiba. Minha rua, a La Salle, terminava na Rua Nicola Pelanda – uma homenagem ao imigrante italiano que chegou ao Brasil em 1875.

Nas crônicas do escritor curitibano, reencontrei as lembranças das minhas caminhadas pelas ruas do bairro ou do centro da cidade. “Desde menino, sou leitor e pedestre. Eu era uma criança suburbana, e tanto os livros, quanto minhas incursões pelo bairro, pelo mato e, mais tarde, pelo centro de Curitiba, me davam alguma esperança de fuga. A estagnação era o meu pesadelo”. (3)

Luís Henrique Pellanda era um jovem repórter – e eu não o encontrei nas minhas peregrinações pelos caminhos da capital das araucárias. “Ao dizer que olho o mundo a partir de uma janela, falo da janela como fronteira. A crônica é um gênero fronteiriço, fica entre o jornalismo e a literatura, o real e o ficcional, o efêmero e o eterno. E a janela é esse lugar entre o dentro e o fora, o público e o privado, o lar e a rua, o eu e o outro” (4).

E como é a capital do Paraná? `”Ao falarmos de Curitiba, falaremos de miséria, crime e crise ética, exatamente como faremos quando o assunto for São Paulo, Porto Alegre ou Recife”. Ou como diz o cronista: “Resumindo e generalizando, Curitiba é uma cidade notoriamente gelada, católica e conservadora, que preserva um punhado de falsos estereótipos, tanto negativos (lugar antipático, pouco acolhedor), quanto positivos (capital social ecológica, primeiro-mundista, etc). E reconhece que “só agora começou a assumir uma bela e inesperada vocação cosmopolita” (5).

E o que é a crônica para o escritor? “Tenho treino de repórter, desenvolvi certa facilidade para fabular, certo gosto pelo diálogo de balcão, pelo papo de banco de praça. Então os temas aparecem por aí, na esquina, no café...” E ele diz: “Não concebo literatura sem densidade, e crônica, para mim, é literatura. Não tenho dúvida quanto a isso”. (6)

Qual a relação e aproximação entre o conto e a crônica? “Para mim, o autor e o narrador de uma crônica (de uma crônica minha, insisto) precisam ser a mesma pessoa. Eu. Eu respondo pelo que escrevo, com o meu nome. Ali estão as minhas crenças, as minhas dúvidas, as minhas mágoas, a minha ironia O que o narrador diz ou faz foi feito ou dito por mim. Num conto, não: o narrador pode ser uma mulher, um bailarino, um assassino, um pedófilo, um milionário, um morador de rua, um deputado, alguém, abraçado a qualquer causa, boa ou má...” (7)

Qual a fronteira entre crônica e ficção? “Penso que uma crônica literária realmente não deve ser classificada como ficção – não como um romance ou um conto podem ser ficcionais. (...) Uma crônica não é, nunca foi, nunca será aquilo que se chama não-ficção. Ela é como poesia. (...) Um poema é ficção ou não ficção? Nenhum dos dois. Assim é a crônica. Não reproduz o real. Mas não é uma invenção. Exige franqueza, apesar das mentiras envolvidas”(8).

Luís Henrique Pellanda nasceu em Curitiba (PR) em 1973. Escritor, músico e jornalista, é cronista do jornal “Gazeta do Povo”. Cursou Jornalismo na PUCPR; trabalhou como repórter. Foi editor e idealizador do site de crônicas “Vida Breve”, e subeditor do jornal literário “Rascunho”. Livros: “O macaco ornamental”(Bertrand Brasil, 2009); “Nós passaremos em branco” (crônicas, 2011); “Asa de sereia” (crônicas, 2013); “Detetive à deriva” (2016); organizador dos dois volumes da antologia “As melhores entrevistas do ‘Rascunho’” (2010 e 2012): os cinco últimos títulos, publicados pela Arquipélago Editorial, de Porto Alegre.

Foi pelo correio eletrônico que minha amiga Linda me revelou o cronista desconhecido para mim. Descobrir as crônicas do escritor curitibano na internet me convenceu mais uma vez que há um novo espaço para o cronista, que não depende apenas de jornal ou revista para ser lido e conhecido por seus leitores. E então foi possível navegar nas asas da imaginação, retornando em sonhos à cidade em que vivi e aprendi a amar.

NOTA

1. A citação (1) de Luís Henrique Pellanda está no artigo “LHP reúne crônicas em novo livro”, de Diogo Guedes, “Jornal do Comércio”, 07 de agosto de 2016.

2. As citações das notas 2, 3 e 4 estão na entrevista ao Jornal “O Estado de São Paulo”, 05 de outubro de 2016 (“Curitiba foge do clichê com a prosa rica de LHP”).

3. As citações do escritor das notas 5, 6, 7 e 8 estão na entrevista por Paulo Lima, no “Balaio de Notícias”, 25-março a 22-abril de 2012 (“A crônica não precisa mais de jornal para viver”).

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