segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Um filme: “Serras da Desordem” (2006), de Andrea Tonacci - João dos Reis


Um filme: “Serras da Desordem” (2006), de Andrea Tonacci

A aldeia dos awá-guajá foi invadida por madereiros e fazendeiros em 1977 - e Carapiru sobreviveu ao massacre. Durante dez anos, perambulou solitário – um nômade refugiado no sertão - por vários Estados brasileiros, até ser encontrado na Bahia em 1988. Esse é o ponto de partida do filme de Andrea Tonacci, “Serras da Desordem” (2006, 2 horas e 16 minutos).

Com uma bolsa da Fundação Vitae, Tonacci refez a epopéia do índio, convencendo-o e as pessoas com quem teve contato, a participar do filme – filmado em preto e branco e em cores, uma mistura de ficção e documentário.

“Apesar de se tratar da história de um índio, ‘Serras da Desordem’ não é um filme sobre índios, é sobre nós, sobre o ser humano, sobre nosso olhar e nossa invasão do território físico e da alma dos outros. Esse outro que afinal somos nós mesmos” (“Tonacci flagra homem levado ‘pela roda da vida’”, artigo de José Geraldo Couto, “Folha de São Paulo”, 28 de março de 2006).

“Serras da Desordem” utiliza imagens de arquivo, telejornais da época – e o mais importante, conta com a participação de pessoas reais, como o próprio Carapiru. “Uma história fabulosa: a de um homem só que vaga por anos pelo interior do Brasil, é acolhido por brancos como uma espécie de bicho de estimação, mais tarde resgatado pela Fundação Nacional do Índio e levado a Brasília” (“Odisséia de índio resulta em fascinante aventura do cinema”, artigo de Inácio Araujo, “Folha de São Paulo”, 28 de março de 2006).

É o registro cinematográfico de uma perda – a vida selvagem paradisíaca destruída pela violência do homem branco. E também a odisséia de um homem que, no final do século XX, enfrenta solitariamente o seu destino. E, finalmente, o momento do reencontro com o filho, Txiramukum, um outro sobrevivente do ataque ao grupo indígena.

É a saga “de um homem que leva sua vida e seu povo resumidos nas costas, nos poucos objetos que carrega solitariamente – e também com a mais fascinante aventura a que se permitiu o cinema neste século 21, aqui no Brasil”, escreve Inácio Araújo.

Foram 140 horas de material, oito horas em 35 mm, e o restante em mini-dv, diz Tonacci para a ”Contracampo – revista de cinema” (entrevista em 2005 para Daniel Caetano, Francis Vagner, Francisco Guarnieri e Guilherme Martins).

Por que retomo a biografia do índio awá-guajá Carapiru? Em Avaí, vizinha da cidade onde nasci, Duartina, no interior do Estado de São Paulo, há a Reserva Indígena Araribá, criada em 1913. Há quatro aldeias – Kopenoty, Nimuendajú, Ekeruá e Tereguá – de terenas, guaranis, kaigangs, krenacs. Visitei-as nos anos 70 – foi um jovem índio que me mostrou o território – e me lembro da falta de perspectivas, de isolamento da comunidade.

Andrea Tonacci nasceu em 1944 em Roma, e vive no Brasil desde 1953. Um dos diretores do movimento Cinema Marginal nos anos 70. Ganhou o Kikito como melhor diretor em 2006 no Festival de Gramado com “Serras da Desordem”. Alguns dos seus filmes: “Os araras” (1980-81), “Guaranis do Espirito Santo” (1979),“Conversas do Maranhão” (1977-83.) “Serras da Desordem” ficou pouco tempo em cartaz no circuito comercial em São Paulo. Mas é um “aldeiabuster” (segundo expressão de Tonacci), assistido e debatido nas aldeias espalhadas pelo Brasil.

Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2006, depois da assistir a “Serras da Desordem”, saí emocionado da sala de cinema da rua Fradique Coutinho. Não consegui registrar o que despertou a avalanche de emoções: a identificação com a solidão de um personagem que optou por recusar radicalmente a vida em comunidade? A resistência inglória de um awá-guajá diante da violência da chamada “civilização ocidental”?

NOTA

1. A entrevista de Andrea Tonacci à “Contracampo – revista de cinema”, de 2005, está disponível na internet.
2. O filme “Serras da Desordem” está disponível no Youtube.

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