terça-feira, 18 de outubro de 2016

DOIS POEMAS:José Carlos Ary dos Santos (1937-1984), poeta e declamador português



Para os meus queridos amigos-poetas

O poeta e declamador português José Carlos Ary dos Santos nasceu em Lisboa. Participou como compositor-letrista em festivais de música em Portugal. Compôs poemas para canções, cantadas por Fernando Tordo, Carlos do Carmo, Amalia Rodrigues, Mariza, entre outros. Militou no PCP (Partido Comunista Português); um “poeta do povo” e um agitador cultural depois da Revolução dos Cravos de abril de 1974.

Não há publicações no Brasil dos seus livros. Abaixo, dois poemas encontrados em pesquisa na internet.


“Epígrafe”

De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
como pré-feitos blocos de cimento.

De palavras não sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.

De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
_ expressão da multidão que está comigo.


“O sangue das palavras”

O poeta que nasce é uma criança
parida pela água torturada
uma nave que surge uma nuvem que dança
ao mesmo tempo livre e condensada.
O poeta que nasce é a matança
da palavra demente e enjeitada
que o chicote do poema torna mansa
depois de possuída e mal amada.
Quando o poeta nasce a madrugada
aperta os versos num abraço rouco
até que a noite fique esvaziada.
E enquanto das palavras pouco a pouco
surge a forma perfeita ou agitada
no mundo morre um deus ou nasce um louco.

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