quarta-feira, 5 de outubro de 2016

À procura do escritor curitibano Jamil Snege (1939-2003) - João dos Reis



Para os meus caros amigos de Curitiba e região metropolitana

Como tornar-se invisível em Curitiba? “Cada conquista, cada livro publicado, cada poema, escultura ou canção, cada tela e espetáculo, disco, filme ou fotografia, cada intervenção bem sucedida no esporte, no direito ou na medicina, cada vez que alguém, lá fora, reconhecer com isenção de ânimo que você está produzindo obra ou feito significativo – o seu grau de invisibilidade aumenta em Curitiba” (p. 10), escreveu Jamil Snege em “Como tornar-se invisível em Curitiba”, primeira das crônicas e que é também o título do livro (Criar Edições, Curitiba, 2000, 88 pp).

Fui leitor das suas crônicas no jornal “Gazeta do Povo”. “... Não há gesto tão profundamente humano quanto uma despedida. É aquele momento em que renunciamos não apenas à pessoa amada, mas a nós mesmos, ao mundo, ao universo inteiro. (...) E não há sentimento mais absoluto do que a solidão em que somos lançados após o derradeiro abraço, o último e desesperado entrelaçar de mãos”, escreve em “Para matar um grande amor”(p. 19).

O cronista da cidade, escreve em “Canto de amor e desamor a Curitiba”: “Há uma Curitiba cruel, outra fiel. Uma que aprisiona e maltrata, outra que cura tuas feridas com a salivinha gelada dos rocios (...) Uma Curitiba espectral, cindida por navalhas e gritos, o brilho da morte coagulado nos metais, e uma Curitiba matinal, maternal, que indeniza o filho pródigo com um prato de mingau polvilhado de açúcar. (...) Uma Curitiba de refresco de framboesa, inocente e eucarística, que se pronuncia com um travo de fruta verde na língua, e uma Curitiba que é uma interlocução de lábios bambos, bares afora, num ritual caudaloso de imprecações e blasfêmias”(pp.39-40).

Com ironia, o escritor provoca aqueles que dizem “a literatura paranaense não existe”. Em “A arte de tocar piano de borracha”, ele apresenta a proposta e compromisso de escrever,”no prazo de um ano, um romance ou novela tão bom quanto qualquer Garcia Márquez”. A condição: “oferecessem uma bolsa de dois mil dólares por mês, durante um ano, e eu devolveria a quantia recebida, acrescida de juros de 6%, se ao cabo desse período não produzisse nada à altura do mestre colombiano” (p. 72).

Jamil Snege, filho de Antonio Snege e Anita Bassani, nasceu em 1939 em Curitiba, no bairro Água Verde, onde sempre viveu; escritor e publicitário, cursou Sociologia e Política na PUC-PR. Sua casa, na Rua Eng. Rebouças, foi ponto de encontro dos intelectuais da cidade. Foi de 1997 a 2003 cronista do Jornal “Gazeta do Povo”. Recusou a publicação dos seus livros por grandes editoras; escolheu publicá-los artesanalmente ou por editoras locais. Alguns dos seus livros: “O jardim”, “A tempestade” (contos), “Como eu se fiz por si mesmo” (memórias), “Os verões da grande leitoa branca” (contos), “Viver é prejudicial à saúde”.

Eu perambulava pelos parques e ruas e descobria que há uma cidade “que extravia teus passos por um labirinto de espelhos enevoados, outra que te reconduz, intacto, ao mundo das concretudes e das transparências” (p. 39). No Bar Stuart na Praça Osório, no Bar do Ligeirinho na Alameda Dr. Carlos de Carvalho, caminhando na Rua das Flores e no Passeio Público, frequentando a sala da Cinemateca, visitando museus e exposições, indo ao teatro e a shows de música, eu me perguntava: e se um dia encontrar o escritor?

Jamil Snege revelou para mim a cidade “que te promete um paraíso de campos bordados de bostas, onde vacas opalescentes ruminam tenros crepúsculos, e uma Curitiba que te atira no inferno da existência, no qual demônios de hálito doce e ancas lascivas rasgam tua carne com unhas esmaltadas de gangrena” (p. 40). Sabia que ele lutava contra um câncer com galhardia, e minha busca foi em vão - ele faleceu em 2003.

A Curitiba “de afogados, degolados e suicidas”, “dos puros, dos corações desarmados, daqueles que a cada manhã refazem a teia de suas vidas” (p. 40) ainda não reconheceu o maior cronista da cidade. Seus livros estão esgotados, encontrados apenas nos sebos, e não há ainda um projeto de republicação da sua obra.

NOTA

O livro “Como ser invisível em Curitiba” reune 25 crônicas de Jamil Snege. Escolhi quatro delas para a apresentação do cronista que escreveu com humor e irreverência sobre a cidade de Curitiba.

Nenhum comentário:

Postar um comentário