domingo, 25 de setembro de 2016

TEXTO/RESENHA - Oswaldo França Junior, o aviador-escritor- e "O homem de macacão" - João dos Reis



Oswaldo França Junior, o aviador-escritor - e “O homem de macacão”

Um aviador que se tornou escritor. A biografia de Oswaldo França Junior está ligada a um dos fatos mais dramáticos da História brasileira. Participou do grupo que planejou bombardear em 1961 a sede do governo do Rio Grande do Sul em Porto Alegre. Leonel Brizola, com a Cadeia da Legalidade, resistiu ao golpe que impedia a posse de João Goulart na Presidência da República, depois da renúncia de Janio Quadros.

O tenente França era chefe do setor de informação da unidade de combate do 14º Grupo de Aviação. “Recebi ordens de calcular o quanto de combustível ia ser usado e quanto tempo os aviões poderiam ficar no ar. Dezesseis aviões foram armados para a operação”. Cada avião iria levar quatro bombas de 240 libras, 15 foguetes, além de quatro canhões. “Os aviões foram armados. Nós nos preparamos. Colocamos as bombas e os foguetes nos aviões. (...) O avião de caça só leva uma pessoa, o piloto. Mas é necessário ter uma equipe grande de apoio no solo. E essa equipe, formada principalmente por sargentos, impediu a decolagem dos aviões... esvaziando os pneus” (ver nota 1).

Foi surpreendente conhecer o universo literário do escritor-aviador. Seus personagens estão sempre à procura de um lugar para viver – e esbarram nos tropeços da vida cotidiana. Estão à procura da companhia de amigos e de mulheres – e encontram neles o mesmo desencanto e desencontros.

Em “O homem de macacão” (Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1984, 2ª edição, 132 pp.), o mecânico-proprietário de uma oficina de automóveis conta suas desventuras no caminho conflituado das relações humanas. “À medida que vou vivendo, procuro alcançar duas coisas. Simplificar meus pensamentos e aceitar os outros como ele são” (p. 14).

É uma busca nem sempre tranquila para tentar compreender o outro. No livro não aparece a família da maioria dos personagens – e não sabemos quem são, onde vivem ou se já estão mortos. A solidão está presente naqueles que buscam um sentido para o trabalho e a vida. “Eu tentava mostrar que as coisas desagradáveis que acontecem conosco não podem estragar toda nossa vida. (...) Eu tinha boas intenções. Cheguei a plantar flores na frente de casa. E uma vez ela, quando me olhava podar as roseiras, disse que naquela casa talvez pudesse ter sido feliz, se eu não a tivesse encontrado já marcada por tantos sofrimentos” (p. 20).

Oswaldo França Junior nasceu no Serro, Minas Gerais, em 1936. Foi militar da Força Aérea Brasileira; depois do golpe militar de 1964, foi expulso da Aeronáutica pelo Ato Institucional número 2. Em Belo Horizonte, foi motorista de táxi, e depois, corretor do mercado de capitais, de imóveis, vendedor de carros, entre outras atividades. Seu segundo romance, “Jorge, um brasileiro”, ganhou o Prêmio Walmap de Literatura em 1967. Livros: “A volta para Marilda”; “Os dois irmãos”; “As lembranças de Eliana”, “À procura dos motivos”, “Aqui e em outros lugares”, entre outros.

Ler os seus livros foi uma redescoberta da realidade brasileira contemporânea – personagens da periferia da cidade, trabalhadores, desempregados – os desgarrados. “Estou me encaminhando para concordar que a carga de significação das palavras no texto é o mais importante. Não transmitir emoções, exatamente, mas despertar o leitor, desencadear um processo de sensibilização. Causar a quebra da inércia no seu modo usual de julgar o significado das palavras do texto” (ver nota 2).

O ficcionista buscou uma nova linguagem – um diálogo apaixonado com o leitor. “Então, fico perseguindo uma linguagem que se aproxime cada vez mais da linguagem falada, porque, quanto mais você se aproxima dessa linguagem, maior é o universo que você consegue atingir, maior o número de pessoas que vão sentir as emoções que você quer transmitir” (ver nota 2).

Oswaldo França Junior levou vinte anos para escrever sobre a sua experiência de aviador: “O passo-bandeira – uma história de aviadores”. Conhecemos a entrevista em que conta a sua participação no plano militar em 1961 em Porto Alegre; mas não há uma narrativa, mesmo ficcional, do escritor da crise política-militar que poderia ter um final trágico. Não saberemos a visão do romancista - exigente no ofício de construção das palavras - porque ele morreu em um acidente de carro em 1989.

NOTA

1. Trechos da entrevista, pp. 17, 18 e 19, da edição especial “Lembranças de Oswaldo França Junior” do Suplemento Literário da Secretaria de Cultura de Minas Gerais, outubro de 2009, gravada por Geneton de Moraes Neto em 1987, e publicada no Caderno Ideias e Livros do Jornal do Brasil.

2. As duas citações de Oswaldo França são do Suplemento Literário de Minas Gerais - 30 de novembro de 1971 e de janeiro de 1989 -, e foram retiradas dos artigos de Melânia Silva Aguiar e Angela Maria Salgueiro Marques na edição especial do suplemento de outubro de 2009.

3. O filme “Jorge, um brasileiro”, 1 h. e 56 min., de 1988, de Paulo Thiago, com roteiro baseado no livro de Oswaldo França Junior, está disponível no Youtube. O seriado para televisão, “Carga pesada”, foi também inspirado no livro.

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