sábado, 3 de setembro de 2016

Literatura: o escritor libanês-catarinense Salim Miguel (1924-2016 - João dos Reis







Yussef-José perguntou ao filho Salim, de dez anos, “o que ele pretendia fazer na vida” – e ele respondeu que “queria ler e escrever”. Anos depois, o pai foi a Florianópolis e comprou uma máquina de escrever para o escritor. Biguaçu, uma pequena cidade de Santa Catarina, tinha uma livraria – e Salim propôs ao proprietário que aceitasse a troca de livros, depois de comprá-los e lê-los. O dono, que era poeta e cego, apresentou outra proposta: que ele poderia ler na livraria – e, como também tinha “fome de leitura”, que lêsse os livros para ele. Foi o inicio da carreira do leitor e escritor libanês-catarinense, Salim Miguel.

“Melhores contos – Salim Miguel” (seleção de Regina Dalcastagnè, Editora Global, São Paulo, 2009, 222 pp.) foi o reencontro com a literatura do Sul, redescoberta no período que vivi na capital paranaense.

A busca da linguagem da memória está presente nos contos do escritor catarinense. Na cidadezinha onde passou a infância e adolescência, na vendola do pai, é o mundo que se descortina: “Homens rudes vêm abarcar-se ali, lagartear, beber uma pinga, comprar gêneros, conversar, reclamar das dificuldades, mercadejar, saber das novidades, tão poucas”. As narrativas de Ti’Adão, um ex-escravo, reaparecem; e também as do Líbano, contadas pela mãe: “procura reviver aquele Líbano longínquo, a viagem de navio, antes ainda, o vilarejo perdido (...), a parada na África, depois em Marselha...” (“Outubro, 1930”, pp. 44 e 45).

Há uma literatura do imigrante no Brasil que os ensaístas ainda não deram atenção – disse Salim Miguel em uma entrevista. Eu diria que a marca da ficção do escritor libanês-catarinense não é apenas o papel do imigrante, mas a reconstrução: “Estás, novamente, tentando reconstruir, reconstruir. Um passado fugidio e esquivo se abre diante de ti. Tu o recompões peça a peça. Mais: tu és parte dele. E se não o tens em ti como acontecido, tu o inventas com inteira liberdade à tua imagem e semelhança. Ele passa a acontecer. Existiu e tu exististe nele” (“Atenção, firme”, p. 73).

Alguns dos contos mais belos são sobre a solidão dos velhos. “Mas os acontecimentos, embora em sequência lógica e nítidos, se fundem, recuam, avançam... Agora o cansaço é maior, mergulho mais fundo no íntimo de mim mesmo. Aqui, donde estou, nesta cadeira que já faz parte de meu ser, o presente é ilusão, inexiste, o passado se faz presente, vive e vibra” (“O gramofone”, p. 18).

Os jovens também estão em conflito com o mundo, como o personagem-narrador em “Velhice, um”: “Odiava a companhia de pessoas que não me compreendiam, me interrogavam. E me odiava por necessitar delas, por não me bastar, por não poder viver sem o contato dos outros. (...)Fechava-me num mutismo indelicado, sem nome, brusco...” (p. 97).

Para aqueles que estão sempre viajando para o passado, não há saídas: “O tempo nos tragou, já passou a nossa época, nada mais entendemos deste mundo de hoje, tão diverso do nosso. Vivo de recordações...(...) No ar que respiramos, onde dormimos, o que comemos, uma paisagem vista, um riso que mais agradava aos nossos, como tudo isto vive, os transporta ao passado, de repente cresce, para nós, fazendo submergir todo o presente...” (“Velhice, dois”, pp. 113 e 114).

Na ficção do escritor-imigrante, há personagens desgarrados, errantes: eles buscam uma saída para as incertezas do presente e ausência de futuro. Estão em busca de trabalho, mas também de um sentido para a vida, perdidos em andanças pelo Sul: “É assim: vou andando por esse mundão sem fim, quando falta o de comer, paro, trabalho um pouco, não me acerto, largo e continuo a andar...(...) Nem queira saber: apanhei frio e calor, chuvas e geadas, dormi nas estradas, debaixo de árvores, nos matos, nalgum rancho que encontrava vazio” (“Sem rumo”, p. 181). Ou desamparados na pequena cidade interiorana: “Nas intermináveis conversas das noites sem fim traçam planos de grandes jogadas, o que farão lá fora, o lá fora abarcando um mundo novo, de aventuras, emoção, conquistas. Impossível continuar naquele não viver sem perspectivas. (...) Mas amanhã vai ser diferente. Amanhã vamos largar tudo. Amanhã vamos nos mandar para sempre, para longe, bem longe” (“Amanhã”, pp. 202 e 203).

Salim Miguel nasceu em 1924 em Kfarsouroun, no Líbano; veio para o Brasil com três anos. Biguaçu, na Grande Florianópolis, onde a família se instalou, foi o cenário de seus personagens e obra literária. Nos anos 40 e 50, com Eglê Malheiros, com quem se casou, participou do Grupo Sul, um movimento modernista artístico e literário de Santa Catarina. Contista, cronista, romancista, jornalista e ensaísta; nos anos 70. foi um dos editores da revista “Ficção”. Esteve preso um mês e meio depois do golpe de 1964; a sua livraria em Florianópolis foi saqueada, e os livros queimados em uma fogueira na rua; na prisão, escreveu um diário - publicou “Primeiro de abril: narrativas da cadeia” em 1994. Livros: “Velhice e outros contos”, de 1951; “A morte do tenente e outras mortes”; “Vida breve de Sezefredo Neves”; “Mare nostrum”; “Nur na escuridão”; A voz submersa”; “As areias do tempo”; “O sabor da fome”, entre outros.

Em 2013, Eglê e Salim doaram os seus livros, revistas, objetos pessoais para o Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas da Universidade do Estado de Santa Catarina. Nos últimos anos, com problema de visão, o escritor dependia de outros para a leitura - faleceu em 22 de abril de 2016.

NOTA

1. Na seleção de 2009 da Editora Global, há quinze contos de Salim Miguel. Escolhi sete deles para recordar o escritor – “O gramofone”, “Outubro, 1930”, “Atenção, firme”, “Velhice, um”, “Velhice, dois”, “Sem rumo”, e “Amanhã”.
2. O filme-documentário “Salim Miguel na intimidade - Maktub”, em 3 partes, direção de Zeca Nunes Pires, 2012, no total de 80 minutos, está disponível no Youtube.

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