quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Recordações de um contador de histórias: Curitiba - 2 - João dos Reis



“Quem chorava em meu sonho?
Eu ia, deslembrada,
pelos caminhos sem nexo
do escuro sono,
quando alguém soluçou.
Onde, nas algas profundas,
se enredava essa dor?
(Seu pranto doía no mundo)”.
- poema “Escuros caminhos”, Helena Kolody

O que podemos esperar da arte do encontro? O prazer de dividir ideias e sonhos; um universo de imagens e palavras: a solidariedade, a amizade, a ternura. É a “delicadeza de uma engrenagem que se movimenta”: e nos traz momentos de alegria e felicidade. Instantes em que as “palavras-estrelas” da poetisa Helena Kolody se apresentam para o diálogo, para a confraternização. Onde duas ou mais pessoas estão juntas, acreditamos que o uso da linguagem impede o domínio da tristeza, da desolação. E, contra os que estão sem esperanças, podemos afirmar: não precisamos de muito mais coisas. É o que buscam os nômades do nosso planeta: uma confraria dos viajantes em busca de um mundo melhor, onde não há lugar para a solidão, a dor, o sofrimento.
Martha Teixeira da Cunha e José Mauro dos Santos, da Casa do Contador de histórias de Curitiba, me pediram esse texto acima de oito linhas “sobre a arte do encontro”. Decidi prolongar a redação, tornando-o o prólogo à crônica e recordações com o grupo na capital paranaense.

O curso “A arte de contar histórias” no SESC, em 2000, com Martha e José Mauro dos Santos, despertou as recordações de duas personagens importantes para mim: Celina Guimarães Hardy, de 75 anos, e Arthur Antunes, de 4 anos. Eles estiveram próximos quando eu procurava combater o ceticismo radical: uma luta inglória para encontrar um sentido para o trabalho e a vida.

Procurei me dedicar aos contos infantis; comprei alguns livros que contribuíram para a minha pesquisa e leitura. Tive o privilégio de ter um ouvinte interessado: Arthur adorou a descoberta da literatura oral – e eu fiquei surpreso com o encanto que as palavras despertavam.

Me engajei no voluntariado do Hospital do Trabalhador. Foi um curto período em que, uma vez por semana, durante mais ou menos duas horas: na Pediatria, contava histórias; na Ala dos adultos, perguntava aos pacientes se queriam ouvir poemas ou notícias de jornal. Foi uma longa jornada: um combate contra a desesperança daqueles que se sentiam fragilizados.

Às vezes me interrogava: como os pais das crianças e os adultos viam a minha presença temporária? Lembro de que alguns me perguntaram: quando eu voltaria ao hospital? Em geral, conversei muito mais com os piás.
No curso de orientação para o voluntariado, descobrimos que estava proibida a nós, voluntários, a Ala do hospital das doenças infecto-contagiosas: ao passar em frente ao acesso a esse espaço, imaginava o isolamento e angústia atrás daquela porta.

Havia muitos outros voluntários; aqueles que participavam na organização e controle na lavanderia, por exemplo, foi um dos que mais admirava: as roupas dos pacientes internados são reduzidas a apenas toalhas e lençóis. Refleti ao ver os meus ouvintes desamparados: era como uma viagem, muitas vezes sem volta, em que estamos quase nus, sem as vestes de uso pessoal.

Celina foi como voluntária – para contar histórias - no Instituto Paranaense dos Cegos. Em conversas, trocamos impressões da incursão em um mundo novo para nós. A arte do encontro é também a do desencontro. Antes de partir de mudança da cidade, recordei que tinha uma dívida com ela: planejávamos um encontro à tarde, tomar um chá, ir ao cinema, refletir sobre a nossa vivência com a literatura – o que não aconteceu. Com Arthur, a despedida teve momentos felizes: um dia inteiro para passear: almoçamos, caminhamos e nos divertimos nos brinquedos do Parque Barigui.

Houve no hospital uma feira e confraternização dos voluntários em um fim de semana. As mulheres internadas com HIV doaram artesanato realizados por elas nesse confinamento forçado: peças de crochês ou bordadas à mão. Comprei e presenteei Martha com uma toalhinha confeccionada por uma paciente da ala do isolamento. Fiquei devendo um presente para Mauro; mais de uma década depois, dedico essas linhas a ele, com a minha gratidão.

NOTA

O poema “Escuros caminhos”, de Helena Kolody, está na página 122 da antologia “Luz infinita”, Museu-Biblioteca Ucranianos em Curitiba, 1997, edição bilíngue português-ucraniano, 204 pp.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Curitiba: recordações de um contador de histórias - João dos Reis




“Meus olhos estão olhando
de muito longe, de muito longe,
das infinitas distâncias
dos abismos interiores.
Meus olhos estão a olhar do extremo longínquo
para você que está diante de mim.
Se eu estendesse a mão, tocaria a sua face.
- poema “Abismal”, Helena Kolody

Era uma noite feliz aquela de 2001 em Curitiba. Para comemorar o fim do curso de Contação de Histórias, Celina Guimarães Hardy e uma amiga ofereceram um jantar – e o prato foi o barreado, tradicional do Paraná.
Éramos uma pequena turma no curso para formação de contadores de histórias no SESC com a psicóloga Martha Teixeira da Cunha e o ator-educador José Mauro dos Santos. Depois do final do curso, aos sábados, fazíamos exercícios práticos: contávamos histórias – e prolongávamos os encontros em outros jantares em casas de companheiros de curso.

Escolhemos um trabalho voluntário no Hospital do Trabalhador, no bairro Novo Mundo. Participamos juntos das palestras de orientação para o voluntariado no hospital; mas depois, Celina preferiu o Instituto Paranaense dos Cegos, na Avenida Visconde de Guarapuava. Como foi a recepção das crianças e seus pais da Pediatria onde contei histórias? Como foi o contato de Celina com quem perdeu a visão, mas tem a audição para conhecer o mundo? Conversamos muitas vezes sobre as nossas novas atividades – e aprendemos com essa troca de experiências. Foram muitas as questões que nos colocávamos: o curso nos deu a teoria, mas era na prática que refletíamos sobre nosso aprendizado.

Eu decidi inovar: na Ala dos adultos do hospital, li e comentei notícias de jornal – e depois, leitura de poemas, que me revelou o poder da imaginação poética. Como os adultos recebiam essa intervenção na dura realidade hospitalar, um espaço de dor e sofrimento?

Em três casos, para os pacientes, ouvir histórias não foi apenas uma vivência estética, mas terapêutica. Foi surpreendente: um jovem e uma senhora me contaram suas vidas – e como pretendiam mudá-la radicalmente. Um menino chorava desesperado com a proximidade da cirurgia – e só se acalmou com as histórias que narrei; depois, acompanhei-o até à porta do centro cirúrgico. Foram momentos que nunca esquecerei: eles sentiam-se desamparados, e a literatura provocou a reflexão: havia esperança de dias mais belos e felizes.

Depois de três décadas lendo, estudando e lecionando Filosofia, escolhi me especializar em contos infantis. E tive lições práticas de contador de histórias com o pequeno Arthur, de 4 anos: ele foi meu ouvinte atencioso e muito querido. O que mais me surpreendeu é que ele sempre me pedia para contar de novo as mesmas histórias – e principalmente, “O patinho feio”, também a minha preferida na infância: lembrava com emoção que foi o primeiro livro que ganhei da tia Anna Rosa, depois de alfabetizado. Procurei incentivar a participação dele: contava uma parte de narrativa e, como ele já a conhecia, pedia para ele continuar, e íamos recriando juntos a história até o final.

Celina nasceu na cidade do Rio de Janeiro; cursou Psicologia e Assistência Social, e morava há muitos anos em Curitiba. Fiquei devendo a ela um encontro em uma tarde - em que tomaríamos chá, iríamos ao cinema, continuaríamos a troca de impressões sobre a nossa aventura no universo das histórias.

Celina esteve doente; eu fraturei o ombro – e interrompemos nosso trabalho voluntário. Parti definitivamente para São Paulo em 2005, e preocupado com problemas familiares, me despedi de poucos amigos. Avisei Ewerton, o pai de Arthur, que iria visitar o piá na escola - e levei de presente de despedida o livro “Contos completos”, dos Irmãos Grimm. Pensei: um dia volto para reencontrar a todos. Retornei oito anos depois, revi Arthur e alguns dos "companheiros de viagem" na cidade de Curitiba, mas não encontrei Celina – ela faleceu em 2009 aos 84 anos.

NOTA

Receita do barreado

“É feito só de carne, que fica a cozinhar durante mais de 12 horas, dentro de um panelão de barro, hermeticamente fechado, que se enterra e sobre o qual se acende uma fogueira. O cozimento se faz com o próprio vapor, sem que seja adicionada água alguma. A carne fica tão cozida que se desfia à toa, tomando o aspecto de um pirão.(...) O barreado é comido com acompanhamento de banana e farinha de goma (mandioca)”. A receita do barreado foi cedida à autora pelo professor Luís Heitor, que a conseguiu em Curitiba: “Coloca-se no fundo de uma panela de barro tiras de toucinho, pondo-se carne gorda e magra em seguida, acompanhada dos temperos: tominho, cebola, salsa, cebolinha, alho, tomates, pimenta de cheiro e limão. Calafetam-se as bordas da panela com uma goma de farinha de mandioca, prendendo-se a tampa por meio de tiras de papel. Além de tudo isso, ainda se amarra para evitar que o vapor se escape. Algumas vezes o barreado se faz, colocando a panela sobre a chapa do fogão, e a fogo lento, durante toda a noite e indo pela manhã adentro até o almoço para se processar o cozimento (...)”.

Mariza Lira, “Nove sopas. Barreado. A origem da mãe-benta”, em “Antologia da alimentação no Brasil”, organizado por Luis da Câmara Cascudo, Livros Técnicos e Científicos Editora, Rio de Janeiro, 1977, p. 81.