sexta-feira, 1 de julho de 2016

Um livro: “Diário de um professor – um ano em Pietralata”, de Albino Bernardini – e recordações de um professor de Filosofia em Caraguatatuba - João dos Reis



Para a professora Antonia Carlota Gomes, com a minha gratidão

Pietralata, na periferia de Roma, é habitada por emigrados do Sul da Itália –“ pastores, camponeses, trabalhadores, mineiros, artífices, obrigados a transformar-se em serventes”. No bairro proletário o sardo Albino Bernardini (1917-2015) foi professor da 3ª série do ensino fundamental no inicio dos anos 60 – e narra sua experiência educacional em “Diário de um professor – um ano em Pietralata”, publicado em 1968 pela Nuova Itália Editrice, de Florença, e traduzido por Antonio Pinto Ribeiro para a Editorial Notícias, de Lisboa, em 1977.

O professor fez parte do “Movimento de Cooperação Educativa”, inspirado nas ideias do educador Célestin Freinet (1896-1966). Foi somente em 1979 que li o livro, mas antes realizei várias das propostas pedagógicas nos anos em que trabalhei na Escola Estadual “Thomaz Ribeiro de Lima”, em Caraguatatuba, como professor de Filosofia e, com a proibição da disciplina no currículo escolar, de outras disciplinas. Há uma diferença significativa: ele teve uma classe de 12 alunos em um ano letivo. Eu tive centenas de alunos em diferentes turmas do curso ginasial e colegial durante oito anos; fui também Orientador de Educação Moral e Cívica, um cargo de confiança da direção da escola - e desenvolvi um trabalho que eu chamo de “assessoria para assuntos comunitários”.

A primeira descoberta foi a importância das reuniões com os pais dos alunos. Antes do inicio do ano letivo, o professor reuniu os pais; eu realizei inúmeras reuniões com os alunos-representantes de classe, com a liderança do grêmio (“centro cívico escolar”), com os pais. Contra o “desprezo e discriminação, o conformismo desencorajador e mesquinho egoísmo” dos colegas do corpo docente, Bernardini estabeleceu relações de solidariedade com os pais e com os estudantes: “As crianças estavam diante de mim com os seus rostos assustados, as roupas esfarrapadas, os cabelos desgrenhados, na expectativa da minha palavra...” (p. 81).

Quais as estratégias para colocar em prática suas ideias para uma nova educação? Ouvir sempre – essa era a proposta principal do seu projeto. “Prefiro ouvir para depois intervir, dosando e orientando a discussão” (p. 156-7). “Levávamos para a aula todos os fatos da vida para criticá-los, condená-los ou comentá-los”. As contínuas trocas com o exterior, com a família, os amigos, a rua ou o lugar que frequentavam era o ponto de partida para a reflexão sobre os problemas de cada um, da vida em família, do bairro (p. 165).

A escola não deveria ficar restrita às quatro paredes da sala de aula. O professor visitava os pais dos seus alunos, percorria as ruas de Pietralata – e com os alunos, recolhia material para trabalho escolar: plantas, insetos, argila. Organizou uma excursão ao rio Aniene; e como não conseguiu autorização para uma visita a uma fábrica, trouxe um operário para explicar aos alunos o processo de fabricação do papel.

Eu realizei algumas saídas da escola com os alunos em Caraguatatuba: base de pesquisa do Instituto Ocenográfico da USP em Ubatuba, acampamento na Praia Dura, exposição no CTA (Centro Tecnológico Aeroespacial) em São José dos Campos. Pedi a eles muitas vezes, como uma atividade escolar, que realizassem entrevistas com autoridades da cidade: prefeito, promotor, presidente de Câmara Municipal. Nas comemorações cívicas, sempre convidava um representante da comunidade para fazer uma pequena palestra para os alunos, depois do hasteamento da bandeira e canto do Hino Nacional.

Como enfrentar o problema da indisciplina na sala de aula e na escola? O professor italiano organizou a classe em grupos, distribuindo tarefas e responsabilidades. Eu também propus sempre o trabalho em grupo; realizava no inicio do ano letivo eleição dos representantes das 24 turmas, divididas nos períodos manhã, tarde e noite – e atribuía pequenas atividades: cuidar da biblioteca, o jornal mural, o jornal dos estudantes. E participei e incentivei a participação dos pais nas reuniões bimestrais e na Associação de Pais e Mestres da escola.

Suspender um aluno, encaminhá-lo à direção da escola sempre foi uma maneira radical de resolver o conflito em sala de aula. Para o professor Albino Bernardini, a escola dever ser “um centro de vida em que se aprende não apenas a ‘técnica’ da leitura e da escrita, mas também o respeito pelos outros e pelas coisas, o sentido da tolerância, e sobretudo pretende desenvolver a concepção de vida como luta para progredir e melhorar a si próprio e aos outros” (p. 147).

Fui estudar as diferentes teorias educacionais quando fui professor de História e Filosofia da Educação no curso do magistério em Osasco no final dos anos 80. O que orientou a minha ação pedagógica na escola caiçara do Litoral Norte paulista? O sentimento da amizade e do amor devia assinalar o inicio do ano letivo, diz o professor sardo. “Não só o amor ao estudo e às coisas, mas principalmente o amor dos companheiros, da sociedade, da escola e do professor, através de um modo de viver feito não de discursos e de palavras, mas de ação responsável...” (p. 171).

O professor italiano pedia para os seus alunos de Pietralata escreverem textos e poemas. As poesias, as redações escritas pelos alunos, os relatórios dos trabalhos escolares “testemunhavam uma inequívoca vontade de melhorar, de progredir, de superar aquela condição a que eram obrigados por uma sociedade injusta que nada lhes tinha dada a não ser amarguras, humilhações, desalento” (p.212). Eu realizei durante alguns anos um concurso de poesia – e divulgava poemas no jornal mural da escola. Havia poucas classes do colegial e, portanto, poucas aulas de Filosofia; lecionei diversas disciplinas, mas principalmente Educação Moral e Cívica – e sempre trabalhei com leitura e debate de textos de jornal em sala de aula.

O professor Bernardini foi transferido da escola de Pietralata no ano seguinte. Quando voltou dois anos depois, alguns alunos tinham ido para a escola de ensino médio, outros continuavam o processo de repetição e de evasão escolar por participarem do mundo do trabalho. Encontrou alguns deles, e ele diz que a amizade e o companheirismo permaneceram. Eu parti de Caraguatatuba em 1980 e nunca mais voltei à cidade - e as lembranças dos meus alunos caiçaras se perdem aos poucos no tempo.

NOTA

1. O filme “Diário di un maestro” (1972, 65 minutos, em italiano), de Vittorio De Setta, é baseado no livro de Bernardini. Está no Youtube; não há legendas em português.

2. O grêmio livre na escola se tornou “centro cívico escolar” no período da ditadura militar. Uma das atribuições do Orientador de Educação Moral e Cívica era “orientar” a participação política dos estudantes. Eu fui esse “orientador” em Caraguatatuba durante oito anos.

3. Não encontro as palavras para dizer como sou grato a Antonia Carlota Gomes, diretora-coordenadora da Escola Estadual “Thomaz Ribeiro de Lima”, em Caraguatatuba, pela amizade solidária, pelo apoio e orientação ao meu trabalho em sala de aula e com a comunidade escolar nos anos 1973-1980. A ela dedico essa resenha-crônica, que não a lerá – faleceu em 1987.

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