domingo, 24 de julho de 2016

"La cuca del hombre" (1984) e "Cantares" (2016), de Raul Ellwanger - João dos Reis



“Déjame al despertar tener la dicha / de hablar y compartir nuestros anhelos / y en la mañana verde que termina / volver a repetir que te quiero“. “Deixa-me ter a alegria de acordar / para conversar e partilhar as nossas esperanças. / E na manhã que termina verde / de repetir que eu te amo”. (versos da canção “Comienzo y final de una verde mañana”, de Pablo Milanés).

Em 2014, o gaúcho Raul Ellwanger veio do Sul com um presente, acompanhado pelo som da milonga e do vento minuano: o disco “La cuca del hombre” (1984). E trouxe de volta as lembranças da América Latina - com canções e participação de Mercedes Sosa, Léon Gieco, Peteco Carabajal, Osvaldo Fattoruso, entre outros artistas. É a retomada do músico dos tempos de rebelião e exílio – no Chile e Argentina.

Em “La cuca del hombre”, o músico-poeta, que voltava para o Brasil depois de quase dez anos, retoma os laços de amizade com os artistas latino-americanos. Há canções do argentino Léon Gieco, do cubano Pablo Milanés, Raul Porchetto, entre outros músicos.

“Cigana Tirana”, “Guri de América, “Lazo de sangre”, “Brazo de guitarra”, ”Hermanito de batalla” são algumas das 15 canções do disco de 1984, gravado em Buenos Aires. O cantor e compositor teve vários parceiros nas músicas e arranjos: Pery Souza, Jerônimo Jardim, Vicente Barreto, Nana Chaves, Washington Benevidez, Yabor, Mavy Díaz, Domingo Cura, Jorge Aragón, Nicolás Brizuela.

“Eu só peço a Deus / que a dor não me seja indiferente / que a morte não me encontre um dia / solitário sem ter feito o que queria. / Eu só peço a Deus / que a injustiça não me seja indiferente / pois não posso dar a outra face / se já fui maltratado brutalmente” (versos iniciais da canção “Só peço a Deus”, de Léon Gieco).

Raul Moura Ellwanger nasceu em Porto Alegre em 1947. Músico e compositor, foi estudante de Direito na PUC-RS. Participou de festivais de música nos anos 60. Militante do movimento estudantil e da Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares. Entrou para a clandestinidade; foi condenado pela Lei de Segurança Nacional; em 1970, parte para o exílio no Chile e, depois, na Argentina. Voltou para o Brasil em 1979. É uma ativista dos direitos humanos no Comitê Carlos de Ré de Verdade e Justiça do Rio Grande do Sul - e na Rede Brasil Memória, Verdade e Justiça. “Teimoso e vivo” (1979) é seu primeiro disco. Alguns outros: “Raul Ellwanger”(1980); “Gaudério” (1984); “Portuñol” (1985), “Boa maré” (2004). Tem mais de 200 canções, gravadas por intérpretes como Beth Carvalho, Mercedes Sosa, Renato Borghetti, Léon Gieco.

Há outras canções de outros discos de Raul que recordam os anos de resistência à ditadura militar. É o músico-militante que recorda os companheiros presos, torturados, mortos e “desaparecidos”: “Pequeno exilado”, de 1980, um dueto com Elis Regina; e “Canção do desaparecido”: “Só queria tocar tua mão / ver teu sorriso enfim / sentir passos na escuridão / os teus braços voltando para mim”.

Em 2016, Raul comemora 50 anos de carreira, com o lançamento de um disco,“Cantares”; e também um songbook, “Nas telas do violão – crônicas, letras e partituras” (Porto Alegre, 2016, 256 pp) – os dois são produções independentes do autor-compositor. No livro há partituras e letras de 71 músicas, acompanhadas de histórias das canções, discografia e memórias do compositor.

Em “Cantares”, o 13º disco de Raul, há 14 canções inéditas ou em parcerias – e foi gravado em Barcelona, Havana, Montevidéu e Porto Alegre; seis canções são em espanhol e uma em catalão. Os convidados nas parcerias, vozes e instrumentos: os uruguaios Eduardo Darnauchans e Washington Benevidez, a argentina Cecília Pahl, o catalão Toti Soler, e os brasileiros Fausto Prado, Everson Vargas, Luiz Jakka, Paulinho Loew, Pery Souza, Leandro Nunes, Carlo Trein, Daniel Wolff, Joca Przycinski.

“Gosto de falar que ‘Cantares’ é um disco de quem ama canções, de quem gosta de violão, gosta de estar junto e tocar, gosta de ‘mostrar’ a música recém feita: é um disco de violeiros! Com a simples juntada de parceiros, de letra e música, de levadas de ritmos, com a roda de viola rodando, vai-se compondo um buquê de poesia e emoção, na base do prazer, de aprender novas manhas, de desafiar os mistérios da criação” (artigo de Raul Ellwanger para o portal “Sul 21”, 2 de maio de 2016).

A aliança entre a música e a poesia é uma das mais emocionantes experiências estéticas. O cantor-compositor, em parceria com muitos outros artistas – letristas, arranjadores, instrumentistas, iluminadores – nos oferece a contemplação da beleza: no rádio ou em praça pública, nos bares ou nas salas de espetáculos. E nos salvam dos infortúnios do cotidiano com a promessa de uma vida mais bela.

NOTA

1. O portal Sul21 publica as crônicas de Raul.
2. As músicas e as letras de 71 músicas estão no songbook e também no Youtube (digitar: “Raul Ellwanger Cantares”).
2. Os pedidos do CD “Cantares” e o livro “Nas velas do violão” podem ser pedidos pelo e-mail:
palavraria@palavraria.com.br

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