quinta-feira, 21 de julho de 2016

Anotações/reflexões sobre as conferências de Franco Basaglia no Brasil - João dos Reis



Para Gabriel Roberto Figueiredo

“Quando rejeitamos a lógica do manicômio como lógica repressiva e destrutiva do doente, estamos mudando a vida básica do doente; damos a ele uma situação de vida normal, isto é, comer, dormir, beber, e de maneira correta, não uma vida de prisão, campo de concentração ou de trabalho forçado. Damos e criamos um homem que possa se relacionar com outros homens. (...) O médico é aquele que dá medicamentos, mas sobretudo é uma pessoa que deve ter uma relação alternativa com o doente, dando-lhe um sentido na vida. É fundamental o sentido político da nossa ação, além da divisão do trabalho entre técnica e política” (p. 64).

Franco Basaglia (1924-1980) esteve no final dos anos 70, realizou uma série de conferências – que foram publicadas em “Franco Basaglia – a Psiquiatria alternativa – contra o pessimismo da razão, o otimismo da prática – Conferências no Brasil” (Editora Brasil Debates, São Paulo, 1980, 158 pp). O convite para vir ao Brasil partiu de um grupo de médicos que promovia o debate sobre as experiências de uma nova psiquiatria realizadas pelo psiquiatra na Itália.

Um dos anfitriões na visita ao Brasil foi o psiquiatra Gabriel Roberto Figueiredo. Liderança do movimento estudantil em Osasco, e preso político em 1964, foi um dos fundadores do grupo Instituto de Psiquiatria Social em Diadema nos anos 70. Esteve em 1978 na Itália para conhecer a experiência de Basaglia. Mais tarde, em 1982, foi secretário de Saúde da cidade – e criou uma política de inserção social e de recuperação, evitando as internações por longos períodos. Vive em Campinas e trabalha na PUC da cidade.

“... Tanto a medicina como o médico propõem, dentro do contexto da doença, a mesma lógica de proposta de violência ou de opressão que já existe na vida cotidiana. Que diferença existe entre os direitos dentro de um hospital psiquiátrico ou dentro de uma fábrica? Nenhuma. Todos dois têm uma cadeia de montagem. Nós não queremos a cadeia de montagem. (...) A medicina e a psiquiatria são fontes de opressão e são um meio utilizado pelo poder civil na violência contra os homens” (p. 53).

Eu conhecia o movimento da anti-psiquiatria pelo livro de Ronald D.Laing, “A política da experiência e a ave-do-paraíso” (Editora Vozes, Rio de Janeiro, 1974). Selecionei um trecho do livro para debate em sala de aula na disciplina Cultura Contemporânea no curso colegial em Caraguatatuba em 1975. Somente em 1980 fui conhecer as ideias revolucionárias de Basaglia.

“Quando o psiquiatra entra no manicômio encontra uma sociedade bem definida: de um lado, os loucos pobres; de outro, os ricos, a classe dominante com os meios para tratar os pobres doentes loucos. Sob esse prisma, como podemos pensar que a psiquiatria pode ser libertadora? O psiquiatra estará sempre numa posição privilegiada de dominante frente ao seu doente. (...) A psiquiatria é uma técnica altamente repressiva que o Estado sempre usou para oprimir os doentes pobres, isto é, a classe operária que não produz” (p. 14).

Eu conheci durante muitos anos a realidade dos hospitais psiquiátricos em São Paulo – visitando um parente. Sempre me horrorizou a receita para a cura do doente mental: por eletrochoques, insulina, neurocirurgia. A imagem mais degradante foi a visita à ala dos despossuídos de qualquer dignidade em um hospital de Bauru: permaneciam nus em um amplo salão. Não esqueci a ‘explicação” que me foi dada: eles recusavam qualquer peça do vestuário.

“A cura que os médicos e psiquiatras propõem para o doente mental não pode ser outra coisa senão uma proposta alienante e com a finalidade única de remeter o doente ao círculo produtivo, isto é, tomar o doente como mercadoria e traduzi-lo mais uma vez como mercadoria. Parece evidente, penso eu, que esse tratamento que vem sendo efetuado não deixa à pessoa a possibilidade de se expressar subjetivamente. A relação entre o médico e o doente é uma relação de domínio e poder, e é difícil sair dessa contradição” (p. 94).

Há um desconhecimento de todos sobre a esquizofrenia; preferem ignorar a loucura e isolar o louco. Eu preocupava-me, não apenas com a tratamento com psicofármacos: não havia uma terapia que mantivesse a sociabilidade e a subjetividade do paciente?

“Certamente uma das terapias mais importantes para combater a loucura é a liberdade. Quando um homem é livre tem a posse de si mesmo, tem a posse da própria vida, e, então, é mais fácil combater a loucura. Quando eu falo em liberdade, falo de liberdade para a pessoa trabalhar, ganhar e viver, e isto já é uma luta contra a loucura. Quando há a possibilidade de se relacionar com os outros, livremente, isso torna-se uma luta contra a loucura” (p. 72).

Foi uma descoberta para mim: a proposta de uma medicina que combatia a repressão à classe trabalhadora – nas fábricas, nos hospitais, na vida cotidiana. Nas idas ao hospital nos finais de semana via clima de pobreza, opressão e desespero daqueles que não tinham familares ou amigos para visitá-los.

“Os sindicatos e os partidos de esquerda representam a organização do povo oprimido. Os doentes internados em manicômios ou em hospitais públicos pertenciam a uma determinada classe, isto é, ao proletariado. Inclinamo-nos no sentido de levar adiante a transformação da medicina como transformação de luta do proletariado” (p. 78).

Franco Basaglia revolucionou a psiquiatria no século XX. Em 1961, no Hospital Psiquiátrico de Gorizia, e depois em 1977, no Hospital Psiquiátrico de Trieste, questionou a internação dos doentes, propondo o fechamento da instituição manicomial, o que aconteceu em 1978 na Itália com a Lei 180. Fez parte do Movimento da Psiquiatria Democrática: contra o modelo de exclusão, marginalização, opressão e repressão, uma rede de tratamento ambulatorial e de serviços: cooperativas de trabalho, residências terapêuticas, ateliês de arte e cultura. Marxista, critica a Psicanálise: “elemento de sustentação da burguesia, não um aparato repressivo” (p. 98); e a prática da Psiquiatria nos países do bloco soviético – nos gulags, campos de trabalho para prisioneiros políticos: “eu acho que, se somos militantes, devemos adentrar a lógica dessa falsa dialética” (p. 24). O livro “A instituição negada” reflete sobre a experiência no hospital de Gorizia.

Como interromper o ciclo perverso de internações? Com o atendimento ambulatorial e o apoio de um grupo multidisciplinar: médico, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional – e a participação em reuniões com o grupo de pacientes, familiares e a equipe de trabalho.

O texto estava pronto quando soube ontem, 28 de junho, da morte de Gabriel Roberto Figueiredo – que eu conheci em 1961. Mantive minha dedicatória e registro minha admiração pela sua história de vida: militância política marcada pela preocupação com os marginalizados pela loucura. Sinto por ele não conhecer minha pequena homenagem com essa resenha-crônica - e porque não teve tempo para escrever suas memórias, como era seu projeto.

NOTA

Três sugestões, que surgiram das visitas e do debate sobre as idéias do psiquiatra italiano no Brasil:

1. “Em nome da razão” (1980), filme-documentário de Helvécio Ratton;
2. “Nos porões da loucura”, Editora Codecri, Rio de Janeiro,1982 – reunião de uma série de
reportagens de Hiran Firmino para o jornal “O Estado de Minas”;
3. “Loucos pela vida – a reforma psiquiátrica no Brasil”, Paulo Amarante, Editora Fiocruz,
Rio de Janeiro, 2005.

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