quarta-feira, 27 de julho de 2016

“Oporaí - Guata Porã: Awaju Poty – o canto sagrado guarani”- João dos Reis



Para o professor Flavio de Leão Bastos Pereira

Rete ymã
Há’eguy Ay
Rete pytu
Há’eguy rendy
Rete wa’ekwe
Há’eguy wa’erã.

Canção "Rete" (Corpo) - Corpo / passado e presente / Corpo / Trevas e luz / Corpo / Que foi e que virá. – música de Awaju Poty e letra de Awaju Poty/Ricardo Petracca.

O músico e pesquisador João José de Félix Pereira (Awaju Poty em guarani) produziu em 2001 um disco com 13 canções, com a participação do Grupo Amba Wera; de 11 participantes – no canto, percussão, violão, violino, violoncelo, harpa guarani, rawé, takwapu, mbaraka guaxu; e do coral de 18 crianças, homens e mulheres da aldeia Araçai, de Piraquara, na região metropolitana de Curitiba. O projeto teve o apoio da Fundação Cultural de Curitiba, Siemens e Paraná Equipamentos.

Popo lju
Ara Owy
Opawaerã hey Porã
Ejapo / Waieme
Ñandekwerupe

Canção "Popo Yju" (Borboleta amarela) -Borboleta amarela / No céu azul / Não fazer mal / A ninguém / Infinita beleza) - letra e música de Awaju Poty.

Ma’ety jau’i waerã
Ma’ety Ñanderu rete porá
Amba ma’ety rupa
Ma’ety ñanderu rete porá

Canção "Ma'ety" (Plantação) - Plantação, alimento futuro / Plantação, corpo do nosso divino pai / Lugar de excelente plantio / Plantação corpo do nosso divino pai. - letra e música de Awaju Poty.

No Paraná existem 15 mil índios – guaranis, xetás e kaigangs – em 17 terras regularizadas; há um total de 37 terras indígenas. Segundo o censo do IBGE de 2010, 25.915 se declaram índios, mas muitos vivem nas cidades. Vindos do interior do Paraná, um grupo chegou à Piraquara em 1999 – a aldeia Araçaí está em uma área de preservação ambiental, doada pelo ambientalista Jorge Grando, da Associação Paranaense de Preservação do Rio Iguaçu e Serra do Mar. Construíram casas de madeira, tem posto de saúde e escola bilíngue. Procuram manter as tradições e costumes indígenas – cantos e danças com instrumentos antigos. Vivem do artesanato, de doações e do Bolsa Família do governo federal.

Ñamandu miri, toma, e katu
Jaguata’i hãguãre
Jaupity hãguã ñanderekoare
Jawy’ á guã

Canção "Ñamandu Miri" (Pequeno Deus Sol) - Pequeno Deus Sol sagrado / Olhe a nossa caminhada / Para que nós alcancemos a felicidade / na nossa morada eterna) - letra e música de Kwaray Potygua.

João José de Félix Pereira (Awaju Poty) é coordenador do curso de Composição Musical da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap); compositor, pianista; mestrado em Comunicação Semiótica pela PUC-SP em 1995; doutorado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo em 2000. “Mborayu –o espírito que nos une – um conceito da espiritualidade guarani” –está na internet: digitando o nome do pesquisador ou “Cultura guarani Ñandewa – Tese”. A dissertação de 1995 não foi publicada: “Mimby, a arte guarani de fazer e tocar flauta de bambu”.

“Certa vez, Kwarayju, falando pelo espírito do canto, disse: ‘O canto está em toda parte. Você pode pensar que o vento é que está produzindo este canto {ventava e as folhas das altas árvores faziam um farfalhar muito belo}, mas não, ele é apenas o sopro e as folhas são apenas o instrumento, o canto {som} é um ser {gente}. (...) Muitas vezes você pode pensar que está ouvindo o canto de um espírito, mas na verdade é o de uma legião. Outras vezes, o canto pode nos levar ao silêncio que é necessário para que possamos ouvir o trovão de Deus {opororo} que ilumina, chameja {overa}’”, Hwarayju Poty, Itatins, 1995, texto na capa do CD “Oporaí - Guata Porã – o canto sagrado guarani”.

O Plano de Integração Nacional de 1970, com uma política de ocupação dos territórios indígenas para projetos de colonização, levou à expulsão, remoção, desagregação social e extermínio de milhares de indíos. A busca dos guaranis por uma Terra Sem Males, sem a aflição da dor, do sofrimento, da morte continua ainda hoje.

NOTA

Sugestões de leitura - disponíveis gratuitamente na internet:

1. “O ritual do Kaá dos Mbyá-guarani da aldeia Araçaí de Piraquara, Paraná”, de Ubirajara Salles Zoccoli e Nelson Pereira Castanheira.

2. “Relação do grupo indígena guarani Mybiá com o meio ambiente: alicerces da agroecologia”, de Raoni Kriegel, Elísio Oliveira de Azevedo e Frederico Fonseca da Silva.

domingo, 24 de julho de 2016

"La cuca del hombre" (1984) e "Cantares" (2016), de Raul Ellwanger - João dos Reis



“Déjame al despertar tener la dicha / de hablar y compartir nuestros anhelos / y en la mañana verde que termina / volver a repetir que te quiero“. “Deixa-me ter a alegria de acordar / para conversar e partilhar as nossas esperanças. / E na manhã que termina verde / de repetir que eu te amo”. (versos da canção “Comienzo y final de una verde mañana”, de Pablo Milanés).

Em 2014, o gaúcho Raul Ellwanger veio do Sul com um presente, acompanhado pelo som da milonga e do vento minuano: o disco “La cuca del hombre” (1984). E trouxe de volta as lembranças da América Latina - com canções e participação de Mercedes Sosa, Léon Gieco, Peteco Carabajal, Osvaldo Fattoruso, entre outros artistas. É a retomada do músico dos tempos de rebelião e exílio – no Chile e Argentina.

Em “La cuca del hombre”, o músico-poeta, que voltava para o Brasil depois de quase dez anos, retoma os laços de amizade com os artistas latino-americanos. Há canções do argentino Léon Gieco, do cubano Pablo Milanés, Raul Porchetto, entre outros músicos.

“Cigana Tirana”, “Guri de América, “Lazo de sangre”, “Brazo de guitarra”, ”Hermanito de batalla” são algumas das 15 canções do disco de 1984, gravado em Buenos Aires. O cantor e compositor teve vários parceiros nas músicas e arranjos: Pery Souza, Jerônimo Jardim, Vicente Barreto, Nana Chaves, Washington Benevidez, Yabor, Mavy Díaz, Domingo Cura, Jorge Aragón, Nicolás Brizuela.

“Eu só peço a Deus / que a dor não me seja indiferente / que a morte não me encontre um dia / solitário sem ter feito o que queria. / Eu só peço a Deus / que a injustiça não me seja indiferente / pois não posso dar a outra face / se já fui maltratado brutalmente” (versos iniciais da canção “Só peço a Deus”, de Léon Gieco).

Raul Moura Ellwanger nasceu em Porto Alegre em 1947. Músico e compositor, foi estudante de Direito na PUC-RS. Participou de festivais de música nos anos 60. Militante do movimento estudantil e da Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares. Entrou para a clandestinidade; foi condenado pela Lei de Segurança Nacional; em 1970, parte para o exílio no Chile e, depois, na Argentina. Voltou para o Brasil em 1979. É uma ativista dos direitos humanos no Comitê Carlos de Ré de Verdade e Justiça do Rio Grande do Sul - e na Rede Brasil Memória, Verdade e Justiça. “Teimoso e vivo” (1979) é seu primeiro disco. Alguns outros: “Raul Ellwanger”(1980); “Gaudério” (1984); “Portuñol” (1985), “Boa maré” (2004). Tem mais de 200 canções, gravadas por intérpretes como Beth Carvalho, Mercedes Sosa, Renato Borghetti, Léon Gieco.

Há outras canções de outros discos de Raul que recordam os anos de resistência à ditadura militar. É o músico-militante que recorda os companheiros presos, torturados, mortos e “desaparecidos”: “Pequeno exilado”, de 1980, um dueto com Elis Regina; e “Canção do desaparecido”: “Só queria tocar tua mão / ver teu sorriso enfim / sentir passos na escuridão / os teus braços voltando para mim”.

Em 2016, Raul comemora 50 anos de carreira, com o lançamento de um disco,“Cantares”; e também um songbook, “Nas telas do violão – crônicas, letras e partituras” (Porto Alegre, 2016, 256 pp) – os dois são produções independentes do autor-compositor. No livro há partituras e letras de 71 músicas, acompanhadas de histórias das canções, discografia e memórias do compositor.

Em “Cantares”, o 13º disco de Raul, há 14 canções inéditas ou em parcerias – e foi gravado em Barcelona, Havana, Montevidéu e Porto Alegre; seis canções são em espanhol e uma em catalão. Os convidados nas parcerias, vozes e instrumentos: os uruguaios Eduardo Darnauchans e Washington Benevidez, a argentina Cecília Pahl, o catalão Toti Soler, e os brasileiros Fausto Prado, Everson Vargas, Luiz Jakka, Paulinho Loew, Pery Souza, Leandro Nunes, Carlo Trein, Daniel Wolff, Joca Przycinski.

“Gosto de falar que ‘Cantares’ é um disco de quem ama canções, de quem gosta de violão, gosta de estar junto e tocar, gosta de ‘mostrar’ a música recém feita: é um disco de violeiros! Com a simples juntada de parceiros, de letra e música, de levadas de ritmos, com a roda de viola rodando, vai-se compondo um buquê de poesia e emoção, na base do prazer, de aprender novas manhas, de desafiar os mistérios da criação” (artigo de Raul Ellwanger para o portal “Sul 21”, 2 de maio de 2016).

A aliança entre a música e a poesia é uma das mais emocionantes experiências estéticas. O cantor-compositor, em parceria com muitos outros artistas – letristas, arranjadores, instrumentistas, iluminadores – nos oferece a contemplação da beleza: no rádio ou em praça pública, nos bares ou nas salas de espetáculos. E nos salvam dos infortúnios do cotidiano com a promessa de uma vida mais bela.

NOTA

1. O portal Sul21 publica as crônicas de Raul.
2. As músicas e as letras de 71 músicas estão no songbook e também no Youtube (digitar: “Raul Ellwanger Cantares”).
2. Os pedidos do CD “Cantares” e o livro “Nas velas do violão” podem ser pedidos pelo e-mail:
palavraria@palavraria.com.br

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Anotações/reflexões sobre as conferências de Franco Basaglia no Brasil - João dos Reis



Para Gabriel Roberto Figueiredo

“Quando rejeitamos a lógica do manicômio como lógica repressiva e destrutiva do doente, estamos mudando a vida básica do doente; damos a ele uma situação de vida normal, isto é, comer, dormir, beber, e de maneira correta, não uma vida de prisão, campo de concentração ou de trabalho forçado. Damos e criamos um homem que possa se relacionar com outros homens. (...) O médico é aquele que dá medicamentos, mas sobretudo é uma pessoa que deve ter uma relação alternativa com o doente, dando-lhe um sentido na vida. É fundamental o sentido político da nossa ação, além da divisão do trabalho entre técnica e política” (p. 64).

Franco Basaglia (1924-1980) esteve no final dos anos 70, realizou uma série de conferências – que foram publicadas em “Franco Basaglia – a Psiquiatria alternativa – contra o pessimismo da razão, o otimismo da prática – Conferências no Brasil” (Editora Brasil Debates, São Paulo, 1980, 158 pp). O convite para vir ao Brasil partiu de um grupo de médicos que promovia o debate sobre as experiências de uma nova psiquiatria realizadas pelo psiquiatra na Itália.

Um dos anfitriões na visita ao Brasil foi o psiquiatra Gabriel Roberto Figueiredo. Liderança do movimento estudantil em Osasco, e preso político em 1964, foi um dos fundadores do grupo Instituto de Psiquiatria Social em Diadema nos anos 70. Esteve em 1978 na Itália para conhecer a experiência de Basaglia. Mais tarde, em 1982, foi secretário de Saúde da cidade – e criou uma política de inserção social e de recuperação, evitando as internações por longos períodos. Vive em Campinas e trabalha na PUC da cidade.

“... Tanto a medicina como o médico propõem, dentro do contexto da doença, a mesma lógica de proposta de violência ou de opressão que já existe na vida cotidiana. Que diferença existe entre os direitos dentro de um hospital psiquiátrico ou dentro de uma fábrica? Nenhuma. Todos dois têm uma cadeia de montagem. Nós não queremos a cadeia de montagem. (...) A medicina e a psiquiatria são fontes de opressão e são um meio utilizado pelo poder civil na violência contra os homens” (p. 53).

Eu conhecia o movimento da anti-psiquiatria pelo livro de Ronald D.Laing, “A política da experiência e a ave-do-paraíso” (Editora Vozes, Rio de Janeiro, 1974). Selecionei um trecho do livro para debate em sala de aula na disciplina Cultura Contemporânea no curso colegial em Caraguatatuba em 1975. Somente em 1980 fui conhecer as ideias revolucionárias de Basaglia.

“Quando o psiquiatra entra no manicômio encontra uma sociedade bem definida: de um lado, os loucos pobres; de outro, os ricos, a classe dominante com os meios para tratar os pobres doentes loucos. Sob esse prisma, como podemos pensar que a psiquiatria pode ser libertadora? O psiquiatra estará sempre numa posição privilegiada de dominante frente ao seu doente. (...) A psiquiatria é uma técnica altamente repressiva que o Estado sempre usou para oprimir os doentes pobres, isto é, a classe operária que não produz” (p. 14).

Eu conheci durante muitos anos a realidade dos hospitais psiquiátricos em São Paulo – visitando um parente. Sempre me horrorizou a receita para a cura do doente mental: por eletrochoques, insulina, neurocirurgia. A imagem mais degradante foi a visita à ala dos despossuídos de qualquer dignidade em um hospital de Bauru: permaneciam nus em um amplo salão. Não esqueci a ‘explicação” que me foi dada: eles recusavam qualquer peça do vestuário.

“A cura que os médicos e psiquiatras propõem para o doente mental não pode ser outra coisa senão uma proposta alienante e com a finalidade única de remeter o doente ao círculo produtivo, isto é, tomar o doente como mercadoria e traduzi-lo mais uma vez como mercadoria. Parece evidente, penso eu, que esse tratamento que vem sendo efetuado não deixa à pessoa a possibilidade de se expressar subjetivamente. A relação entre o médico e o doente é uma relação de domínio e poder, e é difícil sair dessa contradição” (p. 94).

Há um desconhecimento de todos sobre a esquizofrenia; preferem ignorar a loucura e isolar o louco. Eu preocupava-me, não apenas com a tratamento com psicofármacos: não havia uma terapia que mantivesse a sociabilidade e a subjetividade do paciente?

“Certamente uma das terapias mais importantes para combater a loucura é a liberdade. Quando um homem é livre tem a posse de si mesmo, tem a posse da própria vida, e, então, é mais fácil combater a loucura. Quando eu falo em liberdade, falo de liberdade para a pessoa trabalhar, ganhar e viver, e isto já é uma luta contra a loucura. Quando há a possibilidade de se relacionar com os outros, livremente, isso torna-se uma luta contra a loucura” (p. 72).

Foi uma descoberta para mim: a proposta de uma medicina que combatia a repressão à classe trabalhadora – nas fábricas, nos hospitais, na vida cotidiana. Nas idas ao hospital nos finais de semana via clima de pobreza, opressão e desespero daqueles que não tinham familares ou amigos para visitá-los.

“Os sindicatos e os partidos de esquerda representam a organização do povo oprimido. Os doentes internados em manicômios ou em hospitais públicos pertenciam a uma determinada classe, isto é, ao proletariado. Inclinamo-nos no sentido de levar adiante a transformação da medicina como transformação de luta do proletariado” (p. 78).

Franco Basaglia revolucionou a psiquiatria no século XX. Em 1961, no Hospital Psiquiátrico de Gorizia, e depois em 1977, no Hospital Psiquiátrico de Trieste, questionou a internação dos doentes, propondo o fechamento da instituição manicomial, o que aconteceu em 1978 na Itália com a Lei 180. Fez parte do Movimento da Psiquiatria Democrática: contra o modelo de exclusão, marginalização, opressão e repressão, uma rede de tratamento ambulatorial e de serviços: cooperativas de trabalho, residências terapêuticas, ateliês de arte e cultura. Marxista, critica a Psicanálise: “elemento de sustentação da burguesia, não um aparato repressivo” (p. 98); e a prática da Psiquiatria nos países do bloco soviético – nos gulags, campos de trabalho para prisioneiros políticos: “eu acho que, se somos militantes, devemos adentrar a lógica dessa falsa dialética” (p. 24). O livro “A instituição negada” reflete sobre a experiência no hospital de Gorizia.

Como interromper o ciclo perverso de internações? Com o atendimento ambulatorial e o apoio de um grupo multidisciplinar: médico, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional – e a participação em reuniões com o grupo de pacientes, familiares e a equipe de trabalho.

O texto estava pronto quando soube ontem, 28 de junho, da morte de Gabriel Roberto Figueiredo – que eu conheci em 1961. Mantive minha dedicatória e registro minha admiração pela sua história de vida: militância política marcada pela preocupação com os marginalizados pela loucura. Sinto por ele não conhecer minha pequena homenagem com essa resenha-crônica - e porque não teve tempo para escrever suas memórias, como era seu projeto.

NOTA

Três sugestões, que surgiram das visitas e do debate sobre as idéias do psiquiatra italiano no Brasil:

1. “Em nome da razão” (1980), filme-documentário de Helvécio Ratton;
2. “Nos porões da loucura”, Editora Codecri, Rio de Janeiro,1982 – reunião de uma série de
reportagens de Hiran Firmino para o jornal “O Estado de Minas”;
3. “Loucos pela vida – a reforma psiquiátrica no Brasil”, Paulo Amarante, Editora Fiocruz,
Rio de Janeiro, 2005.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Um livro: “Diário de um professor – um ano em Pietralata”, de Albino Bernardini – e recordações de um professor de Filosofia em Caraguatatuba - João dos Reis



Para a professora Antonia Carlota Gomes, com a minha gratidão

Pietralata, na periferia de Roma, é habitada por emigrados do Sul da Itália –“ pastores, camponeses, trabalhadores, mineiros, artífices, obrigados a transformar-se em serventes”. No bairro proletário o sardo Albino Bernardini (1917-2015) foi professor da 3ª série do ensino fundamental no inicio dos anos 60 – e narra sua experiência educacional em “Diário de um professor – um ano em Pietralata”, publicado em 1968 pela Nuova Itália Editrice, de Florença, e traduzido por Antonio Pinto Ribeiro para a Editorial Notícias, de Lisboa, em 1977.

O professor fez parte do “Movimento de Cooperação Educativa”, inspirado nas ideias do educador Célestin Freinet (1896-1966). Foi somente em 1979 que li o livro, mas antes realizei várias das propostas pedagógicas nos anos em que trabalhei na Escola Estadual “Thomaz Ribeiro de Lima”, em Caraguatatuba, como professor de Filosofia e, com a proibição da disciplina no currículo escolar, de outras disciplinas. Há uma diferença significativa: ele teve uma classe de 12 alunos em um ano letivo. Eu tive centenas de alunos em diferentes turmas do curso ginasial e colegial durante oito anos; fui também Orientador de Educação Moral e Cívica, um cargo de confiança da direção da escola - e desenvolvi um trabalho que eu chamo de “assessoria para assuntos comunitários”.

A primeira descoberta foi a importância das reuniões com os pais dos alunos. Antes do inicio do ano letivo, o professor reuniu os pais; eu realizei inúmeras reuniões com os alunos-representantes de classe, com a liderança do grêmio (“centro cívico escolar”), com os pais. Contra o “desprezo e discriminação, o conformismo desencorajador e mesquinho egoísmo” dos colegas do corpo docente, Bernardini estabeleceu relações de solidariedade com os pais e com os estudantes: “As crianças estavam diante de mim com os seus rostos assustados, as roupas esfarrapadas, os cabelos desgrenhados, na expectativa da minha palavra...” (p. 81).

Quais as estratégias para colocar em prática suas ideias para uma nova educação? Ouvir sempre – essa era a proposta principal do seu projeto. “Prefiro ouvir para depois intervir, dosando e orientando a discussão” (p. 156-7). “Levávamos para a aula todos os fatos da vida para criticá-los, condená-los ou comentá-los”. As contínuas trocas com o exterior, com a família, os amigos, a rua ou o lugar que frequentavam era o ponto de partida para a reflexão sobre os problemas de cada um, da vida em família, do bairro (p. 165).

A escola não deveria ficar restrita às quatro paredes da sala de aula. O professor visitava os pais dos seus alunos, percorria as ruas de Pietralata – e com os alunos, recolhia material para trabalho escolar: plantas, insetos, argila. Organizou uma excursão ao rio Aniene; e como não conseguiu autorização para uma visita a uma fábrica, trouxe um operário para explicar aos alunos o processo de fabricação do papel.

Eu realizei algumas saídas da escola com os alunos em Caraguatatuba: base de pesquisa do Instituto Ocenográfico da USP em Ubatuba, acampamento na Praia Dura, exposição no CTA (Centro Tecnológico Aeroespacial) em São José dos Campos. Pedi a eles muitas vezes, como uma atividade escolar, que realizassem entrevistas com autoridades da cidade: prefeito, promotor, presidente de Câmara Municipal. Nas comemorações cívicas, sempre convidava um representante da comunidade para fazer uma pequena palestra para os alunos, depois do hasteamento da bandeira e canto do Hino Nacional.

Como enfrentar o problema da indisciplina na sala de aula e na escola? O professor italiano organizou a classe em grupos, distribuindo tarefas e responsabilidades. Eu também propus sempre o trabalho em grupo; realizava no inicio do ano letivo eleição dos representantes das 24 turmas, divididas nos períodos manhã, tarde e noite – e atribuía pequenas atividades: cuidar da biblioteca, o jornal mural, o jornal dos estudantes. E participei e incentivei a participação dos pais nas reuniões bimestrais e na Associação de Pais e Mestres da escola.

Suspender um aluno, encaminhá-lo à direção da escola sempre foi uma maneira radical de resolver o conflito em sala de aula. Para o professor Albino Bernardini, a escola dever ser “um centro de vida em que se aprende não apenas a ‘técnica’ da leitura e da escrita, mas também o respeito pelos outros e pelas coisas, o sentido da tolerância, e sobretudo pretende desenvolver a concepção de vida como luta para progredir e melhorar a si próprio e aos outros” (p. 147).

Fui estudar as diferentes teorias educacionais quando fui professor de História e Filosofia da Educação no curso do magistério em Osasco no final dos anos 80. O que orientou a minha ação pedagógica na escola caiçara do Litoral Norte paulista? O sentimento da amizade e do amor devia assinalar o inicio do ano letivo, diz o professor sardo. “Não só o amor ao estudo e às coisas, mas principalmente o amor dos companheiros, da sociedade, da escola e do professor, através de um modo de viver feito não de discursos e de palavras, mas de ação responsável...” (p. 171).

O professor italiano pedia para os seus alunos de Pietralata escreverem textos e poemas. As poesias, as redações escritas pelos alunos, os relatórios dos trabalhos escolares “testemunhavam uma inequívoca vontade de melhorar, de progredir, de superar aquela condição a que eram obrigados por uma sociedade injusta que nada lhes tinha dada a não ser amarguras, humilhações, desalento” (p.212). Eu realizei durante alguns anos um concurso de poesia – e divulgava poemas no jornal mural da escola. Havia poucas classes do colegial e, portanto, poucas aulas de Filosofia; lecionei diversas disciplinas, mas principalmente Educação Moral e Cívica – e sempre trabalhei com leitura e debate de textos de jornal em sala de aula.

O professor Bernardini foi transferido da escola de Pietralata no ano seguinte. Quando voltou dois anos depois, alguns alunos tinham ido para a escola de ensino médio, outros continuavam o processo de repetição e de evasão escolar por participarem do mundo do trabalho. Encontrou alguns deles, e ele diz que a amizade e o companheirismo permaneceram. Eu parti de Caraguatatuba em 1980 e nunca mais voltei à cidade - e as lembranças dos meus alunos caiçaras se perdem aos poucos no tempo.

NOTA

1. O filme “Diário di un maestro” (1972, 65 minutos, em italiano), de Vittorio De Setta, é baseado no livro de Bernardini. Está no Youtube; não há legendas em português.

2. O grêmio livre na escola se tornou “centro cívico escolar” no período da ditadura militar. Uma das atribuições do Orientador de Educação Moral e Cívica era “orientar” a participação política dos estudantes. Eu fui esse “orientador” em Caraguatatuba durante oito anos.

3. Não encontro as palavras para dizer como sou grato a Antonia Carlota Gomes, diretora-coordenadora da Escola Estadual “Thomaz Ribeiro de Lima”, em Caraguatatuba, pela amizade solidária, pelo apoio e orientação ao meu trabalho em sala de aula e com a comunidade escolar nos anos 1973-1980. A ela dedico essa resenha-crônica, que não a lerá – faleceu em 1987.