quinta-feira, 5 de maio de 2016

Um sonho dos italianos de Osasco: a cooperativa dos vidreiros - João dos Reis




Para Cibele Moreira Giacone, com a minha gratidão

“O programa {do sindicato operário} não se limita ao aumento do salário e à diminuição das horas de trabalho (...), mas reforça e estende o sentimento de solidariedade entre todas as categorias de trabalhadores. Ele representa a união dos produtores explorados: seu fim é, portanto, a reivindicação para eles da terra, dos instrumentos de trabalho e da riqueza social com o meio da ação direta e da greve geral expropriadora. Organização da batalha hoje (...) será amanhã o elemento chave para a gestão da sociedade igualitária e comunista, a qual os trabalhadores aspiram” – Edmondo Rossoni, “Sindicalismo e sindicalisti”, jornal “La Fanfulla”, São Paulo,01/05/1909, p. 2.

Em 9 de setembro de 1909 os operários da Vidraria Santa Marina iniciaram a greve - e um dos lideres era o professor e militante sindicalista Edmondo Rossoni. O movimento começou com a paralisação das 130 crianças da fábrica. A reivindicação inicial: aumento de salário. Depois, com a repressão policial, houve a adesão dos outros quinhentos operários – e exigiam também a demissão do gerente. A história está no livro da historiadora Helena Pignatari Werner, “Raízes do movimento operário em Osasco” (Cortez Editora, São Paulo, 1981, 152 pp).

Os vidreiros italianos e franceses foram contratados para trabalhar na empresa de vidro – os principais acionistas pertenciam à aristocracia cafeeira. No Brasil, ainda dominavam as relações de trabalho sem a garantia dos direitos do trabalhador. Os vidreiros-imigrantes que vieram para São Paulo estavam protegidos pelas leis francesas. Algumas cláusulas do contrato: direito à moradia para as famílias e a vinda de um professor para os seus filhos – e Edmondo Rossoni era um dos mestres da escola dos vidreiros.

Em 1909, a surpresa para os patrões foi o início da paralisação lideradas pelas crianças-trabalhadoras. A Comissão da Greve pregou um boicote dos consumidores das garrafas produzidas na fábrica. Segundo o “Correio Paulistano” de 15 de setembro, porta voz dos capitalistas, “trata-se realmente de desordeiros, se não anarquistas, que se divertem a fazer passeatas com bandeiras vermelhas” (citação do jornal na página 39 do livro da professora Helena).

Com o fim da greve em 21 de setembro, 40 grevistas foram demitidos, identificados como líderes da greve , e tiveram que desocupar as casas. Alguns trabalhadores acamparam em um terreno próximo à fábrica, outras tentaram o repatriamento; e um grupo foi para Osasco, onde viviam famílias de italianos. E trouxeram o projeto de criar uma cooperativa de vidreiros. O prédio foi construído na Rua da Estação com trabalho voluntário e contribuições dos sindicatos dos trabalhadores de São Paulo.

O advogado, contratado para preparar a documentação e as finanças do novo empreendimento, revelou-se um traidor: fugiu com o dinheiro. A construção do forno para a fábrica não chegou a ser realizada. A estrutura do prédio existiu durante décadas – e foi demolida em 1968 por Luiz Eduardo Vidigal, proprietário da fábrica Cobrasma.

Edmondo Rossoni foi um militante socialista e do movimento sindical na Itália. Veio para São Paulo em março de 1909; foi conferencista da Federação Operária e jornalista do “Lotta proletaria”; depois de ser preso duas vezes, foi expulso do Brasil em novembro desse ano. No ano seguinte, foi para os EUA, e em 1913 voltou para a Itália. Foi Ministro da Agricultura e Secretário Geral das Confederações dos Sindicatos de Mussolini. Em 1945, foi julgado e condenado pela participação no governo fascista. Faleceu em 1965.

E os grevistas que vieram para Osasco? Em 1980, havia duas sobreviventes: as irmãs Enedina Rossetti (93 anos) e Matilde Rossetti Fabri (83 anos), de uma das famílias de vidreiros da Vidraria Santa Marina - que gravaram um depoimento em julho de 1979 para a autora do livro, e que está em um dos anexos de 62 páginas. A História não conseguiu o registro dos outros personagens, seus companheiros na greve de 1909.

NOTA
Consultei também dois artigos, disponíveis na internet, sobre os vidreiros, a cooperativa e Edmondo Rossoni:

1) “A greve da Vidraria Santa Marina e a Cooperativa dos vidreiros em Osasco”, de Ana Lucia Rodrigues da Luz e Maria Cecília Martinez, publicação do Centro Universitário da FIEO, Osasco. Ficam algumas perguntas: entre os vidreiros havia socialistas, como Edmondo Rossoni? Qual a participação deles no movimento sindical de São Paulo? A cooperativa teria uma administração colegiada? Haveria participação dos empresários interessados em quebrar o monopólio da Vidraria Santa Marina?

2) “Imigração, sindicalismo revolucionário e fascismo na trajetória do militante italiano Edmondo Rossoni”, de Edilene Toledo, Unicamp, Cadernos Arquivo Edgar Leuenroth, vol. 15, nº 27, 2009. Artigo sobre a militância do líder revolucionário na Itália, no Brasil e nos EUA, e que aderiu ao fascismo de Mussolini.

3) A citação de Rossoni do jornal “La Fanfulla” no inicio do meu texto está no artigo de EdileneToledo (pp. 135-6).

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