sexta-feira, 13 de maio de 2016

LIVRO: uma releitura de “Pai patrão – a educação de um pastor de ovelhas”, de Gavino Ledda - João dos Reis




Para Janete, Celso e Juan, de Belo Campo, Bahia

Daghi inasprid’ su dolore
fiores chisco in totue
ammenténdemi chi tue
lis dedicas tantu amore
gioia! In dogni fuire
mi pared’ de di mirare
appo dispóstu a passare
ristas sas dies pro de!
canto popular sardo.

Gavino tinha seis anos e foi retirado da escola de Síligo pelo pai depois de algumas semanas. Foi trabalhar como pastor de ovelhas no campo. Até aos vinte anos, foi também lavrador. Esta seria uma história comum da criança da Sardenha se não fosse a obstinada vontade do aldeão de se alfabetizar, de estudar.

Foi a lembrança que permaneceu da leitura da autobiografia há quase quarenta anos: o livro me espreitava na estante, com suas imagens de desespero do jovem que sonhava em participar do mundo da cultura. “Pai patrão – a educação de um pastor de ovelhas”, de Gavino Ledda, tradução de Marchela Mortara, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1979, 184 pp., foi publicado na Itália em 1975, e depois, foi filmado pelos diretores Paolo e Vittorio Taviani em 1977.

Em Braddesvustana (Vallefrondosa), a propriedade familiar, teve a educação pastoril: reconhecer o terreno, a posição dos carvalhos e espinheiros, dos rochedos e arbustos, os acidentes do solo. E enfrentar o medo: “Estava aterrorizado com a ideia de ficar sozinho naquele mato cheio de coisas e de animais... E a solidão era um silêncio interminável: escutá-lo atordoava minha existência” (p. 16).

Tinha a companhia das ovelhas, das cobras, gaviões e raposas. Às vezes, tio Juanne vinha recolher lenha – e as histórias dos antepassados que ele contava incendiava a imaginação do pequeno pastor. Como vencer o pavor da solidão? O próprio medo do silêncio inspirava os gritos e assobios – e então vencer o terror provocado por aquele silêncio em sua interminável monotonia (p. 36). Ou falando com as pedras e as árvores.

O discurso da natureza eram os únicos sons que ouvia: o latido de um cão, os golpes de um machado a cortar lenha, o zurro de um jumento ou os balidos das ovelhas, o vento, o trovão, o canto dos pássaros. A aceitação desse novo mundo foi a grande descoberta: “A linguagem íntima entre mim e a natureza que, no fundo, era a linguagem do silêncio, tornara-se natural e familiar, como se a realidade fosse o silêncio e as coisas fossem suas palavras” (p. 40-1).

A relação com o pai foi marcada por uma severidade extrema – com tapas, surras, espancamentos – e a ausência de demonstração de afeto. Era a educação patriarcal: os filhos deveriam tornar-se homens produtivos antes do tempo. As últimas páginas do livro são dramáticas: é o acerto de contas do jovem intelectual com o seu pai.

A narrativa mais trágica foi a descrição da partida dos que emigravam, frequente a partir de 1955. A população da aldeia se reunia na praça com a dor dos funerais. “Choros, gritos e lamentações vindos de idades e de sentimentos diversos elevavam-se de toda parte sobre sua miséria: sobre a inocência desses jovens condenados a procurar refúgio em terras desconhecidas, ignorando o que seria seu futuro, sem saber como deveriam renascer em países nunca vistos, que mal podiam imaginar” (p. 120).

Gavino confessa: emigrar era uma obsessão, não se conformava com a ideia de ser pastor e camponês a vida toda. A tentativa de partir para a Holanda foi frustrada. A escolha foi entrar para o Exército – onde poderia finalmente estudar. A despedida do campo onde vivera a infância e a adolescência foi “num silêncio cheio de emoção”: “fotografar com os olhos as árvores, as pedras, os despenhadeiros”, “procurando gravá-los em meu espírito”, “guardá-los em minha memória como se eu não devesse revê-los nunca mais” (pp.139-40).

O aprendizado da língua italiana, escrever, ler e falar foram momentos de angústia para o jovem sardo. Para terminar o curso ginasial e colegial, contou com a ajuda desinteressada e inestimável de novos amigos, entre eles, Toti, Rodolfo e Ottavio Gentileschi – a quem acho que o livro (ou o filme) deveria ser dedicado.

Gavino Ledda nasceu em 1938. Em 1958 alista-se como voluntário para o serviço militar, mas desiste da nova carreira em 1962. Licenciou-se em 1969 em Linguística pela Universidade La Sapienza de Roma.

A releitura do livro trouxe para mim antigas recordações. Conversas com minha avó Elisa sobre a emigração, o pastoreio de ovelhas nas montanhas do Norte de Portugal, os invernos rigorosos. E, principalmente, a felicidade dela em ser alfabetizada. Duas lembranças ainda presentes: o cobertor artesanal de lã - que usei da infância até à idade adulta - enviado pelos parentes portugueses de Trás os Montes. E o amigo Felis, tia Isaura e meus dois avôs, José e Marcelino Matheus: eu os observava - calados, introspectivos - e procurava compreender a linguagem do silêncio.

NOTA

1. Tradução de Marchela Mortada da canção em dialeto sardo, cantada pelo pastor Nicolau, vizinho de Gavino em Braddevrustana (p. 58):

Quando a dor se exarceba
procuro flores por toda a parte
lembrando-me que tu
lhe dedicas tanto amor
meu bem! Em cada flor
parece-me encontrar-te:
preparei-me para passar
tristes dias por ti!

Um comentário:

  1. O João nos emociona com suas reflexões sobre os textos abordados e também com as narrativas do que viveu e assistiu no decorrer da sua vida. Considero um presente o envio dos textos dele para mim. Obrigada João, muito obrigada mesmo.

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