sexta-feira, 20 de maio de 2016

Duas canções com Vânia Bastos e uma recordação: Raquel de Azevedo ou Canto de amor e desesperança à cidade de São Paulo - João dos Reis




Estive no final dos anos 90 em um show da cantora Vânia Bastos no Centro Cultural São Paulo; depois, revi a artista em um outro espetáculo no Sesc Pinheiros em 2007. Foram dois momentos marcados pela magia da palavra e da música.

Duas canções com Vânia Bastos:

1. “Cidade oculta”, de Arrigo Barnabé, Eduardo Gudin e Roberto Riberti:

Na cidade só chovia
Noite imensa, só havia
Luminosos, agonia
E a vida escorria
Pela escuridão
Nossas ruas eram frias
Como os homens desses dias
Engrenagens tão sombrias
Esquecidas pelos deuses
A pulsar em vão
Misteriosamente um andróide
Gritou docemente
Me mostrou a vida
Me encheu de cores
Desenhando um holograma em meu coração
Com seus olhos foi pintando um dia.
Reinventando a alegria
Brancas nuvens de verão
E a poesia de repente
Volta a ter razão.

2. “Paulista”, de Eduardo Gudin e J.C.Costa Netto:

Na Paulista os faróis já vão abrir
E um milhão de estrelas prontas pra invadir
Os Jardins
Onde a gente aqueceu numa paixão
Manhãs frias de abril
Se a Avenida exilou seus casarões
Quem reconstruiria nossas ilusões
Me lembrei
De contar pra você nessa canção
Que o amor conseguiu
Você sabe quantas noites eu te procurei
Nessas ruas onde andei
Conta onde passeia hoje esse seu olhar
Quantas fronteiras ele já cruzou
No mundo inteiro de uma só cidade
Se os seus sonhos emigraram sem deixar
Nem pedra sobre pedra pra poder contar.
Dou razão
É difícil hospedar no coração
Sentimentos assim.


Vânia Bastos nasceu em 1956 em Ourinhos, SP; em 1975 mudou-se para São Paulo. Começou a carreira participando nos anos 80 do movimento Vanguarda Paulista – que apresentou uma nova estética musical. Foi solista em “Clara crocodilo” e “Tubarões voadores”, de Arrigo Barnabé. Cantou na banda de Itamar Assumpção, “Isca de polícia”. As duas canções, “Cidade oculta” e “Paulista” estão no CD de 2007, “Tocar na banda”, uma comemoração da carreira da artista.

As canções reviveram as lembranças das minhas idas e vindas para a cidade de São Paulo: vindo do interior, depois para o Litoral Norte, voltando para Osasco, partindo para Curitiba, retornando à região metropolitana. E a tentativa sempre angustiada de compreender a metrópole. Tive nos quinze últimos anos do século passado a companhia de Raquel: aos cinemas da região da Avenida Paulista, ao Bar Longchamps na rua Augusta, às passeatas das greves dos professores da rede pública estadual, aos atos de protestos, à comemoração dos 70 anos da Semana de Arte Moderna de 22 no Teatro Municipal. Para onde foram nossos sonhos de uma sociedade socialista, de um novo mundo com igualdade e justiça?

Raquel de Azevedo nasceu na capital paulista; cursou Filosofia e História na Universidade de São Paulo. Foi professora de Filosofia em escola pública estadual. O livro “A resistência anarquista – uma questão de identidade – 1927-1937” (Arquivo do Estado/Imprensa Oficial do Estado, São Paulo, 2001, 466 pp) é a tese de Mestrado na USP; não terminou o doutorado na Unicamp. Suicidou-se no ano 2000.

No primeiro show, nos anos 90, estava acompanhado de Raquel; no segundo, estava sozinho, sob o peso de imagens brilhantes, de recordações tristes - e de saudades.

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