quinta-feira, 28 de abril de 2016

Teresa Maria Carini (1863-1951): uma releitura de “Teresina e seus amigos” - João dos Reis



“Não sou operária, e mesmo que fosse não poderia fazer parte da Liga, pois desgradaçamente as mulheres são excluídas dela; mas sempre fui e permaneci simpatizante do movimento operário, sempre que este represente, como no caso, o início de uma luta civil que os operários combatem no mundo inteiro pelo direito à existência” – Trecho da mensagem enviada por Teresina à Liga Operária Internacional de Poços de Caldas em 11 de novembro de 1915.

Em São Paulo, no fim do século 19 e início do Novecentos, a presença de revolucionários - socialistas, sindicalistas, anarquistas - agitou a vida cultural e política da cidade. Fundaram jornais, grupos teatrais, realizaram conferências, recitais de poesia, concertos, participaram de greves. Era o tempo em que se acreditava “na capacidade revolucionária (transformadora e humanizadora) do saber e da arte” (p. 47-48), escreve Antonio Candido em “Teresina e seus amigos”.

O professor descreve Teresina, como era conhecida, uma militante italiana que chegou ao Brasil em 1890, e a partir de 1895, viveu em São Paulo, e depois, em Poços de Caldas: “Uma personalidade extraordinária, cheia de inquietude, ardor e bravura, fremindo de inteligência e generosidade”(p. 25). O critico de literatura reconhece que ela “não foi grande militante nem marcou o seu tempo” como seus companheiros de luta, mas que ela “foi excepcional pela maneira por que vivia em cada instante as suas idéias, sentindo e praticando em relação ao próximo a fraternidade igualitária que elas pressupõem...” (p. 28).

O escritor pergunta: “o que é ser socialista?” E responde que, além do pensar e do agir, a ação e a prática política, “devem existir também os sentimentos e a ética de um socialista”. É a afirmação mais afetiva que faz da militante que conheceu em Poços da Caldas, onde passou a infância e parte da juventude, e de onde saiu com 18 anos para estudar na capital paulista. Como ele explica a militância política de Teresina? Uma anarco-socialista, declaradamente antifascista, e depois de 1917, uma entusiasta da Revolução soviética.

E quem eram os amigos de Teresina? Antonio Candido conheceu alguns deles na casa dela: Adelino Tavares de Pinho e Edgard Leuenroth. E cita outros nomes: Enrico Ferri, Gugliemo Ferrero, Alcibiade Bertolatti, Antonio Piccarolo, Alceste de Ambris e Edmondo Rossoni - que foram atuantes na cidade de São Paulo – e apresenta uma breve biografia de cada um. A participação política deles é conhecida, estão na imprensa operária do início do século e em livros. “L’amicizia è il vincolo più puro che può unire due esseri umani”, escreveu Piccarolo no álbum da amiga (p. 46). E aonde está a correspondência dela com esses seus amigos?

O crítico literário é mais revelador em “A militância por dever de consciência” (entrevista para a Revista “Teoria e Debate” de 01 de março de 1988): reconhece que Teresina lhe “transmitiu sobretudo a afetividade socialista, que acho fundamental”. E que foi com ela que aprendeu os cantos e hinos revolucionários: “A Internacional”,”Inno dei lavoratori”, “Fratelli del popolo”, “Bandiera rossa”, “Guerra alla guerra”.

No livro, ele conta que Teresina jantava na casa dele às quintas feiras; a mãe dele sempre a visitava e, quando ficou doente, ficou ao seu lado até morrer. De que vivia em Poços de Caldas? O autor diz que ela ensinava francês, italiano e tricô. Ela foi casada com o violoncelista Guido Rocchi; o casal se separou em 1910, e depois ela esteve sempre sozinha - não tiveram filhos, e os seus dois irmãos e sobrinhos permaneceram na Itália.

Como ela conseguiu vencer a solidão em uma pequena cidade prov? Talvez porque não perdeu o contato com os seus amigos-militantes, e também manteve sempre a leitura dos clássicos da literatura e da política. Dois ou três anos de morrer, “decaiu um pouco. Embora lúcida, perdeu alguma coisa da atenção e da sequiosa curiosidade, desiludida e talvez desnorteada pelos acontecimentos que lhe pareciam difíceis de entender...” (p. 41). Ela escreveu em um caderno, em 31 de dezembro de 1949: “Velha, só, doente e pobre, apeio de mais um ano, sem saber se será, finalmente, o último ano da minha vida! Comigo morrerão todos os sonhos de uma sociedade melhor, de uma humanidade melhor...” (p. 42-3).

Antonio Candido trouxe para a História uma personagem que nunca seria lembrada se ele não a tivesse conhecido e convivido com ela. Reli o livro recentemente e pensei: falta ainda, depois de tantos anos da publicação dessa pequena biografia, retomar as anotações que ela deixou em cadernos, as fotografias, as cartas dos amigos.

NOTA

1. citação de Teresina na abertura do texto está na página 35 do livro de Antonio Candido.

2. O artigo sobre Teresina saiu em jornal em 1959, e depois republicado em livro em 1959. “Teresina e seus amigos” é um texto ampliado - e está no livro “Teresina etc”, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1980, 174 pp; há outros seis artigos nesse livro.

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