domingo, 17 de abril de 2016

Imigrantes italianos em São Paulo: a família Negrini - João dos Reis



7 de abr (Há 10 dias)



Para tia Lourdes dos Reis

Italia bella, mostrati gentile
i figli tuoi non li abbandonare,
sennò ne vanno tutti ni’Brasile
e ‘un si ricordon piú di ritornare.
Ancor quà ci sarebbe da lavorà
senza stare in America a emigrà.
Il secolo presente qui ci lascia,
i’millenovecento s’avvicina.
La fame c’han dipinto sulla faccia
e pe’guarilla ‘un c’é la medicina.
Ogni po’ noi si sente dire: e vo
là dov’é la raccolta del caffè.
Trecho do início da canção “Italia bella, mostrati gentile”

Em 14 de agosto de 1888 desembarcam do navio Sud America no porto de Santos o casal: Angelo Negrini, de 38 anos, agricultor, a esposa Maria Genari, de 36 anos; e os filhos Libera (12) , Eulalia (10) e Giuliano (um ano). Vindos de Verona,região do Vêneto, Itália, estiveram na Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo, antes da partida para o interior de São Paulo.

Como cheguei à história familiar dos meus bisavós italianos? Em 1987 li o livro “Brava Gente! –os italianos em São Paulo – 1870-1920” de Zuleika M.F. Alvim (Editora Brasiliense, São Paulo, 1986, 1ª edição, 190 pp.). E descobri que em 1888 um surto de febre amarela na Hospedaria provocou a morte de muitos imigrantes. As medidas tomadas: repatriamento e, na Itália e em outros países europeus, a emigração para o Brasil foi suspensa (pp. 40 e 119). Os Negrinis sobreviveram à doença, e foram para uma fazenda produtora de café na região de Campinas. Foi o ponto de partida para tentar reconstruir a saga dos meus bisavós.

A escritora questiona a abordagem de que não houve resistência dos trabalhadores rurais imigrantes à opressão, à exploração do trabalho.“Quero contar a história dos pobres do campo”, escreve na Introdução: contar a repressão que sofreram, os sonhos que não realizaram. A emigração foi a saída encontrada para a crise de desemprego na Itália desde 1870; para o Brasil, a imigração foi a alternativa para substituir a mão de obra escrava. “Quem eram esses homens, quais seus hábitos de vida, no que trabalhavam, onde viviam e, principalmente, o que queriam?” são as perguntas que ela busca responder em seu livro.

A diáspora italiana apresenta números surpreendentes: dezessete milhões, entre 1861 e 1920, saíram do país em busca de trabalho. Os “braccianti”, trabalhadores rurais temporários ou por contrato anual, fugiam de um processo de proletarização. Famílias de meeiros, arrendatários e pequenos proprietários encontraram na emigração a saída para a expansão capitalista no campo.

A emigração foi, na visão da autora, não uma busca por fortuna ou pela vontade de possuir um pedaço de terra, mas “a única forma de resistência possível” (p. 129). “Foi a fuga de uma situação de incrível miséria, sem dúvida, que impeliu esses homens a deixarem a sua pátria, em busca de um destino melhor; e não foi uma luta sem a consciência do que lhes sucedia” (p. 128). E o que encontraram no Brasil? Relações de trabalho ainda marcadas pela escravidão, maus tratos, descumprimentos dos contratos, ausência de leis trabalhistas, falta de assistência médica e em caso de acidentes de trabalho, a exploração do trabalho de mulheres e crianças, violências físicas e morais - espancamentos, perseguições, estupros, assassinatos.

Zuleika M.F.Alvim afirma que, mesmo que as ações de rebeldia não contestaram o poder do Estado ou as relações de produção, significaram “a única possível dentro das atrozes condições de vida que os imigrantes enfrentaram nas fazendas de café” (p. 104). A greve de 1913 na região de Ribeirão Preto foi um abalo na onipotência dos fazendeiros de café: reivindicou-se a revogação da proibição de plantio de produtos de subsistência entre as fileiras de café (p. 113).

Depois da leitura do livro, estive na Igreja Mórmon da Avenida Francisco Morato, no bairro Caxingui, em São Paulo, que tinha os documentos da imigração microfilmados - e, hoje, digitalizados. Com a localização das informações, consegui no Centro Histórico do Imigrante (antiga Hospedaria) a certidão do desembarque dos Negrini. Depois, estive na sede da Arquidiocese de Campinas e no cartório do distrito de Sousas, onde consegui mais dados em certidões de nascimento e de casamento da avó Pasqualina, e de óbito do bisavô Angelo.

Eu continuo com as mesmas perguntas da historiadora: quem eram os Negrini que se aventuraram no continente americano? Que sonhos trouxeram – e quais conseguiram realizar? Dos quase um milhão e meio de italianos que chegaram no Brasil entre 1870 e 1920, 17% partiram de volta para a Itália ou para outros países. E por que meus bisavós decidiram permanecer em Campinas? Sofreram as mesmas privações e humillhações dos imigrantes nas fazendas de café de São Paulo? Nunca saberei as respostas.

NOTA

A canção dos "contadini" (camponeses), “Italia bella, mostrati gentile”, é da última década do século 19; foi encontrada em Porciano, na província de Arezzo, na Toscana. A letra e a música na íntegra, em dialeto toscano e português, estão na internet; a tradução abaixo é da autora do livro (p. 17-18):

Itália bela, mostre-se gentil
e os filhos seus não a abandonarão,
senão, vão todos para o Brasil,
e não se lembrarão de retornar.
Aqui mesmo ter-se-ia no que trabalhar
sem ser preciso para a América emigrar.
O século presente já nos deixa,
o mil e novecentos se aproxima.
A fome está estampada em nossa cara
e para curá-la remédio não há.
A todo o momento se ouve dizer: eu vou
lá, onde existe a colheita do café.

Nenhum comentário:

Postar um comentário