terça-feira, 19 de abril de 2016

Arte e História - o Solar do Barão do Serro Azul – e um encontro em Curitiba: Andréia Las - João dos Reis



Para o professor Murilo Leal Pereira Neto


Depois da morte do pai, Andréia Las descobriu um estojo com canetas bico-de-pena (um instrumento para a escrita e desenho) e de pacotes de papel almaço pautado, amarelado pelo tempo. Para que ele guardava essas folhas em branco? Para cartas que não chegou a escrever? Para aprender a desenhar? Foi o ponto de partida para registrar a memória paterna utilizando a técnica de bico-de-pena – um trabalho coletivo de um grupo de nove artistas. A exposição “Almaço” no Solar do Barão, em 2004, dos papéis transformados em arte, foi uma das experiências estéticas mais emocionantes no meu roteiro pelos museus e galerias de Curitiba.

Em 2001 estava visitando uma exposição no SESC – e conheci a professora Andréia Las, que me convidou para conhecer o ateliê de Gravura no Solar do Barão, onde trabalha. O prédio foi a residência de Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul (Paranaguá, 1849-Morretes, 1894). Depois de restaurado em 1983, tem auditório, espaço para exposições, ateliês de gravura, centro de documentação e pesquisa, Gibiteca, biblioteca especializada em artes visuais - e os Museus: da Gravura, da Fotografia, do Cartaz. Nunca pude aceitar o convite de Andréia Las para participar de um dos cursos - porque não tenho talento para as artes plásticas.

Quem era o personagem que deu o nome ao centro cultural? Foi um industrial e político e um dos fundadores da Thypographia Paranaense em 1853 – um dos primeiros litógrafos do Brasil. Estudou Humanidades no Rio de Janeiro e, quando voltou a Curitiba, tornou-se empresário de erva mate, adquiriu o controle acionário da Companhia Ferrocarril, lançou as bases do Banco Industrial e Mercantil. Em 1882, elegeu-se deputado provincial do Paraná.

Estive na Lapa, uma cidade histórica próxima da capital paranaense - e visitei o Panteão dos Heróis, onde estão os mortos do cerco de 26 dias à cidade durante a Revolução Federalista de 1893 - a luta entre maragatos e legalistas da nova república. Em Curitiba, o Barão do Serro Azul presidia a Junta Governativa – e fez um acordo com os rebeldes para evitar que a cidade fosse saqueada. Acusado de colaborar com os revoltosos, sem um processo legal ou acusação formal, foi fuzilado no quilômetro 65 da Estrada de Ferro Paranaguá-Curitiba.

Depois da sua morte, sua casa foi ocupada e se tornou o quartel do Exército até 1975, quando em um acordo com a Prefeitura, passou para a Fundação Cultural de Curitiba. Durante décadas seu nome foi banido da História oficial. Apenas em 1942, com os livros de Leôncio Correia, “O Barão do Serro Azul”, e em 1973, de Túlio Vargas,“A última viagem do Barão do Serro Azul”, inicia-se uma nova visão do personagem. Em 2003, Maurício Appe produziu o filme “O preço da paz”, com direção de Paulo Morelli e roteiro de Walter Negrão.
E somente em 2008 foi publicado no Livro dos Heróis da Pátria, e seu nome depositado no Panteão da Liberdade e da Democracia de Brasília.

Andréia Las nasceu em Curitiba; cursou Educação Artística na UFPR, e desde 1986 é professora-instrutora dos ateliês de gravura do Solar do Barão. Ainda muito jovem trabalhou em gráfica, e pensou em estudar Desenho Industrial, mas dedicou-se à formação de novos artistas. Participou de um curso de gravura em metal na França. Tem realizado exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior.

Caminhando pelas ruas da cidade da Lapa, pensei naqueles que foram degolados na guerra civil do início da República, uma prática comum no século 19. Percorrendo as salas do Solar do Barão, lembrei do Barão do Serro Azul, que morreu por usar a arma do diálogo para defender a cidade de Curitiba – e que foi esquecido pela História.

NOTA – Fontes de pesquisa

1. Artigo “A invenção do Solar do Barão. A gravura brasileira em Curitiba”, de Artur Correia de Freitas, Clio-Revista Brasileira de Pesquisa Histórica, nº 312, 2013 (disponível na internet).

2. consultas sobre Andréia Las, o Solar do Barão e o Barão do Serro Azul: na internet (Wikipédia, Youtube, etc)

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