sexta-feira, 1 de abril de 2016

À procura dos pintores José Pancetti (1902-1958) e Miguel Bakun (1909-1963) – e um encontro em Curitiba: Mazé Mendes (Maria José de Oliveira Mendes)- João dos Reis



“M’illumino
d’immenso”
poema “Mattina”, Giuseppe Ungaretti

Em uma tarde gelada em Curitiba, Mazé Mendes me esperava na lanchonete do Parque Barigui para ouvir um grupo de chorinho. Foi um dos encontros com a artista paranaense. Em 2000 houve uma retrospectiva de suas obras na Escola de Música e Belas Artes do Paraná – e quando a conheci, fui convidado para outras exposições dos seus quadros. Fui um assíduo frequentador das mostras nos museus da cidade – e Mazé foi a descoberta da arte realizada hoje na capital das araucárias.

Desde adolescente, frequentei as Bienais de Arte de São Paulo, mas apenas em 1997 estive pela primeira vez em uma galeria de arte na capital paulista: fui ver os quadros de José Pancetti. Em Curitiba, entre tantos pintores que conheci em exposições e museus, um deles me emocionou – e eram suas pinturas que sempre procurava: Miguel Bakun.

Por que o meu interesse pelos artistas? Os dois eram filhos de imigrantes, trabalharam em ofícios diversos, foram marinheiros e, autodidatas, se dedicaram à pintura. Quando se conheceram no Rio de Janeiro, foi Pancetti um dos incentivadores de Bakun. Não tiveram uma formação em escolas de belas artes, nem romperam com a arte acadêmica, mas nas paisagens, naturezas-mortas, auto-retratos, revelam uma nova sensibilidade marcada por um lirismo trágico e melancólico.

Giuseppe Giannini Pancetti, conhecido como José Pancetti (1902-1958), nasceu em Campinas, filho de imigrantes italianos. Com oito anos a família foi para São Paulo, e depois, com 11 anos, enviado para viver com parentes na Itália, onde foi camponês, aprendiz de carpinteiro, operário, até entrar para a Marinha mercante italiana. De volta ao Brasil, trabalhou como pintor de cartazes e paredes; entrou para a Marinha brasileira – e se especializou na pintura de cascos, camarotes e paredes de navios. No Rio de Janeiro, frequenta o grupo de artistas do Núcleo Bernardelli. Participa de exposições, das bienais de arte de Veneza (1950) e de São Paulo (1951 e 1953).

Miguel Bakun nasceu em 1909 em Mallet, sudeste do Paraná, filho de imigrantes ucranianos. Com 10 anos a família foi para Ponta Grossa, onde aprendeu o ofício de alfaiate. Com 17 anos ingressa na Marinha em Paranaguá, e depois, na Escola de Grumetes do Rio de Janeiro. Depois de um acidente no navio, vai para Curitiba e trabalha como fotógrafo. Dedica-se à pintura: sua casa na Avenida Silva Jardim se torna um ponto de encontro de artistas. Uma definição para a sua arte: um pós-impressionismo e expressionismo? Outra pergunta: quando o artista paranaense será reconhecido como um grande pintor? Miguel Bakun suicidou-se em 1963.

A artista plástica Eliane Prolik, que publicou o livro: “Miguel Bakun – a natureza do destino” (edição da autora, Curitiba, 2009, pp), e organizou uma exposição com o mesmo nome, questiona: “a cidade está sempre matando Bakun por falar de sua morte antes de mencionar sua obra. É justamente o contrário que deve ser feito”.

Mazé Mendes (Maria José de Oliveira Mendes) nasceu em Laranjeiras do Sul, centro-sul do Paraná. Vive e trabalha em Curitiba desde 1969. É bacharel em pintura, com licenciatura em desenho pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). Foi professora da Faculdade de Artes do Paraná (FAP) até recentemente. Tem realizado exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior; estive presente em duas delas: em 2004, na Casa Andrade Muricy e na Galeria Noris. No belo site da artista é possível conhecer a sua carreira – e admirar algumas das suas pinturas: www.mazemendes.com.br

Quando sugeriram a Pancetti que teria aprendido pintura olhando para exemplos ou modelos europeus, ele respondeu: “Como velho marinheiro, os únicos museus do mundo que conheci foram os bas fonds e os cabarés dos portos por onde andei”. Os proletários não tinham acesso à arte – e não apenas no Brasil.

NOTA sobre fontes de consulta do texto:

1. “Um pintor pintor”, texto de apresentação de Olívio Tavares de Araújo para a exposição de José Pancetti na Galeria Arte do Brasil, Moinho das Artes Editora, São Paulo, 1997.
2. Catálogo “Traço & Cor – Travessia de um tempo”, Mazé Mendes, Curitiba, 1997.
3, Catálogo “Matiz”, Mazé Mendes, Curitiba, 2004.
4. “Miguel Bakun – aquele azul, amarelo, verde”, Luciano Buchmann, Fundação Cultural de Curitiba, 2001.
5. Sobre Miguel Bakun: ver site da Secretaria de Cultura do Estado do Paraná e artigo da “Gazeta do Povo” de 28/06/2009.
6. Poema “Mattina” de Giuseppe Ungaretti, in “Poesie”, Newton Compton Editori, Roma, 1992, p. 76.


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