sábado, 5 de março de 2016

Música e Poesia: Camané CD/DVD "Ao vivo no Coliseu/Sempre de mim" (2008) João dos Reis



Para Carlos Henrique Vianna Pereira, de Lisboa

“Ando na vida à procura
De uma noite menos escura
Que traga luar do céu
De uma noite menos fria
Em que não sinta a agonia
De um dia a mais que morreu.
(...) Ser fadista é triste sorte
Que nos faz pensar na morte
E em tudo o que em nós morre
Andar na vida à procura
De uma noite menos escura
Que traga luar do céu”
“Triste sorte”, de João Ferreira Rosa e Alfredo Marceneiro.

Assisti ao show do fadista Camané em dezembro de 2015 na Casa de Portugal. Somente agora, em fevereiro, consegui comprar um disco - o CD/DVD do show no Coliseu dos Recreios, Lisboa, gravado em 2008. Foi um reencontro carregado de emoção com a canção portuguesa contemporânea – e os versos de “Triste sorte” nos revelam porque o fado é trágico.

Há letras de poetas em algumas das 21 músicas: Fernando Pessoa, Pedro Homem de Mello, David Mourão-Ferreira – e a releitura de fados tradicionais.

“Este silêncio”, de Manuela de Freitas e José Mario Branco é a mais comovente – por tentar explicar o fado:

“Há um silêncio pesado
Que não sei de onde vem
Nem sei se lhe chamam fado
Ou que outro nome é que tem.
Se canto, não me dói tanto
O coração magoado
Mas há em tudo o que canto
Este silêncio pesado.
Não é mágoa nem saudade
Nem é pena de ninguém
O silêncio que me invade
E não sei de onde é que vem.
Silêncio que anda comigo
E que mesmo sem eu querer
Diz através do que eu digo
O que eu não posso dizer. (...)”

O poema musicado de Fernando Pessoa, “Ser aquele”, nos apresenta as interrogações do poeta:

“Se estou só, quero não estar
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou”.

É em “As palavras”, de Manuela de Freitas e José Mario Branco, os novos compositores refletem sobre o poder das palavras:

“São as palavras que eu digo
Meu abismo e meu abrigo
Partilha de pão e espanto
Lucidez que desatina
Chão sagrado onde germina
A semente do meu canto.
Palavras a que eu entrego
Prazer e desassossego
Tormento e consolação. (...)”

Camané (Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos) nasceu em Oeiras, uma cidadezinha próxima de Lisboa. É de uma família de fadistas: seu bisavó, José Julio da Silva Paiva, e seus dois irmãos, Helder Moutinho e Pedro Moutinho.

Vocês devem continuar me interrogando: por que ouvir e escrever sobre o fado e os novos fadistas? É na redescoberta da nova canção portuguesa que encontrei a proximidade entre música e poesia – que não estão mais presentes na MPB de hoje. Reconheço que é um mergulho dramático na tristeza e na saudade – e um reencontro com a minha infância, com as lembranças dos meus avós portugueses.

Na tarde de domingo, 21 de fevereiro de 2016, minha mãe sentou ao meu lado em frente ao computador: assistimos juntos ao show em DVD do Camané - e recordamos os que partiram para a América em uma viagem sem volta; ela me revelou novamente o desejo: que gostaria de rever Falgueiras, a aldeia onde nasceu em Trás-os-Montes – e saiu ainda criança, e não mais retornou. Mas há um oceano a nos separar do continente europeu. A avó Elisa também me disse muitas vezes que gostaria de revisitar a aldeia em que nasceu, Penhas Juntas, mas morreu sem realizar o sonho de voltar a Portugal.
Música e Poesia: Camané: CD/DVD “Ao vivo no Coliseu / Sempre de mim” (2008)

Para Carlos Henrique Vianna de Andrade, de Lisboa

“Ando na vida à procura
De uma noite menos escura
Que traga luar do céu
De uma noite menos fria
Em que não sinta a agonia
De um dia a mais que morreu.
(...) Ser fadista é triste sorte
Que nos faz pensar na morte
E em tudo o que em nós morre
Andar na vida à procura
De uma noite menos escura
Que traga luar do céu”
“Triste sorte”, de João Ferreira Rosa e Alfredo Marceneiro.

Assisti ao show do fadista Camané em dezembro de 2015 na Casa de Portugal. Somente agora, em fevereiro, consegui comprar um disco - o CD/DVD do show no Coliseu dos Recreios, Lisboa, gravado em 2008. Foi um reencontro carregado de emoção com a canção portuguesa contemporânea – e os versos de “Triste sorte” nos revelam porque o fado é trágico.

Há letras de poetas em algumas das 21 músicas: Fernando Pessoa, Pedro Homem de Mello, David Mourão-Ferreira – e a releitura de fados tradicionais.

“Este silêncio”, de Manuela de Freitas e José Mario Branco é a mais comovente – por tentar explicar o fado:

“Há um silêncio pesado
Que não sei de onde vem
Nem sei se lhe chamam fado
Ou que outro nome é que tem.
Se canto, não me dói tanto
O coração magoado
Mas há em tudo o que canto
Este silêncio pesado.
Não é mágoa nem saudade
Nem é pena de ninguém
O silêncio que me invade
E não sei de onde é que vem.
Silêncio que anda comigo
E que mesmo sem eu querer
Diz através do que eu digo
O que eu não posso dizer. (...)”

O poema musicado de Fernando Pessoa, “Ser aquele”, nos apresenta as interrogações do poeta:

“Se estou só, quero não estar
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou”.

É em “As palavras”, de Manuela de Freitas e José Mario Branco, os novos compositores refletem sobre o poder das palavras:

“São as palavras que eu digo
Meu abismo e meu abrigo
Partilha de pão e espanto
Lucidez que desatina
Chão sagrado onde germina
A semente do meu canto.
Palavras a que eu entrego
Prazer e desassossego
Tormento e consolação. (...)”

Camané (Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos) nasceu em Oeiras, uma cidadezinha próxima de Lisboa. É de uma família de fadistas: seu bisavó, José Julio da Silva Paiva, e seus dois irmãos, Helder Moutinho e Pedro Moutinho.

Vocês devem continuar me interrogando: por que ouvir e escrever sobre o fado e os novos fadistas? É na redescoberta da nova canção portuguesa que encontrei a proximidade entre música e poesia – que não estão mais presentes na MPB de hoje. Reconheço que é um mergulho dramático na tristeza e na saudade – e um reencontro com a minha infância, com as lembranças dos meus avós portugueses.

Na tarde de domingo, 21 de fevereiro de 2016, minha mãe sentou ao meu lado em frente ao computador: assistimos juntos ao show em DVD do Camané - e recordamos os que partiram para a América em uma viagem sem volta; ela me revelou novamente o desejo: que gostaria de rever Falgueiras, a aldeia onde nasceu em Trás-os-Montes – e saiu ainda criança, e não mais retornou. Mas há um oceano a nos separar do continente europeu. A avó Elisa também me disse muitas vezes que gostaria de revisitar a aldeia em que nasceu, Penhas Juntas, mas morreu sem realizar o sonho de voltar a Portugal.

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