quarta-feira, 16 de março de 2016

ANOTAÇÕES de um livro - e um encontro em São Paulo: Carlos Henrique Vianna Pereira - João dos Reis


Em 10 de março de 2016, Carlos, Heliana Bibas e amigos me esperavam para um almoço na cafeteria da Pinacoteca em São Paulo. Foi o encontro com o companheiro da organização guerrilheira VAR-Palmares que eu conhecia pelo envio das “6 Cartas aos amigos”. Ele estava de passagem pela cidade, vindo de Portugal, e quis me entregar pessoalmente o seu livro: “A derrota – reflexões desordenadas sobre uma geração” (edição do autor, Lisboa, 2016, 216 pp.m prefácio de Sergio Emanuel Dias Campos), produto final das cartas encaminhadas pelo correio eletrônico nos dois últimos anos.
Foram muitas interrogações sobre as derrotas da esquerda no Brasil. O autor analisa quatro delas: a débâcle da resistência à ditadura militar de 1964, com mortes, prisões, torturas, exílios e perseguições; a decepção com o movimento das Diretas Já e pela Constituinte sem uma Assembléia que estabelecesse um novo quadro político-institucional; a escolha do PT por práticas políticas tradicionais; a quarta é a derrota do socialismo como um projeto de uma sociedade comunista libertária.
Carlos retoma a experiência no movimento estudantil e operário: tinha 18 anos quando saiu da casa dos pais no Jardim Botânico, Zona Sul, para o “trabalho de massas” na organização guerrilheira (que depois se chamaria VAR-Palmares). Viveu na Favela do Muquiço , no bairro Deodoro, e depois na Favela do Jacarezinho de janeiro de 1969 a setembro de 1970. E reflete sobre os impasses vividos pela “esquerda armada”: não abandonar a realidade das fábricas, o movimento sindical e popular nos bairros.
O autor se interroga sobre os conceitos de vanguarda, de militante revolucionário – que despertou a paixão dos jovens estudantes. Qual era a revolução brasileira que sonhávamos no final dos anos 60? E ele afirma que havia o culto à ação revolucionária, mas o desprezo pela teoria: “Que outras opções teriam as esquerdas naqueles anos de chumbo?”(p.59). E diz mais adiante:”O fato é que a reflexão político-teórica sobre as características da sociedade brasileira era muito pobre na esquerda” (p. 62).
Carlos reflete criticamente sobre as estratégias centradas taticamente nas ações armadas – e o abandono da luta democrática e ações de resistência. O vanguardismo desprezou as formas populares de organização, o trabalho sindical, popular e estudantil, as lutas pela redemocratização e pela assembleia nacional constituinte. São várias questões que o autor retoma sobre o papel na luta armada no Brasil, entre elas: “foi uma primeira etapa de uma suposta guerra revolucionária?” (p.80).
O balanço feito dos golpes sofridos pela esquerda entre 1964 e 1979 nos dá um quadro da repressão: 50 mil pessoas presas por motivos políticos, centenas de mortos e desaparecidos, milhares acusados e indiciados em processos, cassações de direitos políticos por 10 anos, além dos exilados ou banidos do território nacional.
As páginas mais corajosas do livro estão no debate sobre o “terrorismo revolucionário” e os justiçamentos praticados pela esquerda no Brasil. Sobre o militante da ALN, Marcio Leite de Toledo, o autor interroga: “Tratou-se de um justiçamento? De uma execução decorrente de um julgamento de exceção no âmbito de uma guerra? Ou de um assassinato? (...) Quem tem o poder de julgar e condenar à morte? Por quem foi outorgado esse poder?” (p. 97).
Registro as interrogações – e, como não pretendi escrever uma resenha, mas anotações, deixo de descrever a vida no exílio em 1971/1977 (no Chile e na Argentina) e a volta ao Brasil. Acredito que a publicação pessoal do autor e a tiragem limitada (apenas 200 exemplares) deva ser ampliada em uma futura edição.

Carlos Henrique Vianna Pereira, aluno do Colégio de Aplicação, foi da Dissidência secundarista do PCB no Rio de Janeiro em 1967. No início de 1969, foi militante do “setor operário” da nova organização de esquerda que se tornaria depois a VAR-Palmares. Em 1971, com a sua foto e nome nos cartazes de "Procurados" da ditadura militar, foi para o exílio no Chile, e depois do golpe de 1973, para a Argentina, onde foi operário: mecânico ajustador e inspetor de qualidade. Voltou ao Brasil em 1977, e foi no ano seguinte para São Paulo – onde atuou na militância da oposição sindical, no movimento dos bairros, no PC do B e no PRC (Partido Revolucionário Comunista). Cursou Tecnologia Mecânica na capital paulista, e em 1988 foi para Portugal para uma especialização em Engenharia de soldagem, onde vive até hoje. É um militante dos direitos dos emigrantes na Casa do Brasil em Lisboa.

Quando Carlos chegou a Buenos Aires em 1973, vindo do Chile, foi trabalhar em uma fábrica – e pediu a um companheiro, militante do Partido Comunista argentino, ajuda para orientá-lo e ensiná-lo na nova profissão (inspetor de qualidade), e ele lhe disse: “Carlitos, no te preocupés. Estás comigo, estás com Dios”.

DUAS ou três palavras para Carlos: quando recebi as primeiras "cartas aos amigos", houve uma explosão de recordações do passado. Minha admiração pela sua história de vida foi um dos "detonadores" que me levou a escrever minhas memórias. E você foi muy amable em citar o meu nome no seu livro. Muchas gracias, compañero!

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