sexta-feira, 11 de março de 2016

À procura do poeta Lindolf Bell (1938- 1998)- João dos Reis


Estava a passeio em 2003 em Blumenau, Santa Catarina, e decidi conhecer Timbó, a cidade onde nasceu Lindolf Bell - e me informaram que a casa onde ele viveu, depois de restaurada, seria inaugurada no dia seguinte: Casa do Poeta Lindolf Bell. Estive nela, conversei com a filha dele, Rafaella, e disse a ela: onde encontrar os livros do seu pai?

Em Curitiba, garimpei alguns exemplares nos sebos, mas não havia uma edição com a obra completa ou uma coletânea dos seus poemas. Encontrei “Odes elementares” (Editora Letras Contemporâneas, Florianópolis, SC, 1995, 2ª edição) e "O código das águas" (1984).

Em 2009 tive a noticia da publicação de “Lindolf Bell - Melhores Poemas” (Editora Global, S.Paulo).

Na casa onde morou o poeta em sua infância e adolescência, estava um processo de organização de sua correspondência: foi um escritor frequente de cartas, que ainda hoje não foram publicadas; hoje, há um centro de memória com fotografia, documentos - consultar o site: www.lindolfbell.com.be

Em que trabalhou o poeta? Ainda jovem, foi lavrador,como seus pais, depois contador, escriturário. Prestou o serviço militar no Rio de Janeiro. Diplomou-se em São Paulo pela Escola de Arte Dramática; chegou a escrever algumas peças teatrais, mas elas se perderam.

Como conheci o poeta e seus poemas? Em 1968 li nos jornais: com o Movimento Catequese Poética na capital paulista, o jovem poeta declamava poemas nas ruas, feiras, teatros, escolas, e em todos os lugares públicos. É essa imagem que guardo dele, e que vi em fotos e em um cartaz em uma das salas da sua casa: um poeta-declamador que mais tarde decidiu imprimir os poemas em camisetas, expô-los em varais, muros da cidade.

Transcrevo trechos de alguns dos seus longos poemas:

I – POEMA “Os ciclos, parte IV (trecho final):

Amigo, tu que sabes a nobre a bom,
conheces o limo de tua casa,
a resina de teu tronco,
lavra teu ninho com ervas
e vento,
cresce teus olhos em flor
e grão,
crava os pés na terra
e, sobre os ombros,

carrega palmas.

Depois, aguarda,
aguarda só, os tempos do beiral.

II – POEMA “A tarefa – 1ª parte” (trecho da parte V)

Quando a madrugada dispuser os matizes
e o rosto trajar-se de metáforas, poeta,
atende o chamado dos vivos e dos mortos.
Bate à janela.
Todos os vácuos são travessáveis.
Se dentro da noite
empreendes andanças
e os gonzos da alucinação tilintam,
se arrancas estrelas dos espinheiros,
se cantas de ouvido colado à terra
para ouvir o tropel
e o coração bate lento
o pequeno,
bem sabes que as veredas
dos deuses pertencem
aos que sabem conquistar.

Amanhã o dia será de novos deuses
e novos adeuses.

(os dois poemas estão em “Lindolf Bell - Melhores poemas”, seleção e apresentação de Péricles Prade, Editora Global, S.Paulo, 2009, pp. 61 e 105, respectivamente).

III –POEMA “Do amor” (parte V)

Inventar
algum silêncio
onde possa ouvir
claro e preciso
o coração
em silêncio.

(poema de “As vivências elementares”, da Editora Letras Contemporâneas, Florianópolis, SC, 1995, 2ª edição, p. 127)
2 anexos

Visualizar o anexo Casa do Poeta Lindolf Bell Timbó SC.jpeg
Imagem
Casa do Poeta Lindolf Bell Timbó SC.jpeg
Visualizar o anexo Casa do Poeta Lindolf Bell Timbó SC 2.jpeg
Imagem
Casa do Poeta Lindolf Bell Timbó SC 2.jpeg

Nenhum comentário:

Postar um comentário