sábado, 19 de março de 2016

À procura do escritor Érico Veríssimo - João dos Reis





Para Jurema Augusta Ribeiro Valença

Dona Mafalda Volpe Verissimo estava na biblioteca da casa onde morou com Érico Verissimo, na rua Felipe de Oliveira, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre. Em agosto de 1998, fui a passeio à capital gaúcha - e fui informado na Editora Globo, onde ele trabalhou como secretário, diretor e tradutor, de que às sextas feiras era permitida a visita. Fui recebido pela professora Marcia Ivana de Lima e Silva, do grupo de pesquisadores que estava organizando o acervo literário do escritor.

Foram momentos emocionantes: estar na casa e na cidade que o romancista de Cruz Alta escolheu para viver, trabalhar e escrever seus romances. Tive em mãos vários dos manuscritos e datiloscritos dos seus livros. Falei da necessidade de microfilmá-los, para que não se deteriorassem com a passagem do tempo.

Olhando as alterações que ele fez nas páginas dos rascunhos, disse que eu jamais seria um escritor – porque exige uma paciência beneditina para reescrever, revisar antes da redação final. Ele escreveu: “Sinceramente, não me lembro de quantos roteiros fiz para ‘O Tempo e o Vento”. Só sei que foram muitos e que até o fim da obra eu os alterei, acrescentando ou subtraindo personagens e episódios” (autobiografia, volume 1, p. 294).

Foi uma tarde memorável: estar ao lado da lareira e da mesa de trabalho do escritor, conversar com a esposa dele, dona Mafalda, tomar um café, servido por uma das suas netas, olhar as estantes com os seus livros, sentar ao lado da sua poltrona favorita - conversar com os presentes, mas sentindo a sua ausência.

Tinha 16 anos quando li “Clarissa” e “Música ao longe”: foi a descoberta da literatura brasileira do século vinte - até então era leitor de Machado de Assis, José de Alencar. “A dama da noite”, de Dias Gomes, me impressionou - e havia sido o único autor contemporâneo que havia lido.

Na volta da viagem ao Sul, li ou reli todos os livros do ficcionista – incluindo a obra prima, os volumes de “O Tempo e o Vento”.

O seu acervo literário - fotos, cadernos de anotações, cartas, desenhos, manuscritos originais dos seus livros - estão desde 2009 no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro. No Centro Cultural CEEE Érico Verissimo na rua dos Andradas, inaugurado em 2002, há uma parte do material, que pertenceu a dois dos seus amigos – e está digitalizado e disponível na internet (ver nos sites).

O que registrei na memória da releitura de seus romances e, principalmente, de sua autobiografia (“Solo de clarineta” em dois volumes)? O retrato trágico da figura paterna: culto, garboso, um “príncipe da vida”; a derrocada financeira, o distanciamento da família, a morte solitária na cidade de São Paulo - e a procura vã pelo túmulo desconhecido do pai anos depois. E o destemor em escrever sobre o passado: “a suprema coragem é a de correr o risco de parecer fraco por exprimir livremente seus sentimentos”, diz ele no volume 1, página 157.

Em março de 2016,ao acordar de manhã, por um desses milagres da imaginação, o escritor gaúcho, suas lembranças, histórias e personagens reapareceram – e a recordação da visita à casa dele no passado re com a nitidez do presente.

NOTA: “Solo de clarineta”, vol. 1, 1973, 350 pp., citação p. 157 e 294; vol 2, póstuma, organizada por Flavio Loureiro Chaves, 1992, 8ª ed., ,324 pp.- os dois volumes da Editora Globo, Porto Alegre.

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