sábado, 20 de fevereiro de 2016

Duas fadistas : Mariza e Misia - João dos Reis



Para Risomar Fasanaro,

com meus agradecimentos por me presentear com discos de Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, e pelo CD “The best of fado” (com 24 fadistas).

Os últimos discos, de 2015, das fadistas Mariza e Misia são surpreendentes. Elas cantam o fado tradicional, mas também as canções da nova música portuguesa contemporânea.

Em “Mundo”, da moçambicana-portuguesa Mariza, há compositores desconhecidos para mim. As letras revelam uma poesia ausente na atual MPB. Em “Melhor de mim”, canta a esperança de dias melhores:

“Quebro as algemas neste meu lamento
Se renasço a cada momento
Meu destino na vida é maior”.

A mais bela e comovente, que eu considero uma “canção do exílio”, é “Adeus”, de Cabral do Nascimento e Pedro Joia:

“Manhãs serenas, pálidos
Dias sem sol, enevoados céus,
Opacas noites de perfumes cálidos,
Vejo tudo isso e digo adeus.
Frutos doirados, flores de estuante viço,
Rochas, praias, ilhéus,
Ondas de céu azul... Vejo tudo isso
E digo adeus./ (...)
E porque é tarde, e estou cansado, sigo
A estrada do regresso, e quando volvo os meus
Olhos, além, vejo tudo isso e digo
Adeus.”

Há no disco duas músicas em espanhol e uma do compositor cabo-verdiano Valdemiro Vlu Ferreira.

No CD duplo “Para Amalia”, Misia faz uma homenagem à fadista-compositora portuguesa mais conhecida. Lembro de, ainda criança, meu pai comprou um disco 78 rotações de Amalia Rodrigues, e cansei de ouvi-lo na pequena vitrola, embriagado na tristeza do fado.

A canção mais dramática é, para mim, “Tive um coração, perdi-o”, de Amalia Rodrigues e José Fontes Rocha:

“Tive um coração, perdi-o
Ai quem mo dera encontrar
Preso no fundo do rio
Ou afogado no mar.
Quem me dera ir embora
Ir embora e não voltar
A morte que me namora
Já me pode vir buscar.
Tive um coração, perdi-o
Ainda o hei-de encontrar
Preso no lodo do rio
Ou afogado no mar.”
Há um vídeoclip da música no Youtube, uma montagem de Maria de Medeiros.

Há também o que eu chamaria de uma “canção da despedida” (ou exílio), a mais pungente das 18 músicas do disco: “Prece”, de Alain Oulman e Pedro Homem de Melo:

“Talvez eu morra na praia
Cercada em pérfido banho
Por toda a espuma da praia
Como um pastor que desmaia
No meio do seu rebanho.
Talvez eu morra na rua
E dê por mim de repente
Em noite fria e sem luar
Irmã das pedras da rua
Pisadas por toda a gente.
Talvez eu morra entre grades
No meio de uma prisão
E que o mundo além das grades
Venha esquecer as saudades
Que roem meu coração.
Talvez eu morra no leito
Onde a morte é natural
As mãos em cruz sobre o peito
Das mãos de Deus tudo aceito
Mas que eu morra em Portugal”.

Há a participação de outros cantores: de Maria Betânia, em “Amalia sempre e agora” (de Mario Pacheco e Amélia Muge; de Rogério Samora em “Amor sem casa” (de Alain Oulman e Teresa Rita Lopes); e de Martirio na canção em espanhol “Maria la portuguesa” (de Carlos Cano).

Vocês me dirão: essa viagem ao universo do fado não é um mergulho na tristeza e na melancolia? Eu responderia que é um retorno a minha infância, à terra natal da minha mãe e dos meus avós, ao mundo de sentimentos que marcaram a minha sensibilidade e a minha vida para sempre.

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