sábado, 27 de fevereiro de 2016

À procura do poeta português Herberto Helder - João dos Reis



Para o professor Rodrigo Medina Zagni

Estava há tempos à procura de livros do poeta português Herberto Helder, mas não os encontrava. Em vão busquei nas livrarias os dois volumes de poemas, publicados no Brasil, mas as edições estão esgotadas: “O corpo, o luxo e a obra” e “Ou o poema contínuo”. No jornal “Folha de São Paulo” de 13 de fevereiro de 2016, recebi uma boa notícia: a Editora Tinta-da-China publica a partir de abril a obra completa. Serão publicados” Poemas completos”, “O bêbedo noturno”, “Poemas canhotos”, e “Photomaton & Vox”, num total de cinco volumes.

Herberto Helder Luis Bernardes de Oliveira (1930, Funchal, Ilha da Madeira-2015) cursou Letras na Universidade de Coimbra. Trabalhou como jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio.

Li sete dos seus longos poemas em uma antologia anos atrás (“Antologia da poesia portuguesa contemporânea – um panorama”, org. e introd. de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Lacerda Ed., Rio de Janeiro, 1999, 468 pp.), mas não os reli mais tarde. Na minha busca recente do poeta, encontrei na internet os dois poemas:

I -“Sobre o poema”

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo em silêncio,
as sementes à beira do vento,

_ a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema,
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

_ Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

_ E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


II - “É amargo o coração do poema”

É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando

o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.

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