quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

RECORDANDO meu avô José dos Reis - João dos Reis


Para José Henrique do Carmo

“Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chama. E eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
_ Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.”
Poema “Aos amigos”, Herberto Helder

Meu avô paterno José dos Reis veio do interior - e estava em um hospital de São Paulo para tratamento de um câncer. Depois, ele foi para minha casa em Osasco. Meu avô Marcelino Matheus Ferro veio de Duartina para visitá-lo. Foi um encontro memorável: os patriarcas da família – os dois sempre muito calados - reunidos sob o mesmo teto. O que mais me impressionou durante a estadia do avô José, é que ele suportou as dores e a proximidade da morte com estoicismo. Minha mãe lembra até hoje que ele nunca reclamou de nada: permaneceu em um mutismo absoluto.

O que ele pensava do final da vida? Que sonhos embalaram o imigrante português no Brasil? Colaborei algumas vezes colocando os alimentos triturados no liquidificador em uma sonda acoplada em seu estômago: era a única forma dele se alimentar. Não consigo recordar o que sentia quando participava dessa “refeição”.

A lembrança mais agradável que guardo é: em Gália, SP, no Hotel Amazonas, de que ele e meu pai foram proprietários – ele, em silêncio, pitando o cigarro de palha, e eu ouvindo a radionovela “Jerônimo, o herói do sertão”: eu era fascinado pelo personagem. Foram momentos de proximidade e convivência com meu avô. Ele permanecia ao meu lado, respeitando os desejos do neto. E, quando meus pais vieram para São Paulo, eu e meu irmão moramos dois meses com ele – até terminarmos as provas bimestrais no curso ginasial.

Foi um aventureiro e empreendedor: de trabalhador do campo, tornou-se proprietário de uma fazenda em Duartina, SP: Tabarana, onde nasci; depois, em parceria com seu irmão Antonio, a fazenda Nossa Senhora Aparecida, em Gália. Em 1954, o cafezal foi dizimado pela geada – e ele se tornou proprietário de hotel na cidade.

Quando o seu estado de saúde piorou, e em seguida, faleceu, eu tinha 15 anos – e apenas meus pais foram para o velório em Gália e ao sepultamento no túmulo da família em Duartina. Durante o tempo em que estive sozinho, que reflexões ocuparam meus dias? Lembro que estava na crise da adolescência, questionando tudo – e o mais marcante foi a perda da fé. Descrente, deixei de frequentar aos domingos a missa na Igreja Matriz de Santo Antônio em Osasco. Continuava me comovendo com a Ave Maria no alto falante da igreja, às 18 horas, quando me dirigia para o colégio noturno.

Meus dois avôs foram importantes para mim - por tratar as palavras como devem ser: envolvidas em silêncio e mistério.

Depois de tantos anos, retomo as lembranças do avô que se aventurou em um país estrangeiro, um novo continente; que se casou em 1917 com uma descendente de italianos, Pasqualina Negrini; que decidiu voltar a Portugal, e em seguida, retornar ao Brasil nos anos 20. Ele, vivendo o sofrimento da doença, eu, atolado nas angústias da adolescência, perdi a oportunidade de conversar com ele, de perguntar sobre as agruras da imigração, as saudades que carregou da sua terra natal, as esperanças de uma vida feliz em uma nova pátria.

É tarde demais, não tenho escolha: restam apenas as imagens submersas na memória, que aos poucos desaparecem para sempre.