segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Livro: “Italianos no mundo rural paulista”, João Baptista Borges Pereira - Joao dos Reis




“O italiano nasce pensando em emigrar; vive pensando em emigrar e instilando nos filhos e nos netos esse desejo; quando não consegue o seu intento, morre lamentando não haver emigrado”. A afirmação é do intelectual italiano Camilo Cecchi, citada por João Baptista Borges Pereira na página 5 do livro “Italianos no mundo rural paulista” (Editora Pioneira, São Paulo, 1974, 192 pp.).

Foi uma surpresa descobrir que a emigração italiana, que iniciara no século 19, continuou no século 20 depois da II Guerra. Houve dois planos governamentais – em 1949 e em 1950 - com envio de missões técnicas de reconhecimento de regiões para a imigração. Os especialistas em colonização agrícola escolheram uma região próxima de Assis, hoje município de Pedrinhas Paulista, distante 480 quilômetros da capital paulista. Foi um projeto planejado: ”O empreendimento (aquisição de terras e execução do plano de colonização) era feito em nome da Companhia Brasileira de Colonização e Imigração italiana”, uma empresa constituída em 1950 (p. 19).

Foi uma colonização capitalista: investimento de capital na compra dos 180 lotes e financiamento às famílias, construção das casas, assistência técnica agrícola. E o que buscaram os italianos-imigrantes que chegaram a São Paulo no início da década de 50? As mesmas aspirações dos seus antepassados (trabalho, a esperança de um futuro melhor), mas com os traumas vividos da última guerra.

Não sabemos como foi o choque cultural dos quase um milhão e meio de italianos que vieram para o Brasil entre 1870 e 1920. Na análise antropológica do escritor, é possível conhecer os diferentes processos de aculturação dos novos imigrantes, descobrir o que sentiram, como viveram a nova realidade. Tudo era diferente: o solo, o tipo de relevo, a vegetação, a cor da terra, o clima, e até o sabor e o cheiro da água e dos alimentos (p. 39, 50 e 51). Chegando a Pedrinhas, percorre “um tratto di strada naturale, dalla caratteristica ‘terra roxa’, fertile, finemente polverizzata, che penetra dovunque, si respira nell’aria, s’attaca ai panni e alla pelle, colora di rosso ogni cosa, segnando tutto col suo marchio incofondibili...” - trecho do relatório “Pedrinhas, San Paolo, Brasile, Colonia Italiana”, 1962, pp. 4 e 6.

Era uma relação comercial: 33% da produção deviam ser entregues à companhia colonizadora, para abatimento do débito dos colonos com a compra do lote, implementos agrícolas, fornecimento de animais. A orientação e a presença de um técnico agrícola não impediram que muitos voltassem para a Itália. A pesquisa e o estudo do professor-sociólogo foi realizada em 1963, portanto uma década depois do início da colonização. E houve um ajustamento do projeto: a prática da policultura, garantindo uma produção para a subsistência e para a economia de mercado. Por exemplo: o cultivo do trigo era intercalado entre a colheita do milho e o plantio do algodão.

Não foi apenas um processo de integração econômica, mas também cultural: a participação na realidade brasileira. Não viviam isolados e em uma região despovoada; mas mesmo assim, houve resistência à integração social, diz o professor-pesquisador. Na própria colônia, originária de italianos do Norte, do Centro e do Sul, há sinais de conflito e de tensão: os vindos do sul da Itália são adjetivados de “terrone”, “meridionale”, “árabo”, “marocchino”, “albanese”; os do Norte, chamados de “polenteiros”, curiosamente a mesma expressão generalizada e preconceituosa usada pelos brasileiros em relação a todos os italianos (p. 105 e 109).

A diferença entre os novos imigrantes e os do passado é que os de Pedrinhas vieram com a aspiração inicial de voltar para o seu país – um dilema permanente para os que permaneceram no projeto. Para os que se fixaram na colônia, há ainda a assimilação da nova língua: fala-se em casa os dialetos, mas lêem jornais em italiano, e se relacionam com a comunidade em português.

Como os jovens da colônia vêem o processo de aculturação no início dos anos 60? Há os que questionam a emigração, outros a aceitam como o seu destino. Apesar das “fases de marginalidade e ambivalência” próprias da juventude, em que há a resistência à assimilação cultural, há um maior sentimento de aceitação da nova realidade (pp. 166-168).

Ao ler o livro, lembrei do amigo Felis Penkal, lavrador em Araucária. A região metropolitana de
Curitiba tem ainda hoje “colônias” originárias da imigração polonesa. Em 2005, nos nossos
Encontros, procurava compreender esse universo novo para mim: a língua, os costumes, a
vida na comunidade, o trabalho na terra, os sonhos do jovem agricultor. Hoje, 14 de abril, é o
aniversário de quatro anos de seu filho, Juan Guilherme. Telefonei, parabenizei o piá, conversamos sobre o
o clima, o início da colheita da soja, feijão, batata e milho.

NOTA

1. O texto em italiano ( do relatório sobre Pedrinhas) está na página 47 do livro de João Baptista Borges Pereira.
2. A citação de Camilo Cecchi está em “Estudo comparativo da assimilação e marginalidade do imigrante italiano”, in “Sociologia”, vol. XIX, nº 2, maio de 1957, São Paulo, p. 114.
3. Sobre a colonização polonesa: “Contenda: a assimilação de poloneses no Paraná”, Hiroshi Sato, Editora Sociologia e Política de São Paulo, São Paulo,, 1963; e “A situação do polonês em São Paulo”, Octavio Ianni, in “Sociologia”, vo. XXIII, nº 4, dezembro de 1961 – ambos os textos citados por João Baptista Borges Pereira na nota 5 da página 4.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Luís Henrique Pellanda: o reencontro com a cidade de Curitiba - João dos Reis





“Escrevo crônicas, e uma crônica, muitas vezes, é só um exercício compartilhado de desesperança”, escreve Luís Henrique Pellanda sobre o ofício de cronista (1).”Apenas não acho que os leitores precisem buscar, num cronista, uma identificação de fundo pessoal. Não é comigo que os leitores devem se identificar, e sim com a cidade, esse conjunto de resistências solitárias”. (2)

Foi um reencontro feliz com a cidade em que vivi o final dos anos 90 e início dos anos 2000 - no bairro do Pinheirinho, vizinho do Capão Raso, onde o escritor passou a maior parte da sua vida; hoje, ele reside no Centro de Curitiba. Minha rua, a La Salle, terminava na Rua Nicola Pelanda – uma homenagem ao imigrante italiano que chegou ao Brasil em 1875.

Nas crônicas do escritor curitibano, reencontrei as lembranças das minhas caminhadas pelas ruas do bairro ou do centro da cidade. “Desde menino, sou leitor e pedestre. Eu era uma criança suburbana, e tanto os livros, quanto minhas incursões pelo bairro, pelo mato e, mais tarde, pelo centro de Curitiba, me davam alguma esperança de fuga. A estagnação era o meu pesadelo”. (3)

Luís Henrique Pellanda era um jovem repórter – e eu não o encontrei nas minhas peregrinações pelos caminhos da capital das araucárias. “Ao dizer que olho o mundo a partir de uma janela, falo da janela como fronteira. A crônica é um gênero fronteiriço, fica entre o jornalismo e a literatura, o real e o ficcional, o efêmero e o eterno. E a janela é esse lugar entre o dentro e o fora, o público e o privado, o lar e a rua, o eu e o outro” (4).

E como é a capital do Paraná? `”Ao falarmos de Curitiba, falaremos de miséria, crime e crise ética, exatamente como faremos quando o assunto for São Paulo, Porto Alegre ou Recife”. Ou como diz o cronista: “Resumindo e generalizando, Curitiba é uma cidade notoriamente gelada, católica e conservadora, que preserva um punhado de falsos estereótipos, tanto negativos (lugar antipático, pouco acolhedor), quanto positivos (capital social ecológica, primeiro-mundista, etc). E reconhece que “só agora começou a assumir uma bela e inesperada vocação cosmopolita” (5).

E o que é a crônica para o escritor? “Tenho treino de repórter, desenvolvi certa facilidade para fabular, certo gosto pelo diálogo de balcão, pelo papo de banco de praça. Então os temas aparecem por aí, na esquina, no café...” E ele diz: “Não concebo literatura sem densidade, e crônica, para mim, é literatura. Não tenho dúvida quanto a isso”. (6)

Qual a relação e aproximação entre o conto e a crônica? “Para mim, o autor e o narrador de uma crônica (de uma crônica minha, insisto) precisam ser a mesma pessoa. Eu. Eu respondo pelo que escrevo, com o meu nome. Ali estão as minhas crenças, as minhas dúvidas, as minhas mágoas, a minha ironia O que o narrador diz ou faz foi feito ou dito por mim. Num conto, não: o narrador pode ser uma mulher, um bailarino, um assassino, um pedófilo, um milionário, um morador de rua, um deputado, alguém, abraçado a qualquer causa, boa ou má...” (7)

Qual a fronteira entre crônica e ficção? “Penso que uma crônica literária realmente não deve ser classificada como ficção – não como um romance ou um conto podem ser ficcionais. (...) Uma crônica não é, nunca foi, nunca será aquilo que se chama não-ficção. Ela é como poesia. (...) Um poema é ficção ou não ficção? Nenhum dos dois. Assim é a crônica. Não reproduz o real. Mas não é uma invenção. Exige franqueza, apesar das mentiras envolvidas”(8).

Luís Henrique Pellanda nasceu em Curitiba (PR) em 1973. Escritor, músico e jornalista, é cronista do jornal “Gazeta do Povo”. Cursou Jornalismo na PUCPR; trabalhou como repórter. Foi editor e idealizador do site de crônicas “Vida Breve”, e subeditor do jornal literário “Rascunho”. Livros: “O macaco ornamental”(Bertrand Brasil, 2009); “Nós passaremos em branco” (crônicas, 2011); “Asa de sereia” (crônicas, 2013); “Detetive à deriva” (2016); organizador dos dois volumes da antologia “As melhores entrevistas do ‘Rascunho’” (2010 e 2012): os cinco últimos títulos, publicados pela Arquipélago Editorial, de Porto Alegre.

Foi pelo correio eletrônico que minha amiga Linda me revelou o cronista desconhecido para mim. Descobrir as crônicas do escritor curitibano na internet me convenceu mais uma vez que há um novo espaço para o cronista, que não depende apenas de jornal ou revista para ser lido e conhecido por seus leitores. E então foi possível navegar nas asas da imaginação, retornando em sonhos à cidade em que vivi e aprendi a amar.

NOTA

1. A citação (1) de Luís Henrique Pellanda está no artigo “LHP reúne crônicas em novo livro”, de Diogo Guedes, “Jornal do Comércio”, 07 de agosto de 2016.

2. As citações das notas 2, 3 e 4 estão na entrevista ao Jornal “O Estado de São Paulo”, 05 de outubro de 2016 (“Curitiba foge do clichê com a prosa rica de LHP”).

3. As citações do escritor das notas 5, 6, 7 e 8 estão na entrevista por Paulo Lima, no “Balaio de Notícias”, 25-março a 22-abril de 2012 (“A crônica não precisa mais de jornal para viver”).

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Um cronista da cidade de Curitiba - João dos Reis



Para Sandra Tortato, de Curitiba

“Nunca estive em alto-mar, mas aqui e agora, no Centro de Curitiba, me sinto um capitão à deriva. As velas rasgadas, os mastros partidos, a tripulação fugitiva e distante. Lá embaixo, a cidade é um oceano adormecido, falsamente pacífico. Poucas ondas, muitos náufragos. Atrás de cada janela escura, a possibilidade de um abismo” (1).

Luís Henrique Pellanda publicou em 2016 mais um livro de crônicas: “Detetive à deriva” (Arquipélago Editorial, Porto Alegre, 224 pp.). São 68 crônicas em que o escritor curitibano nos revela a cidade e seus mistérios.
Para mim, que viveu na cidade alguns anos, foi uma redescoberta. O cronista perambula pelo Centro de Curitiba - um espaço para o flâneur e observador das ruas e parques, e seus personagens anônimos e solitários.

Pegar o biarticulado Santa Cândida-Capão Raso, percorrer a Avenida República Argentina, as ruas XV de Novembro, Carlos Cavalcanti, Cruz Machado, Saldanha Marinho; vagabundear pelo Passeio Público, Largo da Ordem, pelas Praças Tiradentes, Generoso Marques e Santos Andrade foi o retorno ao meu passado de caminhante perdido na capital das araucárias.

A maioria das crônicas foram publicadas no jornal “Gazeta do Povo” em 2013-2015. “O cronista é, sobretudo, um cortejador de coincidências, e é esta condição que me leva a amarrar as pontas soltas deste e daquele acontecimento, e emaranhá-las com certo arremedo de técnica e arte até chegar a um novo laço, um nó original” (2).

Como o cronista vê a cidade? Ele nos conta: “Há uma segunda cidade no topo de Curitiba. Posso vê-la da minha sacada. Ela cresce devagar, não só nos terraços vizinhos, mas também naqueles mais distantes, que só alcanço com algum esforço, em dias de céu limpo” (3). Nas manhãs geladas ou nas tardes desoladas de domingo, ele tem a companhia dos urubus para olhar a paisagem do alto dos prédios.

O reencontro com a cidade acontece a todo o momento, em uma caminhada ou em seu observatório privilegiado: as ruas do Centro. “A cada noite eu me postava no terraço do meu apartamento na Èbano Pereira, à espera de um milagre narrativo, um olho no horizonte cada vez mais curto que nos cabe, e outro no espaço” (4).

Curitiba aos poucos se tornou uma metrópole cosmopolita. Como é possível continuar acreditando na arte do encontro? O cronista se pergunta: “Por que a vida nos permite o luxo de desprezar certos afetos?” (5).

Escrever é também invenção e imaginação. Luís Henrique Pellanda avisa que “todo bom narrador cultiva algum amor pela mentira e pela subversão”(6). Não desprezar os acasos, aprender a contemplar as coisas, as pessoas. O cronista, “pastor de acasos” (7), é o que gosta “de enigmas impossíveis, e afirma “ser um herdeiro de espantos”(8). A definição é primorosa: “o cronista é um dançarino acidental, e a natureza, sua melhor coreógrafa” (9).

As crônicas “Caveira de anjo”, “Águas cruzadas”, “O jardineiro do futuro”, “Rainha interrompida”, “O favor que ela me fez”, e “Fulano faleceu” são obras primas da literatura brasileira que eu desconhecia.

Há uma Curitiba que está no mapa da região Sul do Brasil - essa é a localização geográfica da capital do Paraná. Há uma outra cidade que carregamos conosco – plena de sentimentos e recordações, que só o cronista é capaz de nos revelar. Nela habitam todos aqueles que estão abandonados na grande cidade – e que procuram refúgio contra o desamparo e a solidão. Há em alguns momentos uma trégua na violência urbana, reconhece Luís Henrique Pellanda: “é ela que nos permite viver e amar nesta cidade com cada vez menos recursos afetivos” (10). Escrever uma narrativa, registrar uma reminiscência - é a nossa esperança de evitar o desespero e o naufrágio na multidão. “Uma história é sempre a ponte mais segura entre dois silêncios” (11).

NOTA

As citações são das crônicas:

Notas: 1.”Detetive à deriva” (p. 14); 2. “O bebê e o mar”(p. 116); 3. “O povo dos telhados”(p.75); 4. “Notícia das nuvens” (p. 69); 5. “Um modo de fazer mel” (p. 167); 6. “A história sem fundo” (p.93); 7. “Fotografia do vento”(p. 181); 8. “O jardineiro do futuro” (p. 133); 9. “Rotações e renascimentos” (p. 141); 10. ”O velho com a menina no colo” (p. 19); 11. “A onça nas ruínas” (p. 96).

terça-feira, 18 de outubro de 2016

DOIS POEMAS:José Carlos Ary dos Santos (1937-1984), poeta e declamador português



Para os meus queridos amigos-poetas

O poeta e declamador português José Carlos Ary dos Santos nasceu em Lisboa. Participou como compositor-letrista em festivais de música em Portugal. Compôs poemas para canções, cantadas por Fernando Tordo, Carlos do Carmo, Amalia Rodrigues, Mariza, entre outros. Militou no PCP (Partido Comunista Português); um “poeta do povo” e um agitador cultural depois da Revolução dos Cravos de abril de 1974.

Não há publicações no Brasil dos seus livros. Abaixo, dois poemas encontrados em pesquisa na internet.


“Epígrafe”

De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
como pré-feitos blocos de cimento.

De palavras não sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.

De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
_ expressão da multidão que está comigo.


“O sangue das palavras”

O poeta que nasce é uma criança
parida pela água torturada
uma nave que surge uma nuvem que dança
ao mesmo tempo livre e condensada.
O poeta que nasce é a matança
da palavra demente e enjeitada
que o chicote do poema torna mansa
depois de possuída e mal amada.
Quando o poeta nasce a madrugada
aperta os versos num abraço rouco
até que a noite fique esvaziada.
E enquanto das palavras pouco a pouco
surge a forma perfeita ou agitada
no mundo morre um deus ou nasce um louco.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Uma cidade: Buenos Aires – Um poeta: Atilio Jorge Castelpoggi (1919-2001) - João dos Reis




Atilio Jorge Castelpoggi nasceu em Buenos Aires. Escritor, ensaísta, poeta, compôs tangos e milongas. “Em “Apenas um cuidador de palavras”, de 1995, diz: “No fundo não sou mais que um jogador que aposta no mistério”. Foi o poeta que cantou a sua cidade: “Faço poesia urbana, quer dizer, poesia portenha; se entendem que, todavia, é metafísica, é porque, naturalmente, na paisagem está o homem”.

POEMA: “Destino” (com a tradução em seguida)

Yo estaré a tu lado siempre en las mañanas al salir el
sol
estaré en los atardeceres en que el verde de los parques
se hace amparo de la noche,
en que la noche se hace lugar de cita para el destino
de los enamorados.
Estaré en médio de la ciudad que imprime gritos
y bocinas,
en médio de la ciudad callada al borde de un lecho en
despedida,
entre la gente que indiferente pasa como una multitud
desconocida,
en los recuerdos, cuando los pensamientos son grandes
rios corriendo hacia el pasado,
en médio de una lagrima posada entre tu nombre,
en el conocimimeinto de tu cuerpo que tiene un lenguaje
suspendido a la altura donde nace la vida,
entre la risa azul de las cascadas de unos dientes que
muerden el amor,
en la desesperada tristeza de unos llantos reprimidos,
en la olas salvajes que desatan las injusticias de la
tierra,
y el contorno de una mañana mejor que avanza
lentamente.
En él estaré yo,
no olvides de esperarme apretando tus grandes
corazones como una frente de amor interminable.

POEMA: “Destino” (tradução de Bella Jozef)

Estarei sempre a teu lado nas manhãs quando sai o
sol,
Estarei nos entardeceres em que o verde dos parques
faz-se abrigo da noite,
onde a noite se torna lugar de encontro para o destino
dos enamorados.
Estarei no meio da cidade que imprime gritos e
buzinas,
no meio da cidade calada à beira de um leito em
despedida,
entre as pessoas que indiferentes passam qual multidão
desconhecida,
nas lembranças, quando os pensamentos são rios grandes
correndo em direção ao passado,
no centro de uma lágrima pousada em teu nome,
no crescimento de teu corpo que tem uma linguagem
suspensa na altura onde nasce a vida,
entre o riso azul das cascatas de alguns dentes que
mordem o amor,
na desesperada tristeza de prantos reprimidos,
nas ondas selvagens que desatam as injustiças da
terra,
e no contorno de um amanhã melhor que avança
lentamente.
Nele estarei eu,
não te esqueças de esperar-me apertando teus grandes
corações como uma frente de amor interminável.

NOTA

1. A primeira citação de Castelpoggi, "No fundo..." está no site www.epdlp.com; e a segunda,
“Faço poesia urbana...” está em “La Nación”, 02/05/2001;

2. Poema “Destino”, em “Poesia argentina – 1940-1960”, edição bilíngue, seleção, prefácio e tradução de Bella Jozef, Editora Iluminuras, São Paulo, 1990, pp.74 e 75

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

À procura do escritor curitibano Jamil Snege (1939-2003) - João dos Reis



Para os meus caros amigos de Curitiba e região metropolitana

Como tornar-se invisível em Curitiba? “Cada conquista, cada livro publicado, cada poema, escultura ou canção, cada tela e espetáculo, disco, filme ou fotografia, cada intervenção bem sucedida no esporte, no direito ou na medicina, cada vez que alguém, lá fora, reconhecer com isenção de ânimo que você está produzindo obra ou feito significativo – o seu grau de invisibilidade aumenta em Curitiba” (p. 10), escreveu Jamil Snege em “Como tornar-se invisível em Curitiba”, primeira das crônicas e que é também o título do livro (Criar Edições, Curitiba, 2000, 88 pp).

Fui leitor das suas crônicas no jornal “Gazeta do Povo”. “... Não há gesto tão profundamente humano quanto uma despedida. É aquele momento em que renunciamos não apenas à pessoa amada, mas a nós mesmos, ao mundo, ao universo inteiro. (...) E não há sentimento mais absoluto do que a solidão em que somos lançados após o derradeiro abraço, o último e desesperado entrelaçar de mãos”, escreve em “Para matar um grande amor”(p. 19).

O cronista da cidade, escreve em “Canto de amor e desamor a Curitiba”: “Há uma Curitiba cruel, outra fiel. Uma que aprisiona e maltrata, outra que cura tuas feridas com a salivinha gelada dos rocios (...) Uma Curitiba espectral, cindida por navalhas e gritos, o brilho da morte coagulado nos metais, e uma Curitiba matinal, maternal, que indeniza o filho pródigo com um prato de mingau polvilhado de açúcar. (...) Uma Curitiba de refresco de framboesa, inocente e eucarística, que se pronuncia com um travo de fruta verde na língua, e uma Curitiba que é uma interlocução de lábios bambos, bares afora, num ritual caudaloso de imprecações e blasfêmias”(pp.39-40).

Com ironia, o escritor provoca aqueles que dizem “a literatura paranaense não existe”. Em “A arte de tocar piano de borracha”, ele apresenta a proposta e compromisso de escrever,”no prazo de um ano, um romance ou novela tão bom quanto qualquer Garcia Márquez”. A condição: “oferecessem uma bolsa de dois mil dólares por mês, durante um ano, e eu devolveria a quantia recebida, acrescida de juros de 6%, se ao cabo desse período não produzisse nada à altura do mestre colombiano” (p. 72).

Jamil Snege, filho de Antonio Snege e Anita Bassani, nasceu em 1939 em Curitiba, no bairro Água Verde, onde sempre viveu; escritor e publicitário, cursou Sociologia e Política na PUC-PR. Sua casa, na Rua Eng. Rebouças, foi ponto de encontro dos intelectuais da cidade. Foi de 1997 a 2003 cronista do Jornal “Gazeta do Povo”. Recusou a publicação dos seus livros por grandes editoras; escolheu publicá-los artesanalmente ou por editoras locais. Alguns dos seus livros: “O jardim”, “A tempestade” (contos), “Como eu se fiz por si mesmo” (memórias), “Os verões da grande leitoa branca” (contos), “Viver é prejudicial à saúde”.

Eu perambulava pelos parques e ruas e descobria que há uma cidade “que extravia teus passos por um labirinto de espelhos enevoados, outra que te reconduz, intacto, ao mundo das concretudes e das transparências” (p. 39). No Bar Stuart na Praça Osório, no Bar do Ligeirinho na Alameda Dr. Carlos de Carvalho, caminhando na Rua das Flores e no Passeio Público, frequentando a sala da Cinemateca, visitando museus e exposições, indo ao teatro e a shows de música, eu me perguntava: e se um dia encontrar o escritor?

Jamil Snege revelou para mim a cidade “que te promete um paraíso de campos bordados de bostas, onde vacas opalescentes ruminam tenros crepúsculos, e uma Curitiba que te atira no inferno da existência, no qual demônios de hálito doce e ancas lascivas rasgam tua carne com unhas esmaltadas de gangrena” (p. 40). Sabia que ele lutava contra um câncer com galhardia, e minha busca foi em vão - ele faleceu em 2003.

A Curitiba “de afogados, degolados e suicidas”, “dos puros, dos corações desarmados, daqueles que a cada manhã refazem a teia de suas vidas” (p. 40) ainda não reconheceu o maior cronista da cidade. Seus livros estão esgotados, encontrados apenas nos sebos, e não há ainda um projeto de republicação da sua obra.

NOTA

O livro “Como ser invisível em Curitiba” reune 25 crônicas de Jamil Snege. Escolhi quatro delas para a apresentação do cronista que escreveu com humor e irreverência sobre a cidade de Curitiba.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Um filme: “Serras da Desordem” (2006), de Andrea Tonacci - João dos Reis


Um filme: “Serras da Desordem” (2006), de Andrea Tonacci

A aldeia dos awá-guajá foi invadida por madereiros e fazendeiros em 1977 - e Carapiru sobreviveu ao massacre. Durante dez anos, perambulou solitário – um nômade refugiado no sertão - por vários Estados brasileiros, até ser encontrado na Bahia em 1988. Esse é o ponto de partida do filme de Andrea Tonacci, “Serras da Desordem” (2006, 2 horas e 16 minutos).

Com uma bolsa da Fundação Vitae, Tonacci refez a epopéia do índio, convencendo-o e as pessoas com quem teve contato, a participar do filme – filmado em preto e branco e em cores, uma mistura de ficção e documentário.

“Apesar de se tratar da história de um índio, ‘Serras da Desordem’ não é um filme sobre índios, é sobre nós, sobre o ser humano, sobre nosso olhar e nossa invasão do território físico e da alma dos outros. Esse outro que afinal somos nós mesmos” (“Tonacci flagra homem levado ‘pela roda da vida’”, artigo de José Geraldo Couto, “Folha de São Paulo”, 28 de março de 2006).

“Serras da Desordem” utiliza imagens de arquivo, telejornais da época – e o mais importante, conta com a participação de pessoas reais, como o próprio Carapiru. “Uma história fabulosa: a de um homem só que vaga por anos pelo interior do Brasil, é acolhido por brancos como uma espécie de bicho de estimação, mais tarde resgatado pela Fundação Nacional do Índio e levado a Brasília” (“Odisséia de índio resulta em fascinante aventura do cinema”, artigo de Inácio Araujo, “Folha de São Paulo”, 28 de março de 2006).

É o registro cinematográfico de uma perda – a vida selvagem paradisíaca destruída pela violência do homem branco. E também a odisséia de um homem que, no final do século XX, enfrenta solitariamente o seu destino. E, finalmente, o momento do reencontro com o filho, Txiramukum, um outro sobrevivente do ataque ao grupo indígena.

É a saga “de um homem que leva sua vida e seu povo resumidos nas costas, nos poucos objetos que carrega solitariamente – e também com a mais fascinante aventura a que se permitiu o cinema neste século 21, aqui no Brasil”, escreve Inácio Araújo.

Foram 140 horas de material, oito horas em 35 mm, e o restante em mini-dv, diz Tonacci para a ”Contracampo – revista de cinema” (entrevista em 2005 para Daniel Caetano, Francis Vagner, Francisco Guarnieri e Guilherme Martins).

Por que retomo a biografia do índio awá-guajá Carapiru? Em Avaí, vizinha da cidade onde nasci, Duartina, no interior do Estado de São Paulo, há a Reserva Indígena Araribá, criada em 1913. Há quatro aldeias – Kopenoty, Nimuendajú, Ekeruá e Tereguá – de terenas, guaranis, kaigangs, krenacs. Visitei-as nos anos 70 – foi um jovem índio que me mostrou o território – e me lembro da falta de perspectivas, de isolamento da comunidade.

Andrea Tonacci nasceu em 1944 em Roma, e vive no Brasil desde 1953. Um dos diretores do movimento Cinema Marginal nos anos 70. Ganhou o Kikito como melhor diretor em 2006 no Festival de Gramado com “Serras da Desordem”. Alguns dos seus filmes: “Os araras” (1980-81), “Guaranis do Espirito Santo” (1979),“Conversas do Maranhão” (1977-83.) “Serras da Desordem” ficou pouco tempo em cartaz no circuito comercial em São Paulo. Mas é um “aldeiabuster” (segundo expressão de Tonacci), assistido e debatido nas aldeias espalhadas pelo Brasil.

Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2006, depois da assistir a “Serras da Desordem”, saí emocionado da sala de cinema da rua Fradique Coutinho. Não consegui registrar o que despertou a avalanche de emoções: a identificação com a solidão de um personagem que optou por recusar radicalmente a vida em comunidade? A resistência inglória de um awá-guajá diante da violência da chamada “civilização ocidental”?

NOTA

1. A entrevista de Andrea Tonacci à “Contracampo – revista de cinema”, de 2005, está disponível na internet.
2. O filme “Serras da Desordem” está disponível no Youtube.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Anotações sobre a cultura indígena no Brasil - João dos Reis



Para Efraín, Quica, Juan Fernando e Guillermo, de Montevidéu

“No começo só havia Mavutsinin. Ninguém vivia com ele. Não tinha mulher. Não tinha filhos, nenhum parente ele tinha. Era só. Um dia ele fez uma concha virar mulher e casou com ela. Quando o filho nasceu, perguntou para a esposa: _É homem ou mulher? _ É homem. _ Vou levar ele comigo. E foi embora. A mãe do menino chorou e voltou para a aldeia dela, a lagoa, onde virou concha outra vez. _ Nós, dizem os índios – somos netos do filho de Mavutsinin” – Mito Kamaiurá (p. 55).

Era uma das histórias que lia e comentava com meus anos no primeiro ano do curso colegial. Para falar sobre mito e razão – a linguagem mítica e a linguagem filosófica. Na aula de Filosofia, refletia sobre o desconhecimento no Brasil da questão indígena.
“Ìndios do Brasil” (Editora de Brasília, 1970, 208 pp) de Julio Cesar Mellatti foi uma consulta valiosa. O autor escreve que em 1957 havia 143 grupos tribais - com informações sobre a população de apenas 109 – e 33 viviam isolados. Em 1900, eram 230 grupos tribais – e em meio século, 87 desapareceram (p. 37-38).
“Xingu, os índios, seus mitos” (Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1974, 3ª edição, 212 pp), de Orlando e Claudio Villas Boas, foi uma descoberta da cultura indígena xinguana. Com a criação em 1961 do Parque Nacional do Xingu, os índios tiveram a proteção contra os invasores de seu território. Nas primeiras décadas do século 20, muitas tribos desapareceram da região do Alto Xingu, entre eles: Anumaniás, Arupati, Maritsauá, Iarumá, Aualáta; havia poucos sobreviventes, espalhados por várias aldeias: Tsúva, Naruvôt, Nafuquá , Kutenábu (p. 31). Outros dois grupos tribais continuavam arredios ao contato com os irmãos sertanistas nos anos 70: os Agavotoqueng, os Auaicu e os Miarrãs.
“A maioria das histórias registradas, não fugindo à regra geral dos mitos, encerra uma interpretação do mundo através de uma maneira peculiar de explicar a natureza e a origem das coisas, como: a conquista do dia; a obtenção do fogo; a formação dos rios (...) Revelam uma maneira de conceber o mundo, como também explicam e fundamentam os principais traços espirituais, morais e materiais da cultura...” (Orlando e Cláudio Villas Boas, p. 50).
O Parque Nacional do Xingu tem hoje 2.797.491 hectares, habitado pelas etnias Aweti, Kalapalo, Kamaiurá, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahukwá, Trumai, Wauga, Yawalapiti, Ikpeng, Kaiabi, Yudjá e Suyá, segundo levantamento da Unifesp em 2002. Hoje, a Associação Terra Indígena Xingu e o Instituto Socioambiental, tem uma parceria, o Projeto Fronteiras – e realiza um mapeamento por fotos de satélite das ameaças de invasão do território indígena ou de queimadas.
E quais as línguas faladas pelos índios brasileiros? No livro de Melatti (páginas 41 a 50), e no portal do ISA (Instituto socioambiental), secção Povos Indigenas do Brasil, há várias famílias: a tupi-guarani (Kamaiurá e Kaiabi); a Juruna (Yudja); a Aweti (dos Awetis); a Aruak (Mehinako, Wauja e Yawalapiti); a Karib (Ikpeng, Kalapalo, Kuikuro, Matipu, Nahukwá e Navurutu); a Jê (Kisedjê e Tapayuna); e uma íngua não classificada: Trumai.
Estive no início dos anos 80 em um almoço na casa de um companheiro, militante do Partido dos Trabalhadores de Itanhaém – e conheci dois jovens índios: Ailton Krenak (Ailton Alves Lacerda Krenak) e Alvaro Tukano (Alvaro Fernandes Sampaio). Foi um dia de confraternização, de passeio pela praia – e voltamos para São Paulo no mesmo carro. Foi um tempo em que acreditávamos no final da ditadura militar e na redemocratização do país. Hoje, Ailton Krenak e Alvaro Tukano são lideres do movimento indígena no Brasil.
NOTA
1. O mito Kamaiurá (“Mavutsinin, o primeiro homem”) e a citação de Orlando e Claudio Villas Boas são do livro “Xingu, os índios, seus mitos”.
2. No Apêndice e na Bibliografia do livro de 1970 do antropólogo Julio Cesar Melatti (páginas 187 a 208) há uma relação de estudos, monografias, livros e artigos sobre a questão indígena; hoje, essa indicação deve ser muito maior.
3. Há informações mais atualizadas da questão indígena, de Ailton Krenak e Alvaro Tukano, do Parque Nacional do Xingu, em vários portais. Indico o do ISA (Instituto socioambiental):
Povos Indígenas no Brasil - Instituto Socioambiental

domingo, 25 de setembro de 2016

TEXTO/RESENHA - Oswaldo França Junior, o aviador-escritor- e "O homem de macacão" - João dos Reis



Oswaldo França Junior, o aviador-escritor - e “O homem de macacão”

Um aviador que se tornou escritor. A biografia de Oswaldo França Junior está ligada a um dos fatos mais dramáticos da História brasileira. Participou do grupo que planejou bombardear em 1961 a sede do governo do Rio Grande do Sul em Porto Alegre. Leonel Brizola, com a Cadeia da Legalidade, resistiu ao golpe que impedia a posse de João Goulart na Presidência da República, depois da renúncia de Janio Quadros.

O tenente França era chefe do setor de informação da unidade de combate do 14º Grupo de Aviação. “Recebi ordens de calcular o quanto de combustível ia ser usado e quanto tempo os aviões poderiam ficar no ar. Dezesseis aviões foram armados para a operação”. Cada avião iria levar quatro bombas de 240 libras, 15 foguetes, além de quatro canhões. “Os aviões foram armados. Nós nos preparamos. Colocamos as bombas e os foguetes nos aviões. (...) O avião de caça só leva uma pessoa, o piloto. Mas é necessário ter uma equipe grande de apoio no solo. E essa equipe, formada principalmente por sargentos, impediu a decolagem dos aviões... esvaziando os pneus” (ver nota 1).

Foi surpreendente conhecer o universo literário do escritor-aviador. Seus personagens estão sempre à procura de um lugar para viver – e esbarram nos tropeços da vida cotidiana. Estão à procura da companhia de amigos e de mulheres – e encontram neles o mesmo desencanto e desencontros.

Em “O homem de macacão” (Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1984, 2ª edição, 132 pp.), o mecânico-proprietário de uma oficina de automóveis conta suas desventuras no caminho conflituado das relações humanas. “À medida que vou vivendo, procuro alcançar duas coisas. Simplificar meus pensamentos e aceitar os outros como ele são” (p. 14).

É uma busca nem sempre tranquila para tentar compreender o outro. No livro não aparece a família da maioria dos personagens – e não sabemos quem são, onde vivem ou se já estão mortos. A solidão está presente naqueles que buscam um sentido para o trabalho e a vida. “Eu tentava mostrar que as coisas desagradáveis que acontecem conosco não podem estragar toda nossa vida. (...) Eu tinha boas intenções. Cheguei a plantar flores na frente de casa. E uma vez ela, quando me olhava podar as roseiras, disse que naquela casa talvez pudesse ter sido feliz, se eu não a tivesse encontrado já marcada por tantos sofrimentos” (p. 20).

Oswaldo França Junior nasceu no Serro, Minas Gerais, em 1936. Foi militar da Força Aérea Brasileira; depois do golpe militar de 1964, foi expulso da Aeronáutica pelo Ato Institucional número 2. Em Belo Horizonte, foi motorista de táxi, e depois, corretor do mercado de capitais, de imóveis, vendedor de carros, entre outras atividades. Seu segundo romance, “Jorge, um brasileiro”, ganhou o Prêmio Walmap de Literatura em 1967. Livros: “A volta para Marilda”; “Os dois irmãos”; “As lembranças de Eliana”, “À procura dos motivos”, “Aqui e em outros lugares”, entre outros.

Ler os seus livros foi uma redescoberta da realidade brasileira contemporânea – personagens da periferia da cidade, trabalhadores, desempregados – os desgarrados. “Estou me encaminhando para concordar que a carga de significação das palavras no texto é o mais importante. Não transmitir emoções, exatamente, mas despertar o leitor, desencadear um processo de sensibilização. Causar a quebra da inércia no seu modo usual de julgar o significado das palavras do texto” (ver nota 2).

O ficcionista buscou uma nova linguagem – um diálogo apaixonado com o leitor. “Então, fico perseguindo uma linguagem que se aproxime cada vez mais da linguagem falada, porque, quanto mais você se aproxima dessa linguagem, maior é o universo que você consegue atingir, maior o número de pessoas que vão sentir as emoções que você quer transmitir” (ver nota 2).

Oswaldo França Junior levou vinte anos para escrever sobre a sua experiência de aviador: “O passo-bandeira – uma história de aviadores”. Conhecemos a entrevista em que conta a sua participação no plano militar em 1961 em Porto Alegre; mas não há uma narrativa, mesmo ficcional, do escritor da crise política-militar que poderia ter um final trágico. Não saberemos a visão do romancista - exigente no ofício de construção das palavras - porque ele morreu em um acidente de carro em 1989.

NOTA

1. Trechos da entrevista, pp. 17, 18 e 19, da edição especial “Lembranças de Oswaldo França Junior” do Suplemento Literário da Secretaria de Cultura de Minas Gerais, outubro de 2009, gravada por Geneton de Moraes Neto em 1987, e publicada no Caderno Ideias e Livros do Jornal do Brasil.

2. As duas citações de Oswaldo França são do Suplemento Literário de Minas Gerais - 30 de novembro de 1971 e de janeiro de 1989 -, e foram retiradas dos artigos de Melânia Silva Aguiar e Angela Maria Salgueiro Marques na edição especial do suplemento de outubro de 2009.

3. O filme “Jorge, um brasileiro”, 1 h. e 56 min., de 1988, de Paulo Thiago, com roteiro baseado no livro de Oswaldo França Junior, está disponível no Youtube. O seriado para televisão, “Carga pesada”, foi também inspirado no livro.

sábado, 3 de setembro de 2016

Literatura: o escritor libanês-catarinense Salim Miguel (1924-2016 - João dos Reis







Yussef-José perguntou ao filho Salim, de dez anos, “o que ele pretendia fazer na vida” – e ele respondeu que “queria ler e escrever”. Anos depois, o pai foi a Florianópolis e comprou uma máquina de escrever para o escritor. Biguaçu, uma pequena cidade de Santa Catarina, tinha uma livraria – e Salim propôs ao proprietário que aceitasse a troca de livros, depois de comprá-los e lê-los. O dono, que era poeta e cego, apresentou outra proposta: que ele poderia ler na livraria – e, como também tinha “fome de leitura”, que lêsse os livros para ele. Foi o inicio da carreira do leitor e escritor libanês-catarinense, Salim Miguel.

“Melhores contos – Salim Miguel” (seleção de Regina Dalcastagnè, Editora Global, São Paulo, 2009, 222 pp.) foi o reencontro com a literatura do Sul, redescoberta no período que vivi na capital paranaense.

A busca da linguagem da memória está presente nos contos do escritor catarinense. Na cidadezinha onde passou a infância e adolescência, na vendola do pai, é o mundo que se descortina: “Homens rudes vêm abarcar-se ali, lagartear, beber uma pinga, comprar gêneros, conversar, reclamar das dificuldades, mercadejar, saber das novidades, tão poucas”. As narrativas de Ti’Adão, um ex-escravo, reaparecem; e também as do Líbano, contadas pela mãe: “procura reviver aquele Líbano longínquo, a viagem de navio, antes ainda, o vilarejo perdido (...), a parada na África, depois em Marselha...” (“Outubro, 1930”, pp. 44 e 45).

Há uma literatura do imigrante no Brasil que os ensaístas ainda não deram atenção – disse Salim Miguel em uma entrevista. Eu diria que a marca da ficção do escritor libanês-catarinense não é apenas o papel do imigrante, mas a reconstrução: “Estás, novamente, tentando reconstruir, reconstruir. Um passado fugidio e esquivo se abre diante de ti. Tu o recompões peça a peça. Mais: tu és parte dele. E se não o tens em ti como acontecido, tu o inventas com inteira liberdade à tua imagem e semelhança. Ele passa a acontecer. Existiu e tu exististe nele” (“Atenção, firme”, p. 73).

Alguns dos contos mais belos são sobre a solidão dos velhos. “Mas os acontecimentos, embora em sequência lógica e nítidos, se fundem, recuam, avançam... Agora o cansaço é maior, mergulho mais fundo no íntimo de mim mesmo. Aqui, donde estou, nesta cadeira que já faz parte de meu ser, o presente é ilusão, inexiste, o passado se faz presente, vive e vibra” (“O gramofone”, p. 18).

Os jovens também estão em conflito com o mundo, como o personagem-narrador em “Velhice, um”: “Odiava a companhia de pessoas que não me compreendiam, me interrogavam. E me odiava por necessitar delas, por não me bastar, por não poder viver sem o contato dos outros. (...)Fechava-me num mutismo indelicado, sem nome, brusco...” (p. 97).

Para aqueles que estão sempre viajando para o passado, não há saídas: “O tempo nos tragou, já passou a nossa época, nada mais entendemos deste mundo de hoje, tão diverso do nosso. Vivo de recordações...(...) No ar que respiramos, onde dormimos, o que comemos, uma paisagem vista, um riso que mais agradava aos nossos, como tudo isto vive, os transporta ao passado, de repente cresce, para nós, fazendo submergir todo o presente...” (“Velhice, dois”, pp. 113 e 114).

Na ficção do escritor-imigrante, há personagens desgarrados, errantes: eles buscam uma saída para as incertezas do presente e ausência de futuro. Estão em busca de trabalho, mas também de um sentido para a vida, perdidos em andanças pelo Sul: “É assim: vou andando por esse mundão sem fim, quando falta o de comer, paro, trabalho um pouco, não me acerto, largo e continuo a andar...(...) Nem queira saber: apanhei frio e calor, chuvas e geadas, dormi nas estradas, debaixo de árvores, nos matos, nalgum rancho que encontrava vazio” (“Sem rumo”, p. 181). Ou desamparados na pequena cidade interiorana: “Nas intermináveis conversas das noites sem fim traçam planos de grandes jogadas, o que farão lá fora, o lá fora abarcando um mundo novo, de aventuras, emoção, conquistas. Impossível continuar naquele não viver sem perspectivas. (...) Mas amanhã vai ser diferente. Amanhã vamos largar tudo. Amanhã vamos nos mandar para sempre, para longe, bem longe” (“Amanhã”, pp. 202 e 203).

Salim Miguel nasceu em 1924 em Kfarsouroun, no Líbano; veio para o Brasil com três anos. Biguaçu, na Grande Florianópolis, onde a família se instalou, foi o cenário de seus personagens e obra literária. Nos anos 40 e 50, com Eglê Malheiros, com quem se casou, participou do Grupo Sul, um movimento modernista artístico e literário de Santa Catarina. Contista, cronista, romancista, jornalista e ensaísta; nos anos 70. foi um dos editores da revista “Ficção”. Esteve preso um mês e meio depois do golpe de 1964; a sua livraria em Florianópolis foi saqueada, e os livros queimados em uma fogueira na rua; na prisão, escreveu um diário - publicou “Primeiro de abril: narrativas da cadeia” em 1994. Livros: “Velhice e outros contos”, de 1951; “A morte do tenente e outras mortes”; “Vida breve de Sezefredo Neves”; “Mare nostrum”; “Nur na escuridão”; A voz submersa”; “As areias do tempo”; “O sabor da fome”, entre outros.

Em 2013, Eglê e Salim doaram os seus livros, revistas, objetos pessoais para o Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas da Universidade do Estado de Santa Catarina. Nos últimos anos, com problema de visão, o escritor dependia de outros para a leitura - faleceu em 22 de abril de 2016.

NOTA

1. Na seleção de 2009 da Editora Global, há quinze contos de Salim Miguel. Escolhi sete deles para recordar o escritor – “O gramofone”, “Outubro, 1930”, “Atenção, firme”, “Velhice, um”, “Velhice, dois”, “Sem rumo”, e “Amanhã”.
2. O filme-documentário “Salim Miguel na intimidade - Maktub”, em 3 partes, direção de Zeca Nunes Pires, 2012, no total de 80 minutos, está disponível no Youtube.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Recordações de um contador de histórias: Curitiba - 2 - João dos Reis



“Quem chorava em meu sonho?
Eu ia, deslembrada,
pelos caminhos sem nexo
do escuro sono,
quando alguém soluçou.
Onde, nas algas profundas,
se enredava essa dor?
(Seu pranto doía no mundo)”.
- poema “Escuros caminhos”, Helena Kolody

O que podemos esperar da arte do encontro? O prazer de dividir ideias e sonhos; um universo de imagens e palavras: a solidariedade, a amizade, a ternura. É a “delicadeza de uma engrenagem que se movimenta”: e nos traz momentos de alegria e felicidade. Instantes em que as “palavras-estrelas” da poetisa Helena Kolody se apresentam para o diálogo, para a confraternização. Onde duas ou mais pessoas estão juntas, acreditamos que o uso da linguagem impede o domínio da tristeza, da desolação. E, contra os que estão sem esperanças, podemos afirmar: não precisamos de muito mais coisas. É o que buscam os nômades do nosso planeta: uma confraria dos viajantes em busca de um mundo melhor, onde não há lugar para a solidão, a dor, o sofrimento.
Martha Teixeira da Cunha e José Mauro dos Santos, da Casa do Contador de histórias de Curitiba, me pediram esse texto acima de oito linhas “sobre a arte do encontro”. Decidi prolongar a redação, tornando-o o prólogo à crônica e recordações com o grupo na capital paranaense.

O curso “A arte de contar histórias” no SESC, em 2000, com Martha e José Mauro dos Santos, despertou as recordações de duas personagens importantes para mim: Celina Guimarães Hardy, de 75 anos, e Arthur Antunes, de 4 anos. Eles estiveram próximos quando eu procurava combater o ceticismo radical: uma luta inglória para encontrar um sentido para o trabalho e a vida.

Procurei me dedicar aos contos infantis; comprei alguns livros que contribuíram para a minha pesquisa e leitura. Tive o privilégio de ter um ouvinte interessado: Arthur adorou a descoberta da literatura oral – e eu fiquei surpreso com o encanto que as palavras despertavam.

Me engajei no voluntariado do Hospital do Trabalhador. Foi um curto período em que, uma vez por semana, durante mais ou menos duas horas: na Pediatria, contava histórias; na Ala dos adultos, perguntava aos pacientes se queriam ouvir poemas ou notícias de jornal. Foi uma longa jornada: um combate contra a desesperança daqueles que se sentiam fragilizados.

Às vezes me interrogava: como os pais das crianças e os adultos viam a minha presença temporária? Lembro de que alguns me perguntaram: quando eu voltaria ao hospital? Em geral, conversei muito mais com os piás.
No curso de orientação para o voluntariado, descobrimos que estava proibida a nós, voluntários, a Ala do hospital das doenças infecto-contagiosas: ao passar em frente ao acesso a esse espaço, imaginava o isolamento e angústia atrás daquela porta.

Havia muitos outros voluntários; aqueles que participavam na organização e controle na lavanderia, por exemplo, foi um dos que mais admirava: as roupas dos pacientes internados são reduzidas a apenas toalhas e lençóis. Refleti ao ver os meus ouvintes desamparados: era como uma viagem, muitas vezes sem volta, em que estamos quase nus, sem as vestes de uso pessoal.

Celina foi como voluntária – para contar histórias - no Instituto Paranaense dos Cegos. Em conversas, trocamos impressões da incursão em um mundo novo para nós. A arte do encontro é também a do desencontro. Antes de partir de mudança da cidade, recordei que tinha uma dívida com ela: planejávamos um encontro à tarde, tomar um chá, ir ao cinema, refletir sobre a nossa vivência com a literatura – o que não aconteceu. Com Arthur, a despedida teve momentos felizes: um dia inteiro para passear: almoçamos, caminhamos e nos divertimos nos brinquedos do Parque Barigui.

Houve no hospital uma feira e confraternização dos voluntários em um fim de semana. As mulheres internadas com HIV doaram artesanato realizados por elas nesse confinamento forçado: peças de crochês ou bordadas à mão. Comprei e presenteei Martha com uma toalhinha confeccionada por uma paciente da ala do isolamento. Fiquei devendo um presente para Mauro; mais de uma década depois, dedico essas linhas a ele, com a minha gratidão.

NOTA

O poema “Escuros caminhos”, de Helena Kolody, está na página 122 da antologia “Luz infinita”, Museu-Biblioteca Ucranianos em Curitiba, 1997, edição bilíngue português-ucraniano, 204 pp.

terça-feira, 16 de agosto de 2016


Curitiba: recordações de um contador de histórias - João dos Reis




“Meus olhos estão olhando
de muito longe, de muito longe,
das infinitas distâncias
dos abismos interiores.
Meus olhos estão a olhar do extremo longínquo
para você que está diante de mim.
Se eu estendesse a mão, tocaria a sua face.
- poema “Abismal”, Helena Kolody

Era uma noite feliz aquela de 2001 em Curitiba. Para comemorar o fim do curso de Contação de Histórias, Celina Guimarães Hardy e uma amiga ofereceram um jantar – e o prato foi o barreado, tradicional do Paraná.
Éramos uma pequena turma no curso para formação de contadores de histórias no SESC com a psicóloga Martha Teixeira da Cunha e o ator-educador José Mauro dos Santos. Depois do final do curso, aos sábados, fazíamos exercícios práticos: contávamos histórias – e prolongávamos os encontros em outros jantares em casas de companheiros de curso.

Escolhemos um trabalho voluntário no Hospital do Trabalhador, no bairro Novo Mundo. Participamos juntos das palestras de orientação para o voluntariado no hospital; mas depois, Celina preferiu o Instituto Paranaense dos Cegos, na Avenida Visconde de Guarapuava. Como foi a recepção das crianças e seus pais da Pediatria onde contei histórias? Como foi o contato de Celina com quem perdeu a visão, mas tem a audição para conhecer o mundo? Conversamos muitas vezes sobre as nossas novas atividades – e aprendemos com essa troca de experiências. Foram muitas as questões que nos colocávamos: o curso nos deu a teoria, mas era na prática que refletíamos sobre nosso aprendizado.

Eu decidi inovar: na Ala dos adultos do hospital, li e comentei notícias de jornal – e depois, leitura de poemas, que me revelou o poder da imaginação poética. Como os adultos recebiam essa intervenção na dura realidade hospitalar, um espaço de dor e sofrimento?

Em três casos, para os pacientes, ouvir histórias não foi apenas uma vivência estética, mas terapêutica. Foi surpreendente: um jovem e uma senhora me contaram suas vidas – e como pretendiam mudá-la radicalmente. Um menino chorava desesperado com a proximidade da cirurgia – e só se acalmou com as histórias que narrei; depois, acompanhei-o até à porta do centro cirúrgico. Foram momentos que nunca esquecerei: eles sentiam-se desamparados, e a literatura provocou a reflexão: havia esperança de dias mais belos e felizes.

Depois de três décadas lendo, estudando e lecionando Filosofia, escolhi me especializar em contos infantis. E tive lições práticas de contador de histórias com o pequeno Arthur, de 4 anos: ele foi meu ouvinte atencioso e muito querido. O que mais me surpreendeu é que ele sempre me pedia para contar de novo as mesmas histórias – e principalmente, “O patinho feio”, também a minha preferida na infância: lembrava com emoção que foi o primeiro livro que ganhei da tia Anna Rosa, depois de alfabetizado. Procurei incentivar a participação dele: contava uma parte de narrativa e, como ele já a conhecia, pedia para ele continuar, e íamos recriando juntos a história até o final.

Celina nasceu na cidade do Rio de Janeiro; cursou Psicologia e Assistência Social, e morava há muitos anos em Curitiba. Fiquei devendo a ela um encontro em uma tarde - em que tomaríamos chá, iríamos ao cinema, continuaríamos a troca de impressões sobre a nossa aventura no universo das histórias.

Celina esteve doente; eu fraturei o ombro – e interrompemos nosso trabalho voluntário. Parti definitivamente para São Paulo em 2005, e preocupado com problemas familiares, me despedi de poucos amigos. Avisei Ewerton, o pai de Arthur, que iria visitar o piá na escola - e levei de presente de despedida o livro “Contos completos”, dos Irmãos Grimm. Pensei: um dia volto para reencontrar a todos. Retornei oito anos depois, revi Arthur e alguns dos "companheiros de viagem" na cidade de Curitiba, mas não encontrei Celina – ela faleceu em 2009 aos 84 anos.

NOTA

Receita do barreado

“É feito só de carne, que fica a cozinhar durante mais de 12 horas, dentro de um panelão de barro, hermeticamente fechado, que se enterra e sobre o qual se acende uma fogueira. O cozimento se faz com o próprio vapor, sem que seja adicionada água alguma. A carne fica tão cozida que se desfia à toa, tomando o aspecto de um pirão.(...) O barreado é comido com acompanhamento de banana e farinha de goma (mandioca)”. A receita do barreado foi cedida à autora pelo professor Luís Heitor, que a conseguiu em Curitiba: “Coloca-se no fundo de uma panela de barro tiras de toucinho, pondo-se carne gorda e magra em seguida, acompanhada dos temperos: tominho, cebola, salsa, cebolinha, alho, tomates, pimenta de cheiro e limão. Calafetam-se as bordas da panela com uma goma de farinha de mandioca, prendendo-se a tampa por meio de tiras de papel. Além de tudo isso, ainda se amarra para evitar que o vapor se escape. Algumas vezes o barreado se faz, colocando a panela sobre a chapa do fogão, e a fogo lento, durante toda a noite e indo pela manhã adentro até o almoço para se processar o cozimento (...)”.

Mariza Lira, “Nove sopas. Barreado. A origem da mãe-benta”, em “Antologia da alimentação no Brasil”, organizado por Luis da Câmara Cascudo, Livros Técnicos e Científicos Editora, Rio de Janeiro, 1977, p. 81.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

“Oporaí - Guata Porã: Awaju Poty – o canto sagrado guarani”- João dos Reis



Para o professor Flavio de Leão Bastos Pereira

Rete ymã
Há’eguy Ay
Rete pytu
Há’eguy rendy
Rete wa’ekwe
Há’eguy wa’erã.

Canção "Rete" (Corpo) - Corpo / passado e presente / Corpo / Trevas e luz / Corpo / Que foi e que virá. – música de Awaju Poty e letra de Awaju Poty/Ricardo Petracca.

O músico e pesquisador João José de Félix Pereira (Awaju Poty em guarani) produziu em 2001 um disco com 13 canções, com a participação do Grupo Amba Wera; de 11 participantes – no canto, percussão, violão, violino, violoncelo, harpa guarani, rawé, takwapu, mbaraka guaxu; e do coral de 18 crianças, homens e mulheres da aldeia Araçai, de Piraquara, na região metropolitana de Curitiba. O projeto teve o apoio da Fundação Cultural de Curitiba, Siemens e Paraná Equipamentos.

Popo lju
Ara Owy
Opawaerã hey Porã
Ejapo / Waieme
Ñandekwerupe

Canção "Popo Yju" (Borboleta amarela) -Borboleta amarela / No céu azul / Não fazer mal / A ninguém / Infinita beleza) - letra e música de Awaju Poty.

Ma’ety jau’i waerã
Ma’ety Ñanderu rete porá
Amba ma’ety rupa
Ma’ety ñanderu rete porá

Canção "Ma'ety" (Plantação) - Plantação, alimento futuro / Plantação, corpo do nosso divino pai / Lugar de excelente plantio / Plantação corpo do nosso divino pai. - letra e música de Awaju Poty.

No Paraná existem 15 mil índios – guaranis, xetás e kaigangs – em 17 terras regularizadas; há um total de 37 terras indígenas. Segundo o censo do IBGE de 2010, 25.915 se declaram índios, mas muitos vivem nas cidades. Vindos do interior do Paraná, um grupo chegou à Piraquara em 1999 – a aldeia Araçaí está em uma área de preservação ambiental, doada pelo ambientalista Jorge Grando, da Associação Paranaense de Preservação do Rio Iguaçu e Serra do Mar. Construíram casas de madeira, tem posto de saúde e escola bilíngue. Procuram manter as tradições e costumes indígenas – cantos e danças com instrumentos antigos. Vivem do artesanato, de doações e do Bolsa Família do governo federal.

Ñamandu miri, toma, e katu
Jaguata’i hãguãre
Jaupity hãguã ñanderekoare
Jawy’ á guã

Canção "Ñamandu Miri" (Pequeno Deus Sol) - Pequeno Deus Sol sagrado / Olhe a nossa caminhada / Para que nós alcancemos a felicidade / na nossa morada eterna) - letra e música de Kwaray Potygua.

João José de Félix Pereira (Awaju Poty) é coordenador do curso de Composição Musical da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap); compositor, pianista; mestrado em Comunicação Semiótica pela PUC-SP em 1995; doutorado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo em 2000. “Mborayu –o espírito que nos une – um conceito da espiritualidade guarani” –está na internet: digitando o nome do pesquisador ou “Cultura guarani Ñandewa – Tese”. A dissertação de 1995 não foi publicada: “Mimby, a arte guarani de fazer e tocar flauta de bambu”.

“Certa vez, Kwarayju, falando pelo espírito do canto, disse: ‘O canto está em toda parte. Você pode pensar que o vento é que está produzindo este canto {ventava e as folhas das altas árvores faziam um farfalhar muito belo}, mas não, ele é apenas o sopro e as folhas são apenas o instrumento, o canto {som} é um ser {gente}. (...) Muitas vezes você pode pensar que está ouvindo o canto de um espírito, mas na verdade é o de uma legião. Outras vezes, o canto pode nos levar ao silêncio que é necessário para que possamos ouvir o trovão de Deus {opororo} que ilumina, chameja {overa}’”, Hwarayju Poty, Itatins, 1995, texto na capa do CD “Oporaí - Guata Porã – o canto sagrado guarani”.

O Plano de Integração Nacional de 1970, com uma política de ocupação dos territórios indígenas para projetos de colonização, levou à expulsão, remoção, desagregação social e extermínio de milhares de indíos. A busca dos guaranis por uma Terra Sem Males, sem a aflição da dor, do sofrimento, da morte continua ainda hoje.

NOTA

Sugestões de leitura - disponíveis gratuitamente na internet:

1. “O ritual do Kaá dos Mbyá-guarani da aldeia Araçaí de Piraquara, Paraná”, de Ubirajara Salles Zoccoli e Nelson Pereira Castanheira.

2. “Relação do grupo indígena guarani Mybiá com o meio ambiente: alicerces da agroecologia”, de Raoni Kriegel, Elísio Oliveira de Azevedo e Frederico Fonseca da Silva.

domingo, 24 de julho de 2016

"La cuca del hombre" (1984) e "Cantares" (2016), de Raul Ellwanger - João dos Reis



“Déjame al despertar tener la dicha / de hablar y compartir nuestros anhelos / y en la mañana verde que termina / volver a repetir que te quiero“. “Deixa-me ter a alegria de acordar / para conversar e partilhar as nossas esperanças. / E na manhã que termina verde / de repetir que eu te amo”. (versos da canção “Comienzo y final de una verde mañana”, de Pablo Milanés).

Em 2014, o gaúcho Raul Ellwanger veio do Sul com um presente, acompanhado pelo som da milonga e do vento minuano: o disco “La cuca del hombre” (1984). E trouxe de volta as lembranças da América Latina - com canções e participação de Mercedes Sosa, Léon Gieco, Peteco Carabajal, Osvaldo Fattoruso, entre outros artistas. É a retomada do músico dos tempos de rebelião e exílio – no Chile e Argentina.

Em “La cuca del hombre”, o músico-poeta, que voltava para o Brasil depois de quase dez anos, retoma os laços de amizade com os artistas latino-americanos. Há canções do argentino Léon Gieco, do cubano Pablo Milanés, Raul Porchetto, entre outros músicos.

“Cigana Tirana”, “Guri de América, “Lazo de sangre”, “Brazo de guitarra”, ”Hermanito de batalla” são algumas das 15 canções do disco de 1984, gravado em Buenos Aires. O cantor e compositor teve vários parceiros nas músicas e arranjos: Pery Souza, Jerônimo Jardim, Vicente Barreto, Nana Chaves, Washington Benevidez, Yabor, Mavy Díaz, Domingo Cura, Jorge Aragón, Nicolás Brizuela.

“Eu só peço a Deus / que a dor não me seja indiferente / que a morte não me encontre um dia / solitário sem ter feito o que queria. / Eu só peço a Deus / que a injustiça não me seja indiferente / pois não posso dar a outra face / se já fui maltratado brutalmente” (versos iniciais da canção “Só peço a Deus”, de Léon Gieco).

Raul Moura Ellwanger nasceu em Porto Alegre em 1947. Músico e compositor, foi estudante de Direito na PUC-RS. Participou de festivais de música nos anos 60. Militante do movimento estudantil e da Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares. Entrou para a clandestinidade; foi condenado pela Lei de Segurança Nacional; em 1970, parte para o exílio no Chile e, depois, na Argentina. Voltou para o Brasil em 1979. É uma ativista dos direitos humanos no Comitê Carlos de Ré de Verdade e Justiça do Rio Grande do Sul - e na Rede Brasil Memória, Verdade e Justiça. “Teimoso e vivo” (1979) é seu primeiro disco. Alguns outros: “Raul Ellwanger”(1980); “Gaudério” (1984); “Portuñol” (1985), “Boa maré” (2004). Tem mais de 200 canções, gravadas por intérpretes como Beth Carvalho, Mercedes Sosa, Renato Borghetti, Léon Gieco.

Há outras canções de outros discos de Raul que recordam os anos de resistência à ditadura militar. É o músico-militante que recorda os companheiros presos, torturados, mortos e “desaparecidos”: “Pequeno exilado”, de 1980, um dueto com Elis Regina; e “Canção do desaparecido”: “Só queria tocar tua mão / ver teu sorriso enfim / sentir passos na escuridão / os teus braços voltando para mim”.

Em 2016, Raul comemora 50 anos de carreira, com o lançamento de um disco,“Cantares”; e também um songbook, “Nas telas do violão – crônicas, letras e partituras” (Porto Alegre, 2016, 256 pp) – os dois são produções independentes do autor-compositor. No livro há partituras e letras de 71 músicas, acompanhadas de histórias das canções, discografia e memórias do compositor.

Em “Cantares”, o 13º disco de Raul, há 14 canções inéditas ou em parcerias – e foi gravado em Barcelona, Havana, Montevidéu e Porto Alegre; seis canções são em espanhol e uma em catalão. Os convidados nas parcerias, vozes e instrumentos: os uruguaios Eduardo Darnauchans e Washington Benevidez, a argentina Cecília Pahl, o catalão Toti Soler, e os brasileiros Fausto Prado, Everson Vargas, Luiz Jakka, Paulinho Loew, Pery Souza, Leandro Nunes, Carlo Trein, Daniel Wolff, Joca Przycinski.

“Gosto de falar que ‘Cantares’ é um disco de quem ama canções, de quem gosta de violão, gosta de estar junto e tocar, gosta de ‘mostrar’ a música recém feita: é um disco de violeiros! Com a simples juntada de parceiros, de letra e música, de levadas de ritmos, com a roda de viola rodando, vai-se compondo um buquê de poesia e emoção, na base do prazer, de aprender novas manhas, de desafiar os mistérios da criação” (artigo de Raul Ellwanger para o portal “Sul 21”, 2 de maio de 2016).

A aliança entre a música e a poesia é uma das mais emocionantes experiências estéticas. O cantor-compositor, em parceria com muitos outros artistas – letristas, arranjadores, instrumentistas, iluminadores – nos oferece a contemplação da beleza: no rádio ou em praça pública, nos bares ou nas salas de espetáculos. E nos salvam dos infortúnios do cotidiano com a promessa de uma vida mais bela.

NOTA

1. O portal Sul21 publica as crônicas de Raul.
2. As músicas e as letras de 71 músicas estão no songbook e também no Youtube (digitar: “Raul Ellwanger Cantares”).
2. Os pedidos do CD “Cantares” e o livro “Nas velas do violão” podem ser pedidos pelo e-mail:
palavraria@palavraria.com.br

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Anotações/reflexões sobre as conferências de Franco Basaglia no Brasil - João dos Reis



Para Gabriel Roberto Figueiredo

“Quando rejeitamos a lógica do manicômio como lógica repressiva e destrutiva do doente, estamos mudando a vida básica do doente; damos a ele uma situação de vida normal, isto é, comer, dormir, beber, e de maneira correta, não uma vida de prisão, campo de concentração ou de trabalho forçado. Damos e criamos um homem que possa se relacionar com outros homens. (...) O médico é aquele que dá medicamentos, mas sobretudo é uma pessoa que deve ter uma relação alternativa com o doente, dando-lhe um sentido na vida. É fundamental o sentido político da nossa ação, além da divisão do trabalho entre técnica e política” (p. 64).

Franco Basaglia (1924-1980) esteve no final dos anos 70, realizou uma série de conferências – que foram publicadas em “Franco Basaglia – a Psiquiatria alternativa – contra o pessimismo da razão, o otimismo da prática – Conferências no Brasil” (Editora Brasil Debates, São Paulo, 1980, 158 pp). O convite para vir ao Brasil partiu de um grupo de médicos que promovia o debate sobre as experiências de uma nova psiquiatria realizadas pelo psiquiatra na Itália.

Um dos anfitriões na visita ao Brasil foi o psiquiatra Gabriel Roberto Figueiredo. Liderança do movimento estudantil em Osasco, e preso político em 1964, foi um dos fundadores do grupo Instituto de Psiquiatria Social em Diadema nos anos 70. Esteve em 1978 na Itália para conhecer a experiência de Basaglia. Mais tarde, em 1982, foi secretário de Saúde da cidade – e criou uma política de inserção social e de recuperação, evitando as internações por longos períodos. Vive em Campinas e trabalha na PUC da cidade.

“... Tanto a medicina como o médico propõem, dentro do contexto da doença, a mesma lógica de proposta de violência ou de opressão que já existe na vida cotidiana. Que diferença existe entre os direitos dentro de um hospital psiquiátrico ou dentro de uma fábrica? Nenhuma. Todos dois têm uma cadeia de montagem. Nós não queremos a cadeia de montagem. (...) A medicina e a psiquiatria são fontes de opressão e são um meio utilizado pelo poder civil na violência contra os homens” (p. 53).

Eu conhecia o movimento da anti-psiquiatria pelo livro de Ronald D.Laing, “A política da experiência e a ave-do-paraíso” (Editora Vozes, Rio de Janeiro, 1974). Selecionei um trecho do livro para debate em sala de aula na disciplina Cultura Contemporânea no curso colegial em Caraguatatuba em 1975. Somente em 1980 fui conhecer as ideias revolucionárias de Basaglia.

“Quando o psiquiatra entra no manicômio encontra uma sociedade bem definida: de um lado, os loucos pobres; de outro, os ricos, a classe dominante com os meios para tratar os pobres doentes loucos. Sob esse prisma, como podemos pensar que a psiquiatria pode ser libertadora? O psiquiatra estará sempre numa posição privilegiada de dominante frente ao seu doente. (...) A psiquiatria é uma técnica altamente repressiva que o Estado sempre usou para oprimir os doentes pobres, isto é, a classe operária que não produz” (p. 14).

Eu conheci durante muitos anos a realidade dos hospitais psiquiátricos em São Paulo – visitando um parente. Sempre me horrorizou a receita para a cura do doente mental: por eletrochoques, insulina, neurocirurgia. A imagem mais degradante foi a visita à ala dos despossuídos de qualquer dignidade em um hospital de Bauru: permaneciam nus em um amplo salão. Não esqueci a ‘explicação” que me foi dada: eles recusavam qualquer peça do vestuário.

“A cura que os médicos e psiquiatras propõem para o doente mental não pode ser outra coisa senão uma proposta alienante e com a finalidade única de remeter o doente ao círculo produtivo, isto é, tomar o doente como mercadoria e traduzi-lo mais uma vez como mercadoria. Parece evidente, penso eu, que esse tratamento que vem sendo efetuado não deixa à pessoa a possibilidade de se expressar subjetivamente. A relação entre o médico e o doente é uma relação de domínio e poder, e é difícil sair dessa contradição” (p. 94).

Há um desconhecimento de todos sobre a esquizofrenia; preferem ignorar a loucura e isolar o louco. Eu preocupava-me, não apenas com a tratamento com psicofármacos: não havia uma terapia que mantivesse a sociabilidade e a subjetividade do paciente?

“Certamente uma das terapias mais importantes para combater a loucura é a liberdade. Quando um homem é livre tem a posse de si mesmo, tem a posse da própria vida, e, então, é mais fácil combater a loucura. Quando eu falo em liberdade, falo de liberdade para a pessoa trabalhar, ganhar e viver, e isto já é uma luta contra a loucura. Quando há a possibilidade de se relacionar com os outros, livremente, isso torna-se uma luta contra a loucura” (p. 72).

Foi uma descoberta para mim: a proposta de uma medicina que combatia a repressão à classe trabalhadora – nas fábricas, nos hospitais, na vida cotidiana. Nas idas ao hospital nos finais de semana via clima de pobreza, opressão e desespero daqueles que não tinham familares ou amigos para visitá-los.

“Os sindicatos e os partidos de esquerda representam a organização do povo oprimido. Os doentes internados em manicômios ou em hospitais públicos pertenciam a uma determinada classe, isto é, ao proletariado. Inclinamo-nos no sentido de levar adiante a transformação da medicina como transformação de luta do proletariado” (p. 78).

Franco Basaglia revolucionou a psiquiatria no século XX. Em 1961, no Hospital Psiquiátrico de Gorizia, e depois em 1977, no Hospital Psiquiátrico de Trieste, questionou a internação dos doentes, propondo o fechamento da instituição manicomial, o que aconteceu em 1978 na Itália com a Lei 180. Fez parte do Movimento da Psiquiatria Democrática: contra o modelo de exclusão, marginalização, opressão e repressão, uma rede de tratamento ambulatorial e de serviços: cooperativas de trabalho, residências terapêuticas, ateliês de arte e cultura. Marxista, critica a Psicanálise: “elemento de sustentação da burguesia, não um aparato repressivo” (p. 98); e a prática da Psiquiatria nos países do bloco soviético – nos gulags, campos de trabalho para prisioneiros políticos: “eu acho que, se somos militantes, devemos adentrar a lógica dessa falsa dialética” (p. 24). O livro “A instituição negada” reflete sobre a experiência no hospital de Gorizia.

Como interromper o ciclo perverso de internações? Com o atendimento ambulatorial e o apoio de um grupo multidisciplinar: médico, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional – e a participação em reuniões com o grupo de pacientes, familiares e a equipe de trabalho.

O texto estava pronto quando soube ontem, 28 de junho, da morte de Gabriel Roberto Figueiredo – que eu conheci em 1961. Mantive minha dedicatória e registro minha admiração pela sua história de vida: militância política marcada pela preocupação com os marginalizados pela loucura. Sinto por ele não conhecer minha pequena homenagem com essa resenha-crônica - e porque não teve tempo para escrever suas memórias, como era seu projeto.

NOTA

Três sugestões, que surgiram das visitas e do debate sobre as idéias do psiquiatra italiano no Brasil:

1. “Em nome da razão” (1980), filme-documentário de Helvécio Ratton;
2. “Nos porões da loucura”, Editora Codecri, Rio de Janeiro,1982 – reunião de uma série de
reportagens de Hiran Firmino para o jornal “O Estado de Minas”;
3. “Loucos pela vida – a reforma psiquiátrica no Brasil”, Paulo Amarante, Editora Fiocruz,
Rio de Janeiro, 2005.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Um livro: “Diário de um professor – um ano em Pietralata”, de Albino Bernardini – e recordações de um professor de Filosofia em Caraguatatuba - João dos Reis



Para a professora Antonia Carlota Gomes, com a minha gratidão

Pietralata, na periferia de Roma, é habitada por emigrados do Sul da Itália –“ pastores, camponeses, trabalhadores, mineiros, artífices, obrigados a transformar-se em serventes”. No bairro proletário o sardo Albino Bernardini (1917-2015) foi professor da 3ª série do ensino fundamental no inicio dos anos 60 – e narra sua experiência educacional em “Diário de um professor – um ano em Pietralata”, publicado em 1968 pela Nuova Itália Editrice, de Florença, e traduzido por Antonio Pinto Ribeiro para a Editorial Notícias, de Lisboa, em 1977.

O professor fez parte do “Movimento de Cooperação Educativa”, inspirado nas ideias do educador Célestin Freinet (1896-1966). Foi somente em 1979 que li o livro, mas antes realizei várias das propostas pedagógicas nos anos em que trabalhei na Escola Estadual “Thomaz Ribeiro de Lima”, em Caraguatatuba, como professor de Filosofia e, com a proibição da disciplina no currículo escolar, de outras disciplinas. Há uma diferença significativa: ele teve uma classe de 12 alunos em um ano letivo. Eu tive centenas de alunos em diferentes turmas do curso ginasial e colegial durante oito anos; fui também Orientador de Educação Moral e Cívica, um cargo de confiança da direção da escola - e desenvolvi um trabalho que eu chamo de “assessoria para assuntos comunitários”.

A primeira descoberta foi a importância das reuniões com os pais dos alunos. Antes do inicio do ano letivo, o professor reuniu os pais; eu realizei inúmeras reuniões com os alunos-representantes de classe, com a liderança do grêmio (“centro cívico escolar”), com os pais. Contra o “desprezo e discriminação, o conformismo desencorajador e mesquinho egoísmo” dos colegas do corpo docente, Bernardini estabeleceu relações de solidariedade com os pais e com os estudantes: “As crianças estavam diante de mim com os seus rostos assustados, as roupas esfarrapadas, os cabelos desgrenhados, na expectativa da minha palavra...” (p. 81).

Quais as estratégias para colocar em prática suas ideias para uma nova educação? Ouvir sempre – essa era a proposta principal do seu projeto. “Prefiro ouvir para depois intervir, dosando e orientando a discussão” (p. 156-7). “Levávamos para a aula todos os fatos da vida para criticá-los, condená-los ou comentá-los”. As contínuas trocas com o exterior, com a família, os amigos, a rua ou o lugar que frequentavam era o ponto de partida para a reflexão sobre os problemas de cada um, da vida em família, do bairro (p. 165).

A escola não deveria ficar restrita às quatro paredes da sala de aula. O professor visitava os pais dos seus alunos, percorria as ruas de Pietralata – e com os alunos, recolhia material para trabalho escolar: plantas, insetos, argila. Organizou uma excursão ao rio Aniene; e como não conseguiu autorização para uma visita a uma fábrica, trouxe um operário para explicar aos alunos o processo de fabricação do papel.

Eu realizei algumas saídas da escola com os alunos em Caraguatatuba: base de pesquisa do Instituto Ocenográfico da USP em Ubatuba, acampamento na Praia Dura, exposição no CTA (Centro Tecnológico Aeroespacial) em São José dos Campos. Pedi a eles muitas vezes, como uma atividade escolar, que realizassem entrevistas com autoridades da cidade: prefeito, promotor, presidente de Câmara Municipal. Nas comemorações cívicas, sempre convidava um representante da comunidade para fazer uma pequena palestra para os alunos, depois do hasteamento da bandeira e canto do Hino Nacional.

Como enfrentar o problema da indisciplina na sala de aula e na escola? O professor italiano organizou a classe em grupos, distribuindo tarefas e responsabilidades. Eu também propus sempre o trabalho em grupo; realizava no inicio do ano letivo eleição dos representantes das 24 turmas, divididas nos períodos manhã, tarde e noite – e atribuía pequenas atividades: cuidar da biblioteca, o jornal mural, o jornal dos estudantes. E participei e incentivei a participação dos pais nas reuniões bimestrais e na Associação de Pais e Mestres da escola.

Suspender um aluno, encaminhá-lo à direção da escola sempre foi uma maneira radical de resolver o conflito em sala de aula. Para o professor Albino Bernardini, a escola dever ser “um centro de vida em que se aprende não apenas a ‘técnica’ da leitura e da escrita, mas também o respeito pelos outros e pelas coisas, o sentido da tolerância, e sobretudo pretende desenvolver a concepção de vida como luta para progredir e melhorar a si próprio e aos outros” (p. 147).

Fui estudar as diferentes teorias educacionais quando fui professor de História e Filosofia da Educação no curso do magistério em Osasco no final dos anos 80. O que orientou a minha ação pedagógica na escola caiçara do Litoral Norte paulista? O sentimento da amizade e do amor devia assinalar o inicio do ano letivo, diz o professor sardo. “Não só o amor ao estudo e às coisas, mas principalmente o amor dos companheiros, da sociedade, da escola e do professor, através de um modo de viver feito não de discursos e de palavras, mas de ação responsável...” (p. 171).

O professor italiano pedia para os seus alunos de Pietralata escreverem textos e poemas. As poesias, as redações escritas pelos alunos, os relatórios dos trabalhos escolares “testemunhavam uma inequívoca vontade de melhorar, de progredir, de superar aquela condição a que eram obrigados por uma sociedade injusta que nada lhes tinha dada a não ser amarguras, humilhações, desalento” (p.212). Eu realizei durante alguns anos um concurso de poesia – e divulgava poemas no jornal mural da escola. Havia poucas classes do colegial e, portanto, poucas aulas de Filosofia; lecionei diversas disciplinas, mas principalmente Educação Moral e Cívica – e sempre trabalhei com leitura e debate de textos de jornal em sala de aula.

O professor Bernardini foi transferido da escola de Pietralata no ano seguinte. Quando voltou dois anos depois, alguns alunos tinham ido para a escola de ensino médio, outros continuavam o processo de repetição e de evasão escolar por participarem do mundo do trabalho. Encontrou alguns deles, e ele diz que a amizade e o companheirismo permaneceram. Eu parti de Caraguatatuba em 1980 e nunca mais voltei à cidade - e as lembranças dos meus alunos caiçaras se perdem aos poucos no tempo.

NOTA

1. O filme “Diário di un maestro” (1972, 65 minutos, em italiano), de Vittorio De Setta, é baseado no livro de Bernardini. Está no Youtube; não há legendas em português.

2. O grêmio livre na escola se tornou “centro cívico escolar” no período da ditadura militar. Uma das atribuições do Orientador de Educação Moral e Cívica era “orientar” a participação política dos estudantes. Eu fui esse “orientador” em Caraguatatuba durante oito anos.

3. Não encontro as palavras para dizer como sou grato a Antonia Carlota Gomes, diretora-coordenadora da Escola Estadual “Thomaz Ribeiro de Lima”, em Caraguatatuba, pela amizade solidária, pelo apoio e orientação ao meu trabalho em sala de aula e com a comunidade escolar nos anos 1973-1980. A ela dedico essa resenha-crônica, que não a lerá – faleceu em 1987.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

À procura do poeta espanhol Antonio Machado (1895-1939) - João dos Reis




Para Sanjo Rodriguez, de Barcelona, Espanha

“Ya hay um español que quiere
vivir y a vivir empieza,
entre una España que muere
y outra España que bosteza.
Españolito que vienes
al mundo, te guarde Dios.
Una de las dos Españas
ha de helarte el corazón”.
(Provérbios e Cantares, p. 170-1)

Laura Amélia Alves Vivona, professora de Francês e Espanhol no curso Clássico em 1966 no Ceneart (Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares) em Osasco, leu um poema de Antonio Machado. Durante muito tempo, eu e meus amigos de sala de aula, comentamos a interpretação apaixonada do texto poético.

“Erase de un marinero
que hizo un jardin al mar,
y se metió a jardinero.
Estaba el jardin en flor,
y el jardinero se fue
por eses mares de Dios”.
(Parábolas, p. 172)

Estava em 1978 em Buenos Aires - e Eduardo, o companheiro argentino do Serpaj (Servicio Paz y Justicia) e meu guia nas andanças pela cidade, me acompanhou a uma livraria e a uma loja de discos. Comprei uma antologia de Antonio Machado, “Poesias” (Editorial Losada S.A., Buenos Aires, 1974, 272 pp). Conhecia o poeta por Joan Manuel Serrat – e encontrei um disco de 1970 com 12 poemas musicados pelo compositor e cantor catalão – “dedicado a Antonio Machado, poeta”.

“Nunca persegui la gloria
ni dejar en la memória
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles
como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse”.
(Proverbios y cantares, pp. 159/160)

Antonio Machado (Antonio Cipriano José Maria y Francisco de Santa Ana Machado Ruiz) nasceu em Sevilha em 1895. Ainda jovem, a família foi para Madri. Poeta e dramaturgo, fez parte da chamada Geração 98. Foi um modernista – com uma poesia intimista. Foi professor de francês e viveu em várias cidades da Espanha; em Segovia, colaborou com a Universidade Popular. Na guerra civil espanhola esteve ao lado dos republicanos; no final do conflito, foi para o exílio na França, e morreu em 1939. Seus livros nunca foram publicados no Brasil. Obra poética: “Soledades. Galerias. Otros poemas”, “Campos de Castilla”, “Nuevas canciones”.

“Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar”.
“Todo pasa y tudo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar”.
(Proverbios y cantares, pp. 165 e 168)

Joan Manuel Serrat (Barcelona, 1943): compositor, poeta e músico espanhol. Foi um dos fundadores do movimento Nova Canção. O disco dedicado a Antonio Machado, de 1970, e a canção “Caminante”, foi o início de uma carreira musical de sucesso. Teve suas músicas proibidas pela censura. Foi para o exílio no período final da ditadura franquista. Na volta a Espanha, teve o reconhecimento de sua arte. Alguns dos discos: “Em trânsito” (1981), “El Sur también existe” (1985), “Bienaventurados” (1987), “Sombras de la China” (1998).

“A mi trabajo acudo, con mi dinero pago
el traje que me cubre y la mansión que habito,
el pan que me alimenta y el lecho en donde yago.
Y cuando llegue el dia del último viaje,
y esté al partir la nave que nunca há de tornar,
me encontraréis a bordo, ligero de equipaje,
casi desnudo, como los hijos de la mar”.
(últimos versos de “Retrato”, p.87)

Décadas depois, não tenho mais o LP (long play); gravei as músicas em um CD. O livro está com as páginas amareladas pelo tempo, se decompondo – como a memória do passado.

NOTA

1. Todos os poemas de Antonio Machado transcritos acima foram musicados por Joan Manuel Serrat, com exceção de “Retrato” (por A.Cortez) – e estão no disco dedicado ao poeta.
2. Indico alguns livros:
1. “Antologia poética”, Antonio Machado, introd. e seleção de María Paredes, Club Internacional del Libro, Madri, 1994;
2. “Poesias completas”, Antonio Machado, prólogo de Manuel Alvar, Selecciones Astral, Madri, 1988, 13ª edição;
3. “Antologia da poesia espanhola contemporânea”, seleção e introd. de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, 1985.
4. No site http://www.alejandriadigital.com/ há uma antologia e a obra completa de Antonio Machado em pdf – download gratuito:
Poesía Completa de Antonio Machado en pdf (Obra de dominio público – Descarga gratuita) – Actualizado al 26/12/2015 | Total Visits 1055 | ALEJANDRIA DIGITAL (Blog Enciclopédico - Biblioteca Universal - Casa Editorial)

sábado, 11 de junho de 2016

Prefácio ao livro "Recinfância e outros poemas", de Risomar Fasanaro - João dos Reis







Um livro de poesia é sempre um novo olhar sobre o nossa existência e os mistérios do universo.

O tão esperado livro de Risomar Fasanaro com 34 poemas foi uma feliz redescoberta da paixão pela palavra – que é sempre um instrumento para revelar os segredos do nosso destino.

Há poemas curtos, mas carregados do sentimento de desolação:

Coração despedaçado
cacos numerados
difícil será
juntar os cacos”.

E a procura inglória de dias menos soturnos:

felicidade:
gaivota de crepom
contra a tempestade”.

Estamos condenados à tristeza? Em um dos mais belos, a poetisa escreve:

não queria que viesses
coberto de neblina
logo agora que estou
livre das tempestades
não queria que fosses noite
logo que agora em mim
tantas luzes se refletem
não queria tuas mãos atadas
logo agora que as minhas
livres se estendem pra ti.

A arte de construir palavras e organizá-las em versos é para os que encontram a magia da vida. Desvendar a imaginação exige paciência, rigor – e a sabedoria dos poetas, os magos da linguagem. É com a arma do poema que podemos lutar contra as misérias do cotidiano. Quem de nós conseguirá vencer as batalhas diárias? Somente um anjo será capaz de levar a dor dos desvalidos, a solidão dos desolados, a dor dos desesperados para aonde a dor não existe? (Poema “O anjo”).

Há uma retomada do engajamento da escritora-poeta em alguns poemas que recordam personagens da história da resistência contra a ditadura militar no Brasil: José Domingues da Silva (“Amigo”), Theodomiro Romeiro dos Santos (“in-dependência”), Helenira Resende de Souza Nazareth (“Ave de arribação”). As recordações da sua infância na sua cidade natal, Recife, e a chegada a Osasco, estão presentes em outros (“recinfância”, “primeiro natal em sp”, e “Chegada a São Paulo”).

Sãos os poetas que nos interrogam : estamos destinados à solidão? A resposta: eles não nos devolvem nossos corações destroçados. Mas dizem, não estamos abandonados: eles nos dão a poesia para construir o futuro com arte e beleza – e a coragem para realizar os sonhos e redescobrir a felicidade perdida.

sábado, 28 de maio de 2016

A Culinária do imigrante italiano no Brasil: a polenta - João dos Reis



“No olta:
luni, polenta;
marti, polenta;
mercol, polenta;
dòbia, polenta;
vendre, polenta;
sabo, polenta;
E domènega?
Domènega,
pan co’n polastre!
rostì sul fogo,
parche l’é festa!”
início da poesia “La polenta”, citada por Darcy Loss Luzzatto (ver tradução e nota 2 no final)

Quando criança, pedia para minha mãe cozinhar algum prato preferido – gnocchi, por exemplo - e ela dizia “que o problema são os ingredientes” – quer dizer, a falta de (alguns) deles. Em geral, apesar da influência portuguesa, a polenta era frequente na mesa em casa. Ontem, em uma conversa, ela insistiu “que é fácil de fazer” – e eu discordei dela. Talvez ela quis dizer que precisa-se praticamente de farinha de milho, água e tempero para prepará-la.

“A polenta foi, por mais de um século, não o prato típico, mas praticamente o prato único do Vêneto empobrecido. (...) A pobreza extrema, com o povo obrigado a comer quase que exclusivamente polenta, só polenta, terminou por minar a saúde da população”, escreve Darcy Loss Luzzatto (p. 131, ”Culinária da imigração italiana – a comida e suas histórias”, Editora Dora Luzzato, Porto Alegre, 2005, 2ª edição, 160 pp.).

A historiadora Zuleika M.F.Alvim confirma: ”Toda a população (do Vêneto), desde os mais abastados aos mais pobres, alimentava-se basicamente de polenta. (...) O macarrão, para nós, brasileiros, tão ligado à imagem do italiano, era um luxo poucas vezes permitido”. E acrescenta: “As duras condições de vida e a escassa alimentação (...) trazia consequências graves para a saúde” (p. 30,31 e 32, “Brava gente! os italianos em São Paulo”, Editora Brasiliense, S.Paulo, 1986, 190 pp.).

A polenta foi também o prato típico do imigrante italiano no Brasil. João Baptista Borges Pereira diz que “para o brasileiro, o italiano é o ‘polenteiro’”, generalizando uma expressão que era usada na colônia de Pedrinhas Paulista pelos grupos vindos do Sul da Itália para designar os setentrionais, na maioria do Vêneto (p. 109, “Os italianos no mundo rural paulista”, Editora Pioneira, S.Paulo, 1974, 192 pp.).

Mais frequente no jantar em minha casa na infância – e a minha preferida - era a minestra, a sopa de feijão com talharim, também “fácil de fazer”, na opinião de minha mãe. Mas que, ao contrário da polenta, é mais nutritivo, principalmente se acompanhado de pão e vinho.

Nasci e vivi os primeiros anos na fazenda Tabarana, em Duartina, SP, em uma casa vizinha da avó Pasqualina Negrini. Minha mãe lembra que ela reclamava de ter de preparar os encontros gastronômicos do meu avô com os amigos. A imagem: ela ao lado do fogão a lenha, cozinhando em panelas de ferro, polenta e frango ao molho – que foi o cardápio dominical na minha casa durante muitos anos.

Em Curitiba, no restaurante do Parque Ecológico Costa, no bairro Umbará, o menu principal da Noite Italiana nas primeiras sextas feiras do mês é polenta com frango ao molho. Conversando com um jovem do bairro, ele reclamou que o risoto de frango estava sempre presente no almoço de domingo – em que a família se reunia na casa da avó. E dessa vez, fui eu quem disse a ele: é um prato fácil de fazer, não precisa de muitos ingredientes, e como a polenta, alimenta todos os familiares. Nos anos em que vivi na cidade, o pierog – típico da culinária polonesa – foi, às vezes, o cardápio de domingo em minha casa.

Por que não acho fácil fazer a polenta ou o gnocchi e escolhi o pierog? Porque sou cozinheiro - e acho cansativo ficar quase uma hora mexendo a panela no fogo – ou preparando o gnocchi. Fiquei sabendo pelo livro de Luzzatto que hoje há panelas – importadas – com movimentação elétrica e que se adaptam ao fogão a gás. Ele também “não se conformava que alguém tivesse de ficar cuidando e mexendo a polenta por uma hora”(p. 135).

Quando leio no guia da “Folha de São Paulo” a apresentação sofisticada da comida dos restaurantes paulistanos, fico admirado e sempre me pergunto: a polenta, o frango com molho, a minestra, o gnocchi, o risoto não fazem parte – ou nunca fizeram - do cardápio dos frequentadores, que pertencem a uma classe social que não viveu – ou então desconhece – a culinária dos trabalhadores-imigrantes.

NOTA

1. Agradecimentos aos amigos que cozinharam um almoço ou jantar especial para mim: Ewerton (Curitiba), Efraim-Quica (Montevidéu), Pedro Paulo (Ubatuba), tia Lourdes (São Paulo), tia Anna Rosa (Duartina), Maria Aparecida-Ar - e Edna-Cupertino, Edna/Erasmo e Risomar (Osasco).

2. Darcy Loss Luzzatto não lembra o autor da poesia “La polenta”, citada no início; a tradução do dialeto vêneto é do autor do livro (p. 132):

“Antigamente:
segunda, polenta;
terça, polenta;
quarta, polenta;
quinta, polenta;
sexta, polenta;
sábado, polenta.
E domingo?
Domingo, pão com franquinho
assado no fogo,
porque é festa!”

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Duas canções com Vânia Bastos e uma recordação: Raquel de Azevedo ou Canto de amor e desesperança à cidade de São Paulo - João dos Reis




Estive no final dos anos 90 em um show da cantora Vânia Bastos no Centro Cultural São Paulo; depois, revi a artista em um outro espetáculo no Sesc Pinheiros em 2007. Foram dois momentos marcados pela magia da palavra e da música.

Duas canções com Vânia Bastos:

1. “Cidade oculta”, de Arrigo Barnabé, Eduardo Gudin e Roberto Riberti:

Na cidade só chovia
Noite imensa, só havia
Luminosos, agonia
E a vida escorria
Pela escuridão
Nossas ruas eram frias
Como os homens desses dias
Engrenagens tão sombrias
Esquecidas pelos deuses
A pulsar em vão
Misteriosamente um andróide
Gritou docemente
Me mostrou a vida
Me encheu de cores
Desenhando um holograma em meu coração
Com seus olhos foi pintando um dia.
Reinventando a alegria
Brancas nuvens de verão
E a poesia de repente
Volta a ter razão.

2. “Paulista”, de Eduardo Gudin e J.C.Costa Netto:

Na Paulista os faróis já vão abrir
E um milhão de estrelas prontas pra invadir
Os Jardins
Onde a gente aqueceu numa paixão
Manhãs frias de abril
Se a Avenida exilou seus casarões
Quem reconstruiria nossas ilusões
Me lembrei
De contar pra você nessa canção
Que o amor conseguiu
Você sabe quantas noites eu te procurei
Nessas ruas onde andei
Conta onde passeia hoje esse seu olhar
Quantas fronteiras ele já cruzou
No mundo inteiro de uma só cidade
Se os seus sonhos emigraram sem deixar
Nem pedra sobre pedra pra poder contar.
Dou razão
É difícil hospedar no coração
Sentimentos assim.


Vânia Bastos nasceu em 1956 em Ourinhos, SP; em 1975 mudou-se para São Paulo. Começou a carreira participando nos anos 80 do movimento Vanguarda Paulista – que apresentou uma nova estética musical. Foi solista em “Clara crocodilo” e “Tubarões voadores”, de Arrigo Barnabé. Cantou na banda de Itamar Assumpção, “Isca de polícia”. As duas canções, “Cidade oculta” e “Paulista” estão no CD de 2007, “Tocar na banda”, uma comemoração da carreira da artista.

As canções reviveram as lembranças das minhas idas e vindas para a cidade de São Paulo: vindo do interior, depois para o Litoral Norte, voltando para Osasco, partindo para Curitiba, retornando à região metropolitana. E a tentativa sempre angustiada de compreender a metrópole. Tive nos quinze últimos anos do século passado a companhia de Raquel: aos cinemas da região da Avenida Paulista, ao Bar Longchamps na rua Augusta, às passeatas das greves dos professores da rede pública estadual, aos atos de protestos, à comemoração dos 70 anos da Semana de Arte Moderna de 22 no Teatro Municipal. Para onde foram nossos sonhos de uma sociedade socialista, de um novo mundo com igualdade e justiça?

Raquel de Azevedo nasceu na capital paulista; cursou Filosofia e História na Universidade de São Paulo. Foi professora de Filosofia em escola pública estadual. O livro “A resistência anarquista – uma questão de identidade – 1927-1937” (Arquivo do Estado/Imprensa Oficial do Estado, São Paulo, 2001, 466 pp) é a tese de Mestrado na USP; não terminou o doutorado na Unicamp. Suicidou-se no ano 2000.

No primeiro show, nos anos 90, estava acompanhado de Raquel; no segundo, estava sozinho, sob o peso de imagens brilhantes, de recordações tristes - e de saudades.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

LIVRO: uma releitura de “Pai patrão – a educação de um pastor de ovelhas”, de Gavino Ledda - João dos Reis




Para Janete, Celso e Juan, de Belo Campo, Bahia

Daghi inasprid’ su dolore
fiores chisco in totue
ammenténdemi chi tue
lis dedicas tantu amore
gioia! In dogni fuire
mi pared’ de di mirare
appo dispóstu a passare
ristas sas dies pro de!
canto popular sardo.

Gavino tinha seis anos e foi retirado da escola de Síligo pelo pai depois de algumas semanas. Foi trabalhar como pastor de ovelhas no campo. Até aos vinte anos, foi também lavrador. Esta seria uma história comum da criança da Sardenha se não fosse a obstinada vontade do aldeão de se alfabetizar, de estudar.

Foi a lembrança que permaneceu da leitura da autobiografia há quase quarenta anos: o livro me espreitava na estante, com suas imagens de desespero do jovem que sonhava em participar do mundo da cultura. “Pai patrão – a educação de um pastor de ovelhas”, de Gavino Ledda, tradução de Marchela Mortara, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1979, 184 pp., foi publicado na Itália em 1975, e depois, foi filmado pelos diretores Paolo e Vittorio Taviani em 1977.

Em Braddesvustana (Vallefrondosa), a propriedade familiar, teve a educação pastoril: reconhecer o terreno, a posição dos carvalhos e espinheiros, dos rochedos e arbustos, os acidentes do solo. E enfrentar o medo: “Estava aterrorizado com a ideia de ficar sozinho naquele mato cheio de coisas e de animais... E a solidão era um silêncio interminável: escutá-lo atordoava minha existência” (p. 16).

Tinha a companhia das ovelhas, das cobras, gaviões e raposas. Às vezes, tio Juanne vinha recolher lenha – e as histórias dos antepassados que ele contava incendiava a imaginação do pequeno pastor. Como vencer o pavor da solidão? O próprio medo do silêncio inspirava os gritos e assobios – e então vencer o terror provocado por aquele silêncio em sua interminável monotonia (p. 36). Ou falando com as pedras e as árvores.

O discurso da natureza eram os únicos sons que ouvia: o latido de um cão, os golpes de um machado a cortar lenha, o zurro de um jumento ou os balidos das ovelhas, o vento, o trovão, o canto dos pássaros. A aceitação desse novo mundo foi a grande descoberta: “A linguagem íntima entre mim e a natureza que, no fundo, era a linguagem do silêncio, tornara-se natural e familiar, como se a realidade fosse o silêncio e as coisas fossem suas palavras” (p. 40-1).

A relação com o pai foi marcada por uma severidade extrema – com tapas, surras, espancamentos – e a ausência de demonstração de afeto. Era a educação patriarcal: os filhos deveriam tornar-se homens produtivos antes do tempo. As últimas páginas do livro são dramáticas: é o acerto de contas do jovem intelectual com o seu pai.

A narrativa mais trágica foi a descrição da partida dos que emigravam, frequente a partir de 1955. A população da aldeia se reunia na praça com a dor dos funerais. “Choros, gritos e lamentações vindos de idades e de sentimentos diversos elevavam-se de toda parte sobre sua miséria: sobre a inocência desses jovens condenados a procurar refúgio em terras desconhecidas, ignorando o que seria seu futuro, sem saber como deveriam renascer em países nunca vistos, que mal podiam imaginar” (p. 120).

Gavino confessa: emigrar era uma obsessão, não se conformava com a ideia de ser pastor e camponês a vida toda. A tentativa de partir para a Holanda foi frustrada. A escolha foi entrar para o Exército – onde poderia finalmente estudar. A despedida do campo onde vivera a infância e a adolescência foi “num silêncio cheio de emoção”: “fotografar com os olhos as árvores, as pedras, os despenhadeiros”, “procurando gravá-los em meu espírito”, “guardá-los em minha memória como se eu não devesse revê-los nunca mais” (pp.139-40).

O aprendizado da língua italiana, escrever, ler e falar foram momentos de angústia para o jovem sardo. Para terminar o curso ginasial e colegial, contou com a ajuda desinteressada e inestimável de novos amigos, entre eles, Toti, Rodolfo e Ottavio Gentileschi – a quem acho que o livro (ou o filme) deveria ser dedicado.

Gavino Ledda nasceu em 1938. Em 1958 alista-se como voluntário para o serviço militar, mas desiste da nova carreira em 1962. Licenciou-se em 1969 em Linguística pela Universidade La Sapienza de Roma.

A releitura do livro trouxe para mim antigas recordações. Conversas com minha avó Elisa sobre a emigração, o pastoreio de ovelhas nas montanhas do Norte de Portugal, os invernos rigorosos. E, principalmente, a felicidade dela em ser alfabetizada. Duas lembranças ainda presentes: o cobertor artesanal de lã - que usei da infância até à idade adulta - enviado pelos parentes portugueses de Trás os Montes. E o amigo Felis, tia Isaura e meus dois avôs, José e Marcelino Matheus: eu os observava - calados, introspectivos - e procurava compreender a linguagem do silêncio.

NOTA

1. Tradução de Marchela Mortada da canção em dialeto sardo, cantada pelo pastor Nicolau, vizinho de Gavino em Braddevrustana (p. 58):

Quando a dor se exarceba
procuro flores por toda a parte
lembrando-me que tu
lhe dedicas tanto amor
meu bem! Em cada flor
parece-me encontrar-te:
preparei-me para passar
tristes dias por ti!