sábado, 5 de dezembro de 2015

Sobre artigo de Sylvia Colombo para o jornal “Folha de São Paulo” - João dos Reis



Sobre artigo de Sylvia Colombo para o jornal “Folha de São Paulo” (“Relato de escravo escapa para a internet”) e Entrevista com Paul Lovejoy, da Universidade de Nova York, no Canadá (Caderno Ilustrada, C1 e C5, 30 de novembro de 2015)

“Mahommah Gardo Baquaqua era praticamente um adolescente quando desembarcou na costa do Nordeste brasileiro, em 1845, vindo da África em um navio negreiro. Levado a Olinda, passou os próximos dois anos de sua vida tentando escapar da condição de escravo. Apanhou, tentou matar o mestre e falhou no intento de suicidar-se por afogamento no rio Capiberibe. Por fim, trabalhando para um senhor que exportava café para os EUA, embarcou num navio para Nova York, em 1847. De lá, escapou e passou a colaborar com abolicionistas”.

A história do jovem africano, contada pela jornalista Sylvia Colombo, é uma das mais emocionantes sobre a escravidão nas Américas. O irlandês Samuel Moore colaborou na biografia de Baquaqua, publicada em 1854, em Detroit, e pela primeira vez será publicada no Brasil (em 2016) . Mas o site www.baquaqua.com.br entra no ar hoje na internet, e tem vídeos, entrevistas, imagens e relatos – e foi coordenado por Bruno Véras, da Universidade de Nova York, no Canadá, orientado pelo especialista em escravidão Paul Lovejoy.

“Disse a ele {ao senhor} que nunca mais me chicoteasse e fiquei com tanta raiva que me veio à cabeça a ideia de matá-lo e me suicidar depois, Por fim, resolvi me afogar. Preferia morrer a viver como escravo. Corri para o rio e me joguei na água, mas como umas pessoas que estavam num barco me viram, fui resgatado. A maré estava baixa, senão seus esforços teriam sido infrutíferos”, um dos dramáticos relatos extraídos da “A biografia de Mahommah Gardo Baquaqua”, reproduzidos pela “Folha de São Paulo”.

Baquaqua nasceu no Benin entre 1820 e 1830, de uma família muçulmana influente: estudou árabe na escola, falava várias línguas, um dos tios era comerciante de ouro e prata, outro professor, e o irmão era conselheiro do rei. Como diz Lovejoy, Baquaqua “era uma pessoa real; tinha mãe, pai, irmãos, tios e tias”. Tornar acessível online a sua história “é fazer com que se deixe de considerá-las apenas algo a que chamamos de ‘escravos’. Foram pessoas com coração, dores, amores, devoção a suas famílias, caráter, força e comunidade”, diz o professor.

“Quando todos nós estávamos prontos para embarcar, fomos acorrentados uns aos outros, amarraram cordas em volta de nossos pescoços. (...) Uma espécie de festa foi feita em terra firme aquele dia. Aqueles que remaram os barcos foram fartamente regalados com uísque, e aos escravos deram arroz e outras coisas gostosas em abundância. Não tinha consciência de que aquele seria meu último banquete na África. Não sabia do meu destino. Feliz de mim que não sabia”, em um dos trechos da narrativa autobiográfica de Baquaqua, reproduzidos pelo jornal paulista.

Milhões de africanos foram submetidos à escravidão na América. Essa história não foi documentada pela voz dos próprios escravos. Há poucos relatos escritos do horror das humilhações, castigos físicos, assassinatos nas terras americanas. O atual projeto é pioneiro: tornar acessível a história de resistência dos tempos sombrios da exploração da mão de obra escrava. Baquaqua era um personagem desconhecido por mim até hoje: ele percorreu o continente – esteve no Canadá e no Haiti – na luta abolicionista. No final da vida, embarcou para a Inglaterra, na esperança de voltar à sua terra natal. Mas não é um final feliz: não se tem noticias dele depois de 1857 – e não sabemos se conseguiu voltar à África ou a data da sua morte.



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